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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Estado Novo e desvio

" 'Politicamente, tudo o que não se vê, não é.'

A afirmação é de Salazar, e podia aplicar-se à intencionalidade do modelo carcerário desenvolvido a partir dos anos 30 pelo Estado Novo para 'internar' o 'chulo' o homossexual, o vadio, a prostituta, a criança em 'risco moral', o louco ou doente mental, o mendigo, alguns dos tipos sociais mitificados pelo regime na figura socialmente inútil e ameaçadoramente subversiva do 'vadio' ou 'indigente'. Estes não têm de corresponder à realidade, são antes uma amálgama das marginalidades e condutas consideradas desviantes pela moral do regime, na verdade, na sua maioria, aquilo a que hoje chamaríamos, fenómenos de exclusão social.

Quem fosse considerado como integrante destas categorias e personalidades desadequadas à ordem social, arriscava a prisão por longos períodos, frequentemente indeterminados, com o fim professado de 'reeducação' através da disciplina e do trabalho, naturalmente um fim sem sucesso, como reconhecido pelos próprios responsáveis destas instituições face às elevadas taxas de 'reincidência'."

Vitorino, S. (2007). "Actos contra a natureza": a repressão social, cultural e policial da homossexualidade no Estado Novo. Disponível aqui.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Salazarismo, Educação Cívica e Mendicidade

"Também para as elites salazaristas, a colaboração diminuta (...) da população para com os serviços de repressão da mendicidade e da vadiagem -- uma componente importante da obra de regeneração nacional -- se prendia com a falta de educação cívica do povo português:

'A Revolução Nacional foi feita para um povo sem educação cívica. Vinda do alto, num movimento consciente de fôrça armada, afirmada nas realizações brilhantíssimas da obra governamental, carece de adaptar-se ao corpo social a que diz respeito. (...) A arte de adaptação de uma obra genial em desproporção com o corpo a que se destina é uma arte política.'"
(excerto de entrevista ao Ministro do Interior publicada no Diário de Notícias de 1 de Setembro de 1945)

in Bastos, S.P. (1997). O Estado Novo e os seus vadios: contribuição para o estudo das identidades marginais e da sua repressão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 98.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Imagens da mostra de cinema antigo feito nos Açores







O mais antigo filme - 1927 - que se conhece feito em Angra pelo 'fotógrafo Lourenço' revelou alguns aspectos curiosos. As pessoas sempre muito bem vestidas ocupam toda a estrada como se ela fosse apenas sua. Hoje fazem-no os carros - esses objectos que vistos (ou não vistos) naquela distância são monstruosos, e são-no em parte por terem ocupado totalmente a estrada e até os passeios (haverá alguma razão para já não se fazerem passeios nas estradas?)

As pessoas olham para a câmara como se ela fosse um outro com o qual se pode brincar, ou então como um objecto estranho do qual se deve fugir a correr.

Os filmes de propaganda política, e simultaneamente turística, das visitas dos presidentes Carmona (1941) e Américo Tomás (1963) às "ilhas adjacentes" mostram como tudo então estava sob controlo. Desde o momento da partida em Lisboa - Salazar sempre sorridente à partida e chegada dos presidentes (como se mais de vinte anos não se tivessem passo entre as duas viagens)- todos acodem aos Portos (nas Flores, só uma pessoa, por estar gravemente doente, não compareceu); todos batem palmas, todos gritam 'aqui também é Portugal', todos sorriem alegremente e atiram literalmente flores à cara do presidente e seus acompanhantes.
Pelo meio houve também uma visita do presidente craveiro Lopes (1957?), mas desta visita não se viu documentário; estaria o regime demasiado ocupado com a onda gigante Humberto Delgado?

O filme sobre os Capelinhos é obra de arte feita por cientistas (Orlando Vitorino) que aparecem com aquele ar de pessoas sábias que desejam saber.

Continuo sem ter revisto "Quando o mar Galgou a Terra".