terça-feira, 28 de março de 2006

Freakonomics e a educação - alguns comentários

Freaknomics é um livro surpreendente e interessante sobretudo pela forma inovadora com que trata de assuntos que regra geral não aparecem tratados pela Economia; no livro é definida como "o estudo dos incentivos: a explicação de como é que as pessoas conseguem o que querem, sobretudo quando as outras pessoas querem ou necessitam das mesmas coisas" (p.20).
Muito se tem escrito acerca da frescura inteligente (uma novidade na Economia) das questões que o livro coloca – por exemplo, "o que é que os professores têm em comum com os lutadores de Sumo?" – bem como acerca das suas polémicas teses – por exemplo, acerca da sua tese de que a legalização do aborto nos EUA (estabelecida em 1973 através da decisão Roe vs Wade do supremo tribunal) terá contribuído, em cerca de 30 por cento, para a diminuição, na década de noventa, da criminalidade violenta. Para os autores tal descoberta tem tanto de "chocante" como de irónico relembrando-lhes a frase de G. K. Chesterton "quando não existem chapéus para todos, o problema não se resolve cortando algumas cabeças" (p. 141).

Os resultados sobre a educação derivam da aplicação da técnica da análise regressiva a um enorme estudo realizado nos EUA nos anos noventa que envolveu mais de vinte mil crianças de todo o país. A análise não mostra que um factor é a causa de outro, mostra apenas as correlações existentes entre diferentes factores. Isto é importante porque, por exemplo, ter muitos livros em casa está, segundo o estudo, correlacionado com boas notas na escola, mas não significa que todas as casas que tenham muitos livros tenham filhos com boas notas, ou que seja suficiente ter livros em casa para que os filhos tenham boas notas.
Em muitos aspectos (talvez em mais do que aqueles que muitos de nós desejaríamos), e também na educação dos nossos filhos nós europeus somos muito americanos, pelo que teremos alguma coisa a aprender com os resultados que o livro apresenta.

No que diz respeito aos oito factores que influenciam os resultados escolares, não parece haver grande surpresa em relação àquilo que é o senso comum acerca da melhor forma de educar os nossos filhos. O que desperta interesse e curiosidade são alguns dos factores que, segundo os autores, não influenciam os resultados dos alunos. É o caso da família estar intacta ou não. Estudam demonstram que a estrutura familiar tem pouca importância nos resultados escolares (só nos EUA cerca de 20 milhões de crianças são criadas apenas por um dos pais) da mesma maneira que parece ter pouco influência na formação da personalidade das crianças. Estes resultados deveriam dar que pensar àqueles que por aqui usam o argumento de que a adopção de crianças por casais homossexuais seria errada porque deformaria a personalidade da criança adoptada.
Surpreendente é também a ideia de que os pais obsessivos que deixam de trabalhar até os filhos irem para a pré-escola com a ideia de que estão a cuidar melhor da educação dos seus filhos estão enganados (pelo menos na realidade americana). O mesmo se passa com os pais que levam os filhos aos museus, ou com os pais que lêem em voz alta aos seus filhos; regra geral os pais obsessivos saem mal vistos deste estudo. A educação parece dar-se mal com a obsessão educativa.
Colocar as crianças na pré-escola estatal americana (um programa de educação infantil intitulado Head Start) também não contribuir para melhores resultados na escola. Os autores sugerem que tal se deve ao facto de muitas educadoras infantis americanas não terem sequer o bacharelato e de este trabalho ser mal pago. Neste ponto estamos, parece-me, muito melhor.
Outro resultado surpreendente é o que nos diz que ver muito televisão não prejudica os resultados escolares (e ter um computador em casa também não está correlacionado com melhores resultados na escola). Muita discussão tem havido sobre este tema. Pais conservadores e obcecados com a educação dos seus filhos gostariam de proibir a TV, ainda que eles próprios tenham crescido com o aparelho e passem muito tempo à sua frente. Pais liberais e despreocupados desvalorizam os efeitos supostamente negativos do aparelho. Como comentário os autores referem a Finlândia – esse bastião da educação tantas vezes citado pelos políticos portugueses – cujo sistema educacional foi considerado um dos melhores do mundo e onde as crianças só vão para a escola aos sete anos e, regra geral," aprendem a ler por si vendo televisão americana com subtítulos em finlandês" (p. 172).

A conclusão a retirar, segundo os autores, é que na educação parece ser mais importante aquilo que os pais são (primeira lista) do que aquilo que os pais fazem (segunda lista).



(LFB)

Freakonomics e a educação



Oito factores fortemente relacionados com os resultados dos testes:

1. Os pais da criança têm formação superior (+)
2. Os pais da criança têm um estatuto socio-económico elevado (+)
3. A mãe da criança tinha trinta anos ou mais quando o primeiro filho nasceu (+)
4. A criança nasceu com pouco peso (-)
5. Os pais da criança falam inglês em casa (+)
6. A criança é adoptada (-)
7. Os pais da criança estão envolvidos na associação de pais (+)
8. A criança tem muitos livros em casa. (+)

+ = Correlação positiva
- = Correlação negativa

Oito factores que não estão relacionados com os resultados dos testes:

1. A família está intacta
2. Os pais da criança mudaram-se recentemente para um bairro melhor
3. A mãe da criança não trabalhou entre o nascimento e a entrada para o infantário
4. A criança frequentou um programa pré-escolar estatal
5. Os pais da criança levam-no regularmente a museus
6. A criança é regularmente agredida
7. A criança vê frequentemente televisão
8. Os pais da criança lêem-lhe em voz alta todos os dias.


(tr. e adp. LFB, pp. 166-168)

quinta-feira, 16 de março de 2006

"Numa democracia liberal, o desafio de uma vida ética é vivermos, enquanto indivíduos, à altura dos compromissos expressos nas nossas constituições... É também vivermos de forma que cada um de nós acredite na nossa sociedade. Num tempo onde os indivíduos são – quer pela tecnologia quer pela liberdade – monstruosamente dotados do poder de fazer cair o Armagedão sobre os seus concidadãos, a questão de haver entre nós pessoas que já não acreditam na democracia liberal e que professam uma variedade de paranóias como se de política se tratasse já não é uma questão menor. A existência de opiniões políticas selvagens, vingativas e enganadoras, quando associadas a uma tecnologia letal e na posse de um único indivíduo, tornam-se repentinamente uma ameaça para todos. Estou assombrado, e penso que todos estarão, pelo espectro dos solitários super poderosos; como se fosse uma punição inevitável resultante da preocupação moral que a nossa sociedade coloca, de forma generosa, na ideia do indivíduo."

Michael Ignatieff,The Lesser Evil: Political Ethics in an Age of Terror, p. 181. (tr. LFB)

segunda-feira, 13 de março de 2006

A serpente que morde a cauda

Agora que Nuno Crato expôs as fragilidades e o ridículo das concepções que orientaram, nos últimos trinta anos, as ciências de educação em Portugal; agora que os quadros de professores estão praticamente cheios, o governo nacional quer implementar um exame aos candidatos a professores do ensino público. Deu-se conta de que afinal nem toda a gente pode ser professor e deu-se conta de que as escolas estão repletas de professores que não sabem o suficiente para poder ensinar alguém a ler, escrever ou falar acerca do que quer que seja. A medida é gratuita e risível. Em vez de atacar as causas – como foi possível chegar a este estado de coisas? –, ataca os efeitos – como remendar os buracos criados por tal situação?
Partindo da hipótese altamente improvável de que haverá em Portugal alguém capaz de conceber um exame que realmente separe o trigo do joio, não se percebe por que razão não se há-de realizar um exame também a candidatos a professores do ensino superior? Não está também o ensino superior cheio de professores que não deveriam sê-lo? E não é este ensino directamente responsável pela ignorância que preenche as escolas dos outros níveis de ensino? E o que fazer com os estágios pedagógicos que, como toda a gente reconhece, não servem para nada de pedagogicamente útil e são orientados por ideias descabidas? E o que fazer com os quadros existentes? Enviá-los outra vez para a Universidade?

(LFB)

sexta-feira, 3 de março de 2006

A ler

uma explicação e argumentação acerca do modo como as democracias constitucionais liberais podem manter a dignidade dos seus cidadãos - uma visão moral da democracia onde os indivíduos têm valor intrínseco - e ao mesmo tempo dar conta do interesse da maioria em ter a segurança garantida - uma visão formal da democracia - e, mesmo assim, lutar contra o terrorismo.
O livro defende a tese de que, em certos casos, a necessidade pode exigir acções em defesa da democracia que se afastam do compromisso para com a sua própria dignidade: é a doutrina do mal menor; defende o autor que numa emergência causada pelo terrorismo nem os direitos, nem a necessidade devem triunfar. Deve procurar-se encontrar uma ética do equilíbrio e da prudência. Um meio-termo dificil de encontrar...

quinta-feira, 2 de março de 2006

A propósito da lei e da sua qualidade

o agora deputado Pina Moura veio recentemente a público dizer que as leis na República são a sua Ética. Se a lei permite que ele seja deputado e presidente de uma empresa com fortes interesses nos negócios da electricidade em Portugal, então o que ele faz é eticamente correcto. Esta identificação entre a Ética e a Lei, há muito discutida pelos filósofos, sofre de males irrecuperáveis. Se a identificação fosse boa, então não poderíamos classificar algumas leis como sendo boas ou más. O 'certo' e o 'errado' são usados na avaliação das leis e, por isso, são diferentes das leis. Por exemplo, podem haver leis que proibem coisas boas; é o caso de uma lei que proiba criticar o governo. Como também podem haver leis que decretam coisas erradas, como é o caso de uma leis que imponha a segregação racial. Pina Moura deveria recorrer à sua racionalidade e ao seu sentido de dever - ou a qualquer outra forma de avaliação de conflitos éticos - de modo a descobrir se os seus interesses pessoais estavam a colidir, ou não, com o interesse público. Ao proteger-se sob a capa da lei revelou-se um apoiante da teoria que diz que tudo o que a lei permite é correcto. Daqui a afirmar - como Eichmann, o nazi que defendeu em tribunal que se limitava a obedecer a leis superiores - "eu só o fiz porque a lei a isso me obrigou", vai um passo.

(LFB)

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Hospital São João: grande escola de paciência

Prestígio, competência e eficácia: qualidades da considerada maior escola de medicina do país, onde trabalham arduamente alguns dos maiores nomes da àrea: Hospital São João.

Pois foi precisamente no São João que tive opotunidade de testemunhar algumas das mais inacreditáveis cenas de incompetência algumas vez imaginadas pelos mais cépticos.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2006

16 horas e 30 minutos: passo pela triagem onde explico não suportar por muito tempo estar noutra posição que não deitada.

Cerca das 17 horas: senhora em sofrimento discute com médicos, alegando dores insuportáveis; toma dois calmantes. Adormece. Algum tempo depois, médica ao sair das urgências, embate contra a perna da paciente, (uma vez que a sala de espera consiste basicamente num estreito corredor onde se condensam cadeiras), pede desculpa e segue o seu caminho. Cerca de uma hora depois, médico chama paciente que, ao não poder andar sozinha, é socorrida nada mais nada menos do que por outra paciente (cerca de 70 anos). Tal ocorrência passa despercebida ao atento olhar médico.


Cerca das 20 horas: médico atende paciente, ao que lhe diz - tom rude, grotesco - "A senhora não tem centro de saúde?".

Cerca das 21 horas: o desespero: dores insuportáveis. Não sou atendida, aliás, neste período de 4 horas e 30 minutos, talvez o tenham sido 4 pessoas... Desisto, vou-me embora. Estado: pior que à chegada dado o suplício de estar sentada ou em pé.

Como é isto possível?
(D.O.)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Primo Levi


Agora que o anti-judaísmo ignóbil resurgiu em força e com a conivência ‘tolerante’ de alguns dirigentes políticos portugueses, vale a pena reler com atenção algumas das respostas de Primo Levi a questões colocadas pelos seus leitores.


Entrevista Retirada de: Primo Levi, “The Author´s Answers to His Readers Questions” pp.381-398, in, If This Is a Man & The Truce, Abacus, 1999.



"1. No livro não há um sentimento de ódio pelos Alemães, nem um desejo de vingança. Perdoou-os?
R: O Meu temperamento pessoal não está inclinado para o ódio. Vejo-o como animalesco e cruel, prefiro que as minhas acções e pensamentos sejam o resultado da razão (…) Se o fizesse estaria a seguir os preceitos dos Nazismo.
Acredito na razão e na discussão como instrumentos do progresso, e por isso reprimo o ódio, mesmo dentro de mim. Prefiro a justiça. Por essa razão, ao descrever o mundo trágico de Auschwitz, adoptei a linguagem sóbria e calma da testemunha, e não os tons lamentáveis da vítima nem a voz irada de alguém que procura vingança. Penso que a minha tarefa seria tanto mais útil e credível quanto mais fosse objectiva e quanto menos soasse excessivamente emocional. Só desta forma pode uma testemunha realizar a sua função em termos de justiça; isto é, fornecer elementos válidos para o juiz poder julgar. Os juízes são os meus leitores.
De qualquer modo, não gostaria que o facto de eu me abster de fazer um juízo explícito fosse confundido com um perdão indiscriminado. Não, eu não perdoei nenhum dos culpados, nem desejo perdoar nenhum deles, a não ser que eles mostrem (com acções, e não com palavras e não muito tempo depois) que estão conscientes dos crimes e erros do fascismo e estejam determinados em condená-lo (…). Só nestas condições estou pronto a perdoar.

2. Sabia o povo alemão o que estava a acontecer?

Como seria possível que a exterminação de milhões de seres humanos tivesse acontecido no coração da Europa sem o conhecimento das pessoas?
As democracias têm uma tremenda vantagem sobre os estados autoritários: toda a gente pode saber tudo sobre tudo. A informação é um quarto poder (...). No estado autoritário a verdade é só uma e vem de cima. Todos os jornais são iguais e repetem as mesmas coisas. Não se pode ouvir a rádio de outros países. Os livros são censurados, muitos são queimados, e só aqueles que agradam ao estado são publicados e traduzidos. Isto aconteceu na Itália entre 1924 e 1945, e continuou depois na Alemanha de leste (…).
Num estado autoritário é considerado permissível alterar a verdade; reescrever a história retrospectivamente, distorcer as notícias, suprimir a verdade, adicionar o falso, a propaganda substitui a informação. Nestes estados não se é um cidadão com direitos, mas sim um sujeito, e como tal deves ao estado uma lealdade fanática e uma obediência cega. Nestas condições torna-se possível apagar pedaços da realidade. Hitler e o seu ministro da propaganda (Goebbels) tornaram-se especialistas nesta tarefa de controlar e mascarar a verdade.
Contudo, não era possível esconder do povo alemão a existência de campos de concentração. Nem tal era necessário do ponto de vista dos nazis. Criar e manter no país uma atmosfera de terror indefinido fazia parte dos objectivos dos nazis. Centenas de milhares de alemães foram presas nos campos desde os primeiros meses do nazismo: comunistas, social-democratas, liberais, judeus, protestantes, católicos. Todo o país sabia disso e sabia que nos campos sofriam e morriam pessoas.
Mas não deixa de ser verdade que a grande maioria dos Alemães desconhecia os detalhes das enormes atrocidades que ocorreram mais tarde nos campos. Nomeadamente a exterminação industrializada numa escala de milhões; as câmaras de gás; os fornos crematórios, o despojo perverso dos corpos. Tudo isto deveria permanecer desconhecido, e de facto poucos foram os que souberam disso antes do fim da guerra. Para manter o segredo, só certos eufemismos – estudados cuidadosamente – eram usados: não se escrevia “exterminação”, mas sim ”solução final”; não “deportação, mas sim ”transferência”, não “gás mortal”, mas “tratamento especial”, e por aí a fora. (…).
O relato que, a meu ver, melhor retrata a situação alemã na altura é o de Eugene Kogon, que passo a citar:

“… e contudo não havia um único alemão que não soubesse da existência dos campos ou que acreditasse que eles eram sanatórios … todos os alemães foram testemunhas da barbárie anti-semita. Milhões estiveram presentes – com indiferença ou com curiosidade; com desdém ou com uma alegria maligna – na destruição de sinagogas pelo fogo, ou na humilhação de judeus que se tinham que ajoelhar no meio das ruas enlameadas.”

(…) A maioria dos alemães não sabia porque não queria saber. É verdade que um estado terrorista é uma arma muito forte, muito difícil de resistir. Mas também é verdade que o povo alemão como um todo não quis, nem tentou, resistir.
Usava-se um código na Alemanha de Hitler: aqueles que sabiam não falavam; aqueles que não sabiam não perguntavam; aqueles que faziam perguntas não recebiam respostas. (…) Saber e fazer com que as coisas fossem conhecidas era uma forma de uma pessoa se manter afastada do nazismo. Penso que o povo alemão não procurou este recurso e para mim são totalmente culpados desta omissão deliberada.

3. Como pode ser explicado o ódio fanático dos nazis pelos judeus?

O anti-semitismo é uma forma particular de intolerância; durante séculos teve um carácter mais religioso. Essa intolerância foi espalhada por toda a Europa pela eficiência da propaganda nazi e fascista que necessitava de um bode expiatório para carregar todas as culpas e ressentimentos (…). Mas estas explicações não me satisfazem, são redutoras, e não proporcionais aos factos que necessitam de explicação. (…).
Eu partilho da humildade de alguns grandes historiadores que confessam não compreender o anti-semitismo de Hitler e da Alemanha que o suportava. Talvez não se possa, ou melhor não se deva compreender o que aconteceu, porque compreender é quase justificar. “Compreender” uma proposta, ou um comportamento, significa abrangê-la, pôr-mo-nos no seu lugar, identificarmo-nos com ela. Nunca nenhum ser humano normal será capaz de se identificar com Hitler (…) Isso desanima-nos, porque não compreendemos, mas ao mesmo tempo causa-nos uma sensação de alívio, porque talvez seja desejável que as suas palavras (e, infelizmente, os seus actos) sejam compreendidas por nós. (…) Não o podemos compreender, mas podemos compreender a árvore que o brotou e podemos permanecer alerta. Se compreender é impossível, ter conhecimento é imperativo, porque o que aconteceu pode acontecer novamente. A consciência pode ser seduzida e obscurecida novamente – mesmo a nossa própria consciência. Por esta razão é um dever de todos reflectir sobre o que aconteceu. Toda a gente deve saber, ou recordar, que Hitler e Mussolini falavam em público, que as pessoas acreditavam neles, aplaudiam, admiravam-nos, adoravam-nos como se fossem deuses. Eram líderes carismáticos (…).
É necessário suspeitar daqueles que nos querem convencer com outros meios que não a razão; e é preciso suspeitar dos líderes carismáticos: é preciso muito cuidado ao delegarmos a nossa vontade e os nossos juízos. Uma vez que é muito difícil distinguir os falsos profetas dos verdadeiros, é melhor suspeitar de todos. É melhor renunciar a verdades reveladas (…), é melhor contentarmo-nos com verdades mais modestas e menos excitantes, aquelas que são adquiridas a custo, a pouco e pouco, com estudo, discussão e raciocínio crítico (…)."


(Tradução livre de LFB)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

A bomba

Agora que o Irão tresloucado se prepara, à vista de todos e com a boca cheia de anti-judaísmo, para construir a bomba nuclear, é caso para perguntar o que podemos fazer. Ouvir na televisão o Miguel Sousa Tavares moderado e anti-guerra do Iraque afirmar que a nossa única esperança é que os EUA destruam, através de bombardeamentos ou apoiando bombardeamentos feitos pelos israelitas, as centrais iranianas, dá que pensar. Não há dúvidas de que o presidente iraniano é, em muitos aspectos, semelhante a Hitler. Se este tivesse sido destruído a tempo, muito sofrimento, desgraça e terror teriam sido evitado. É também altura de começar a ouvir aqueles - como por exemplo Mário Soares e a esquerda populista em geral - que, aquando da discussão sobre se se deveria travar ou não uma guerra contra o Iraque, defenderam o diálogo e a tolerância para com os terroristas. Será que estão prontos a dialogar com o presidente do Irão? E ele quererá dialogar com eles? Será que estão prontos a aceitar riscar Israel do mapa em troca de alguma segurança temporária?
(LFB)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

O relativista apavorado

Daniel Oliveira, numa coluna que assina no jornal Expresso (a leitura na internet é paga) intitulada "Choque e Pavor", revela o pior do relativismo moral do qual ele se diz um defensor. Daniel é contra "a proibição de qualquer tipo de mensagem" o que o faz condenar qualquer lei que limite a liberdade de expressão. Supõe-se que seja contra a proibição da publicidade machista, racista e xenófoba da mesma maneira que é contra a proibição, vingente em muitos países da Europa, da negação do holocausto. Ele não vê nenhuma razão para tais proibições fazerem sentido, a não ser o facto de elas serem relativas a "um contexto histórico e político". Para ele não se pode alegar que a europa é mais civilizada do que, por exemplo, o Irão, porque, nas suas palavras, foram os "tolerantes e civilizados europeus" que cometeram o holocausto.
Daniel é pois solidário com o direito dos cartonistas publicarem o que bem entenderem, na dinamarca ou no Irão, só que vê na recusa por parte da europa liberal em aceitar as reacções (e as exigências) dos países árabes uma ameaça "à tolerância religiosa e à paz ". Ele, por si, não compactua nem se deixa manobrar; é tolerante e relativista moral porque só assim a "moral pode ser operativa". Frase para a qual não apresenta nenhuma justificação. Supõe-se que ele nos esteja a dizer que comprende muito bem as reacções extremistas, da mesma maneira que compreende quem faz desenhos anti-judaicos, ou quem nega a existência dos campos de extermínio. Ele é incapaz de perceber uma diferença fundamental entre uma proibição na Europa e uma proibição no Irão. Na Europa pode-se recorrer à justiça como forma de resolver um conflito, enquanto no Islão extremista recorre-se à força e ao apelo à violência. Na Europa, fomos capazes de criar e de defender um conjunto de princípios razoáveis que são aceites por todos (o que não significa que não possam ser postos em causa, viver em democracia é viver na constante procura de equilíbrio) e que defendem a liberdade individual acima de tudo; é isso que significa viver num regime constitucional liberal. Não basta a democracia - como se prova pela eleição do Hammas na Palestina - é também necessário uma constituição que garanta o recurso à justiça e a liberdade individual. Todos os que vivem sob uma constituição liberal acreditam em valores inquestionáveis. Mesmo o colunista em causa; ou o seu apelo à solidariedade e à tolerância é também relativo? No Islão radical o que se vê é a lei imposta à força sem a possibilidade de recurso ao que quer que seja. A proposta de recompensar os bombistas suícidas com virgens no céu (e com dinheiro entregue às suas famílias) é um atentado à dignidade das mulheres e um abuso da fé, seja ela qual for. O que é condenável, intolerável e injustificável. Ponto. Não podemos sequer querer compreender que as mulheres sejam propriedade, que as crianças sejam escravizadas, que a diferença seja simplesmente aniquilada. O relativismo é, ao contrário do que afirma Daniel Oiveira, a melhor maneira de impedir qualquer discussão. Se somos relativistas, se aceitamos tudo, para quê discutir? Qual o sentido de dizer que o holocausto é muito diferente daquilo que se passa na Palestina? Aqui temos opressão, violência, direitos infringidos, mortes; na Alemanha nazi assistiu-se a uma forma incompreensível de "mal radical"; o extermínio da própria noção de humanidade. E esta não é relativa. E pode-se mostrar porquê a qualquer ser humano que o queira perceber.

(LFB)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

desobediência democrática

"Resistir muito, obedecer pouco."
(Walt Whitman)

Há dias entrou na assembleia regional legislativa açoriana (orgão reúne uma vez por mês; muito haveria a dizer sobre a sua necessidade, justificação e pertinência. Se calhar, o melhor era sermos apenas portugueses e pronto; fica o benefício da dúvida) o pedido de uma pensão vitalícia de 2500 euros a atribuir a Victor Cruz; um ex-deputado com 42 anos de idade que, ao pedir a suspensão do seu mandato (voltará? Para quê?), aproveitou para reclamar a "devida” pensão.
No país discute-se a crise económica e o aumento da idade da reforma. Nas escolas regionais surgem documentos bizarros que pretendem diminuir, ou mesmo acabar, com o insucesso escolar. Como se o insucesso (igual à percentagem dos alunos que não terminam um determinado nível de ensino) pudesse ser extinto por decreto, como quem extingue uma secretaria. Como se o que contasse na educação de uma geração fosse apenas o sucesso. Como se a inteligência, a qualidade, o nível de exigência, a procura do saber, passassem repentinamente a valer zero.
Conclusão: as reformas antecipadas (no caso com 23 anos de antecipação em relação aos 65 anos de idade de que tanto se fala) dos deputados são injustas. Seja por que razão for ou para quem for. Um sistema político que as aprova é um sistema injusto, e aqueles que as aprovam, gozando do seu estatuto de legisladores democraticamente eleitos, são justamente acusados de se protegerem uns aos outros e de serem os primeiros responsáveis pelo seu próprio descrédito. Até aqui nada de novo.
Pergunte-se agora se uma sociedade assim pode valorizar as suas instituições fundamentais? O seu corpo político e o seu corpo educativo? Qual dos dois o mais importante? Qual dos dois o mais exigente? Qual dos dois o mais abandalhado? Haverá uma saída que nos melhore a todos?
A minha resposta é sim, mas vamos com calma. Cada um de nós tem que começar a exigir mais respeito, a mostrar mais responsabilidade perante os irresponsáveis, uma maior atitude crítica face a injustiças, a autoritarismos descabidos e, sempre que tal se mostrar adequado, a desobedecer: “um princípio incendiário para assuntos cívicos” (Berman, A Tale of Two Utopias, p.51, (livro de onde a epígrafe de Whitman é retirada).
(LFB)

UM SUCESSO



Subitamente o governo regional dos Açores - através da secretaria da educação - deu conta de que a região tem a pior taxa de insucesso escolar do país; e tem mostrado uma vontade enorme de acabar com o dito. Pretende-se fazer com as escolas do terceiro ciclo e secundárias o que já se fez com a maioria das Universidades, ou seja, acabar com os chumbos. Passa tudo!
Se o aluno é mau aluno (há alunos maus, como há alunos bons, porque não dizê-lo) é porque o professor ainda não se esforçou o suficiente. Esforcemo-nos mais um pouco – ignore-se que ele mal sabe ler ou escrever, que ele tem pais desinteressados, que ele está num nível que não é o seu, que tem dificuldades de concentração, que algumas matérias são difíceis e requerem um estudo aprofundado – e constatar-se-á que ele até é um aluno razoável.
A estratégia é infalível: forma-se professores numa Universidade francamente má (mas onde ninguém chumba e, logo, onde ninguém questiona a qualidade dos resultados); cria-se leis que fazem com que os professores passem à frente daqueles que são formados nas melhores Universidades e que têm melhores classificações; promove-se uma formação de professores que, apesar de altamente criticada por todos, ainda não foi simplesmente extinta; triplica-se as bonificações dos membros dos conselhos executivos (CE) das escolas da Região (como forma de os incentivar, mas também como forma de os fazer colaborar). Faça-se tudo isso contra os professores, que são as principais autoridades educativas; obriga-se os professores a permanecerem nas escolas, controlados pelos CE, ocupando os espaços dos alunos, sem que se veja qual o benefício que isso trás para qualquer das partes. A lista não acaba...
Poderemos ter que aceitar um ensino onde todos passam, e onde o sucesso (palavra vaga e ingrata) é geral, mas isso não tornará as pessoas – pobres vítimas da ilusão de não terem chumbado – mais inteligentes, mais dinâmicas, ou mais o que quer que seja. Pelo contrário, todos seremos ainda menos do que somos.
Um dia daremos conta – quando tivermos coragem de nos compararmos com as boas escolas – que, mesmo sem insucesso escolar, somos tão maus como sempre fomos.
Isto se até lá não formos capazes de alterar este estado de coisas e eu estou convencido que seremos.
(LFB)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Match Point

Uma questão de sorte...?

IMPERDÍVEL

(D.O.)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Sociedade "Civil"

Óbvia:
- a necessidade de uma verdadeira mobilização social em torno de questões que determinam a vida colectiva;
- a ligação intrínseca e dinâmica entre democracia e participação cívica, individual e/ou colectiva.

Dúbia:
- a existência de uma sociedade predisposta ao esforço da reflexão, motivada para intervir, consciente do seu papel e dos reais problemas que enfrenta e que tem forçosamente de resolver.

(...2006, Mundial na Alemanha...)
(D.O.)


Os partidos políticos

estão em crise e isto não é novidade. Todos o afirmam e Pacheco Pereira apresentou recentemente algumas das causas no seu Abrupto. Mas, a par deste diagnóstico, todos defendem que sem partidos a democracia saudável não pode existir. Será que não pode? Por um lado, percebe-se essa defesa dos partidos uma vez que as alternativas se revelaram desastrosas no século XX. As experiências da democracia directa nos anos sessenta revelaram resultados altamente indesejáveis para todos os implicados. A democracia parece implicar uma mediação, uma pausa para reflexão, que só os partidos e os representantes dos eleitores têm disponibilidade e legitimidade para realizar. As matérias são complexas e requerem tempo para pensar nelas. Por outro lado, a necessidade dos cidadãos afirmarem a sua individualidade e a sua não submissão intelectual também é manifesta; veja-se os jantares dos apoiantes de Alegre. Estou em crer que é possível, através da compreensão e explanação do conceito de sociedade civil, encontrar novas formas de reflexão, debate e justificação das decisões colectivas que não têm que passar necessariamente pelos partidos políticos...

(LFB)

domingo, 5 de fevereiro de 2006

As grandes ilusões

1) o Eu; a ilusão de que cada um de nós é algo que permanece idêntico no tempo;

2) o Tempo; a ilusão de que existe um tempo objectivo;

3) a Realidade, a ilusão de que aquilo que vemos é real;

4) a História, a ilusão de que seremos capazes de saber como aconteceu de facto uma coisa no passado.

As quatro ilusões combinadas (na realidade! deduzem-se umas das outras) fazem de nós uns seres estranhos à deriva.

(LFB)

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

O tempo nunca volta para trás. É como o ..."vento que passa"!

O grande clandestino"

Eu me distraio muito com a passagem de tempo.
Chego às vezes a dormir. Durmo meses e anos. O tempo então aproveita e passa escondido. Mas que velocidade!
Basta ver o estado das coisas depois que desperto: quase todas fora do lugar, ou desaparecidas; outras, com uma prole imensa; outra ainda, alteradas e irreconhecíveis.
Se durmo de novo, e acordo, repete-se o fenómeno.
Sempre pensei que o tempo fizesse tudo às claras. Oh, não!
Eu queria convidá-los a assistir ao que ele tem feito comigo. Mas é um espectáculo todo íntimo e não disponho de tribunas.
Além do mais, o tempo em pessoa é praticamente invisível, como a ventania. Só se pode apreciar o resultado de seu trabalho, nunca sua maneira de trabalhar.
O que é preciso é nunca dormir e ficar vigilante para obrigá-lo ao menos a disfarçar a evidência de suas metamorfoses.
É de fato penoso deixar de ver as coisas tais como as vimos a primeira vez. O tempo tudo transforma e arrasa, sem nos dar aviso.
Ora, isso entristece. Isso nos deixa intranquilos. A não ser que nos misturemos com ele, façamos dele um aliado.
Aí, sim, destruição e reconstituição se confundem. Sacos e sacos vão se enchendo e esvaziando toda a vida. Perde-se até da morte. Então a gente aproveita para erigir sistemas, tomar iniciativas, amar, lutar e cantar. O tempo fica assim tão escondido dentro de nós, que se tem a impressão que fugiu para sempre e se esqueceu.
Em verdade, ele não repousa nunca. Nem mesmo nas pirâmides. Nem mesmo nos horizontes onde parece pernoitar.
Rói as pedras como o vento, rói os ossos como. O que mais admira é a extrema delicadeza com que pratica essas violências.
Todos falam de sua impassibilidade. Não é bem isso. Tanto assim que aumenta de velocidade, à medida que nos distanciamos de nossas origens. E quase pára quando o esperamos na solidão.
Meu mal é sentir-lhe a passagem como a de um animal na noite. Chego quase a tocar nele. Fico horas à janela vendo-o passar. É um vício.
Oh, como se diverte! Para ele, destruir uma árvore, um rosto, uma instituição, uma catedral - tanto faz.
O desagradável é quando de repente se retira dalgum objecto ou de alguém. É claro que prossegue depois, mas deixa sempre alguma coisa morta. Franqueza, nessa hora dá um aperto no coração, uma nostalgia!...
Contudo não se deve ligar demasiada importância ao tempo. Ele corre de qualquer maneira.
E é até possível que não exista.
Seu propósito evidente é envelhecer o mundo.
Mas a resposta do mundo é renascer sempre para o tempo. “
(LE)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Depois das Eleições

Depois de uma campanha eleitoral animada, a grande vantagem de qualquer eleição democrática é a de o povo sair, finalmente, da sala de estar dos políticos. É uma sensação de alívio que alguns eleitos descrevem como semelhante ao momento em que uma dor intensa, por qualquer razão obscura, termina.(...) Depois de qualquer eleição a sensação dos políticos - quer tenham perdido quer tenham ganho - é a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltará apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a eleição seguinte.Esse intervalo temporal é indispensável para que o político tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou a indiferença em nova paixão genuína.



Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Kraus



Até às próximas!


(D.O.)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Pergunto...

... ao vento que passa,
o que faz um candidato presidencial
a declamar POESIA?!


(D.O.)
o candidato poeta
é também conhecido, nalguns meios restritos, como o Aedo caçador.

(LFB)

O que é a história?

Procurar responder à questão “O que é a história?” nem sempre foi, como é hoje, considerado algo necessário. Em época de conforto, onde a sociedade respira serenidade e confiança e é regida por uma economia de laissez-faire, tende a reinar uma visão auto-confiante, clarividente, positivista do mundo. Foi assim o século XIX.
As áreas do conhecimento sofriam a influência do empirismo:
- separação completa entre o sujeito (quem observa/ estuda) e o objecto (observado/estudado);
- “os factos - tal como as impressões sensoriais – embatem no observador e são independentes da sua consciência”, sendo, portanto objectivos;
- por fim, o processo de recepção é passivo: só após receber os dados, o observador age sobre os mesmos.
Esta é a base da produção cientifica da época, que se pretendia e acreditava experimental. Vivia-se a “paixão dos factos”, à qual não escapou a própria história, que buscava a ruptura com a história moralizante do século XVIII. Sir Gradgrind, em Tempos Difíceis: “O que eu quero são factos (…) só os factos contam na vida”. Assim, ao historiador competia “simplesmente mostrar como as coisas, na verdade, se tinham passado” – Wie es eigenlich gewesen (Rank). Por outras palavras, dado o carácter objectivo/neutro dos factos (dados da experiência, distintos de conclusões), ao historiador cabe obtê-los de modo exacto e só depois interpretá-los – “Os factos são sagrados, a opinião é livre”(C.S. Scott)).
Nesta concepção liberal da história (que tem em Acton a sua principal figura), a busca dos factos pretende-se ilimitada: todos os factos são históricos, visto terem o mesmo carácter objectivo perante quem tem deles conhecimento. Portanto, a história é a compilação de um número máximo de factos irrefutáveis – é factual, evidente e pormenorizada.
Onde encontra o historiador os seus factos? Em documentos: decretos, tratados, listas de arrendamento, livros azuis, cartas, diários, etc.; é a ditadura do documento: “se os documentos o dizem, então é porque é assim.”. Eles contêm os factos básicos, comuns a todos os historiadores, são a “espinha dorsal da história” (visão histórica do senso comum).
Ora, sendo a história uma “colecção de factos”, os factos infindáveis e o historiador um mero compilador que, pela sua recolha exaustiva, busca constituir a versão última e indiscutível da história, surge um problema: a impossibilidade de conhecer/lidar com todos os factos origina uma história povoada de lacunas. O próprio Acton evidencia este problema ao referir-se ao seu professor, Dollinger: “Ele não escreve jamais com matérias imperfeitos e para ele os materiais eram sempre imperfeitos”.
No entanto, a este problema sobrepunha-se a crença positivista (que mais tarde se verificou insustentável) de que, por falarem por si, “se ele [o historiador] se encarregasse dos factos, a divina providência encarregar-se-ia do significado da história”. (Rank).
Em suma, desde que o historiador cumpra o papel de recolha e compilação dos factos, por uma espécie de “mão providencial”, a “historia irá revelar por si o progresso benéfico e aparentemente infinito em direcção a estágios sempre mais elevados”. E foi este o pensamento que conduziu à crença de que colocar a questão “O que é a história?” é completamente despropositado. Foi a “Idade da Inocência”.


Mas serão todos os factos históricos? Se sim, serão todos tratados como tal? A morte de um qualquer indivíduo é tão relevante, historicamente falando, quanto a morte do Dr. Martin Luther King? Obviamente, não. Daqui decorre que o estabelecimento dos chamados factos básicos “não é fundamentado em alguma qualidade dos factos em si, mas numa decisão a priori do historiador”, ou seja, depende de uma selecção prévia. Quanto aos documentos, considerados a matéria-prima da história, a sua objectividade levanta sérias dúvidas: um documento pode não descrever fielmente o sucedido e sim o que o autor pensou ou quis que os demais pensassem que sucedera, entre outras possibilidades.
Por conseguinte, o historiador não se afigura como um elemento passivo na elaboração da história: os factos por si só não falam; carecem da selecção, contextualização e interpretação por parte do historiador. “O facto é como se fosse uma saca - cai para o lado até ao momento em que lhe ponham algo dentro.”(Pirandello).
O historiador não se interessa por todos os factos do passado: estes constituem o “material histórico bruto”, indiscutivelmente essencial ao historiador, mas não é a recolha do maior numero possível de factos a sua função essencial – “A exactidão é um dever e não uma virtude” (Houssman).
Ele é primeira e essencialmente selectivo: é dele que depende a recolha dos factos necessários à escrita da sua visão (a que ele pretende retratar de forma coerente) da história. A adopção e permanência de certos factos como históricos estão ligadas, sim, à intuição do historiador e à aceitação por parte da maioria (consoante os interesses e necessidades da sociedade no momento) dos mesmos como correctos. Portanto, o historiador visa a construção de sentidos com base factual, ao invés de uma recolha e compilação pormenorizada, excessiva e desadequada de factos.
São estas as questões tratadas pela filosofia da história (termo introduzido por Voltaire) que pretende levantar e responder a perguntas acerca da natureza da história, (às quais passou indiferente o século XIX.) e que evidencia a premência da questão “O que é a historia?” para uma melhor compreensão da mesma e do papel de quem a escreve.



É na Alemanha, em 1880/1890 que se surgem os primeiros opositores à tirania dos factos na história. No entanto, só após 1920, Croce (filósofo francês) começou a ter alguma popularidade em França e Inglaterra. Porquê? Após a Primeira Guerra Mundial, os factos já não parecem sorrir, esfumando-se o seu prestígio junto das populações. Estão então instaladas as condições propicias à mudança de paradigma que se seguiu, pois na sociedade de então fervilhava intensamente essa vontade/necessidade.
Floresce em oposição à positvista, uma nova visão da história, cuja figura mais eminente é o filosofo britânico (influenciado por Croce), Collingwood: o entendimento do passado só é necessariamente possível através dos olhos do presente – “Toda a história é história contemporânea”(Croce). Aqui, o historiador encarna o papel de avaliador: como poderá saber o que é relevante se não proceder a uma avaliação prévia?



Como procede o historiador nessa selecção?
A fertilidade de um acontecimento passado é indissociável da sua integração na “reconstituição mental da história” que se pretende contar. Esta, apesar de depender de evidência empírica (factos), não é, em si, um processo empírico (não é uma mera narrativa de factos): a ela preside a selecção e interpretação dos factos – “Escrever história é a única maneira de a fazer” (G.M.Trevelyan).
O passado é dinâmico e não morto. As suas consequências ainda vivem, de algum modo, no presente e é, em grande medida, a necessidade de compreender este último, que leva o historiador a tentar compreender o primeiro.
Portanto, o que se conhece da história não é uma série pura e intacta de acontecimentos passados, mas sim o resultado do processamento dos factos seleccionados pelo historiador, pelo que compreender a relação historiador/facto é compreender a história.



Contudo, a ênfase extrema no papel do historiador pode conduzir à ideia falaciosa de que não existe qualquer objectividade na história. Em 1910, o historiador americano Carl Becker ilustra esse perigo: “Os factos da história não existem para nenhum historiador até ele os criar”. A história é, pois, uma mera criação com uma infinidade de sentidos, todos eles subjectivos, sem que haja um mais correcto que outro. Esta visão relativista conduz a outro grande perigo: à concepção finalista da história; o único critério do historiador seria o da conveniência em relação a um objectivo presente (por exemplo, satisfazer o poder politico vigente), onde o facto é desprezado e tudo é intenção: história igual a propaganda histórica.
É nesta situação escorregadia que podem cair historiador e leitor se não considerarem a impossibilidade de concluir que uma dada interpretação é tão boa quanto a outra porque a interpretação representa uma parte necessária e não exclusiva ao estabelecimento dos factos da história, ou porque nenhuma interpretação é completamente objectiva.


Exige-se, deste modo, ao historiador um compromisso em relação aos factos; deve assegurar-se de que os factos seleccionados para a construção da “intriga” pretendida estão correctos. Isto, todavia, não significa eliminar o elemento interpretativo, fulcral na história, mas sim impor-lhe correcção.
Assim, no processo de reconstituição mental, é necessária “compreensão imaginativa”: tentar alcançar um certo nível de contacto com a mentalidade das pessoas em estudo, de forma a compreender melhor as suas acções, o que, não implicando concordância, requer a não interposição dos valores do historiador na análise que efectua.
Embora seja impossível um distanciamento completo das relações sociais e de poder nas quais se insere, e surja também o problema da linguagem (os conceitos do passado não serão exactamente os utilizados pelo historiador), a procura do distanciamento deve ser uma atitude cultivada, não esquecendo, porém, que o passado só poderá ser compreendido através do presente.



Como trabalha o historiador quando escreve historia?
Dado o carácter dinâmico da historia, Carr defende que a escrita deve ocorrer em simultâneo com o processo de recolha e interpretação dos factos, emergindo, desta interacção, a perspectiva (não totalmente factual ou interpretativa) defendida pelo historiador. A selecção, tal como a interpretação dos factos, não é estática e poderá não ser a definitiva, sofrendo as alterações necessárias no decorrer da escrita.
O que é a história?
A resposta a esta pergunta, como a muitas outras, depende do momento e circunstâncias em que é colocada; daí a necessidade de uma constante reflexão acerca da sua natureza.
Não havendo resposta definitiva, história parece ser um processo interactivo e continuo entre o historiador e os seus factos, um constante diálogo entre o passado e o presente.


(escrito com base em Que é a História? Carr; E.H. ; cap. 1: O Historiador e os seus factos; pp. 7-25.)


(D.O.)