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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os velhos professores

Foram precisos dez anos anos para que os responsáveis pela Educação Regional emendassem o erro de obrigar os professores com muitos anos de serviço, nas suas horas de redução lectiva, a permanecer nas escolas. Violentados e perseguidos por campaínhas desenfreadas saídas da rigidez das fábricas, jovens ruidosos, colegas rancorosos e funcionários obedientes e prontos a marcar a respectiva falta (falta a quê?), os velhos professores foram-se retirando. Uns para a doença, outros para a morte; os restantes foram envelhecendo mais e aguentando. Estes vêem agora alguma justiça reposta (não toda porque o mal está feito e porque ainda não podem sair da escola em todas as suas horas de redução; a burocracia continua e o critério de separação entre as horas que têm que ficar na escola e as que não têm continua vago e condicionado à decisão de quem faz os horários). Assisti à violência, mas não calado (aqui). E não falo directamente de mim. Não tenho reduções e quem sabe se chegarei a velho. Comecei a dar aulas com um horário de 20 horas lectivas. Hoje tenho 22 horas (trabalhar à noite deixou de ser trabalho nocturno!) mais quatro de trabalho escolar que preencho, no exterior, praticando agricultura biológica. Não é da competência da política educativa reconhecer a importância pedagógica das hortas, dos pomares e dos jardins nas escolas. Por enquanto ainda estão ao nível do relvado que ninguém deve pisar.
Rogam-nos pela qualidade do ensino, subscrevendo tacitamente a inevitável técnica do balde (como o prova a eliminação da Área de Projecto, (aqui) disciplina do 12º ano, que incentivava a capacidade crítica, criatividade e autonomia): o professor despeja a matéria para os alunos que, depois de mastigada e resumida pelo google, a despejam nos testes. Ouvem-se, de vez em quando, vozes que assinalam a falta de empenho dos alunos; que andam apáticos, sem interesse, sem criatividade. Fechados na caverna (aqui e aqui) que outra coisa se poderia esperar? A solução, que nos deixa, por ora, descansados, vai variando nas designações e no formato, mas no essencial é a mesma de sempre: apontar em documentos oficiais o número correspondente às actividades que cada uma das partes terá que realizar para que todos tenham sucesso. Assunto encerrado.
Agora que, por aqui, se vai percebendo que humilhar e ofender não é forma de tratar professores, chega silenciosamente a permissão de passar algumas das horas de redução lectiva fora da escola. Obrigado!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

"Sofre duma espécie de derramamento da lucidez"

"O que é a educação para Kafka? Em primeiro lugar, é um pacto secreto com o destino; o destino ao qual se oferece toda a espécie de iguarias, como a do talento bem aproveitado.  A inteligência é, para Kafka, uma maneira de ser poupado por essa terrível força que sacode e destrói tudo quanto é vivo. A voz do pai, incluída no tremendo ruído do mundo em acção, é parte dessa força que é preciso adular, convencer, talvez iludir. A educação é uma arte de demorar a morte, de a tornar convencional em vez de fatal.
Kafka é um homem educado; o personagem central  de O Processo é um homem educado. Vejamos como ele procede: «Ainda fatigado dos seus cuidados precedentes e já lasso daqueles que viriam, ele levantou-se para receber o primeiro dos seus visitantes.» Kafka sabe quanto é importante a mesura. Ela aplaca a cólera que se traduz pelo mais fugaz dos gestos humanos. Ele sabe imensamente dessa rede obscura em que se debatem os pensamentos reservados e que não é possível domesticar. Então a inteligência desponta, cresce, cobre o horizonte humano, não como uma luz brilhante, mas com um véu prodigioso. A inteligência desconcerta o destino; não sabemos se, de certa maneira o provoca."
                                        Agustina Bessa-Luís, Kafkiana, Babel, 2012, p. 50-51                           

terça-feira, 17 de setembro de 2013

professores desempregados nos Açores

Com dezenas de professores contratados no desemprego - e isto sem contar com os professores universitários que também estão aflitos -, com turmas com mais de 25 alunos (uma das muitas formas de promover, de forma encapotada, o desemprego e a degradação do ensino), já se começa a ver a qualidade das vitórias anunciadas no início do Verão pelos sindicatos de professores da RAA. Despedimentos tout court ainda não houve. Mas levar ao desemprego, silenciosamente, pessoas com vários anos de serviço, porque se mudam para pior as regras do jogo, não está muito longe disso.
Veja-se aqui a notícia da semana passado do jornal Público que anuncia protestos, não de sindicatos, mas de grupos de professores.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Na caverna

Walls! Always walls! Yet one needed them in this wind.

D. H. Lawrence, Lady Chatterley's Lover.



 Uma ilha é uma prisão. Um hospital é uma prisão. O trabalho pode ser uma prisão. Até um continente pode ser uma prisão quando não se tem os meios to go abroad. Mas que se tenha tornado a escola numa prisão com redes à volta é lamentável. À nascença, ou a partir dos 3 anos, está-se condenado a uma sentença de um mínimo de 15 anos, extensível a 20, consoante o comportamento. As idas aos pátios estão vigiadas e o tempo  de estadia no exterior é limitado. O acesso aos espaços verdes/relvados é reservado. Passa-se o tempo na caverna. E as crianças detestam a escola. Que prisioneiro gosta do seu cárcere?  Como seria bom uma escola sem paredes! 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sendo professor nos Açores, porque faço greve?

Com a greve às reuniões de avaliação pairou no ar a sensação de que havia uma união, não só entre sindicatos de professores mas, sobretudo, entre os professores - mesmo os que no passado afirmavam que a greve era inútil, desta vez estavam mais acordados - no sentido de evidenciar a constante degradação e instabilidade da vida docente. Mas tal sensação, se era real, foi quebrada, na sexta-feira passada, pelas declarações dos sindicatos de professores dos Açores que, congratulando-se, se desvincularam da greve nacional.

O que receberam em troca desse recuo foi pouco ou nada. O governo regional declarou que, enquanto não houver excedentários, não haverá despedimentos (em novilíngua mobilidade especial) nas escolas açorianas - esperem pela ordem do ministério das finanças e vão ver os excedentários a aparecer - e comprometeu-se a não aplicar medidas piores do que as que serão aplicadas nas escolas do continente. É muito mau o que se vai passar nas escolas do continente. Logo, aqui também será, pois o compromisso não é o de que será melhor!

A pequenez intelectual de sindicalistas e governantes fê-los cair no filme da vitória política dividida por todos. Agora, vitoriosos, podem ir à almoçarada.

O facto é que -  depois de Carlos César ter assinado* a submissão dos Açores, por 10 anos, à política do ministério das finanças - a capacidade de legislar autonomamente sobre o que quer que seja  se tornou muito difícil. Então para que queremos um governo regional tão volumoso? É preciso? E até quando?

Como mostra o nosso passado recente, aquilo que os políticos dizem não se escreve. Os despedimentos podem não acontecer, para já, mas a destruição do que resta da dignidade do trabalho público continua: a perda de direitos sociais (por exemplo, acompanhar um pai incapacitado a um exame médico ou adoecer por poucos dias implica perda total de vencimento); uma avaliação fantoche - um dos muitos exemplos em que a educação nos Açores é pior - que já só serve para a humilhação constante dos professores contratados que todos os anos estão obrigados a aulas assistidas e, só para dar mais um exemplo, a inexistência  de uma carreia decente. Nos últimos anos o que tem acontecido é uma inversão do percurso normal de um professor:  à medida que se fica mais velho, com mais qualificações, trabalha-se mais horas e ganha-se menos.

Uma trivialidade democrática: as greves são feitas para, por questões de justiça, ou falta dela, mostrar a força de uma das partes. E, por isso, prejudicam as pessoas. Uma das consequências da greve aos exames é prejudicar aqueles que vão fazer exames. Queriam greve num dia em que os grevistas não fossem necessários? Para além do mais, fazer greve às aulas é, objectivamente, muito pior do que fazer greve a reuniões e a exames. Estes acabarão por se fazer, enquanto aula que não é dada é aula eternamente perdida. Por essa razão, não percebo muito bem os que vêm, em nome dos alunos, afirmar que é inadmissível fazer greve aos exames. Estejam descansados, os alunos irão realizar os exames, mais dia menos dia. E quem estuda sabe, logo está preparado para fazer o exame seja ele feito no dia em que está marcado, ou alguns dias depois.

O problema é que, no passado, se marcaram muitas greves sem consequências negativas (em novilíngua: greves simbólicas). Pelo contrário, muita vezes os alunos dedicavam-se a interrogar os professores,  na ante-véspera, para descobrir quem iria faltar para, com essa informação,  equacionarem a possibilidade de não ir à escola.

Esta greve, não fora a saída dos sindicatos regionais, teria sido uma grande oportunidade para marcar, não uma vitória agora, porque essa sabemo-la difícil, mas um sinal de força e de união para o que há-de vir. Os que assim não quiseram mostraram, mais uma vez, a sua fraqueza.

Para se perceber que a coisa não é de agora, leia-se o que eu pensava em 2005!

*Compromisso assumido à socapa e pouco antes de sair do governo dos Açores, não sem antes desfilar na feira quinhentista da Ribeira Grande. Veja o desplante aqui. César é agora presidente honorário vitalício do PS Açores numa eleição em que foi o único candidato ao cargo que ele próprio criou. Um verdadeiro imperador!

Acrescento, em 25 de Junho de 2013:
Os comentários fizeram-me bem.
A todos, incluindo as pessoas com quem debati  e bebi previamente o assunto, fico muito agradecido. Bem hajam!
Quando se lê: "comentário foi removido pelo autor", entenda-se removido pelo autor do comentário, e não por mim.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

José Alberto Quaresma: "O professor deve ser um burocrata triste"

"Os professores portugueses são no conjunto dos países da OCDE dos que mais horas de aulas dão por ano. Do estudo exaustivo da OCDE, "Education at a Glance 2012, OECD Indicators", o Expresso deu eco resumido. Poucos ligaram.
Os dados lá estão acessíveis neste documento de 570 páginas. Desalentam o brio luso. E desmentem o anátema que tem sido lançado sobre a situação de privilégio dos docentes portugueses. Ficam bastante acima da média europeia em excesso de trabalho. Ou, se quisermos ser mais precisos, estão bastante em baixo. Mais deprimidos ainda é possível.
Trabalham com turmas maiores e permanecem muito mais tempo na escola. A situação tem vindo a agravar-se desde 2000. Para além disto, que não é pouco, vêem a progressão na carreira interrompida há anos, assistem de fúria contida à extorsão dos subsídios, e vêem-se às dezenas de milhar no desemprego.
As escolas entretanto foram alindadas com os dinheiros públicos da Parque Escolar. Mas muitas viram as obras suspensas, por falência dos empreiteiros ou porque o orçamento foi ultrapassado ou cortado. Outras, bastante degradadas, nem puderam iniciar obras prometidas e orçamentadas. Foram expelidas para as calendas gregas.
E mesmo nas mais modernaças, onde entra luz a rodos, o ambiente no seu interior é soturno e de cortar à faca, dizem-me antigos colegas.
Os professores são submergidos com trabalho burocrático inglório. A sua opinião nada conta. São-lhes exigidos relatórios e mais relatórios que ninguém lê e cujo único fito parece ser o de arranjar papelada para uma futura inspecção do Ministério da Educação certificar que vai tudo maravilhoso.
Para as questões didácticas e pedagógicas, as verdadeiramente importantes, não há tempo. E cada vez menos vontade. A desmotivação é persistente. E só por excesso de auto-mutilação profissional, e sacrifício familiar, a esmagadora maioria dos professores não deixa de acorrer com afecto e zelo aos seus alunos.
O Ministério da Educação exige de um professor que seja um burocrata. Não um pedagogo. Que preencha formulários a eito, que planifique milimetricamente as aulas, que avalie com balança de precisão, como quem pesa a dose, o que é vago, impreciso e inquantificável. No fundo que se desenrasque e tente encher o olho a quem, entediado, passe os olhos por cima de umas linhas e de uns excelsos quadros em excel. Em última instância, que endromine através de uma grelha, de um escala de valores pseudo-científica, de um jargão administrativo, o "eduquês", que um homem sensato promovido a ministro de um governo medíocre agora não pode arrasar.
Com esta sanha administrativa as vítimas são as mesmas de sempre, os alunos oriundos de meios socio-culturais desfavorecidos que chegam mal à escola. E mal por ela passam, divertidos, a caminho de um lugar vazio. Mas muitos outros que investem o melhor do seu esforço para irem acabar a passar códigos de barras em grandes superfícies, tarefa para a qual se qualificaram em universidades de prestígio e outras nem por isso.
É este o futuro que nos vão vendendo, barato, baratinho. Uma marca branca para usar até à idade madura ou até cair de maduro. E quem lá chegar que se amanhe."

 Jornal Expresso, 20 de Dezembro de 2012


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Diálogo sobre a ciência e os homens

Uma tradução recente (2012) de um texto antigo (1984). No entanto, tudo o que aqui se pode ler é refrescante. Tullio Regge escreve como um físico fascinante; Primo Levi - ainda que exerça sobretudo o papel de entrevistador - escreve como um químico sábio. O prefácio é do professor emérito de física J. Moreira Araújo e pode ser lido aqui.

"Levi: (...) Esperava ir muito longe, até ao ponto de possuir o Universo, entender o porquê das coisas. Agora, eu sei que não existe o porquê das coisas, pelo menos é o que julgo. (...) Tinha uma sensação curiosa: que havia um conluio contra mim, que família e escola mantinham alguma coisa escondida, e que eu procurava nos lugares que me eram reservados: por exemplo, a química ou, também, a astronomia (...)"

Regge: (...) eu também achava que havia uma conspiração, que era o que se ensinava na escola. (...) Na verdade a ciência era tão mal ensinada que desencorajava mesmo os mais interessados. (...) A escola não me deu nada. Com o velho telescópio que o meu pai comprou num mercado de rua, aprendi a reconhecer todas as constelações; observei estrelas duplas, nebulosas anulares, os planetas, as galáxias. O meu professor de Ciências Naturais não estava minimamente interessado nestes assuntos.
 (43-54)
Levi: E, depois, [ na Universidade] o laboratório: todos os anos tinham o seu laboratório. Passávamos lá cinco horas por dia; era uma bela obrigação, uma experiência extraordinária. em primeiro lugar porque trabalhávamos com as mãos, literalmente, e foi a primeira vez que isso me aconteceu, sem nos importarmos se as escaldávamos ou cortávamos. Era um regresso às origens. A mão é um orgão nobre, mas a escola, toda preocupada com o cérebro tinha-a desprezado. (...) Era um trabalho de grupo, que, na escola precedente, era desconhecido (...). É uma experiência fundamental, cometer erros em grupo. Participa-se muito nas vitórias e derrotas mútuas. (...)
 (49-50)
Para mim, havia uma complicação, como contei nos meus livros: as leis raciais. A libertação universitária coincidiu com o trauma de me ser dito: cuidado, tu não és como os outros, na verdade vales menos que eles; tu és avarento, tu és um estranho, tu és sujo, tu és perigoso, tu és pérfido. (...)
 (50-51)
Regge: Outra qualidade rara de Wataghin era reconhecer num primeiro relance se uma pessoa era medíocre ou não.

Levi: Isso talvez não seja assim tão difícil, dados alguns parâmetros. deve pôr-se de lado sentimentos de simpatia ou antipatia. Sobretudo, simpatia. A simpatia é, muitas vezes, um meio de esconder a incompetência. A Itália está cheia de pessoas simpáticas que nada sabem dos seus ofícios. é uma operação básica ser capaz de avaliar a pessoa na sua frente, pesá-la. Suponho que, também entre os físicos, há aqueles que representam um papel.
(53)
Regge: (...) É designado por «redução dimensional», e postula a existência de uma quinta dimensão, para além das quatro do espaço-tempo. Um objecto move-se em três dimensões espaciais, mas também se deve mover na quarta, mesmo que não a consigamos ver. Esta quarta dimensão deve ter alguma coisa muito diferente das outras, já que estamos impedidos de a ver no sentido tradicional. A razão de esta percepção estar inibida é essa dimensão ser muito pequena. É o mesmo que percorrer um caminho que se fecha sobre si próprio, de modo que somos imediatamente devolvidos ao ponto de partida. Podemos comparar o espaço a um cilindro onde as dimensões normais se realizam ao longo do eixo do cilindro, enquanto a quinta dimensão completa uma volta em torno do cilindro. Uma volta incrivelmente curta, 10 -33 centímetros. (...)
(68)
Levi: Desenvolvi o hábito de escrever de forma compacta, evitando o supérfluo. Precisão e concisão, que, dizem-me, são a minha forma de escrever, surgiram-me da profissão de químico. E também o hábito da objectividade, de não me deixar enganar facilmente por aparências. (...)
Outra virtude que a profissão de químico desenvolve é a paciência, não ter pressa. Hoje, a química está completamente mudada; é química rápida. (...) Agora, acontece que, tal como nas escolas elementares decorre uma discussão sobre se as crianças devem ser ensinadas a usar uma calculadora em vez de fazerem a sua aritmética manualmente, para o químico surge a questão de avaliar se vale a pena ensinar o método de análise manual, a chamada análise sistemática, que exige muito tempo e também muito material. (...) Mas a análise manual, tal como o trabalho manual, tem um valor formativo, é demasiado semelhante às nossas origens, como mamíferos, para ser desprezada. No fim de contas, nós devemos saber usar as nossas mãos, os nossos olhos, o nosso nariz. (...)
Compreendi que hoje podemos, seguramente, viver sem um computador, mas é uma vida nas margens e condena-nos a ficar cada vez mais desligados da sociedade activa. Os Gregos diziam de uma pessoa inculta: «Ele não sabe escrever nem nadar.» Hoje, devia-se juntar: «Nem usar um computador.»"
(93-97)
(Levi & Regge, Diálogo sobre a ciência e os homens, Gradiva, 2012, tr. mui cuidada de E.L.)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Acender a chama

“Education is not filling a bucket, but lighting a fire.”

W. Keats,
via Plutarco, aqui.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Khan academy

O melhor que poderia acontecer a um estudante e for free: Khan academy.

(é só uma foto!)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Escola caverna

As escolas são cada vez mais como a caverna de Platão. Janelas fechadas, cortinas corridas e Powerpoints projectados. Se aceitarmos a analogia do sol/ conhecimento então estamos cada vez mais na escuridão/ignorância e adoramos as sombras projectadas. Acender a luz, abrir a janela e receber a luz do sol, ou até mesmo querer sair da sala, provoca dor e qualquer movimento nessa direcção merece reprovação imediata dos espectadores. Agrilhoados mas felizes.
É assustador pensar que todos os dias, à mesma hora e nos mesmos locais, milhares de crianças são lançadas na caverna da ignorância.

A imagem foi retirada daqui.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A educação pela multa

Primeiro, a nível nacional, declara-se a obrigatoriedade de permanecer na escola até aos 18 anos de idade. Como se uma pessoa a partir dos 15 anos não pudesse escolher o que quer, mesmo que isso vá contra os melhores princípios do socialismo. Como se não houvesse coisas melhores para fazer no mundo que não permanecer, na maior parte do tempo, sentado e calado. O Mundo está, felizmente, cheio de pessoas que abandonaram o ensino secundário e conseguiram vingar na vida. Ken Robinson quase que afirma que foi por causa de terem abandonado a escola, tão má que ela pode ser.

Segundo, a nível regional, multa-se os encarregados de educação dos alunos que faltam às aulas. É como prender uma pessoa sem ela ter feito nada e, se ela escapar, prende-se o pai ou mãe. Em eduquês designa-se a esse processo  "chamar os pais à escola" (clique). Tudo feito em nome da igualdade e do progresso. Os sindicatos não vêem nada de errado no processo. Não fosse ser uma coisa difícil de pôr em prática, para uns, e haver  falta de instrumentos, para outros, e tudo estaria bem.
 
Não é de agora que os cesarianos manifestam uma certa atracção pelo coima. Apreciam a ideia de multar as pessoas quando elas não são como eles. César já tinha apresentado a ideia de multar as pessoas que não votam. É uma forma de ensino /aprendizagem e eleva certamente a noção de cidadania. 

Éticamente é errado obrigar as pessoas a permanecer na escola contra a sua vontade porque as pessoas são diferentes umas das outras. E se alguém não quer fazer agora o ensino secundário porque quer ir formar uma banda de Rock, fazer surf, plantar legumes, ou outra coisa qualquer, devemos respeitar isso porque respeitamos a autonomia das pessoas, incluindo a dos jovens. A liberdade de seguir um caminho próprio é uma coisa boa, não só para as regiões, mas também para as pessoas individualmente. Os socialistas regionais, sempre que defendem a autonomia regional contra o centralismo da República, como eles gostam de dizer, fariam melhor em começar por defender a autonomia das pessoas dentro da Região. Certamente isso lhes traria maior credibilidade.  

(LFB)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011


"
A criança
é feita de cem.
A criança tem
centenas de línguas
uma centena de mãos
uma centena de pensamentos
cem maneiras de pensar
brincando e conversando
cem sempre cem
maneiras de ouvir
admirar, amar
uma centena de alegrias
para cantar e compreender
uma centena de mundos
para descobrir
uma centena de mundos
para inventar
uma centena de mundos
para sonhar.
A criança tem
centenas de línguas
(e mais cem, cem, cem)
mas roubaram-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
separaram a cabeça do corpo.
Disseram-lhe para:
pensar sem as mãos
fazer sem a cabeça
ouvir e não falar
compreender sem alegrias
amar e maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Disseram-lhe para:
descobrir o mundo que já existe
e das centenas
roubaram-lhe noventa e nove.
Disseram-lhe
jogar e trabalhar
realidade e fantasia
ciência e imaginação
o céu e a terra,
razão e o sonho
são coisas
que não andam juntas.
Disseram-lhe
que as cem não existem.
E a criança diz:
Nem pensar. As cem existem.

"

(Loris Malaguzzi,  fundador do método de educação pré-escolar conhecido como Escola Reggio; in Ken Robinson, The Element - How Finding your passion Changes Everything, Viking, 2009, pp. 242-243. Trad. LFB)

sábado, 3 de setembro de 2011

Contradições ambientalistas

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Quando reflectimos sobre o pensamento ecológico - quer seja nas políticas ou nas acções ambientalistas - encontramos contradições de diversa ordem. Gostamos de alguns animais e comemos outros, essa é a contradição mais óbvia. Mas há outras: somos  todos ambientalistas/ecologistas mas não fazemos nada, ou fazemos muito pouco, para alterar a criação intensiva de animais (no mundo civilizado são 450 biliões de animais todos os anos, alimentados com rações geneticamente modificadas e com antibióticos à mistura, com mobilidade restrita e criados em ambientes doentios). Somos contra os transgénicos mas alimentamos os nossos animais com rações transgénicas (da próxima vez que comprar rações feitas nos Açores verifique o rótulo). Gostamos de gatos, mas quando são mortos nas estradas nada fazemos - nas estradas açorianas não há um único sinal de informação sobre o perigo de atropelamento de animais, domésticos ou não, que atravessam as estradas. Como ecologistas, defendemos os touros, mas comemos as vacas. Temos campanhas públicas anuais de protecção do cagarro, mas permitimos pacificamente a morte de ouriços-cacheiros nas estradas. Alguém sabe qual desses animais é o mais desprotegido e ameaçado? O ouriço não parece estar em extinção, mas está muito mais presente na nossa vida, enquanto animal morto, do que o cagarro. Olhemos um pouco para o caso do ouriço-cacheiro[1]. Apesar de, na Grã-Bretanha, estar entre os animais de jardim preferidos, a sua população está a cair abruptamente. Decresceu para metade nos últimos 15 anos e, a continuar assim, em 2030 não haverá ouriços-cacheiros ingleses. Apenas 1 em cada 100 chega aos cinco anos, e 15000 são esmagados todos os anos nas estradas britânicas. Mesmo os bem-intencionados podem contribuir para a morte dos ouriços se, quando encontram um no seu pátio, lhes dá pão e leite o que lhes pode provocar uma diarreia mortal. A melhor forma de ajudar um ouriço é soltá-lo na horta: um só ouriço consegue comer até 250 lesmas numa noite! O seu nome – cacheiro – sugere aquele que dissimula ou engana, mas que animal terá capacidade para enganar um automóvel? Não deveria este animal ser - pelo menos com tanto empenho quanto o cagarro - também defendido através de campanhas públicas?
Um exemplo mais geral. É a ciência quem deve dizer aos políticos o estado do ambiente. A nível mundial essa é uma tarefa do PIAC - painel intergovernamental para as alterações climáticas que, em 2007, conjuntamente com Al Gore, ganhou o Nobel da paz. Mas o que se viu no caso climategate - onde dados que falsificavam as conclusões e previsões catastrofistas do painel foram ignorados e afastados - foi a política a dizer à ciência como é que o ambiente deve estar. Isto não significa que o planeta esteja, ao contrário do que afirmam os cientistas (os mais e os menos éticos), bem. O planeta está mal e existem factos inegáveis. O número de espécies em vias de extinção ou já desaparecidas é assustador. Os tigres, por exemplo, estão em vias de extinção. E é custoso imaginar um mundo sem tigres. O problema é que alguns cientistas também estão mal e descredibilizam a ciência ao ponto de lançarem a dúvida sobre se a ecologia não será também uma farsa. Como mostrou o caso climategate, a ecologia tem sido aproveitada politicamente, o que significa uma prevalência da fantasia/aparência sobre a real motivação para mudar o mundo. Um das razões para explicar isso pode ser porque “há cada vez mais e mais cientistas a quererem ser políticos”[2].
Um terceiro e último caso, talvez o mais flagrante, é o da alimentação. Existem muitas razões para uma pessoa mudar os seus hábitos alimentares (éticas, religiosas, estéticas). Vejamos uma razão que tem sido pouco explorada que é a ecológica ou ambiental. Todos sabemos dos problemas ambientais do nosso planeta. Mas qual o contributo da alimentação carnívora para esses problemas? Que sentido é que faz ser ecológico e não ser vegetariano? Quando se questiona as pessoas sobre qual a causa do aquecimento global, todos referem a poluição, mas poucos falam na produção de carne[3]. Mas a verdade é que 18 % da poluição total é causada pelos efeitos da criação intensiva de animais (metano e tudo o resto: impacto na água e na biodiversidade; proliferação de vírus...) De todos os cereais produzidos, 40 a 50% são comidos por animais, 75 % no caso da soja. São precisos 7 quilos de grão (milho e soja) para fazer um quilo de carne. E para isso são precisos campos e para ter campos é preciso desflorestar. É por isso que a floresta da Amazónia está a desaparecer. Num ano uma vaca produz tantos gases com efeito de estufa quanto um carro que viaje 70.000 km – mais de uma volta e meia ao planeta terra. Para produzir carne são precisas 10 vezes mais terra do que para produzir vegetais. À medida que as populações aumentam, aumenta também o consumo de carne. Por consequência, aumentam também as emissões de gases com efeito de estufa. Um europeu come, em média, durante a sua vida, 1800 animais. Calcule-se o efeito, se todas as pessoas no mundo fizessem o mesmo. As florestas estão a desaparecer; a biodiversidade, a água, tudo isto é posto em causa pela produção animal. Um vegetariano num jipe produz menos emissões de carbono do que um carnívoro num carro híbrido (mais um sinal do politicamente correcto, mas ecologicamente ineficaz). Se tudo isso é verdade, porque não se fala mais da relação entre o aquecimento global do planeta e a produção intensiva de animais? Por que não é a criação intensiva de animais mencionada uma única vez no filme “uma verdade inconveniente” de Al Gore? Talvez porque ele é também um produtor de carne e estaria, de forma silenciosa, a proteger a poderosa indústria de produção de carne norte-americana. Outro interessante envolvimento entre política e ecologia.
Mas não precisam os seres humanos de comer carne e de beber leite? A resposta inequívoca é não[4]. A ideia de que precisamos de comer carne e leite todos os dias é gerada, em grande parte, pela propaganda. Reduzir o consumo de produtos animais não nos fará grande mal, pelo contrário, poderá até reduzir algumas doenças mortais. Quando é que vamos começar a fazer as contas aqui nos Açores, onde a produção de carne (aves, porcos e vacas) em ambientes fechados começa a ser significativa? E por que não há alimentação vegetariana nas eco-escolas? A resposta está em parte na desinformação. Comemos o que nos dão, sem nos preocuparmos muito com os efeitos desastrosos da alimentação. O pensamento ecológico dominante parece mais uma questão de ser politicamente correcto, de marcar a diferença seguindo a moda ecologista, do que a afirmação de uma real preocupação com o planeta em geral e com os animais em particular. Se queremos manifestar alguma coerência entre as nossas crenças ecológicas e as nossas atitudes então deveremos comer menos carne. Individualmente deveremos fazer um esforço para, pelo menos em algumas refeições semanais, encontrar uma alternativa vegetariana. Em termos colectivos, as instituições públicas têm uma grande responsabilidade e uma forma de se mostrarem empenhadas em apresentar soluções seria, por exemplo, instituir um dia por semana de comida vegetariana nas escolas, nos lares de idosos, nos hospitais, etc. Por último, uma boa dose de pensamento céptico e crítico talvez nos possa impedir de embarcar em euforias ecológicas não fundamentadas.


[1] As informações sobre o ouriço foram retiradas de Lloyd e Mitchinson, O Livro da Ignorância sobre o Mundo Animal, Casa das Letras, 2010, pp.145-146.
[2] Der Spiegel, edição online, acedida em 14 Abril 2010.
[3] Muitas das informações a seguir apresentadas foram retiradas do filme “MEAT THE TRUTH - Uma Verdade Mais Que Inconveniente.
[4] Sobre a mudança para uma dieta vegetariana vale a pena ler o livro de Jonathan Safran Foer, Comer Animais, Bertrand, 2011.
 [Texto publicado no jornal da Gê Questa - Associação de defesa do ambiente, primavera de 2011. Edição on line aqui.] 
LFB

quarta-feira, 30 de março de 2011

Xadrez na Escola



Uma forma barata e divertida de estimular as capacidades de concentração, antecipação e pensamento crítico das crianças com benefícios vários, nomeadamente, no que toca à matemática e à leitura.
Ao que parece, o xadrez faz parte do currículo escolar de cerca de 30 países.

"Por vezes esquecemos que as crianças do segundo e terceiro anos de escolaridade gostam muito de desafios e de pensar que são inteligentes." (Wendi Fischer, directora do programa First Move, implementado em 27 Estados norte-americanos).
(DO)