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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Os Poetas


"OS POETAS, numa enorme fila que ultrapassa já a esquina do quarteirão seguinte, aproveitam o momento de espera para preencherem cuidadosamente o formulário."

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O VELHO ABUTRE

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas



Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética II, Caminho, 1995 (2ª ed. )p.151

sábado, 27 de outubro de 2012

António franco Alexandre

Já me esqueci da água agora só vigio
os aviões que chegam ou levantam
na pista paralela ao horizonte,
pilotos sonolentos, embrulhados no frio,
a voz no microfone destrocada
por transparentes rotas rente às nuvens.

o vidro embaciado não me deixa
bem decifrar o rosto, os gestos lentos,
a boca, que beijaram os segredos.
vou ver se nesta tarde me despenho,
onde é mais fácil enganar o tempo,
onde a rocha da água se separa.

talvez regresse a mim. talvez me aguarde
o vago comité a que pertence
a sábia ciência de contar os vivos,
talvez passe a manhã ouvindo a rádio
em vastas ambições e pensamentos;
vou ver se nesta tarde me desenho.

As Moradas 1 & 2 (1987)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Dois sonetos


                      VIII
How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
   And, when a thought would unmask our soul's masking,
   Itself goes not unmasked to the unmasking.


                      XVII
My love, and not I, is the egoist.
My love for thee loves itself more than thee;
Ay, more than me, in whom it doth exist,
And makes me live that it may feed on me.
In the country of bridges the bridge is
More real than the shores it doth unsever;
So in our world, all of Relation, this
Is true--that truer is Love than either lover.
This thought therefore comes lightly to Doubt's door--
If we, seeing substance of this world, are not
Mere Intervals, God's Absence and no more,
Hollows in real Consciousness and Thought.
   And if 'tis possible to Thought to bear this fruit,
   Why should it not be possible to Truth?

Fernando Pessoa, 35 Sonnetsaqui.

domingo, 1 de julho de 2012

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Píndaro (518-438 a.C.)

Os Campos Elísios

Brilha para eles a força do sol, debaixo da terra,
         mesmo enquanto é noite aqui.
Em frente à sua cidade, há prados de rosas rubras,
         ensombrados pelo incenso,
e árvores carregadas de áureos frutos.
O seu deleite são os cavalos, os exercícios gímnicos,
         o xadrez e a lira.
E, no meio deles, floresce a ventura frondosa.
        Um aroma aprazível
        se espalha pela região,
dos sacrifícios de toda a espécie,
        feitos sobre os altares
dos deuses. Ao longe se avista a sua chama.

(Hélade - Antologia da cultura Grega, org. e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, p.180)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

LI PO (c. 700-762)

BEBENDO AO LUAR

Bebendo vinho entre as flores
               Só me senti.
Ó Lua tão solitária,
               Eu bebo a ti!
Esta ao lado é a minha sombra,
               Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
dança com ela e comigo.

Como nuvens dançaremos
               A sombra e eu.
Eterno é o gozo se atendes
               O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
               (Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
               Na láctea via.

(tr. Jorge de Sena)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

ALEXANDRE O'NEILL (1924-1986)

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórios fora, tarde ou cedo;

 computai, computai a vossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.  


Alexandre O'Neill, De Ombro Na Ombreira (1969)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Carlos M. Couto S.C.

VIII. TEMPO
I. ES-FINGE: EM HOMENAGEM

no teu susto já nada se sente de febre roxa e insónia
em oiro de categoria ela escorre e corre em pranto 
ela morre no crispado

desdém de uma elegia
por sob espessa densidão de sombra fria

no teu susto imagina-se a carne das cores endoidecidas      [no teu rosto]
em ferida ruiva de ether e sem a piedade do dom oh
minhas letras sempre rasgadas e ofendidas
sem som

que pesadelo tão só consentido pelo esquema
carrocel partido?

regressarmos ao susto antigo?
onde estou eu que nada me aloira já?

gostava tanto de poder tocar-te
de sentir, no fim.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

MEIO DIA

Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra 

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida


Livro Sexto (1962)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

RUY BELO (1933-1978)

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM CRIANÇAS

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy  Belo, Homem de Palavra(s) (1970).

sexta-feira, 4 de março de 2011

"
Perceber não é uma actividade para lentos,
é urgente.
Nascemos: e quase nos afogamos; e perceber é tentar
nadar até à margem seca.
Não existe margem seca, dirá o senhor Shankra,
mas que sabemos nós?
Somos humanos: estamos encostados a hábitos
que nos fazem sentir imortais. Enganamo-nos, portanto.
Estamos vivos, levantamos a cabeça: cortam-nos a cabeça.
Eis tudo.
"



Tavares, Gonçalo, M., Uma viagem à Índia, Caminho, 2010, p.355.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011


"DEPOIS DE O SANGUE, DE PEDRO COSTA


ANA PAULA INÁCIO


era uma vez, como de todas as vezes,
os segredos
de encontro ao coração das árvores
lisos e de papel,
era uma vez,
o cancro algures
no corpo cansado
mais três crianças
uma de mãe, outra de pai
e o filho irremediavelmente perdido.
Este pai, este filho
e o corpo de tudo o resto.
plas mãos um fio de sangue.
começa-se.
Faça de mim o que quiser."

77

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"
A verdadeira democracia é um compartimento
que está ocupado
- e o homem terá de esperar.
A vingança poderá ser exercida como um qualquer direito
de cidadania, desde que dentro dos prazos
estabelecidos. (...)"

Tavares, Gonçalo, M., Uma viagem à Índia, Caminho, 2010, p.79

quinta-feira, 8 de julho de 2010



"Mil árvores estão ao Céu subindo,

Com pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Dafne nos cabelos;

Encosta-se no chão, que está caindo

A cidreira co'os pesos amarelos;

Os fermosos limões ali, cheirando,

Estão virgíneas tetas imitando."



Camões, Os Lusíadas, Canto nono, 56, 1572 (ilustrações de lima de Freitas, Edição Círculo de Leitores, 1972).

sábado, 21 de fevereiro de 2009

JOHN UPDICKE

Estados Unidos

1932-1993


AÇORES


Grandes navios verdes

eis que navegam

ancoradas, para sempre;

sob as águas


enormes raízes de lava

prendem-nas firmes

a meio do Atlântico

ao passado


Os turistas, pasmando

do convés

proclamam aos guinchos lindas

as encostas malhadas


De casinhas

(confettis) e

doces losangos

de chocolate (terra).


Maravilham-se com

os campos graciosos

e os socalcos

feitos à mão para conter


Os modestos frutos

das vinhas e das árvores

importadas pelos

portugueses:


paisagem rural

vindo à deriva

de há séculos;

a distância


amplia-se.

O navio segue,

Outra vez a constante

música alimenta


um vazio à popa,

os Açores sumidos.

O vácuo atrás e o vácuo

à frente são o mesmo.


Poesia do Século XX (ant., tr., pre. e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, 1994, pp.454-455)

domingo, 1 de janeiro de 2006

CRÓNICA POÉTICA DE LISBOA (a duas mãos e fora do tempo)

Há qualquer coisa de profundo quando muitas pessoas e durante muito tempo - levamos mais de uma hora à espera das malas - se juntam em torno de uma passadeira de aeroporto. Há os olhares que se cruzam, os sopros desesperados que se adivinham e se sentem, os cigarros que se insiste em acender - apesar dos inúmeros sinais de proibição - como que num gesto de rebelião. Há as pessoas que conhecemos da ilha e que em breve se espalharão por Lisboa na esperança de não se encontrarem tão depressa numa qualquer esquina da capital.
O olhar lânguido e sexualmente convidativo daquele salô pede
mete nojo a forma como ele chupa o cigarro
e se aproxima na vã esperança de que pudéssemos sair
daqui os dois e já no taxi fossemos engolindo a língua um do outro.

...

Saí e sem saber bem como dou comigo a assistir à conversa 'Os livros em volta' na culturgest apresentada por Fernando Pinto do Amaral.

Primeira impressão: tenho
Saudades do Keeper.
("Keeper, Amici !!!"

Fala-se do novo livro de Joaquim Manuel Magalhães - um livro carregadamente pessimista e negro. O convidado, José Bento, que nas palavras do apresentador se revelou recentemente, não sem alguma surpresa, na sua dimensão de poeta, destaca o seguinte verso: "Fogo, feltro, felmatopeia".

Falando-se da colectânea de poesia espanhola de José Bento e do poema de autor algo incógnito intitulado "Soneto a Cristo crucificado", surgiu o tema muito atractivo dos poetas menores, que despertou no próprio o desejo de acrescentar um apêndice sobre essa condição.

Não deixa de ser muito bela essa condição de viver à sombra dos maiores mas da qual alguns por vezes, poucas certamente, conseguem sair para essa luz que entra pelos olhos dentro e abre o poema, fazendo-o funcionar. Nos Açores vive-se muito dessa condição de menoridade, por vezes escondida por detrás do conceito de uma literatura açoriana. Há demasiados poetas menores.

O Nuno Júdice (acompanhado como sempre de sua mulher)
Acaba de se sentar, mesmo à nossa frente.
Está quase careca o poeta.
Maldita próstata!

...

Apresentação, com alguma leitura pelo autor, do novo livro de António Franco Alexandre Uma Fábula, com estrutura quaternária tal como o o seu livro anterior Quatro Caprichos. O leitor, diz-se, é constantemente surpreendido pelas temáticas variadas do livro.

Segundo o poeta este livro é como que "um quinto capricho" sobre Narciso "personagem algo aborrecido" e a Ninfa Eco, sendo a fábula dada como supostamente conhecida e, por conseguinte, não mostrada. As partes I e II são discursos narcísicos e a primeira dever-se-ía chamar Narciso e não, como se pode ler no livro, 'poema simples'. A terceira parte pertence a Eco e a quarta é um "Epimítio".

A epígrafe dos Roling Stones:

"When I travel coast to coast
in the motels you are the goast"

"um corpo vivo feito de penumbra"

Apesar de toda esta novidade o público lisboeta não deixa de mostrar a sua imbecilidade - os telemóveis tocam regularmente e há uns que tocam mas ninguém os desliga, certamente ficaria mal dar ao dedo.

"vivos e completos
somos mortais"

Não deixa de haver alguma semelhança entro o silêncio da leitura poética - esse momento breve - e os silêncios das Igrejas - momento breve onde o público poderia ser o mesmo?

...

O tradutor de Mallarmé para a Relógio D'água, Armando Silva Carvalho, deu "provas de grande qualidade", apesar de o próprio já não se lembrar bem da tradução que já foi feita há mais de sete anos.

Continuo com saudades do
Keeper. Acho que vou
Regressar ainda hoje.
Maldito cão. Suo muito.


E o sapatinho luva do poeta careca?

"O que estará Keeper
A fazer neste momento?"
Este pensamento corroí-me
Até à exaustão. Keeper.
Keeper! I love you!
I love you very nice!


Todos reconhecem a importância do poema traduzido mas ninguém parece gostar muito dele.

...

A referência - algo encenada como se veio a descobrir - feita pelo apresentador aos poetas do establismenent: o do sapatinho luva Nuno Júdice "que chega de Paris e estará algures na sala " e o de direita Vasco Graça Moura "que está aqui à frente e que acaba de lançar O testamento de Vasco Graça Moura.

...

O último livro de Manuel Gusmão é apresentado também com comentários e leituras do autor. 'A via láctea' é dito ser um dos melhores poemas do livro.

A invocação da alegria e a referência à Ética de Espinoza.

"contra todas evidências a alegria"

Por fim, a chamada ao palco do poeta Nuno Júdice para ler com voz perfeita um poema invocativo dos amores de Camões retirado do seu livro Cartografia que é lançado ainda hoje no palácio de Felgueiras e para onde alguns passos já se dirigem.

(LFB)