segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Depois das Eleições

Depois de uma campanha eleitoral animada, a grande vantagem de qualquer eleição democrática é a de o povo sair, finalmente, da sala de estar dos políticos. É uma sensação de alívio que alguns eleitos descrevem como semelhante ao momento em que uma dor intensa, por qualquer razão obscura, termina.(...) Depois de qualquer eleição a sensação dos políticos - quer tenham perdido quer tenham ganho - é a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltará apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a eleição seguinte.Esse intervalo temporal é indispensável para que o político tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou a indiferença em nova paixão genuína.



Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Kraus



Até às próximas!


(D.O.)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Pergunto...

... ao vento que passa,
o que faz um candidato presidencial
a declamar POESIA?!


(D.O.)
o candidato poeta
é também conhecido, nalguns meios restritos, como o Aedo caçador.

(LFB)

O que é a história?

Procurar responder à questão “O que é a história?” nem sempre foi, como é hoje, considerado algo necessário. Em época de conforto, onde a sociedade respira serenidade e confiança e é regida por uma economia de laissez-faire, tende a reinar uma visão auto-confiante, clarividente, positivista do mundo. Foi assim o século XIX.
As áreas do conhecimento sofriam a influência do empirismo:
- separação completa entre o sujeito (quem observa/ estuda) e o objecto (observado/estudado);
- “os factos - tal como as impressões sensoriais – embatem no observador e são independentes da sua consciência”, sendo, portanto objectivos;
- por fim, o processo de recepção é passivo: só após receber os dados, o observador age sobre os mesmos.
Esta é a base da produção cientifica da época, que se pretendia e acreditava experimental. Vivia-se a “paixão dos factos”, à qual não escapou a própria história, que buscava a ruptura com a história moralizante do século XVIII. Sir Gradgrind, em Tempos Difíceis: “O que eu quero são factos (…) só os factos contam na vida”. Assim, ao historiador competia “simplesmente mostrar como as coisas, na verdade, se tinham passado” – Wie es eigenlich gewesen (Rank). Por outras palavras, dado o carácter objectivo/neutro dos factos (dados da experiência, distintos de conclusões), ao historiador cabe obtê-los de modo exacto e só depois interpretá-los – “Os factos são sagrados, a opinião é livre”(C.S. Scott)).
Nesta concepção liberal da história (que tem em Acton a sua principal figura), a busca dos factos pretende-se ilimitada: todos os factos são históricos, visto terem o mesmo carácter objectivo perante quem tem deles conhecimento. Portanto, a história é a compilação de um número máximo de factos irrefutáveis – é factual, evidente e pormenorizada.
Onde encontra o historiador os seus factos? Em documentos: decretos, tratados, listas de arrendamento, livros azuis, cartas, diários, etc.; é a ditadura do documento: “se os documentos o dizem, então é porque é assim.”. Eles contêm os factos básicos, comuns a todos os historiadores, são a “espinha dorsal da história” (visão histórica do senso comum).
Ora, sendo a história uma “colecção de factos”, os factos infindáveis e o historiador um mero compilador que, pela sua recolha exaustiva, busca constituir a versão última e indiscutível da história, surge um problema: a impossibilidade de conhecer/lidar com todos os factos origina uma história povoada de lacunas. O próprio Acton evidencia este problema ao referir-se ao seu professor, Dollinger: “Ele não escreve jamais com matérias imperfeitos e para ele os materiais eram sempre imperfeitos”.
No entanto, a este problema sobrepunha-se a crença positivista (que mais tarde se verificou insustentável) de que, por falarem por si, “se ele [o historiador] se encarregasse dos factos, a divina providência encarregar-se-ia do significado da história”. (Rank).
Em suma, desde que o historiador cumpra o papel de recolha e compilação dos factos, por uma espécie de “mão providencial”, a “historia irá revelar por si o progresso benéfico e aparentemente infinito em direcção a estágios sempre mais elevados”. E foi este o pensamento que conduziu à crença de que colocar a questão “O que é a história?” é completamente despropositado. Foi a “Idade da Inocência”.


Mas serão todos os factos históricos? Se sim, serão todos tratados como tal? A morte de um qualquer indivíduo é tão relevante, historicamente falando, quanto a morte do Dr. Martin Luther King? Obviamente, não. Daqui decorre que o estabelecimento dos chamados factos básicos “não é fundamentado em alguma qualidade dos factos em si, mas numa decisão a priori do historiador”, ou seja, depende de uma selecção prévia. Quanto aos documentos, considerados a matéria-prima da história, a sua objectividade levanta sérias dúvidas: um documento pode não descrever fielmente o sucedido e sim o que o autor pensou ou quis que os demais pensassem que sucedera, entre outras possibilidades.
Por conseguinte, o historiador não se afigura como um elemento passivo na elaboração da história: os factos por si só não falam; carecem da selecção, contextualização e interpretação por parte do historiador. “O facto é como se fosse uma saca - cai para o lado até ao momento em que lhe ponham algo dentro.”(Pirandello).
O historiador não se interessa por todos os factos do passado: estes constituem o “material histórico bruto”, indiscutivelmente essencial ao historiador, mas não é a recolha do maior numero possível de factos a sua função essencial – “A exactidão é um dever e não uma virtude” (Houssman).
Ele é primeira e essencialmente selectivo: é dele que depende a recolha dos factos necessários à escrita da sua visão (a que ele pretende retratar de forma coerente) da história. A adopção e permanência de certos factos como históricos estão ligadas, sim, à intuição do historiador e à aceitação por parte da maioria (consoante os interesses e necessidades da sociedade no momento) dos mesmos como correctos. Portanto, o historiador visa a construção de sentidos com base factual, ao invés de uma recolha e compilação pormenorizada, excessiva e desadequada de factos.
São estas as questões tratadas pela filosofia da história (termo introduzido por Voltaire) que pretende levantar e responder a perguntas acerca da natureza da história, (às quais passou indiferente o século XIX.) e que evidencia a premência da questão “O que é a historia?” para uma melhor compreensão da mesma e do papel de quem a escreve.



É na Alemanha, em 1880/1890 que se surgem os primeiros opositores à tirania dos factos na história. No entanto, só após 1920, Croce (filósofo francês) começou a ter alguma popularidade em França e Inglaterra. Porquê? Após a Primeira Guerra Mundial, os factos já não parecem sorrir, esfumando-se o seu prestígio junto das populações. Estão então instaladas as condições propicias à mudança de paradigma que se seguiu, pois na sociedade de então fervilhava intensamente essa vontade/necessidade.
Floresce em oposição à positvista, uma nova visão da história, cuja figura mais eminente é o filosofo britânico (influenciado por Croce), Collingwood: o entendimento do passado só é necessariamente possível através dos olhos do presente – “Toda a história é história contemporânea”(Croce). Aqui, o historiador encarna o papel de avaliador: como poderá saber o que é relevante se não proceder a uma avaliação prévia?



Como procede o historiador nessa selecção?
A fertilidade de um acontecimento passado é indissociável da sua integração na “reconstituição mental da história” que se pretende contar. Esta, apesar de depender de evidência empírica (factos), não é, em si, um processo empírico (não é uma mera narrativa de factos): a ela preside a selecção e interpretação dos factos – “Escrever história é a única maneira de a fazer” (G.M.Trevelyan).
O passado é dinâmico e não morto. As suas consequências ainda vivem, de algum modo, no presente e é, em grande medida, a necessidade de compreender este último, que leva o historiador a tentar compreender o primeiro.
Portanto, o que se conhece da história não é uma série pura e intacta de acontecimentos passados, mas sim o resultado do processamento dos factos seleccionados pelo historiador, pelo que compreender a relação historiador/facto é compreender a história.



Contudo, a ênfase extrema no papel do historiador pode conduzir à ideia falaciosa de que não existe qualquer objectividade na história. Em 1910, o historiador americano Carl Becker ilustra esse perigo: “Os factos da história não existem para nenhum historiador até ele os criar”. A história é, pois, uma mera criação com uma infinidade de sentidos, todos eles subjectivos, sem que haja um mais correcto que outro. Esta visão relativista conduz a outro grande perigo: à concepção finalista da história; o único critério do historiador seria o da conveniência em relação a um objectivo presente (por exemplo, satisfazer o poder politico vigente), onde o facto é desprezado e tudo é intenção: história igual a propaganda histórica.
É nesta situação escorregadia que podem cair historiador e leitor se não considerarem a impossibilidade de concluir que uma dada interpretação é tão boa quanto a outra porque a interpretação representa uma parte necessária e não exclusiva ao estabelecimento dos factos da história, ou porque nenhuma interpretação é completamente objectiva.


Exige-se, deste modo, ao historiador um compromisso em relação aos factos; deve assegurar-se de que os factos seleccionados para a construção da “intriga” pretendida estão correctos. Isto, todavia, não significa eliminar o elemento interpretativo, fulcral na história, mas sim impor-lhe correcção.
Assim, no processo de reconstituição mental, é necessária “compreensão imaginativa”: tentar alcançar um certo nível de contacto com a mentalidade das pessoas em estudo, de forma a compreender melhor as suas acções, o que, não implicando concordância, requer a não interposição dos valores do historiador na análise que efectua.
Embora seja impossível um distanciamento completo das relações sociais e de poder nas quais se insere, e surja também o problema da linguagem (os conceitos do passado não serão exactamente os utilizados pelo historiador), a procura do distanciamento deve ser uma atitude cultivada, não esquecendo, porém, que o passado só poderá ser compreendido através do presente.



Como trabalha o historiador quando escreve historia?
Dado o carácter dinâmico da historia, Carr defende que a escrita deve ocorrer em simultâneo com o processo de recolha e interpretação dos factos, emergindo, desta interacção, a perspectiva (não totalmente factual ou interpretativa) defendida pelo historiador. A selecção, tal como a interpretação dos factos, não é estática e poderá não ser a definitiva, sofrendo as alterações necessárias no decorrer da escrita.
O que é a história?
A resposta a esta pergunta, como a muitas outras, depende do momento e circunstâncias em que é colocada; daí a necessidade de uma constante reflexão acerca da sua natureza.
Não havendo resposta definitiva, história parece ser um processo interactivo e continuo entre o historiador e os seus factos, um constante diálogo entre o passado e o presente.


(escrito com base em Que é a História? Carr; E.H. ; cap. 1: O Historiador e os seus factos; pp. 7-25.)


(D.O.)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

3 de Janeiro de 2006, Câmara Municipal da Praia da Vitória

Funcionária - É estudante universitária ao abrigo de algum programa de intercâmbio?

"- Não, não pertenço a qualquer programa de intercâmbio."

Funcionária - Então não pode votar nestas eleições.

"Estranho!"

Funcionária ( ar inquieto, impaciente) - Quer ver? Está aqui! Na LEI!




(D.O.)

domingo, 1 de janeiro de 2006

CRÓNICA POÉTICA DE LISBOA (a duas mãos e fora do tempo)

Há qualquer coisa de profundo quando muitas pessoas e durante muito tempo - levamos mais de uma hora à espera das malas - se juntam em torno de uma passadeira de aeroporto. Há os olhares que se cruzam, os sopros desesperados que se adivinham e se sentem, os cigarros que se insiste em acender - apesar dos inúmeros sinais de proibição - como que num gesto de rebelião. Há as pessoas que conhecemos da ilha e que em breve se espalharão por Lisboa na esperança de não se encontrarem tão depressa numa qualquer esquina da capital.
O olhar lânguido e sexualmente convidativo daquele salô pede
mete nojo a forma como ele chupa o cigarro
e se aproxima na vã esperança de que pudéssemos sair
daqui os dois e já no taxi fossemos engolindo a língua um do outro.

...

Saí e sem saber bem como dou comigo a assistir à conversa 'Os livros em volta' na culturgest apresentada por Fernando Pinto do Amaral.

Primeira impressão: tenho
Saudades do Keeper.
("Keeper, Amici !!!"

Fala-se do novo livro de Joaquim Manuel Magalhães - um livro carregadamente pessimista e negro. O convidado, José Bento, que nas palavras do apresentador se revelou recentemente, não sem alguma surpresa, na sua dimensão de poeta, destaca o seguinte verso: "Fogo, feltro, felmatopeia".

Falando-se da colectânea de poesia espanhola de José Bento e do poema de autor algo incógnito intitulado "Soneto a Cristo crucificado", surgiu o tema muito atractivo dos poetas menores, que despertou no próprio o desejo de acrescentar um apêndice sobre essa condição.

Não deixa de ser muito bela essa condição de viver à sombra dos maiores mas da qual alguns por vezes, poucas certamente, conseguem sair para essa luz que entra pelos olhos dentro e abre o poema, fazendo-o funcionar. Nos Açores vive-se muito dessa condição de menoridade, por vezes escondida por detrás do conceito de uma literatura açoriana. Há demasiados poetas menores.

O Nuno Júdice (acompanhado como sempre de sua mulher)
Acaba de se sentar, mesmo à nossa frente.
Está quase careca o poeta.
Maldita próstata!

...

Apresentação, com alguma leitura pelo autor, do novo livro de António Franco Alexandre Uma Fábula, com estrutura quaternária tal como o o seu livro anterior Quatro Caprichos. O leitor, diz-se, é constantemente surpreendido pelas temáticas variadas do livro.

Segundo o poeta este livro é como que "um quinto capricho" sobre Narciso "personagem algo aborrecido" e a Ninfa Eco, sendo a fábula dada como supostamente conhecida e, por conseguinte, não mostrada. As partes I e II são discursos narcísicos e a primeira dever-se-ía chamar Narciso e não, como se pode ler no livro, 'poema simples'. A terceira parte pertence a Eco e a quarta é um "Epimítio".

A epígrafe dos Roling Stones:

"When I travel coast to coast
in the motels you are the goast"

"um corpo vivo feito de penumbra"

Apesar de toda esta novidade o público lisboeta não deixa de mostrar a sua imbecilidade - os telemóveis tocam regularmente e há uns que tocam mas ninguém os desliga, certamente ficaria mal dar ao dedo.

"vivos e completos
somos mortais"

Não deixa de haver alguma semelhança entro o silêncio da leitura poética - esse momento breve - e os silêncios das Igrejas - momento breve onde o público poderia ser o mesmo?

...

O tradutor de Mallarmé para a Relógio D'água, Armando Silva Carvalho, deu "provas de grande qualidade", apesar de o próprio já não se lembrar bem da tradução que já foi feita há mais de sete anos.

Continuo com saudades do
Keeper. Acho que vou
Regressar ainda hoje.
Maldito cão. Suo muito.


E o sapatinho luva do poeta careca?

"O que estará Keeper
A fazer neste momento?"
Este pensamento corroí-me
Até à exaustão. Keeper.
Keeper! I love you!
I love you very nice!


Todos reconhecem a importância do poema traduzido mas ninguém parece gostar muito dele.

...

A referência - algo encenada como se veio a descobrir - feita pelo apresentador aos poetas do establismenent: o do sapatinho luva Nuno Júdice "que chega de Paris e estará algures na sala " e o de direita Vasco Graça Moura "que está aqui à frente e que acaba de lançar O testamento de Vasco Graça Moura.

...

O último livro de Manuel Gusmão é apresentado também com comentários e leituras do autor. 'A via láctea' é dito ser um dos melhores poemas do livro.

A invocação da alegria e a referência à Ética de Espinoza.

"contra todas evidências a alegria"

Por fim, a chamada ao palco do poeta Nuno Júdice para ler com voz perfeita um poema invocativo dos amores de Camões retirado do seu livro Cartografia que é lançado ainda hoje no palácio de Felgueiras e para onde alguns passos já se dirigem.

(LFB)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Não sei

como será o Público às sextas-feiras sem Miguel Sousa Tavares?


(LFB)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Outro livro

"Se eu tivesse sido conselheiro de Deus no momento da criação, muitas coisas estariam mais bem ordenadas" (p.29)

(Afonso X, Rei de Castela em 1252, conhecido como O sábio, devido às suas colecções de leis e de música)

que ando a ler é o livro de Susan Neiman, O mal no Pensamento Moderno, (Gradiva, 2005. Originalmente editado em inglês com o título Evil in Modern Thought, Princeton U.P. 2002). É um livro (premiado) de filosofia académica e como tal defende um conjunto específico de teses. A saber: i) a filosofia nos séculos XVIII e XIX foi guiada pelo problema do mal; ii) o problema do mal diz respeito à inteligiblidade do mundo como um todo; iii) a distinção entre o mal natural (os desastres naturais) e o mal moral (o mal humano) é uma distinção histórica; e iv) existem dois pontos de vista sobre o problema do mal: um que defende que a moral implica tornar o mal compreensível (de Rousseau a Hannah Arendt) e outro que defende que a moralidade implica não tornar o mal compreensível (de Voltaire a Jean Améri) (p.22).
Contudo, não deixa de ser um livro que vem mesmo a calhar. Em primeiro lugar, porque é um livro sobre o mal publicado no pós 11 de Setembro; acontecimento que veio recolocar e obrigar a repensar a questão do mal radical. E depois porque o livro se baseia noutro acontecimento importante para os estudos sobre o mal, o grande terramoto de Lisboa do qual se celebra este ano os 250 anos. O livro de Neiman começa com a ideia esclarecedora de que o século XVIII usou a expressão "Lisboa", tal e qual como hoje usamos a expressão "Holocausto".
Um dos focos de interesse do livro é o da discussão, sempre incompleta, das implicações filosóficas acerca da natureza humana que o horror nazi arrastou consigo (outros livros surgirão aqui sobre este tema). Como foi o Holocausto possível? Quem foram os responsáveis? Qual a natureza da responsabilidade? Como explicar a conivência do povo alemão (e, em geral, de muitos europeus ) com o extermínio de milhões de pessoas?
Se alguém quiser ler o livro, mas não quiser passsar por alguns momentos mais chatos de história da filosofia iluminista - hiperbolizados pela fraca tradução, o que é pena que ainda aconteça numa editora prestigiada com a Gradiva (não fosse a fraca tradução e a revisão bastante deficiente este livro até poderia ser escolhido para o melhor livro de filosofia traduzido em 2005. E não fosse também o facto de este ano ter sido publicado pela F.C.Gulbenkian em edição cuidada (mas, incompreensivelmente, sem o índice analítico que tanto jeito dá aos investigadores) o livro de Michael J. Sandel O Liberalismo e os Limites da Justiça (o original é de 1982) - passe imediatamente para o quarto e último capítulo onde a filosofia contemporânea entra em jogo.
(LFB)

Finalmente vi o filme


Vida+amor+morte= liberdade.

(LFB)

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

É triste

Ha já muito tempo que desconfiava da fragilidade da Psicologia (pelo menos da forma como parece ser encarada e praticada actualmente) como ciência capaz de explicar e até de prever os mecanismos profundos da mente humana... Mas o primeiro contacto directo com alguns dos métodos utilizados na área deixaram-me ainda mais desconfiada...
Imagine-se que para medir (sim, medir significa quantificar!) o altruismo e a ideologia das pessoas, é-nos proposto recorrer a um questionário! Como se fosse possível, deste modo, tocar o cerne das pessoas e extrair de forma válida qualquer conclusão acerca das suas motivações relativamente a estas questões tão subtis.
É assustador pensar que se baseiam neste tipo de estudo muitas das respostas ditas científicas à pergunta "O que é o homem?"...
Que método proponho? Nao sei; mas sei que este não me parece minimamente plausível. É, pois, necessário reflectir. E é precisamente essa atitude crítica que NÃO vejo à minha volta: a preocupação central é a de construir - despachar - o questionário o mais rápido possível, de forma a agradar o mais o possível ao professor da cadeira em causa. É a escravização da inteligência. É a busca de um número que nos impulsiona a nós, alunos - uma nota.

É triste.


(D.O.)

Os debates presidenciais

têm sido mornos. Mas estou esperançado de que me ajudarão a escolher a pessoa em quem vou votar. Para já uma nota sobre o debate Cavaco/Louçã; candidatos em quem eu à partida não votarei. Não votarei em Cavaco porque, para além do constante silêncio opinativo, só a ideia de que possui "um rumo certo" (como salientou Vasco Pulido Valente no Público) para Portugal me assusta; não votarei em Louçã porque a sua argumentação demagógica esconde uma vontade de poder racional, frio e implacável que o pior do século XX exemplificou bem aonde conduz. Fico com o problema de saber em quem votar dado que os restantes candidatos também não são flor que se cheire...
Mas a nota é sobre o argumento que Cavaco apresentou em defesa dos limites à entrada de emigrantes. O argumento implica que se seja capaz de antever as consequências de uma lei pouco restritiva. Diz Cavaco que ela se torna perigosa porque pode colocar em minoria eleitoral os portugueses, sobretudo se aos recém chegados for dado, de imediato, o direito de voto. A contra-argumentação de Louçã diz ser um absurdo acreditar que 10 milhões de emigrantes estão à espera de entrar em Portugal. E que, por detrás dessa suposição há uma ideia de extrema direita que ele atribui a Manuela Monteiro - a ideia de que todos os emigrantes são perigosos.
O ponto é que o argumento de Cavaco não cai com o ataque de Louçã. Primeiro, porque existem de facto milhões de pessoas à espera de entrar na Europa e, logo, também em Portugal. Não é esse precisamente o drama da Europa perante as sucessivas vagas de emigrantes clandestinos que todos os dias tentam a sua sorte (ou azar) para nela entrar?
Mas mesmo que a questão fosse de milhares e não de milhões, o erro (e o aproveitamento político) de falar em 10 milhões é grave pois como se sabe 10 milhões é o número aproximado de portugueses e não o número de eleitores que, como é óbvio, é muito menor. E é por isso que em determinados actos eleitorais - referendos, por exemplo - é perfeitamente concebível que o número de votantes portugueses pudesse ser inferior ao número de votantes recém chegados. Isto porque a participação dos portugueses pode ser (e tem sido) muito diminuta e porque a participação de recém chegados pode ser potenciada precisamente por serem novos cidadãos, por desejarem afirmar-se como tal e pelo facto de o tema em referendo, por hipótese, lhes interessar mais do que aos que já cá estão. Portanto, nem os números estão certos, nem é impossível conceber um acto eleitoral onde votam mais pessoas recém chegadas (admitindo que lhes é dado o direito de voto) do que indígenas.
Para mim é mais um sinal de que a argumentação de Louçã é uma máscara que esconde qualquer coisa de terrível.
Quanto à discussão sobre a emigração, são as forças económicas que ditam os movimentos dos povos e, dado que o mercado livre é o mais desejável (só Louçã e Jerónimo não estarão convencidos disto?), enquanto não se encontrar uma forma de eliminar a pobreza não parece fácil conter o desejo dos mais pobres de quererem entrar nos países mais ricos. Os portugueses sabem bem disso, sendo também empurrados para, por exemplo, a Inglaterra onde encontram o mesmo vazio que os emigrantes recém-chegados a Portugal encontram. Sendo Portugal um país pobre, com o desemprego a crescer, com licenciados sem saberem o que fazer à vida, não é melhor pensar um pouco mais antes de abrir totalmente as portas?

(LFB)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Opinar? Sim!

"Questionar ou não questionar, eis o ser!"
(nesta janela indiscreta, o risco de plágio involuntário, exponencializa-se)
Ser-se filho, jovem, amante, pai,
ser-se gente, e agente de educação,
eis o meu ser, a minha questão!?
(escrito por, "Mano velho")
(L.E.)

domingo, 4 de dezembro de 2005

os livros que ando a ler


Sempre tive a mania de ler vários livros ao mesmo tempo. Levo muito mais tempo a terminá-los mas tenho diferentes prazeres vindos de diferentes quadrantes. Falarei, nesta rubrica, de algumas das minhas leituras actuais. Começo pelo livro de Thomas Friedman, The World is Flat. A brief History of the Twenty-first century (Farrar, Straus and Giroux, 2005. Já traduzido em português, mas desconheço a qualidade da tradução). Comprei-o, acabadinho de sair, na livraria da "base" (acerca desta um destes dias escreverei). O livro é uma lufada de ar fresco no tema da globalização e no seu valor. Já há algum tempo que a luta anti-globalização da (suposta) esquerda me deixa indignado e mal disposto. Nunca cheguei a compreender as razões anti-globalização de pessoas que vivem num mundo altamente globalizado e que não querem deixar de viver nele nem de participar e usufruir do conforto deste nosso mundo. De qualquer modo, ainda não tinha assimilado totalmente o significado, a importância e a linguagem da globalização - uma mistura de comunicação, informática e economia. Nem tinha percebido a forma como o mundo tem vindo a ficar mais plano (mais igualitário?) através da sucessivas vagas de globalização. Três segundo o autor. A que começou com Colombo e cuja força principal era a capacidade de os países competirem e de colaborarem entre si. A que começou em 1800 com a industrialização e com o desenvolvimento das multinacionais (o mundo ficou mais plano graças aos transportes e às comunicações). E a vaga presente resultante das inovações tecnológicas possibilitadas pela pelo cabo de fibra óptica e pela World Wide Web. A importância da queda do muro de Berlin (9 do 11) e, consequentemente, das ideias de esquerda que impediram a afirmação individual, é destacada. Conceitos como out-sourcing, free-sourcing, ofshore, são claramente explicados de forma interessante e descomprometida, sendo apresentado o modo como, por exemplo, países como a Índia ou a China foram e estão a ser capazes de se tornar altamente competitivos neste novo mundo altamente globalizado. Também por esta via se percebe porque é que Portugal não tem sido capaz de afirmar positivamente: dito de forma simples, falta-lhe institutos de Tecnologia de excelência. Institutos que a Índia, por exemplo, começou a criar há cinquenta anos.
Nesta terceira vaga a força impulsionadora são os indivíduos e a sua capacidade de competir globalmente entre si. 'Qual é o meu papel neste mundo globalizado?' é a questão que se coloca a qualquer indivíduo que perceba o que está em jogo neste novo século.
Podemos vislumbrar aqui uma implicação entre a concepção de indíviduo livre surgida do estado liberal e a sua plena afirmação neste novo século tecnológico. A discussão desta tese e das suas implicações pós 11 de Setembro (11 do 9) parecem-me reservadas para as últimas 100 páginas do livro, onde ainda não cheguei.
(LFB)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Públicos


Finalmente vi a exposição de fotografia de Sandra Rocha “Retratos da Nossa Gente” no CCCAH. Há aqui uma ideia simples mas a funcionar bem que é a de fotografar figuras 'típicas ' da ilha Terceira e expô-las em tamanho real. Resulta aqui e em qualquer parte do mundo, e não é feita para mostrar a nenhum grupo particular. É um bom exemplo de como a arte, mesmo que seja feita nas ilhas e sobre as ilhas, não tem que resultar no provincianismo fólclorico - 'vamos levar a cultura açoreana às comunidades açoreanas emigradas' (havendo até uma secção do governo regional que está encarregue de levar a cultura açoreana aos açoreanos!).
A arte é universal e, se for boa, não tem que ser reduzida nem a um público nem a um espaço particulares. No entanto, são muito poucos os exemplos de coisas feitas nos Açores que não padecem desse mal regional. Faz-se música para açoreanos, faz-se pintura açoreana (quase só paisagem) para açoreanos.
É claro que este regionalismo artístico tem a vantagem de criar a ilusão de que o mundo somos nós e apenas nós, e é por isso - porque apagamos, como que por magia, toda a arte universal com a qual deveríamos estar em constante confronto - que somos os maiores artistas do mundo.


(LFB)

sábado, 5 de novembro de 2005

Teoria Cinética dos Gases Ideais

A teoria actualmente aceite para descrever o comportamento dos gases, em condições ideais (temperatura próxima de zero e pressão de uma atmosfera), tem como alguns pontos base os seguintes:
- O gás é constituído por um número muito elevado de moléculas em movimento desordenado descrito pelas leis de Newton;
- O volume próprio das moléculas é desprezível frente ao volume do recipiente;
- As forças intermoleculares são desprezíveis, excepto nas colisões mútuas e com as paredes do recipiente;
- As colisões são elásticas e de duração desprezível.

Contudo, após aturada pesquisa científica (*), notei que a aplicabilidade da teoria em questão não se restringe aos gases ideais! Não! Na verdade, ligeiras modificações habilitam-na a descrever de modo profundo e credível uma certa gama de comportamentos pseudo-humanos (talvez os mais frequentes no comum cidadão português) observados predominantemente em centros comerciais (CC).
Obviamente, é inevitável a alteração do nome: passar-se-á então a designar Teoria do Português Desordenado, e consta do seguinte:
- O CC é constituido por um número muito elevado de pessoas em movimento desordenado, descrito pelas leis do consumismo;
- O volume próprio das pessoas é desprezível frente ao volume do CC;
- As relações interpessoais são desprezíveis, excepto nas colisões mútuas nos corredores e lojas do CC;
- As colisões são indesejadas e de duração desprezível.


(*) A pesquisa consta de 10 minutos de observação directa e objectiva de várias amostras representativas da população portuguesa num centro comercial muito frequentado (não refiro o nome porque não faço publicidade gratuita!)


(DO)

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

A vingança

De cada vez que, estando em Lisboa, vou a um centro comercial num dia de sol, lembro-me sempre da afirmação de Miguel Sousa Tavares que diz que os portugueses têm o hábito de se fechar aos fins-de-semana e aos feriados nos centros comerciais como se se quisessem vingar do bom tempo que faz lá fora.
Por que será que as pessoas gostam tanto de passar o dia num enorme espaço fechado, com um ruído insuportável e sem se poderem mexer à vontade? Será apenas pelo consumismo? Será pela segurança que esses espaços oferecem? Ou será mesmo por vingança?

(LFB)

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Opinião vs Atitude

“(...) É uma espécie de obsessão, mas intermitente, de onde deveríamos extrair, se fôssemos sensatos, a certeza de uma existência melhor e a esperança de a atingir pelo exercício quotidiano da nossa vontade. Esta acuidade do pensamento, este entusiasmo dos sentidos e do espírito, devem sempre ter aparecido ao homem como o primeiro dos bens; (...)”
(Os Paraísos Artificiais, Baudelaire, Guimarães Editores)

Sinto-me assim,
Porque me sinto, sem razão aparente ou por essa mesma razão.
Porque sinto a razão ou penso na emoção.
Porque se me sinto, não penso na razão da emoção.
Porque se penso na razão, não sinto a emoção.
Porque sinto a emoção de não pensar na razão.
Porque (não) sinto a tua mão!!
(Paixão, Luís Enes, O Germe Editor)

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

O jornalismo primitivo

Nos Açores o jornalismo, como muitas outras coisas, é, na maior parte dos casos, fraco, e nos restantes mau. Quer se trate de radio, televisão ou jornais, a informação é transmitida, muitas vezes, de formas que roçam o absurdo, o falso e, nalguns casos, o conveniente. Basta ver os programas informativos da RTP Açores para ver como a formação jornalística - que, pelo menos, deveria ensinar as pessoas a falar e a escrever bem português - é, regra geral, inexistente. Se se quiser ver como é possível conjugar a falta de postura ética com a incapacidade de articular frases simples e de pronunciar correctamente as palavras, basta ouvir alguns momentos do incrível programa da RDP Açores intitulado Inter-ilhas. (Enquanto a RDP 1 realiza fóruns temáticos sobre os temas da actualidade, aos açoreanos, como não têm (ainda!) RDP1, resta-lhes a barbárie, disfarçada de intelectualidade intocável.) Mas a acção mais condenável - e certamente a mais frequente - traduz-se na introdução sub-reptícia de preconceitos contra as regalias e contra os direitos das pessoas. Esta é uma das formas mais usadas pelos jornalistas para dar sentença (e condenação) sobre coisas que não são do seu agrado, como se todas as pessoas fossem facilmente influenciáveis e como se o dever de um jornalista não fosse - acima de tudo - informar e, na medida do possível, de modo neutro. Veja-se o caso, menor é certo, mas sintomático, de um jornalista não identificado que ao escrever uma notícia no Diário Insular sobre a falta de estores numa sala da Escola Vitorino Nemésio, termina afirmando que muitos dos funcionários "foram de férias" porque candidatos políticos nas autárquicas, rematando que, só daquela escola, "foram muitos" os funcionários que se candidataram e "alguns" professores. É assim que se contribui para o descrédito da educação, da política e dos tão falados "direitos adquiridos."

(LFB)

domingo, 9 de outubro de 2005

A hora extra

Apesar de Miguel Sousa Tavares (MST) ser um dos 'formadores de opinião' que leio e escuto com atenção, tenho vindo a dar alguma razão àqueles críticos que dele afirmam que, por vezes, fala das coisas sem estar bem informado. O que, a ser verdade, enfraquece o seu apurado sentido de justiça e de bem público. Um exemplo: no seu artigo de sábado no jornal Público, MST a certa altura diz-se espantado com o facto de ter ouvido um professor afirmar que queria receber como hora extra uma aula de substituição que teria que dar na sua escola. Pergunta MST como é possível que um professor queira receber horas extraordinárias por aulas de substituição dadas durante o seu horário semanal de trabalho. Pois eu - apesar de ser, como professor, parte interessada na matéria - julgo que tal é correcto e penso também que se MST tivesse apurado um pouco mais aquilo que ouviu acabaria por concordar com o tal professor. Vejamos como.
Conceba-se, por hipótese, o seguinte cenário. Imagine-se que uma empresa televisiva, detentora de vários canais de TV, contratava MST para estar presente em estúdio durante o decorrer de um telejornal para comentar algumas notícias, aparecendo assim em público apenas durante esse seu tempo de comentário, mas não deixando de estar presente em estúdio durante o decorrer de todo o telejornal. Estabelecido o contrato, imagine-se agora que o mesmo canal televisivo quer exigir a MST que, enquanto não estiver a comentar no canal principal, em directo, as notícias seleccionadas, faça comentários de improviso para os canais secundários da mesma empresa, não recebendo mais por isso. Já que tem que estar em estúdio, por que não pô-lo a fazer mais uns comentários? Não terá MST o direito de ficar indignado com tal pedido? E não podendo rejeitar estas novas exigências - sob pena de perder todo o contrato - não terá MST razão em querer receber honorários extraordinários por esses novos comentários que terá que realizar durante o tempo em que não está no ar no canal principal?
Pois o mesmo se passa com os professores. Tendo um horário de 35 horas semanais e tendo sido contratado (no estatuto da carreira docente, que não se pode alterar do pé para a mão, embora alguns governantes assim o desejem e, ao que parece, apoiados por MST) que vinte e duas horas seriam para dar aulas, ficando as restantes destinadas à preparação das mesmas, não se pode vir agora dizer que, para além dessas 22 horas lectivas os professores passam a ter que ficar na escola mais 4 horas para dar, de improviso, aulas de substituição. Se não será correcto impor a MST mais uns comentários enquanto não está no ar no canal principal, também não será correcto impor aos professores mais umas aulas enquanto deveriam estar a preparar as suas aulas principais.



(LFB)