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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os velhos professores

Foram precisos dez anos anos para que os responsáveis pela Educação Regional emendassem o erro de obrigar os professores com muitos anos de serviço, nas suas horas de redução lectiva, a permanecer nas escolas. Violentados e perseguidos por campaínhas desenfreadas saídas da rigidez das fábricas, jovens ruidosos, colegas rancorosos e funcionários obedientes e prontos a marcar a respectiva falta (falta a quê?), os velhos professores foram-se retirando. Uns para a doença, outros para a morte; os restantes foram envelhecendo mais e aguentando. Estes vêem agora alguma justiça reposta (não toda porque o mal está feito e porque ainda não podem sair da escola em todas as suas horas de redução; a burocracia continua e o critério de separação entre as horas que têm que ficar na escola e as que não têm continua vago e condicionado à decisão de quem faz os horários). Assisti à violência, mas não calado (aqui). E não falo directamente de mim. Não tenho reduções e quem sabe se chegarei a velho. Comecei a dar aulas com um horário de 20 horas lectivas. Hoje tenho 22 horas (trabalhar à noite deixou de ser trabalho nocturno!) mais quatro de trabalho escolar que preencho, no exterior, praticando agricultura biológica. Não é da competência da política educativa reconhecer a importância pedagógica das hortas, dos pomares e dos jardins nas escolas. Por enquanto ainda estão ao nível do relvado que ninguém deve pisar.
Rogam-nos pela qualidade do ensino, subscrevendo tacitamente a inevitável técnica do balde (como o prova a eliminação da Área de Projecto, (aqui) disciplina do 12º ano, que incentivava a capacidade crítica, criatividade e autonomia): o professor despeja a matéria para os alunos que, depois de mastigada e resumida pelo google, a despejam nos testes. Ouvem-se, de vez em quando, vozes que assinalam a falta de empenho dos alunos; que andam apáticos, sem interesse, sem criatividade. Fechados na caverna (aqui e aqui) que outra coisa se poderia esperar? A solução, que nos deixa, por ora, descansados, vai variando nas designações e no formato, mas no essencial é a mesma de sempre: apontar em documentos oficiais o número correspondente às actividades que cada uma das partes terá que realizar para que todos tenham sucesso. Assunto encerrado.
Agora que, por aqui, se vai percebendo que humilhar e ofender não é forma de tratar professores, chega silenciosamente a permissão de passar algumas das horas de redução lectiva fora da escola. Obrigado!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

professores desempregados nos Açores

Com dezenas de professores contratados no desemprego - e isto sem contar com os professores universitários que também estão aflitos -, com turmas com mais de 25 alunos (uma das muitas formas de promover, de forma encapotada, o desemprego e a degradação do ensino), já se começa a ver a qualidade das vitórias anunciadas no início do Verão pelos sindicatos de professores da RAA. Despedimentos tout court ainda não houve. Mas levar ao desemprego, silenciosamente, pessoas com vários anos de serviço, porque se mudam para pior as regras do jogo, não está muito longe disso.
Veja-se aqui a notícia da semana passado do jornal Público que anuncia protestos, não de sindicatos, mas de grupos de professores.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sendo professor nos Açores, porque faço greve?

Com a greve às reuniões de avaliação pairou no ar a sensação de que havia uma união, não só entre sindicatos de professores mas, sobretudo, entre os professores - mesmo os que no passado afirmavam que a greve era inútil, desta vez estavam mais acordados - no sentido de evidenciar a constante degradação e instabilidade da vida docente. Mas tal sensação, se era real, foi quebrada, na sexta-feira passada, pelas declarações dos sindicatos de professores dos Açores que, congratulando-se, se desvincularam da greve nacional.

O que receberam em troca desse recuo foi pouco ou nada. O governo regional declarou que, enquanto não houver excedentários, não haverá despedimentos (em novilíngua mobilidade especial) nas escolas açorianas - esperem pela ordem do ministério das finanças e vão ver os excedentários a aparecer - e comprometeu-se a não aplicar medidas piores do que as que serão aplicadas nas escolas do continente. É muito mau o que se vai passar nas escolas do continente. Logo, aqui também será, pois o compromisso não é o de que será melhor!

A pequenez intelectual de sindicalistas e governantes fê-los cair no filme da vitória política dividida por todos. Agora, vitoriosos, podem ir à almoçarada.

O facto é que -  depois de Carlos César ter assinado* a submissão dos Açores, por 10 anos, à política do ministério das finanças - a capacidade de legislar autonomamente sobre o que quer que seja  se tornou muito difícil. Então para que queremos um governo regional tão volumoso? É preciso? E até quando?

Como mostra o nosso passado recente, aquilo que os políticos dizem não se escreve. Os despedimentos podem não acontecer, para já, mas a destruição do que resta da dignidade do trabalho público continua: a perda de direitos sociais (por exemplo, acompanhar um pai incapacitado a um exame médico ou adoecer por poucos dias implica perda total de vencimento); uma avaliação fantoche - um dos muitos exemplos em que a educação nos Açores é pior - que já só serve para a humilhação constante dos professores contratados que todos os anos estão obrigados a aulas assistidas e, só para dar mais um exemplo, a inexistência  de uma carreia decente. Nos últimos anos o que tem acontecido é uma inversão do percurso normal de um professor:  à medida que se fica mais velho, com mais qualificações, trabalha-se mais horas e ganha-se menos.

Uma trivialidade democrática: as greves são feitas para, por questões de justiça, ou falta dela, mostrar a força de uma das partes. E, por isso, prejudicam as pessoas. Uma das consequências da greve aos exames é prejudicar aqueles que vão fazer exames. Queriam greve num dia em que os grevistas não fossem necessários? Para além do mais, fazer greve às aulas é, objectivamente, muito pior do que fazer greve a reuniões e a exames. Estes acabarão por se fazer, enquanto aula que não é dada é aula eternamente perdida. Por essa razão, não percebo muito bem os que vêm, em nome dos alunos, afirmar que é inadmissível fazer greve aos exames. Estejam descansados, os alunos irão realizar os exames, mais dia menos dia. E quem estuda sabe, logo está preparado para fazer o exame seja ele feito no dia em que está marcado, ou alguns dias depois.

O problema é que, no passado, se marcaram muitas greves sem consequências negativas (em novilíngua: greves simbólicas). Pelo contrário, muita vezes os alunos dedicavam-se a interrogar os professores,  na ante-véspera, para descobrir quem iria faltar para, com essa informação,  equacionarem a possibilidade de não ir à escola.

Esta greve, não fora a saída dos sindicatos regionais, teria sido uma grande oportunidade para marcar, não uma vitória agora, porque essa sabemo-la difícil, mas um sinal de força e de união para o que há-de vir. Os que assim não quiseram mostraram, mais uma vez, a sua fraqueza.

Para se perceber que a coisa não é de agora, leia-se o que eu pensava em 2005!

*Compromisso assumido à socapa e pouco antes de sair do governo dos Açores, não sem antes desfilar na feira quinhentista da Ribeira Grande. Veja o desplante aqui. César é agora presidente honorário vitalício do PS Açores numa eleição em que foi o único candidato ao cargo que ele próprio criou. Um verdadeiro imperador!

Acrescento, em 25 de Junho de 2013:
Os comentários fizeram-me bem.
A todos, incluindo as pessoas com quem debati  e bebi previamente o assunto, fico muito agradecido. Bem hajam!
Quando se lê: "comentário foi removido pelo autor", entenda-se removido pelo autor do comentário, e não por mim.

sábado, 19 de maio de 2012

Redacção da RTP/Açores denuncia tentativas de condicionamento

"O Conselho de Redacção da RTP/Açores (TV) denunciou, neste sábado, ao Sindicato dos Jornalistas duas alegadas tentativas de condicionar o trabalho dos jornalistas da empresa, uma das quais envolve um membro do Governo dos Açores.

Este órgão representativo dos jornalistas da televisão açoriana acusou o secretário regional dos Equipamentos, José Contente, de "procurar condicionar" e de "interferir abusivamente" no trabalho da equipa de reportagem que fez a cobertura dos estragos provocados pelo mau tempo na zona da Bretanha, em S. Miguel, a 11 de Maio.

Segundo o Conselho de Redacção, José Contente "tentou persuadir a equipa de reportagem a não enviar para Lisboa um bloco de imagens em bruto que incluíam um depoimento da presidente da Câmara de Ponta Delgada e procurou impor a sua presença em directo no 'Telejornal' da RTP/Açores, depois de gorada uma intervenção no 'Telejornal' da RTP 1, que não se realizou por Lisboa se ter  desinteressado desse directo”." Daqui

É grave, mas não surpreende. Quantas vezes não terá a pressão sido eficaz?
Por sugestão do jornal das 22, da RDP Antena 1.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O embuste legislativo (Açores e transgénicos)

A proposta de decreto legislativo regional (DLR) ontem aprovada no parlamento regional dos Açores -  “declara o território da Região Autónoma dos Açores como zona livre do cultivo de organismo genética modificados” (art. 1) -  é um embuste político.

Ao contrário do que se pretende fazer crer, a região não ficará livre de OGM.  Primeiro porque já há nos Açores 200 hectares de milho transgénico plantado e, que eu me tenha apercebido, em nenhum lugar se diz que esse milho deve ser arrancado. Segundo, porque é o próprio diploma que permite o cultivo experimental de OGM. Se existirem “razões ponderosas e de manifesto interesse público que obriguem à produção ou introdução, para fins de investigação científica ou desenvolvimento tecnológico” (art. 5) então a autorização do cultivo é possível.

Mas quem terá tais razões a apresentar? Essas razões virão, mais cedo do que tarde, de pretensos cientistas que, disfarçando o financiamento de projectos de engenharia genética sob o manto do interesse público, vêem assim as suas intenções salvaguardadas na lei.

Mas não só a cientistas destemidos agrada o DLR aprovado. Sobretudo em vésperas de eleições é preciso agradar a todos ou, pelo menos, à maioria. E desta não poderiam ficar de fora os agricultores que, num dos seus pareceres (o dos jovens agricultores micaelenses), consideram as sementes geneticamente modificadas  “mais uma ferramenta a usar na agricultura”. Movidos pela eterna promessa de produzir mais e mais barato, os agricultores não querem perceber que são os mesmos que lhes venderam a  “boa ferramenta” dos pesticidas que agora lhes prometem a solução para o mal de pesticidas. Da mesma maneira que os pesticidas não resolveram o problema das pragas também os transgénicos não resolverão o problema dos pesticidas. Sobre isto os agricultores teriam muito a ganhar se ouvissem, não os publicitários da Monsanto, mas os seus pares agricultores; precisamente aqueles que já passaram pela experiência de comprar sementes transgénicas.




Por conseguinte, tudo ficará como estava. Quando olharmos para o mapa europeu das zonas agrícolas livres de transgénicos  continuaremos, infrutiferamente, à procura do arquipélago dos Açores.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

eleitos e ofendidos

Alguns parlamentares regionais mostraram-se ofendidos pela facto de ter circulado nos jornais, na rádio e na blogosfera a ideia de que os partidos não eram contra a subida irracional do número de deputados a eleger para o parlamento açoriano. Um deles afirmou que não aceitava lições de ninguém e outro diz ser pessoa muito séria. 
A acusação até pode ser um pouco injusta. No entanto, ficam algumas questões. Se não tem havido uma denuncia pública da irracionalidade, será que os partidos, por si, decidiriam actuar? Se sim, porque não o fizeram no passado, quando irracionalidades semelhantes aconteceram? Fica-se também com a sensação de que o problema foi adiado mas não resolvido, uma vez que a alteração proposta só vigorará nas próximas eleições. Veremos que propostas de alteração da lei eleitoral e do sistema de representação surgirão depois das eleições.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O sistema eleitoral da RAA

Em pequena entrevista, na última página do Diário Insular (20 Mar 012), o professor Carlos Amaral diz coisas certeiras sobre os problemas graves do sistema eleitoral açoriano:

"Nada obriga a Assembleia regional a crescer - a não ser a nossa vontade. (...) Um travão é absolutamente essencial para garantir um mínimo de racionalidade."


Comentário 1: Que a irracionalidade rege o sistema eleitoral já aqui foi registado. Com um sistema eleitoral onde parece impossível saber que deputado é que representa que eleitor - uma vez que não se vota em pessoas, mas sim em partidos - fica a questão de saber como é que "a nossa vontade" pode ser expressa de forma a impor a racionalidade. Um sistema irracional perpetua eternamente a irracionalidade, ou não?

"O modelo misto [vota-se e, como que por magia, são eleitos os deputados e os governantes, digo eu] que enforma o sistema eleitoral açoriano justificou-se numa determinada conjuntura histórica de arranque do processo autonómico. Há muito porém que deixou de servir."

Comentário 2: a história é quase sempre uma boa forma de justificar o injustificável.

"De duas uma: Ou as nossas ilhas são importantes, ou não são. Se são importantes há que assegurar a sua representação política (...) Se não são, então a única representação política que é necessária é estritamente demográfica (...). Por mim entendo que as ilhas são muito importantes para a nossa identidade como povo. Por isso defendo a reorganização da Assembleia regional em duas Câmaras: um Senado, de representação das ilhas e um Parlamento de representação estritamente demográfica. Por outro lado, entendo ainda que a actividade parlamentar regional não constitui actividade a tempo inteiro (...). Ela é perfeitamente compatível o exercício de actividades profissionais próprias. Ser deputado não pode ser uma profissão. Muito menos permanente! Antes, é actividade de cidadãos. Não de uma classe política, mas de todos os cidadãos, alternadamente."

Comentário 3: Está muito bem. Mas é toda uma visão da política que está errada. O lugar de deputado é a tempo inteiro (ainda que se tenha inventado a rotatividade, uma espécie de vou ali e já venho) e é emprego bom, bom, bom.
Para além do mais não se percebe como é que isso resolveria o problema do aumento constante de deputados eleitos. Não é apenas preciso reorganizar as formas de representação é também necessário reformular o sistema artificial de eleição dos representantes. 
E estamos cheios de reformados da política que nunca fizeram outra coisa que não política. E estamos cheios de jovens políticos que nunca farão outra coisa que não política. E há muitos à espera de um lugar. A política não só é profissão, como há, nos políticos, uma consciência de classe que os leva a auto e hetero protegerem-se. Longe vai o tempo em que para se praticar a política era preciso ter dado provas de honestidade, coragem e decência. Sobretudo, já ter resolvido as questões da casa (eco-nomos). Hoje basta ter gravata e um partido do arco como alavanca.

"Os partidos, convém ter presente, são instrumentos ao serviço da sociedade. Não lhes cabe, portanto, "abrir mão" do que não é deles. Não é aos partidos que cabe determinar o que é que os açorianos querem, mas aos próprios açorianos. A não ser, claro, que estes se demitam."

Comentário 4: Ok. Mas essa dos "próprios açorianos" é que parece não ter saída, ou então ser circular. Quem pergunta aos "próprios" o que eles querem? Os partidos. E como é que se faz essa pergunta? E como é que se faz com que os "próprios" compreendam a pergunta? Através dos partidos. É pois mais verossímil ser a sociedade um instrumento dos partidos.
E não me parece que "os próprios" se possam demitir, pois acredito que a política é parte essencial da natureza humana, quer se queira, quer não. Essa parte pode estar adormecida, mas voltará. Aceitam as coisas como são, sabem que os políticos, os partidos, os sistemas, são necessários. Mas não sabem bem porquê. O povo - ou as "nossas gentes" como agora dizem, pois 'povo' tem sabor a democracia popular e a referendos e a deliberações demoradas, tudo coisas boas mas não já - é soberano, mas vá-se lá sabe o que é que isso significa.
Bom era mesmo uma democracia deliberativa, uma democracia onde cada político se sentisse na obrigação de apresentar e discutir com todos as razões para as suas políticas. E isso continuamente e com calma. Acreditar que só porque se foi eleito governante se ganha legitimidade para se fazer o que bem se entender não parece justo nem desejável. E depois há que perguntar: se foi eleito para governar por quatro anos, quem lhe deu legitimidade para contrair dívidas, em nome de todos, por trinta anos?


segunda-feira, 19 de março de 2012

os representantes dos mortos

O serviço público de comunicação dos Açores já está a divulgar o inevitável crescimento do número de deputados na próxima legislatura - mais cinco deputados serão eleitos em Outubro. O absurdo é que, segundo os últimos censos, a população açoriana diminuiu. Mas o número de eleitores nos cadernos eleitorais aumenta. Os mortos não deixam de ser eleitores e os emigrantes têm todos direito a cartão de eleitor. Em vez de se propor uma solução para o problema - o que se calhar até diminuiria o número actual de deputados, número que é já elevado e tem vindo a aumentar (veja aqui) - transforma-se o erro numa necessidade. É discutível se os mortos continuam, ou não, a ter interesses e direitos, mas na assembleia legislativa regional haverá quem os defenda. Esses cinco novos deputados serão os representantes dos mortos e dos ausentes. Os partidos e os seus líderes fazem contas e esfregam as mãos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os fóruns taurinos

Corre, no ciberespaço regional, um protesto contra o "II fórum da cultura tauromáquica" a acontecer na ilha Terceira, no próximo fim-de-semana. Os convidados são, como no primeiro que até incluiu um filósofo, de alto nível. Pena é que nunca se tenham lembrado de convidar alguém que discorde da cultura taurina. A ausência de contraditório é sempre criticável, ainda para mais num fórum.

Dizem-nos que devemos protestar contra a realização do fórum porque esse acto será mais um passo para a aprovação da sorte de varas e, posteriormente, para as aceitação das corridas de morte.

Querer impedir a realização do fórum é como querer impedir as crianças de jogar jogos violentos no computador, porque se tornarão pessoas violentas e anti-sociais.

Até pode ser verdade que os defensores das touradas pretendam voltar a submeter, no parlamento regional, nova proposta legislativa, mas ninguém pode ser condenado por coisas que ainda não fez (se bem que o filme Repórter Minoritário coloca questões éticas pertinentes sobre o tema). Ainda para mais, a discussão sobre a cultura dos toiros - o exercício da liberdade de expressão - não provoca sofrimento a ninguém, se descontarmos o causado aos autores do protesto.

É verdade que as campanhas pró-toiro, desde que a tentativa de legalização da sorte de varas chumbou no parlamento regional, têm sido de elevada qualidade. O I fórum, o grande monumento ao toiro, os prémios em Espanha, os outdoors com os Açores suportando os cornos da europa e das américas, etc.

Outra questão, porventura mais importante e também realçada no referido protesto, é a de o Fórum  ser pago com dinheiros públicos. Por um lado, gostaríamos que a aplicação dos dinheiros públicos fosse melhor gerida e é defensável que os dinheiros públicos não devem ser usados para suportar tertúlias que organizam eventos contestáveis. Por outro lado, compreendemos (mas não apoiamos) pois a política vigente tem sido a de apoiar tudo o que possa oferecer alguma recompensa política; desde telenovelas na TVI, a edição de discos e dvd's, a congressos de todo o género, a monumentos desmesurados  e a jornais (já agora aproveito: se os jornais regionais são subsidiados publicamente, não deveriam estar disponíveis gratuitamente na internet?). Aquele que estiver disposto a dispensar o seu apoio que se levante e atire a primeira pedra!

Recusar esse apoio seria indefensável para um governo que, pelo menos até 2013, tudo apoia.

O ponto mais importante da discussão ética sobre o sofrimento animal volta a estar ausente. É que a questão do sofrimento dos toiros é mínima quando comparada com o sofrimento dos animais que são barbaramente criados para alimentação. E as coisas não são separáveis como muitos, fugindo a sete pés da questão, querem crer. As vacas, os porcos e as galinhas sofrem muito mais durante a sua curta vida e de maneira mais cruel do que qualquer toiro. Este sofre, é verdade, mas na maior parte dos anos da sua vida vive bem e sem dor. O mesmo já não se pode dizer dos outros (outra nota: anda aí um curioso outdoor ( fora da porta?) que diz que determinado produto vem da vaquinha que eu conheço; um dia escreverei sobre essa vaca). Portanto, se queremos diminuir o sofrimento, o melhor é começar por, ou simultaneamente, incentivar o abandono da alimentação baseada em carne produzida em regimes intensivos.

Da mesma maneira que não se pode proibir, sem mais nem menos, as pessoas de comerem carne vinda de animais criados de forma cruel - não se pode impedir que a criança jogue ao computador enquanto come um cachorro quente e o pai escreve um mail de protesto contra as touradas - também não se pode proibir, tout court, a existência de uma cultura taurina. Talvez se devesse começar por defender uma idade mínima de admissão a esses espectáculos e uma informação clara e rigorosa sobre a natureza da sua violência. Se os filmes e até os livros têm idade mínima permitida, porque não hão-de ter as touradas?

(LFB)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A educação pela multa

Primeiro, a nível nacional, declara-se a obrigatoriedade de permanecer na escola até aos 18 anos de idade. Como se uma pessoa a partir dos 15 anos não pudesse escolher o que quer, mesmo que isso vá contra os melhores princípios do socialismo. Como se não houvesse coisas melhores para fazer no mundo que não permanecer, na maior parte do tempo, sentado e calado. O Mundo está, felizmente, cheio de pessoas que abandonaram o ensino secundário e conseguiram vingar na vida. Ken Robinson quase que afirma que foi por causa de terem abandonado a escola, tão má que ela pode ser.

Segundo, a nível regional, multa-se os encarregados de educação dos alunos que faltam às aulas. É como prender uma pessoa sem ela ter feito nada e, se ela escapar, prende-se o pai ou mãe. Em eduquês designa-se a esse processo  "chamar os pais à escola" (clique). Tudo feito em nome da igualdade e do progresso. Os sindicatos não vêem nada de errado no processo. Não fosse ser uma coisa difícil de pôr em prática, para uns, e haver  falta de instrumentos, para outros, e tudo estaria bem.
 
Não é de agora que os cesarianos manifestam uma certa atracção pelo coima. Apreciam a ideia de multar as pessoas quando elas não são como eles. César já tinha apresentado a ideia de multar as pessoas que não votam. É uma forma de ensino /aprendizagem e eleva certamente a noção de cidadania. 

Éticamente é errado obrigar as pessoas a permanecer na escola contra a sua vontade porque as pessoas são diferentes umas das outras. E se alguém não quer fazer agora o ensino secundário porque quer ir formar uma banda de Rock, fazer surf, plantar legumes, ou outra coisa qualquer, devemos respeitar isso porque respeitamos a autonomia das pessoas, incluindo a dos jovens. A liberdade de seguir um caminho próprio é uma coisa boa, não só para as regiões, mas também para as pessoas individualmente. Os socialistas regionais, sempre que defendem a autonomia regional contra o centralismo da República, como eles gostam de dizer, fariam melhor em começar por defender a autonomia das pessoas dentro da Região. Certamente isso lhes traria maior credibilidade.  

(LFB)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Hoje de manhã, na rádio, uma desconhecida deputada pelos Açores à Assembleia da República afirmava que todos os açorianos anseiam pela continuidade do modelo actual de programação da RTP Açores.
Eu, sendo açoriano, venho afirmar que não só não anseio pelo continuidade da RTPA como me parece que nenhum governo deveria ter qualquer poder sobre as televisões; o que equivale a dizer que a televisão deveria ser privatizada. Não é isso que está para acontecer, mas sim a redução para quatro horas de programação realizada nos Açores, o que é mais do que suficiente.
O grande problema para os políticos açorianos não é, como agora apregoam, o governo "lá de fora" estar a pôr em causa o valor imprescindível da RTPA para a prestação do serviço público dos meios de comunicação. Se assim fosse, seria natural vê-los também procurar saber qual o nível de audiências da RTPA. E assim esclarecer as pessoas sobre o valor real desse dito serviço público. Mas ninguém quer saber do nível de audiências da RTPA, e isso talvez se deva ao facto de  ninguém ver a RTPA - a não ser a população mais isolada, mais pobre e mais envelhecida e, por isso, mais facilmente influenciável que, desejando saber qual o tempo que irá fazer amanhã, acaba por ver as últimas inaugurações e as últimas ideias brilhantes dos cesarianos sempre com umas cores a dançar em pano de fundo.
O grande problema é que um dos mais eficazes instrumentos de controlo político deixará de estar disponível para os governantes exercerem a sua manipulação. Sobre isto basta ver o tratamento indigno que foi dado, por parte dos governantes açorianos e por parte dos jornais locais, aos representantes da Entidade reguladora para a comunicação Social quando, ainda há bem pouco tempo, cá estiveram a dizer que havia intromissões políticas no tratamento dos noticiários televisivos.
Até hoje a RTPA tem servido para veicular as mensagens do partido no governo e para mascarar os problemas da sociedade. Veja-se como ex-funcionários da RTPA foram parar a assessores do governo. Tem servido para - com a desculpa do serviço público e do valor cultura açoriana para os próprios açorianos - passar muito dinheiro para o bolso de poucos, alguns deles reformados da própria RTPA. Agora que o dinheiro está a acabar, uns dirão que já não querem mais, que é tempo de dar lugar aos mais novos. Outros, clamarão pelas virtudes da TV pública. Por mim, podem reduzir já a emissão que ninguém dará por isso.

(LFB)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Alto lá! Cesarianos.

Há dias, no Diário insular, Carlos Bessa publicou um excelente artigo de opinião onde denuncia a inanidade da última ideia de César e da sua equipa educativa: a criação de plano regional de leitura com obras escritas por autores regionais que receberiam dinheiro público para escreverem livros a incluir naquele plano. A ser verdade, a coisa é muito grave.

A AÇORIANITE - o vírus político e propagandístico de que tudo o que nos Açores se faz é muito bom desde que seja feito para e pelas "nossas gentes" (pode incluir continentais prestáveis e, sobretudo, que gostem muitos das ilhas) - atingiu o ponto de pandemia regional que só uma terapia universal à base de muito Huxley, Kafka e Orwell nos poderá salvar.

Já não bastavam as contradições de um curriculum regional com alterações subjectivas - quer dizer sem nenhuma razão aparente, sem estudo prévios, sem sequer uma bibliografia - da carga horária de algumas disciplinas e com a inclusão no programa da disciplina de Cidadania de uma coisa chamada “empreendedorismo”. Curriculum aprovado contra todos, mas não sem antes pedir parecer a todas as partes interessadas. É esta a pedagogia exemplar dos políticos da cidadania: parecer que se ouve é igual a ouvir.

Já não bastava a publicidade hilariante e enganosa - não fosse brincar com o dinheiro dos outros uma coisa séria - feita a objectos de qualidade duvidosa como, por exemplo, um hotel de cinco estrelas na Praia da Vitória com 50 % pago pelo governo regional - já está de pé! - e anunciado, na RTP Açores, pelo empresário como "um empreendimento" (aonde é que já ouvi este som?) "garantido, agora que a crise já está a passar" (isto em Março de 2010)! Exemplar Cidadania!

Já não bastava a nebulosa Academia da juventude (cinco milhões pagos pela Câmara da Praia da Vitória e um milhão pago pelo governo) que ainda ninguém percebeu para que vai servir. Não deveria ser ao contrário, primeiro saber o que é preciso e depois fazer? Já não bastava ter a televisão regional ao serviço de César e a RDP1 silenciada como parte do jogo de apagar da consciência açoriana a ideia de que existe uma coisa chamada Portugal e da qual nós somos parte. Já não bastava a opinião dos especialistas a indicar que a construção (de estradas, edifícios com nomes pomposos, marginais, portas do mar, et cetera) não implica desenvolvimento efectivo mas sim endividamento efectivo e prolongado de várias gerações. Teria sido útil, por exemplo, perguntar às pessoas do concelho da Praia da Vitória se queriam investir parte do seu futuro e dos seus filhos naquelas construções. Já não bastava sabermos que os Açores são a região mais pobre do país (50 mil pobres e 50 mil vulneráveis à pobreza).

Já não bastava a doutrinação silenciosa da qual emerge a JUVENTUDE CESARIANA apaziguada, obediente e acrítica (o contrário de uma juventude saudável) que, em conjunto com os seniores e sob a presidência de César, vai preenchendo o vazio dos cargos que vão proliferando. Essa juventude tem ideias, não tem é espírito aberto e vê mal ao longe. O que a move é a vontade de apagar o Mundo das cabeças das “nossas gentes” , já que na sua cabeça não há outro mundo que não o seu.

Agora, ao que parece, querem sobrepor ao plano nacional (com obras internacionais) um plano regional de leitura obrigatória (com obras regionais). Claro que tudo será feito à maneira do socialismo educado. Certamente algumas obras “de fora” serão incluídas como opção na nova lista e pedir-se-ão pareceres a todos os leitores da região. Tudo será conforme à lei; esta é a excelência do socialismo: se é legal é moral.

O silêncio impera e o pó acumular-se-á. Leitores é que continuarão a ser muito poucos. E talvez já venha sendo tempo de as pessoas de bom senso se juntarem para dizer, como Carlos Bessa: Alto Lá!
(LFB)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O inquérito educativo

"Enfim, a hipnopedia, a maior força moralizadora de todos os tempos. (...)

- Até que o espírito da criança seja essas coisas sugeridas e que a soma dessas coisas sugeridas seja o espírito da criança. E não apenas o espírito da criança, mas igualmente o espírito do adulto, e para toda a vida. O espírito que julga, deseja e decide, constituído por essas coisas sugeridas. Mas todas essas coisas sugeridas são aquelas que nós sugerimos, nós!

- Com entusiasmo, o Director quase gritou. - Que o Estado sugere. "

(Huxley, A., Admirável mundo Novo, (tr.M.H.L.) Livros do Brasil,p.44. Os itálicos estão no texto original e são muito significativos)

Vivemos também o tempo dos inquéritos. Ninguém sabe nada sobre nada, por conseguinte, só realizando inquéritos vagos e preenchidos à pressa é que podemos saber o que se deve fazer. Na maioria dos casos, decide-se a posteriori, sem ter em conta o que quer que seja e na esperança de que os inquiridos fiquem com a ligeira sensação que contam para alguma coisa. Noutros casos, o que se faz é, vagamente, aquilo que a maioria dos inquiridos deseja, o que, como é de ver, nem sempre é o melhor.

Os dirigentes educativos regionais, como era esperado, andam sem norte e a bater pano (e os nacionais como andarão? Antes, diziam-me que na RAA um professor estava melhor do que 'lá fora', de repente, parece que é ao contrário...). Paulo Portas gritou a necessidade de repor a autoridade dos professores e logo chegaram às escolas pedidos de parecer sobre o tema. Muitas sugestões e indicações foram dadas pelas escolas. Resultado: nada e, dado o significado de autoridade docente, outra coisa não seria possível.

Fala-se de desburocracia. Resultado: os directores de turma deixaram de controlar as faltas dos professores do conselho de turma, coisa que já há anos é considerada absurda; embora muitos professores o fizessem, como noutras acções do mesmo género, de bom grado. Pensar que a imensidão de burocracia que submerge as escolas é aliviada com uma medida particular revela bem o rumo desta política educativa. Mas de imediato tal medida é anunciada em jornais e telejornais como medida exemplar de desburocratização.

A RTP-Açores e os jornais anunciaram, em voz pretensamente neutra, que no início do ano lectivo, todos os professores tiveram acções de formação sobre avaliação. Resultado: um professor dito formador passa um dia inteiro a ler em powerpoint o texto que todos os formandos têm nas suas mãos na vã esperança - e contra todas as boas regras didácticas e pedagógicas - que toda aquela massa de orientações, sugestões, critérios e grelhas fique, em triex (3X quer dizer: leitura em voz alta do texto projectado que é lido pelo leitor e ouvinte; espécie de hipnopedia), gravada nas cabeças vagamente atentas e prisioneiras da e na última sexta-feira antes do início das aulas.

No dia-a-dia, proliferam comissões que planeiam inquéritos sobre os mais variados assuntos mas que não têm tempo para perceber até que ponto são inúteis.

Ninguém parece olhar à sua volta. E esse é o grande objectivo político.

Todos projectam o seu futuro longe de tudo isto. E o futuro nunca foi problema político.

LFB

sexta-feira, 31 de julho de 2009

inconstitucionalidades

Ontem o Tribunal Constitucional declarou várias normas do Estatuto Político Administrativo dos Açores inconstitucionais. É também para isso que serve a Constituição da República; para se perceber que a política não é só interesses partidários, jogos eleitorais e conveniências para iludir os eleitores. A política é também - e deveria sê-lo em primeiro lugar - o respeito pela Lei fundamental. Agora todos os senhores deputados da assembleia da República e da Regional - o estatuto foi aprovado por unanimidade - encabeçados por César façam favor de dar a mão à palmatória e retirar as insconstitucionalidades. Agora e já que é tempo de eleições.

(LFB)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Os Açores

Os Açores são um pequeno jardim.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

JOHN UPDICKE

Estados Unidos

1932-1993


AÇORES


Grandes navios verdes

eis que navegam

ancoradas, para sempre;

sob as águas


enormes raízes de lava

prendem-nas firmes

a meio do Atlântico

ao passado


Os turistas, pasmando

do convés

proclamam aos guinchos lindas

as encostas malhadas


De casinhas

(confettis) e

doces losangos

de chocolate (terra).


Maravilham-se com

os campos graciosos

e os socalcos

feitos à mão para conter


Os modestos frutos

das vinhas e das árvores

importadas pelos

portugueses:


paisagem rural

vindo à deriva

de há séculos;

a distância


amplia-se.

O navio segue,

Outra vez a constante

música alimenta


um vazio à popa,

os Açores sumidos.

O vácuo atrás e o vácuo

à frente são o mesmo.


Poesia do Século XX (ant., tr., pre. e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, 1994, pp.454-455)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

A política segundo César

Quem ainda não sentiu os dissabores da política democrática que Salazar expressou quando disse que 'detestava a política do fundo do seu coração; todas aquelas promessas incoerentes e barulhentas, as exigências impossíveis (...) o oportunismo que não se preocupa nem com a verdade nem com a justiça, a busca inglória da fama não merecida, (...) a distorção dos factos, todo aquela fervorosa e barulhenta excitação'?
(Huizinga in The Times, 16 November 1961, citado em Crick, In defense of Politics, Continuum, 5ª ed. 2005)


César tornou-se uma daquelas pessoas perigosas para quem a política é sempre uma coisa desagradável, uma coisa palaciana.

Recentemente, aquando da apresentação e discussão do programa de governo regional - após o novo presidente da Assembleia Regional (F. Coelho) ter dito que afinal se deveria votar o programa, contradizendo aquilo que havia dito na noite anterior onde teimou que, tendo o governo maioria e não havendo moções, o programa não teria de ser votado pela Assembleia -, gerou-se um mal-estar entre partidos da oposição e o partido do Governo Regional. Aqueles - na noite em que não puderam votar contra o novo orçamento - gritaram que era uma injustiça anti-democrática, uma coisa nunca vista, que não podia ser. O surpreendente foi que, no dia seguinte - quando Coelho deu o dito por não dito - estes mesmos indignados votaram contra mas não abriram bico, nem declarações de voto, nem protestos, nada, até hoje silêncio absoluto sobre o assunto. Segundo as notícias, o seu silêncio teria sido trocado pelo adiamento sine die da proposta da maioria para reduzir os custos da Assembleia. As subvenções dos grupos parlamentares seriam reduzidas e, por consequência, haveria menos pessoas a entrar na assembleia. Na rádio (RDP -Açores) ainda houve alguma informação e indignação, nomeadamente de Álvaro Monjardino quando disse que, a ser verdade, 'o pacto de silêncio' era gravíssimo. NA RTP-Açores apenas uma breve referência à mudança de posição de Coelho, mas nada de imagens da votação contra, nada de perguntar à oposição porque estava tão calada. De seguida 10 minutos sobre o Estatuto dos Açores e o Presidente da República (note-se que isto se passou há sensivelmente três semanas e nada de novo tinha acontecido quanto ao Estatuto). César, questionado pela RTP Açores sobre o comportamento de Francisco Coelho, disse que não tinha tempo para "intrigas palacianas."
Ontem, depois de saber que Cavaco Silva promulgara o malogrado Estatuto, César volta a classificar o desentendimento entre partidos e Presidente como "intrigas palacianas".

Para um residente no palácio de Sant'Ana, a sinceridade não poderia ser mais genuína.
(LFB)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

EU DIRIA QUE:

A nova secretária da educação - conduzida pela mão experiente de César - ao retirar a investigação da grelha da avaliação e ao afirmar que vai desburocratizar a escola, é mais uma a juntar ao grupo daqueles que confundem as árvores com a floresta.
Alterando um (1) item na grelha, cede aos representantes dos sindicatos (por vezes, "profissionais do sector") que devem agora estar muito felizes, mas não percebe que o mal está por toda a grelha - subjectividade e ambiguidade parecem não ser preocupações nem para eles nem para ela.
Participar em projectos de investigação é necessário em qualquer nível de docência, o que está mal é não haver tempo para o fazer. Reconhecessem isto os "lutadores" e poderiam ter exigido quatro dias de aulas e um de liberdade para investigar. Como é óbvio sem investigação individual não se pode nem ensinar nem saber (neste contexto investigar é igual a ler, falar e escrever sobre o que se lê), ah mas isso é demais para os professores. "Trabalho em equipa", isso sim. Para isso temos tempo.
O resultado, já se vê: professores todos iguais, redondinhos, sem nada na cabeça (= é sempre a mesma matéria), mas com muita dinâmica (= conversa de café) e trabalho em equipa (= uns trabalham - esteja descansado, há sempre um - e todos assinam).
A ideia de desburocratizar é óptima, não fosse ela mais uma armadilha em que a senhora educadora de infância caiu. Ainda que tal palavra funcione como calmante para os lutadores, isso implicaria uma nova maneira de olhar para a docência - basicamente reconhecer que o trabalho de um professor é dar aulas sob condições dignas (coisa que nem todos os professores desejam) - que teria de passar pela alteração profunda do Estatuto, das escolas, dos auxiliares. E não é todo o conteúdo da grelha uma grande burocracia?
Alterações profundas, não. Desburocratização, sim.
Como educadora de infância e leitora (tem que ter investigado alguma coisa, ou não?) talvez tenha tropeçado na ideia de que transformar "jardins-de-infância" em bunkers gigantes (eu conheço um (e você?) onde as criancinhas almoçam numa sala cuja única janela para o exterior é uma televisão ("é para entreter"), antes chamavam-se a estes espaços arrecadações agora: "sala multiusos") sem espaços verdes, com pouco luz, e com a gritaria de centenas de miúdos de outros níveis de ensino como pano de fundo, é algo monstruoso e que ilustra bem o desrespeito com que esta sociedade trata as suas crianças. Ah, mas isto já é outro post.
- Então o que é que, do seu ponto de vista , vai mudar? Bom, não sabemos até porque, para além de que a senhora educadora é do PS não se vê o seu "saber". Foi apresentada por César como tendo mestrado em ciências da educação. Mas também o Sr. Contente como professor universitário!
- Eu diria que: é preciso mudar para que tudo permaneça na mesma (perdoe senhor Lampedusa pela desproporção qualitativa).



(LFB)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A política açoriana

Ao contrário das aparências, a política nos Açores está como César quer que ela esteja.
O número de deputados,  em vez de reduzir, aumentou - actualmente são 57 para 250 mil habitantes. Se as outras regiões do País seguissem a mesma insanidade seriam precisos 2200 deputados para representar todos os portugueses!
Somos uma região ultra-periférica, com especificidades próprias, dizem-nos. Pois, pois. E Vinhais não? E Jorumenha não? Só um raciocínio do mais provincianismo imaginável pode dizer que as aldeias mais recônditas de Portugal não têm especificidades próprias, mas o Corvo têm.
É claro que o problema está nos Açores e não nas outras regiões. À custa da noção de autonomia, tornamo-nos uma região despótica, anticonstitucionalista (veja-se o desrespeito pelo constitucionalismo manifestado nos últimos meses), despesista, manipuladora, e onde a política é mera propaganda e divertimento - é nestas duas últimas categorias que entram coisas como o 'diálogo' com os sindicatos, governar para os açorianos, o futuro dos Açores, etc.
O líder demissionário do PSD, num raro momento de sinceridade, disse bem: "agora vou ser deputado e vou ter tempo para jogar bowling com o meu filho" (ao que se sabe, afinal já suspendeu o seu mandato de deputado, vai gerir uma empresa, mas voltará, quando ao bowling nada de novo).

Carlos César gritou democracia por terem sido eleitas outras forças políticas, mas é brincadeira. A questão é que, dado o sistema político e eleitoral vigente, as maiorias fazem o que querem. E pior, se não houver maioria a região torna-se ingovernável. Como César tem a maioria fará o que quer. Os Açores precisam é de um órgão com poder efectivo de avaliar as leis do governo e de as recusar por votação. Com excepção das leis de Base da República (segurança e pouco mais), César e o seu clã podem legislar como muito bem entenderem que ninguém pode fazer nada.

(LFB)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Não queres ser meu assessor de imprensa?

Acordo com a notícia de que os assessores de imprensa (é mais do que um) de Carlos César ganham milhares de euros (quase quatro mil, ordenado base, claro). Um deles é um ex. director de informação da RTP Açores. Nas entrelinhas percebo também que cada secretário tem o seu assessor de imprensa. Terei percebido bem?
Para que precisa uma região ultra-periférica com pouco mais de 200 mil habitantes de vários assessores e de tão bem pagos? O que faz um assessor de imprensa? Transforma (esconde) más notícias em boas notícias? Será que existe assim tanta coisa para esconder? Ou será que faz pouco ou nada e esses postos são apenas uma forma de favorecimento descarado?
Revoltado (já tenho o dia estragado), pesquiso na internet tentando encontrar, nos sites do governo, alguma informação sobre quantos assessores existem e o que fazem. Mas nada. Os sites do governo simplesmente não abrem, ou não têm informação relevante. Estão os governantes e seus assessores, ao que parece, em Washington.