sábado, 15 de abril de 2006

uma religião refundada



Não será a recente descoberta do evangelho de Judas suficiente para refundar a religião cristã? Para recomeçar a contagem do zero outra vez? Um Jesus que ri à gargalhada, um Judas descrito como o apóstolo dos apóstolos, uma crucificação ausente e os especialistas a afirmar que a verdade acerca do que realmente se passou nunca será descoberta, parece-me suficiente para repensar os principais dogmas do cristianismo.


(LFB)

quinta-feira, 13 de abril de 2006

A invenção da "nossa vida"

Um das causas da doença da República e dos parlamentos (nacionais e regionais) é precisamente a invenção da vida privada e as suas nuances contemporâneas. Pode ser-se presidente da Republica, presidente de uma região autónoma ou de um parlamento, pode ser-se deputado, secretário, director regional, professor, médico, ou até dirigente sindical, etc., mas não se deixa por isso de ter a "nossa vida" e esta não deixa de ser mais importante e de estar acima da nossa vida pública; embora, nestes exemplos, seja esta o sustento daquela.
Vem isto a propósito da recorrente inferiorização da classe política que se revela em actos nacionais como a falta de quórum de ontem na assembleia nacional (e falta de ética, muitos deputados assinaram mas não estiveram presentes) e em actos regionais como o episódio discutido no plenário do mês de Fevereiro, relacionado com o facto de alguns deputados terem sido acusados por outros de não fazerem nada; até se poderia dizer que a discussão foi acerca do facto de nada haver para se fazer no parlamento regional. Houve um deputado que respondeu – como que a corroborar a ideia aqui esboçada – que se era para não fazer nada ele tinha coisas mais importantes para fazer em sua casa! O problema é que todos temos a nossa vida e esta tornou-se mais interessante (porque nos dá mais prazer) e mais viciante (porque exige muitas compras) do que qualquer assunto público, até mais importante do que a aprovação de leis em assembleia nacional.
Os gregos clássicos – que pensaram profundamente a democracia – tinham parte desse problema resolvido porque entregavam as questões da economia privada às mulheres e aos escravos ('economia' significa etimologicamente as leis da casa) e porque ligavam o ideal democrático à liberdade exigindo que qualquer homem que se quisesse dedicar ao serviço da polis (a vida virtuosa por excelência) fosse livre o suficiente para isso; quer dizer, tivesse liberdade política para participar nas decisões colectivas, mas também que tivesse liberdade privada, que pudesse viver como quisesse. Aí era o exercício da cidadania activa que conferia direitos políticos; se não se fosse capaz de exercer a cidadania (como se julgava ser o caso das mulheres e dos escravos) não se era simplesmente cidadão. Em muitos aspectos somos mais romanos (foi a Roma, e não à Atenas democrática, que os revolucionários republicanos do século XVII foram buscar inspiração política para acabar com os monarquias) do que gregos, e conseguimos alargar a cidadania ao ponto de já não sabermos bem o que ela significa. Tal como os romanos, procuramos estabelecer regras de equilíbrio entre os governantes (a classe dos senadores) e os governados (o populus) mas, de alguma maneira, perdemos a confiança nos políticos. Aqui surge um problema fundamental: o que fazer quando os cidadãos de uma republica democrática deixaram de confiar naqueles que foram escolhidos para serem os dirigentes da nossa vida comum?

(LFB)

terça-feira, 11 de abril de 2006

O valor da vida

O protesto e a marcha de indignação que se realizaram na ilha Terceira no passado fim-de-semana, relacionados com a morte inesperada de uma jovem de 17 anos por alegada negligência médica (a jovem foi por várias vezes ao serviço de urgência do Hospital tendo sido mandada para casa com diagnóstico de gripe) e as exigências serenas e razoáveis (o que é difícil perante uma tragédia desta natureza) que se ouviram por parte dos manifestantes – que nas urgências sejam tratadas como "pessoas e não como animais"; que as autópsias sejam feitas por médicos de fora; que se acabe com o corporativismo nos hospitais; isto é, médicos a proteger médicos, entre outras – são uma demonstração (ainda que pelas razões mais trágicas que se possam imaginar) do que se pode, e do que se deve, fazer para exibir o nosso descontentamento perante o ultraje que é ser mal atendido por um médico do sistema nacional de saúde. Independentemente de haver, ou não, neste caso concreto, negligência médica, o facto é que existem problemas graves no atendimento médico público. Muitas das pessoas presentes na manifestação e que deram a cara, tinham sido também elas vítimas de descuidos médicos. Todos nós temos o poder de protestar e de exigir que cada um cumpra bem a sua função. Este acontecimento mostra que as pessoas, se unidas em torna de um problema que as afecta, só por si – independentemente dos partidos – são capazes de chamar a atenção para o que está mal e de fazer exigências razoáveis para o melhorar. O que se irá seguir a isto, ninguém sabe. Pode até ser que tudo fique na mesma; que quem pode seja atendido nos consultórios, e que quem não pode seja atendido nas urgências. Que as pessoas continuem a formar-se em medicina, não por vocação e dever de ajudar os outros, mas por ser uma profissão economicamente muito gratificante. Os médicos têm muito poder (mas as pessoas também!), o tempo apazigua o sofrimento e o dia-a-dia transmite-nos a ilusão da normalidade. Mas o facto de um movimento civil se erguer contra as injustiças e de falar, e bem, para a comunicação social demonstra que, contra o que muitos nos querem fazer querer, outros caminhos para a justiça, que não apenas os traçados pelos políticos de secretária, são possíveis.

(LFB)

domingo, 2 de abril de 2006

o tubo de Santa Catarina










Santa Catarina é uma praia de basalto venerada pelos surfistas e localizada no cabo da praia, ilha Terceira. É considerada a praia com melhores tubos dos Açores e uma das melhores de Portugal. Ontem assisti a um encontro dos 'cavaleiros das ondas', um movimento de surfistas local que alerta para os perigos que o seu santuário sofre. São dois esgotos que lá despejam as suas águas – um do matadouro e outro vindo da fábrica de conservas. Para além disso, a zona circundante foi invadida por tetrápodes, esses gigantes pés de galinha de cimento que aguardam a sua vez para irem quebrar as ondas lá mais fora. Enquanto isso, à nossa volta a costa visível perde a sua beleza natural.
Ontem, infelismente, o mar não permitiu que as pranchas entrassem na água; "Mortífero" foi como o classificou um dos presentes. Só os "bifes" (americanos que por ali aparecem) são ingénuos o suficiente para entrarem ali com um mar destes. No dia anterior, com um mar semelhante, estiveram lá dois "bifes"; resultado: duas pranchas partidas, um ombro descolado e alguns cortes e arranhões.

(LFB)

terça-feira, 28 de março de 2006

Freakonomics e a educação - alguns comentários

Freaknomics é um livro surpreendente e interessante sobretudo pela forma inovadora com que trata de assuntos que regra geral não aparecem tratados pela Economia; no livro é definida como "o estudo dos incentivos: a explicação de como é que as pessoas conseguem o que querem, sobretudo quando as outras pessoas querem ou necessitam das mesmas coisas" (p.20).
Muito se tem escrito acerca da frescura inteligente (uma novidade na Economia) das questões que o livro coloca – por exemplo, "o que é que os professores têm em comum com os lutadores de Sumo?" – bem como acerca das suas polémicas teses – por exemplo, acerca da sua tese de que a legalização do aborto nos EUA (estabelecida em 1973 através da decisão Roe vs Wade do supremo tribunal) terá contribuído, em cerca de 30 por cento, para a diminuição, na década de noventa, da criminalidade violenta. Para os autores tal descoberta tem tanto de "chocante" como de irónico relembrando-lhes a frase de G. K. Chesterton "quando não existem chapéus para todos, o problema não se resolve cortando algumas cabeças" (p. 141).

Os resultados sobre a educação derivam da aplicação da técnica da análise regressiva a um enorme estudo realizado nos EUA nos anos noventa que envolveu mais de vinte mil crianças de todo o país. A análise não mostra que um factor é a causa de outro, mostra apenas as correlações existentes entre diferentes factores. Isto é importante porque, por exemplo, ter muitos livros em casa está, segundo o estudo, correlacionado com boas notas na escola, mas não significa que todas as casas que tenham muitos livros tenham filhos com boas notas, ou que seja suficiente ter livros em casa para que os filhos tenham boas notas.
Em muitos aspectos (talvez em mais do que aqueles que muitos de nós desejaríamos), e também na educação dos nossos filhos nós europeus somos muito americanos, pelo que teremos alguma coisa a aprender com os resultados que o livro apresenta.

No que diz respeito aos oito factores que influenciam os resultados escolares, não parece haver grande surpresa em relação àquilo que é o senso comum acerca da melhor forma de educar os nossos filhos. O que desperta interesse e curiosidade são alguns dos factores que, segundo os autores, não influenciam os resultados dos alunos. É o caso da família estar intacta ou não. Estudam demonstram que a estrutura familiar tem pouca importância nos resultados escolares (só nos EUA cerca de 20 milhões de crianças são criadas apenas por um dos pais) da mesma maneira que parece ter pouco influência na formação da personalidade das crianças. Estes resultados deveriam dar que pensar àqueles que por aqui usam o argumento de que a adopção de crianças por casais homossexuais seria errada porque deformaria a personalidade da criança adoptada.
Surpreendente é também a ideia de que os pais obsessivos que deixam de trabalhar até os filhos irem para a pré-escola com a ideia de que estão a cuidar melhor da educação dos seus filhos estão enganados (pelo menos na realidade americana). O mesmo se passa com os pais que levam os filhos aos museus, ou com os pais que lêem em voz alta aos seus filhos; regra geral os pais obsessivos saem mal vistos deste estudo. A educação parece dar-se mal com a obsessão educativa.
Colocar as crianças na pré-escola estatal americana (um programa de educação infantil intitulado Head Start) também não contribuir para melhores resultados na escola. Os autores sugerem que tal se deve ao facto de muitas educadoras infantis americanas não terem sequer o bacharelato e de este trabalho ser mal pago. Neste ponto estamos, parece-me, muito melhor.
Outro resultado surpreendente é o que nos diz que ver muito televisão não prejudica os resultados escolares (e ter um computador em casa também não está correlacionado com melhores resultados na escola). Muita discussão tem havido sobre este tema. Pais conservadores e obcecados com a educação dos seus filhos gostariam de proibir a TV, ainda que eles próprios tenham crescido com o aparelho e passem muito tempo à sua frente. Pais liberais e despreocupados desvalorizam os efeitos supostamente negativos do aparelho. Como comentário os autores referem a Finlândia – esse bastião da educação tantas vezes citado pelos políticos portugueses – cujo sistema educacional foi considerado um dos melhores do mundo e onde as crianças só vão para a escola aos sete anos e, regra geral," aprendem a ler por si vendo televisão americana com subtítulos em finlandês" (p. 172).

A conclusão a retirar, segundo os autores, é que na educação parece ser mais importante aquilo que os pais são (primeira lista) do que aquilo que os pais fazem (segunda lista).



(LFB)

Freakonomics e a educação



Oito factores fortemente relacionados com os resultados dos testes:

1. Os pais da criança têm formação superior (+)
2. Os pais da criança têm um estatuto socio-económico elevado (+)
3. A mãe da criança tinha trinta anos ou mais quando o primeiro filho nasceu (+)
4. A criança nasceu com pouco peso (-)
5. Os pais da criança falam inglês em casa (+)
6. A criança é adoptada (-)
7. Os pais da criança estão envolvidos na associação de pais (+)
8. A criança tem muitos livros em casa. (+)

+ = Correlação positiva
- = Correlação negativa

Oito factores que não estão relacionados com os resultados dos testes:

1. A família está intacta
2. Os pais da criança mudaram-se recentemente para um bairro melhor
3. A mãe da criança não trabalhou entre o nascimento e a entrada para o infantário
4. A criança frequentou um programa pré-escolar estatal
5. Os pais da criança levam-no regularmente a museus
6. A criança é regularmente agredida
7. A criança vê frequentemente televisão
8. Os pais da criança lêem-lhe em voz alta todos os dias.


(tr. e adp. LFB, pp. 166-168)

quinta-feira, 16 de março de 2006

"Numa democracia liberal, o desafio de uma vida ética é vivermos, enquanto indivíduos, à altura dos compromissos expressos nas nossas constituições... É também vivermos de forma que cada um de nós acredite na nossa sociedade. Num tempo onde os indivíduos são – quer pela tecnologia quer pela liberdade – monstruosamente dotados do poder de fazer cair o Armagedão sobre os seus concidadãos, a questão de haver entre nós pessoas que já não acreditam na democracia liberal e que professam uma variedade de paranóias como se de política se tratasse já não é uma questão menor. A existência de opiniões políticas selvagens, vingativas e enganadoras, quando associadas a uma tecnologia letal e na posse de um único indivíduo, tornam-se repentinamente uma ameaça para todos. Estou assombrado, e penso que todos estarão, pelo espectro dos solitários super poderosos; como se fosse uma punição inevitável resultante da preocupação moral que a nossa sociedade coloca, de forma generosa, na ideia do indivíduo."

Michael Ignatieff,The Lesser Evil: Political Ethics in an Age of Terror, p. 181. (tr. LFB)

segunda-feira, 13 de março de 2006

A serpente que morde a cauda

Agora que Nuno Crato expôs as fragilidades e o ridículo das concepções que orientaram, nos últimos trinta anos, as ciências de educação em Portugal; agora que os quadros de professores estão praticamente cheios, o governo nacional quer implementar um exame aos candidatos a professores do ensino público. Deu-se conta de que afinal nem toda a gente pode ser professor e deu-se conta de que as escolas estão repletas de professores que não sabem o suficiente para poder ensinar alguém a ler, escrever ou falar acerca do que quer que seja. A medida é gratuita e risível. Em vez de atacar as causas – como foi possível chegar a este estado de coisas? –, ataca os efeitos – como remendar os buracos criados por tal situação?
Partindo da hipótese altamente improvável de que haverá em Portugal alguém capaz de conceber um exame que realmente separe o trigo do joio, não se percebe por que razão não se há-de realizar um exame também a candidatos a professores do ensino superior? Não está também o ensino superior cheio de professores que não deveriam sê-lo? E não é este ensino directamente responsável pela ignorância que preenche as escolas dos outros níveis de ensino? E o que fazer com os estágios pedagógicos que, como toda a gente reconhece, não servem para nada de pedagogicamente útil e são orientados por ideias descabidas? E o que fazer com os quadros existentes? Enviá-los outra vez para a Universidade?

(LFB)

sexta-feira, 3 de março de 2006

A ler

uma explicação e argumentação acerca do modo como as democracias constitucionais liberais podem manter a dignidade dos seus cidadãos - uma visão moral da democracia onde os indivíduos têm valor intrínseco - e ao mesmo tempo dar conta do interesse da maioria em ter a segurança garantida - uma visão formal da democracia - e, mesmo assim, lutar contra o terrorismo.
O livro defende a tese de que, em certos casos, a necessidade pode exigir acções em defesa da democracia que se afastam do compromisso para com a sua própria dignidade: é a doutrina do mal menor; defende o autor que numa emergência causada pelo terrorismo nem os direitos, nem a necessidade devem triunfar. Deve procurar-se encontrar uma ética do equilíbrio e da prudência. Um meio-termo dificil de encontrar...

quinta-feira, 2 de março de 2006

A propósito da lei e da sua qualidade

o agora deputado Pina Moura veio recentemente a público dizer que as leis na República são a sua Ética. Se a lei permite que ele seja deputado e presidente de uma empresa com fortes interesses nos negócios da electricidade em Portugal, então o que ele faz é eticamente correcto. Esta identificação entre a Ética e a Lei, há muito discutida pelos filósofos, sofre de males irrecuperáveis. Se a identificação fosse boa, então não poderíamos classificar algumas leis como sendo boas ou más. O 'certo' e o 'errado' são usados na avaliação das leis e, por isso, são diferentes das leis. Por exemplo, podem haver leis que proibem coisas boas; é o caso de uma lei que proiba criticar o governo. Como também podem haver leis que decretam coisas erradas, como é o caso de uma leis que imponha a segregação racial. Pina Moura deveria recorrer à sua racionalidade e ao seu sentido de dever - ou a qualquer outra forma de avaliação de conflitos éticos - de modo a descobrir se os seus interesses pessoais estavam a colidir, ou não, com o interesse público. Ao proteger-se sob a capa da lei revelou-se um apoiante da teoria que diz que tudo o que a lei permite é correcto. Daqui a afirmar - como Eichmann, o nazi que defendeu em tribunal que se limitava a obedecer a leis superiores - "eu só o fiz porque a lei a isso me obrigou", vai um passo.

(LFB)

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Hospital São João: grande escola de paciência

Prestígio, competência e eficácia: qualidades da considerada maior escola de medicina do país, onde trabalham arduamente alguns dos maiores nomes da àrea: Hospital São João.

Pois foi precisamente no São João que tive opotunidade de testemunhar algumas das mais inacreditáveis cenas de incompetência algumas vez imaginadas pelos mais cépticos.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2006

16 horas e 30 minutos: passo pela triagem onde explico não suportar por muito tempo estar noutra posição que não deitada.

Cerca das 17 horas: senhora em sofrimento discute com médicos, alegando dores insuportáveis; toma dois calmantes. Adormece. Algum tempo depois, médica ao sair das urgências, embate contra a perna da paciente, (uma vez que a sala de espera consiste basicamente num estreito corredor onde se condensam cadeiras), pede desculpa e segue o seu caminho. Cerca de uma hora depois, médico chama paciente que, ao não poder andar sozinha, é socorrida nada mais nada menos do que por outra paciente (cerca de 70 anos). Tal ocorrência passa despercebida ao atento olhar médico.


Cerca das 20 horas: médico atende paciente, ao que lhe diz - tom rude, grotesco - "A senhora não tem centro de saúde?".

Cerca das 21 horas: o desespero: dores insuportáveis. Não sou atendida, aliás, neste período de 4 horas e 30 minutos, talvez o tenham sido 4 pessoas... Desisto, vou-me embora. Estado: pior que à chegada dado o suplício de estar sentada ou em pé.

Como é isto possível?
(D.O.)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Primo Levi


Agora que o anti-judaísmo ignóbil resurgiu em força e com a conivência ‘tolerante’ de alguns dirigentes políticos portugueses, vale a pena reler com atenção algumas das respostas de Primo Levi a questões colocadas pelos seus leitores.


Entrevista Retirada de: Primo Levi, “The Author´s Answers to His Readers Questions” pp.381-398, in, If This Is a Man & The Truce, Abacus, 1999.



"1. No livro não há um sentimento de ódio pelos Alemães, nem um desejo de vingança. Perdoou-os?
R: O Meu temperamento pessoal não está inclinado para o ódio. Vejo-o como animalesco e cruel, prefiro que as minhas acções e pensamentos sejam o resultado da razão (…) Se o fizesse estaria a seguir os preceitos dos Nazismo.
Acredito na razão e na discussão como instrumentos do progresso, e por isso reprimo o ódio, mesmo dentro de mim. Prefiro a justiça. Por essa razão, ao descrever o mundo trágico de Auschwitz, adoptei a linguagem sóbria e calma da testemunha, e não os tons lamentáveis da vítima nem a voz irada de alguém que procura vingança. Penso que a minha tarefa seria tanto mais útil e credível quanto mais fosse objectiva e quanto menos soasse excessivamente emocional. Só desta forma pode uma testemunha realizar a sua função em termos de justiça; isto é, fornecer elementos válidos para o juiz poder julgar. Os juízes são os meus leitores.
De qualquer modo, não gostaria que o facto de eu me abster de fazer um juízo explícito fosse confundido com um perdão indiscriminado. Não, eu não perdoei nenhum dos culpados, nem desejo perdoar nenhum deles, a não ser que eles mostrem (com acções, e não com palavras e não muito tempo depois) que estão conscientes dos crimes e erros do fascismo e estejam determinados em condená-lo (…). Só nestas condições estou pronto a perdoar.

2. Sabia o povo alemão o que estava a acontecer?

Como seria possível que a exterminação de milhões de seres humanos tivesse acontecido no coração da Europa sem o conhecimento das pessoas?
As democracias têm uma tremenda vantagem sobre os estados autoritários: toda a gente pode saber tudo sobre tudo. A informação é um quarto poder (...). No estado autoritário a verdade é só uma e vem de cima. Todos os jornais são iguais e repetem as mesmas coisas. Não se pode ouvir a rádio de outros países. Os livros são censurados, muitos são queimados, e só aqueles que agradam ao estado são publicados e traduzidos. Isto aconteceu na Itália entre 1924 e 1945, e continuou depois na Alemanha de leste (…).
Num estado autoritário é considerado permissível alterar a verdade; reescrever a história retrospectivamente, distorcer as notícias, suprimir a verdade, adicionar o falso, a propaganda substitui a informação. Nestes estados não se é um cidadão com direitos, mas sim um sujeito, e como tal deves ao estado uma lealdade fanática e uma obediência cega. Nestas condições torna-se possível apagar pedaços da realidade. Hitler e o seu ministro da propaganda (Goebbels) tornaram-se especialistas nesta tarefa de controlar e mascarar a verdade.
Contudo, não era possível esconder do povo alemão a existência de campos de concentração. Nem tal era necessário do ponto de vista dos nazis. Criar e manter no país uma atmosfera de terror indefinido fazia parte dos objectivos dos nazis. Centenas de milhares de alemães foram presas nos campos desde os primeiros meses do nazismo: comunistas, social-democratas, liberais, judeus, protestantes, católicos. Todo o país sabia disso e sabia que nos campos sofriam e morriam pessoas.
Mas não deixa de ser verdade que a grande maioria dos Alemães desconhecia os detalhes das enormes atrocidades que ocorreram mais tarde nos campos. Nomeadamente a exterminação industrializada numa escala de milhões; as câmaras de gás; os fornos crematórios, o despojo perverso dos corpos. Tudo isto deveria permanecer desconhecido, e de facto poucos foram os que souberam disso antes do fim da guerra. Para manter o segredo, só certos eufemismos – estudados cuidadosamente – eram usados: não se escrevia “exterminação”, mas sim ”solução final”; não “deportação, mas sim ”transferência”, não “gás mortal”, mas “tratamento especial”, e por aí a fora. (…).
O relato que, a meu ver, melhor retrata a situação alemã na altura é o de Eugene Kogon, que passo a citar:

“… e contudo não havia um único alemão que não soubesse da existência dos campos ou que acreditasse que eles eram sanatórios … todos os alemães foram testemunhas da barbárie anti-semita. Milhões estiveram presentes – com indiferença ou com curiosidade; com desdém ou com uma alegria maligna – na destruição de sinagogas pelo fogo, ou na humilhação de judeus que se tinham que ajoelhar no meio das ruas enlameadas.”

(…) A maioria dos alemães não sabia porque não queria saber. É verdade que um estado terrorista é uma arma muito forte, muito difícil de resistir. Mas também é verdade que o povo alemão como um todo não quis, nem tentou, resistir.
Usava-se um código na Alemanha de Hitler: aqueles que sabiam não falavam; aqueles que não sabiam não perguntavam; aqueles que faziam perguntas não recebiam respostas. (…) Saber e fazer com que as coisas fossem conhecidas era uma forma de uma pessoa se manter afastada do nazismo. Penso que o povo alemão não procurou este recurso e para mim são totalmente culpados desta omissão deliberada.

3. Como pode ser explicado o ódio fanático dos nazis pelos judeus?

O anti-semitismo é uma forma particular de intolerância; durante séculos teve um carácter mais religioso. Essa intolerância foi espalhada por toda a Europa pela eficiência da propaganda nazi e fascista que necessitava de um bode expiatório para carregar todas as culpas e ressentimentos (…). Mas estas explicações não me satisfazem, são redutoras, e não proporcionais aos factos que necessitam de explicação. (…).
Eu partilho da humildade de alguns grandes historiadores que confessam não compreender o anti-semitismo de Hitler e da Alemanha que o suportava. Talvez não se possa, ou melhor não se deva compreender o que aconteceu, porque compreender é quase justificar. “Compreender” uma proposta, ou um comportamento, significa abrangê-la, pôr-mo-nos no seu lugar, identificarmo-nos com ela. Nunca nenhum ser humano normal será capaz de se identificar com Hitler (…) Isso desanima-nos, porque não compreendemos, mas ao mesmo tempo causa-nos uma sensação de alívio, porque talvez seja desejável que as suas palavras (e, infelizmente, os seus actos) sejam compreendidas por nós. (…) Não o podemos compreender, mas podemos compreender a árvore que o brotou e podemos permanecer alerta. Se compreender é impossível, ter conhecimento é imperativo, porque o que aconteceu pode acontecer novamente. A consciência pode ser seduzida e obscurecida novamente – mesmo a nossa própria consciência. Por esta razão é um dever de todos reflectir sobre o que aconteceu. Toda a gente deve saber, ou recordar, que Hitler e Mussolini falavam em público, que as pessoas acreditavam neles, aplaudiam, admiravam-nos, adoravam-nos como se fossem deuses. Eram líderes carismáticos (…).
É necessário suspeitar daqueles que nos querem convencer com outros meios que não a razão; e é preciso suspeitar dos líderes carismáticos: é preciso muito cuidado ao delegarmos a nossa vontade e os nossos juízos. Uma vez que é muito difícil distinguir os falsos profetas dos verdadeiros, é melhor suspeitar de todos. É melhor renunciar a verdades reveladas (…), é melhor contentarmo-nos com verdades mais modestas e menos excitantes, aquelas que são adquiridas a custo, a pouco e pouco, com estudo, discussão e raciocínio crítico (…)."


(Tradução livre de LFB)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

A bomba

Agora que o Irão tresloucado se prepara, à vista de todos e com a boca cheia de anti-judaísmo, para construir a bomba nuclear, é caso para perguntar o que podemos fazer. Ouvir na televisão o Miguel Sousa Tavares moderado e anti-guerra do Iraque afirmar que a nossa única esperança é que os EUA destruam, através de bombardeamentos ou apoiando bombardeamentos feitos pelos israelitas, as centrais iranianas, dá que pensar. Não há dúvidas de que o presidente iraniano é, em muitos aspectos, semelhante a Hitler. Se este tivesse sido destruído a tempo, muito sofrimento, desgraça e terror teriam sido evitado. É também altura de começar a ouvir aqueles - como por exemplo Mário Soares e a esquerda populista em geral - que, aquando da discussão sobre se se deveria travar ou não uma guerra contra o Iraque, defenderam o diálogo e a tolerância para com os terroristas. Será que estão prontos a dialogar com o presidente do Irão? E ele quererá dialogar com eles? Será que estão prontos a aceitar riscar Israel do mapa em troca de alguma segurança temporária?
(LFB)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

O relativista apavorado

Daniel Oliveira, numa coluna que assina no jornal Expresso (a leitura na internet é paga) intitulada "Choque e Pavor", revela o pior do relativismo moral do qual ele se diz um defensor. Daniel é contra "a proibição de qualquer tipo de mensagem" o que o faz condenar qualquer lei que limite a liberdade de expressão. Supõe-se que seja contra a proibição da publicidade machista, racista e xenófoba da mesma maneira que é contra a proibição, vingente em muitos países da Europa, da negação do holocausto. Ele não vê nenhuma razão para tais proibições fazerem sentido, a não ser o facto de elas serem relativas a "um contexto histórico e político". Para ele não se pode alegar que a europa é mais civilizada do que, por exemplo, o Irão, porque, nas suas palavras, foram os "tolerantes e civilizados europeus" que cometeram o holocausto.
Daniel é pois solidário com o direito dos cartonistas publicarem o que bem entenderem, na dinamarca ou no Irão, só que vê na recusa por parte da europa liberal em aceitar as reacções (e as exigências) dos países árabes uma ameaça "à tolerância religiosa e à paz ". Ele, por si, não compactua nem se deixa manobrar; é tolerante e relativista moral porque só assim a "moral pode ser operativa". Frase para a qual não apresenta nenhuma justificação. Supõe-se que ele nos esteja a dizer que comprende muito bem as reacções extremistas, da mesma maneira que compreende quem faz desenhos anti-judaicos, ou quem nega a existência dos campos de extermínio. Ele é incapaz de perceber uma diferença fundamental entre uma proibição na Europa e uma proibição no Irão. Na Europa pode-se recorrer à justiça como forma de resolver um conflito, enquanto no Islão extremista recorre-se à força e ao apelo à violência. Na Europa, fomos capazes de criar e de defender um conjunto de princípios razoáveis que são aceites por todos (o que não significa que não possam ser postos em causa, viver em democracia é viver na constante procura de equilíbrio) e que defendem a liberdade individual acima de tudo; é isso que significa viver num regime constitucional liberal. Não basta a democracia - como se prova pela eleição do Hammas na Palestina - é também necessário uma constituição que garanta o recurso à justiça e a liberdade individual. Todos os que vivem sob uma constituição liberal acreditam em valores inquestionáveis. Mesmo o colunista em causa; ou o seu apelo à solidariedade e à tolerância é também relativo? No Islão radical o que se vê é a lei imposta à força sem a possibilidade de recurso ao que quer que seja. A proposta de recompensar os bombistas suícidas com virgens no céu (e com dinheiro entregue às suas famílias) é um atentado à dignidade das mulheres e um abuso da fé, seja ela qual for. O que é condenável, intolerável e injustificável. Ponto. Não podemos sequer querer compreender que as mulheres sejam propriedade, que as crianças sejam escravizadas, que a diferença seja simplesmente aniquilada. O relativismo é, ao contrário do que afirma Daniel Oiveira, a melhor maneira de impedir qualquer discussão. Se somos relativistas, se aceitamos tudo, para quê discutir? Qual o sentido de dizer que o holocausto é muito diferente daquilo que se passa na Palestina? Aqui temos opressão, violência, direitos infringidos, mortes; na Alemanha nazi assistiu-se a uma forma incompreensível de "mal radical"; o extermínio da própria noção de humanidade. E esta não é relativa. E pode-se mostrar porquê a qualquer ser humano que o queira perceber.

(LFB)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

desobediência democrática

"Resistir muito, obedecer pouco."
(Walt Whitman)

Há dias entrou na assembleia regional legislativa açoriana (orgão reúne uma vez por mês; muito haveria a dizer sobre a sua necessidade, justificação e pertinência. Se calhar, o melhor era sermos apenas portugueses e pronto; fica o benefício da dúvida) o pedido de uma pensão vitalícia de 2500 euros a atribuir a Victor Cruz; um ex-deputado com 42 anos de idade que, ao pedir a suspensão do seu mandato (voltará? Para quê?), aproveitou para reclamar a "devida” pensão.
No país discute-se a crise económica e o aumento da idade da reforma. Nas escolas regionais surgem documentos bizarros que pretendem diminuir, ou mesmo acabar, com o insucesso escolar. Como se o insucesso (igual à percentagem dos alunos que não terminam um determinado nível de ensino) pudesse ser extinto por decreto, como quem extingue uma secretaria. Como se o que contasse na educação de uma geração fosse apenas o sucesso. Como se a inteligência, a qualidade, o nível de exigência, a procura do saber, passassem repentinamente a valer zero.
Conclusão: as reformas antecipadas (no caso com 23 anos de antecipação em relação aos 65 anos de idade de que tanto se fala) dos deputados são injustas. Seja por que razão for ou para quem for. Um sistema político que as aprova é um sistema injusto, e aqueles que as aprovam, gozando do seu estatuto de legisladores democraticamente eleitos, são justamente acusados de se protegerem uns aos outros e de serem os primeiros responsáveis pelo seu próprio descrédito. Até aqui nada de novo.
Pergunte-se agora se uma sociedade assim pode valorizar as suas instituições fundamentais? O seu corpo político e o seu corpo educativo? Qual dos dois o mais importante? Qual dos dois o mais exigente? Qual dos dois o mais abandalhado? Haverá uma saída que nos melhore a todos?
A minha resposta é sim, mas vamos com calma. Cada um de nós tem que começar a exigir mais respeito, a mostrar mais responsabilidade perante os irresponsáveis, uma maior atitude crítica face a injustiças, a autoritarismos descabidos e, sempre que tal se mostrar adequado, a desobedecer: “um princípio incendiário para assuntos cívicos” (Berman, A Tale of Two Utopias, p.51, (livro de onde a epígrafe de Whitman é retirada).
(LFB)

UM SUCESSO



Subitamente o governo regional dos Açores - através da secretaria da educação - deu conta de que a região tem a pior taxa de insucesso escolar do país; e tem mostrado uma vontade enorme de acabar com o dito. Pretende-se fazer com as escolas do terceiro ciclo e secundárias o que já se fez com a maioria das Universidades, ou seja, acabar com os chumbos. Passa tudo!
Se o aluno é mau aluno (há alunos maus, como há alunos bons, porque não dizê-lo) é porque o professor ainda não se esforçou o suficiente. Esforcemo-nos mais um pouco – ignore-se que ele mal sabe ler ou escrever, que ele tem pais desinteressados, que ele está num nível que não é o seu, que tem dificuldades de concentração, que algumas matérias são difíceis e requerem um estudo aprofundado – e constatar-se-á que ele até é um aluno razoável.
A estratégia é infalível: forma-se professores numa Universidade francamente má (mas onde ninguém chumba e, logo, onde ninguém questiona a qualidade dos resultados); cria-se leis que fazem com que os professores passem à frente daqueles que são formados nas melhores Universidades e que têm melhores classificações; promove-se uma formação de professores que, apesar de altamente criticada por todos, ainda não foi simplesmente extinta; triplica-se as bonificações dos membros dos conselhos executivos (CE) das escolas da Região (como forma de os incentivar, mas também como forma de os fazer colaborar). Faça-se tudo isso contra os professores, que são as principais autoridades educativas; obriga-se os professores a permanecerem nas escolas, controlados pelos CE, ocupando os espaços dos alunos, sem que se veja qual o benefício que isso trás para qualquer das partes. A lista não acaba...
Poderemos ter que aceitar um ensino onde todos passam, e onde o sucesso (palavra vaga e ingrata) é geral, mas isso não tornará as pessoas – pobres vítimas da ilusão de não terem chumbado – mais inteligentes, mais dinâmicas, ou mais o que quer que seja. Pelo contrário, todos seremos ainda menos do que somos.
Um dia daremos conta – quando tivermos coragem de nos compararmos com as boas escolas – que, mesmo sem insucesso escolar, somos tão maus como sempre fomos.
Isto se até lá não formos capazes de alterar este estado de coisas e eu estou convencido que seremos.
(LFB)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Match Point

Uma questão de sorte...?

IMPERDÍVEL

(D.O.)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Sociedade "Civil"

Óbvia:
- a necessidade de uma verdadeira mobilização social em torno de questões que determinam a vida colectiva;
- a ligação intrínseca e dinâmica entre democracia e participação cívica, individual e/ou colectiva.

Dúbia:
- a existência de uma sociedade predisposta ao esforço da reflexão, motivada para intervir, consciente do seu papel e dos reais problemas que enfrenta e que tem forçosamente de resolver.

(...2006, Mundial na Alemanha...)
(D.O.)


Os partidos políticos

estão em crise e isto não é novidade. Todos o afirmam e Pacheco Pereira apresentou recentemente algumas das causas no seu Abrupto. Mas, a par deste diagnóstico, todos defendem que sem partidos a democracia saudável não pode existir. Será que não pode? Por um lado, percebe-se essa defesa dos partidos uma vez que as alternativas se revelaram desastrosas no século XX. As experiências da democracia directa nos anos sessenta revelaram resultados altamente indesejáveis para todos os implicados. A democracia parece implicar uma mediação, uma pausa para reflexão, que só os partidos e os representantes dos eleitores têm disponibilidade e legitimidade para realizar. As matérias são complexas e requerem tempo para pensar nelas. Por outro lado, a necessidade dos cidadãos afirmarem a sua individualidade e a sua não submissão intelectual também é manifesta; veja-se os jantares dos apoiantes de Alegre. Estou em crer que é possível, através da compreensão e explanação do conceito de sociedade civil, encontrar novas formas de reflexão, debate e justificação das decisões colectivas que não têm que passar necessariamente pelos partidos políticos...

(LFB)

domingo, 5 de fevereiro de 2006

As grandes ilusões

1) o Eu; a ilusão de que cada um de nós é algo que permanece idêntico no tempo;

2) o Tempo; a ilusão de que existe um tempo objectivo;

3) a Realidade, a ilusão de que aquilo que vemos é real;

4) a História, a ilusão de que seremos capazes de saber como aconteceu de facto uma coisa no passado.

As quatro ilusões combinadas (na realidade! deduzem-se umas das outras) fazem de nós uns seres estranhos à deriva.

(LFB)