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sábado, 12 de setembro de 2015
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
terça-feira, 11 de setembro de 2012
domingo, 11 de setembro de 2011
10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (4)
"No serão de um Outono próximo do fim, um estudante de Paris sentou-se na minha cozinha, em Berlim, e perguntou, a propósito de nada, onde é que estava quando ouvi as notícias. Este estudante podia ter vindo de Boston, de Santiago ou de Zagreb. Onde quer que estivéssemos, quem quer que sejamos, foi um momento que não esquecemos e que devemos recordar repetidamente - tivemos de ver o World Trade Center cair, uma e outra vez, na televisão, até nos sentirmos suficientemente enjoados para termos a certeza de que era real. Isto é a globalização. Será também Lisboa? [ a autora refere-se ao terramoto de 1755]
O paralelismo é inegável. A surpresa e a rapidez dos ataques parecem-se com uma catástrofe natural. Não houve aviso. Também não havia mensagem. A ausência de ambos criou o tipo de medo que nos fez saber que não tínhamos, até essa altura, compreendido o significado do terrorismo internacional. Como os terramotos, os terroristas atacam ao acaso: quem vive e quem não vive depende de acasos que não podem ser merecidos ou previstos. Pensadores como Voltaire encolerizaram-se contra Deus por falhar na protecção das regras morais elementares que os seres humanos tentam seguir. As crianças não deviam ser súbita e brutalmente torturadas; coisas tão importantes como a diferença entre a vida e a morte não deviam depender de algo tão trivial como a sorte. O desastre natural é cego quanto a distinções morais que mesmo a justiça mais brutal define. O terrorismo desafia-as deliberadamente. Ao sublinhar a contingência, o 11 de Setembro sublinhou a nossa infinita fragilidade. Mesmo em Nova Iorque há muitas pessoas que não conheciam ninguém que estivesse no World Trade Center à hora dos ataques, mas toda a gente parece conhecer alguém que estivesse a curar uma ressaca ou a levar uma criança ao jardim de infância. Quando uma falta ao trabalho se torna uma maneira de salvar a vida, o nosso sentimento de impotência torna-se opressivo. Os terroristas escolheram alvos para o aumentar. Wall Street e o Pentágono são, ao mesmo tempo, um símbolo e a realidade da força ocidental, e não é claro o que foi mais assustador: o colapso das manifestamente notáveis Torres Gémeas ou o assalto aos impenetráveis centros do poderia militar. Nem a visibilidade nem a invisibilidade serviram de protecção. Ao ver ambos serem despedaçados tão depressa, ninguém podia sentir-se em segurança. Pessoas normais em todo o lado ecoavam as palavras de Hannah Arendt: o impossível tornou-se realidade.
(...) Ainda não podemos dizer até que ponto o mundo se modificará. Enfrentamos novas formas de perigo. Mas sugiro que não são novas formas de mal. As dificuldades em fazer frente ao terrorismo não são dificuldades conceptuais. Aqueles que levaram a cabo o assassínio de massa a 11 de Setembro encarnaram uma forma de mal tão antiquada que o seu ressurgimento faz parte do nosso choque. É antiquado, mas não por ter sido concretizado por defensores de ideologias fundamentalistas indiferentes a escrúpulos modernos. Ver o poder da crença num deus que recompensa com uma caricatura detestável de paraíso aqueles que destroem os seus inimigos apenas pode deixar-nos gratos ao cepticismo, mas o conteúdo da crença dos terroristas não é o aspecto principal da questão. A decisão de alguns nazis de morrerem em vez de se renderem nos últimos dias da guerra aproximou-se de fantasias primitivas arrepiantes, ainda que eu tenha defendido que o Terceiro Reich corporizou o mal contemporâneo. O 11 de Setembro constituiu um exemplo de mal antiquado na sua estrutura. O mal banal emerge da estrutura da vida normal que o 11 de Setembro dilacerou.
O mais importante é que foi terrivelmente intencional. A premeditação envolvida foi sólida. (...) O mais claro uso da racionalidade instrumental foi correspondido pela mais clara ostentação de raciocínio moral. A natureza não olha a distinções entre qualquer tipo de culpa ou qualquer género de inocência; os terroristas desprezaram-nos activamente. Mesmo que tivesse sido feita uma exigência para uma negociação, não havia a mais pequena desculpa para a destruição de vidas comuns. Os objectivos dos terroristas foram, pelo contrário, produzir o que moralidade tenta impedir: a morte e o medo. (...) A maldade e a premeditação, componentes clássicas da intenção malévola, raramente estiveram tão bem combinadas. Os terroristas contornaram modelos complexos como o de Mefistófeles e devolveram-nos a Sade. Alguns hão-de contrapor, sem dúvida, que eles acreditavam na justeza da sua causa. Mas a ausência de algo como um ultimato torna infrutífera qualquer tentativa de mostrar a razão de ser do terrorismo - mesmo para aqueles que gostam de defender contradições. Destruir, ao acaso, pessoas de uma cultura que se acha inaceitável não conta como causa admissível.
Mais tarde o ataque pareceu de mau agoiro. A lenta e inexorável destruição dos dois Budas gigantes no Afeganistão provocou calafrios na espinha de um mundo há muito acostumado a ver crianças a morrer à fome diante das câmaras. A explosão ordenada pelos talibãs no que afinal eram apenas estátuas e pedras prendeu, inexplicavelmente, a atenção global durante dias. Tratar-se-ia de um prenúncio da implosão das torres alguns meses depois? Heine escreveu que quem tivesse a inclinação para queimar livros não hesitaria em queimar pessoas. A sentença foi escrita muito antes da rejubilante juventude nazi ter empilhado livros banidos em grandes fogueiras públicas, e essa presciência chegou a parecer sinistra. (...)
O mal não é apenas o oposto do bem, mas o seu inimigo. O verdadeiro mal procura destruir até as distinções morais. Uma maneira de o fazer é transformar as vítimas cúmplices. Os sonderkommandos, que faziam o trabalho que permitia às câmaras de gás funcionar, foram implicados nelas, apesar de qualquer oportunidade para resistir se ter dissipado no momento em que souberam o que estavam a fazer. O pior horror do 11 de Setembro foi aqueles que comandavam os aviões que embateram no World Trade Center não só terem atirado vidas comuns para a morte, mas terem feito que essas pessoas se tornassem parte das explosões que mataram milhares de outras. Foi pelo menos esta leitura de uma cheia de passageiros a bordo do quarto avião, que se dirigia para um alvo incerto em Washington. Ao contrário dos passageiros dos outros voos, tiveram conhecimento das razões por que haviam de agir. Sem isso, estariam tão desamparados como aqueles que eram confrontados com o inimaginável quando as portas das carruagens de gado se abriam. Antes de aquilo ter acontecido, quem suporia que era possível exterminar seres humanos como insectos, ou transformados em bomba vivas?
Aqueles aviões desfeitos em pedaços deixam-nos pouca esperança de um dia chegarmos a saber tudo o que aconteceu, mas o que já sabemos é suficiente. Informadas por telemóvel de que outros aviões desviados tinham sido conduzidos contra as torres, algumas pessoas decidiram lutar. Não conseguiram vencer os terroristas, mas foram capazes de assegurar que o avião se despenhava em campo aberto. Morreram como morrem os heróis. De maneira diferente do indivíduo hipotético do exemplo de Kant, que prefere morrer a prestar um falso testemunho, a recusa deles em tornarem-se instrumentos do mal tornou-se mais do que um gesto. Nunca saberemos que tipo de destruição evitaram, mas sabemos que evitaram alguma. Provaram não só que os seres humanos têm liberdade, mas também que podemos usar essa liberdade para influenciar um mundo que receamos não controlar.
Isto não é uma teodiceia. Nem sequer é um consolo - embora seja toda a esperança que temos."
(Neiman, Susan, O mal no pensamento moderno, Gradiva, pp.313-320)
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (3)
As sociedades ocidentais regem-se pela crença de que a modernidade é uma condição única, idêntica em todo o lado e sempre benigna. À medida que as sociedades se tornam mais modernas, mais parecidas se tornam. Ao mesmo tempo tornam-se melhores. Ser moderno significa realizar os nossos valores - os valores do iluminismo, como gostamos de os pensar.
Não há cliché mais surpreendente do que aquele que descreve a Al-Qaeda como uma regressão aos tempos medievais. Ela é um produto secundário da globalização. Como os cartéis mundiais da droga e as empresas virtuais que se desenvolveram na década de 90, evoluiu num tempo em que a desordem económica criava vastas aglomerações de riqueza em países onde os impostos eram menos pesados e o crime organizado se tornara global. O seu aspecto mais evidente - projectar uma forma clandestina de violência organizada a nível mundial - era impossível no passado. Do mesmo modo, a convicção de que é possível acelerar a criação de um mundo novo através de actos espectaculares de destruição não se encontra em parte nenhuma na época medieval. Os precursores mais próximos da Al-Qaeda são os revolucionários anarquistas dos finais o século XIX da Europa.
Quem pensa que o terror revolucionário não é uma invenção moderna está a esquecer a história recente. A União Soviética foi uma tentativa de dar corpo ao ideal do iluminismo de um mundo sem poder e sem conflitos. Em nome desse ideal matou e escravizou dezenas de milhões de seres humanos. A Alemanha nazi cometeu o pior acto de genocídio de todos os tempos. Fê-lo com o objectivo de produzir um novo tipo de ser humano. Nenhuma época anterior acalentou projectos semelhantes. As câmaras de gás e os gulags são modernos.
Há muitas maneiras de ser moderno, algumas delas monstruosas. Contudo, a convicção de que há uma única maneiras de o ser, e que é sempre uma coisa boa, tem raízes profundas. A partir do século XVIII chegou a acreditar-se que o crescimento do conhecimento científico e a emancipação da humanidade caminhavam a par e passo. (...) O conhecimento científico geraria uma moralidade universal em que o objectivo da sociedade seria produzir tanto quanto possível. Com o uso da tecnologia, a humanidade estenderia o seu poder aos recursos da Terra e venceria as piores formas de escassez natural. A pobreza e a guerra poderiam ser abolidas. Através do poder que lhe era dado pela ciência, a humanidade seria capaz de criar um novo mundo.
Houve sempre divergências acerca da natureza desse novo mundo. Para Marx e Lenine ele seria uma anarquia igualitária sem classes, para Fukuyama e os neoliberais, um mercado livre universal. estas visões de um futuro alicerçado na ciência são muito diferentes; mas isso não enfraqueceu de modo nenhum a força da fé que elas expressam.
Através da sua profunda influência sobre Marx, as ideias positivistas inspiraram a desastrosa experiência soviética no planeamento da economia central. Quando o sistema soviético se desmoronou, as mesmas ideias reemergiram no culto do mercado livre. Chegou-se mesmo a acreditar que só o «capitalismo democrático» ao estilo americano seria verdadeiramente moderno, e que estaria destinado a propagar-se a todo o mundo. Quando tal se verificasse surgiria uma civilização universal, e a história deixaria de existir.
Esta poderá parecer uma crença fantástica, e de facto é. O mais fantástico é que se continua a acreditar largamente nela. é ela que modela os programas dos partidos políticos de maior relevo em todo o mundo. É ela que orienta as políticas de organizações como o Fundo Monetário Internacional. É ela que estimula a «guerra contra o terrorismo», em que a Al-Qaeda é vista como uma relíquia do passado.
Esta visão está simplesmente errada. Tal como o comunismo e o nazismo, o Islão é moderno. Apesar de alegar que é antiocidente, é tão modelado pela ideologia ocidental como pelas tradições islâmicas. à semelhança dos marxistas e dos neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como um prelúdio para um novo mundo. Todos eles estão convencidos de que podem refazer a condição humana. Se acaso existe um mito exclusivamente moderno, é este.
No novo mundo, tal como a Al-Qaeda o imagina, o poder e o conflito desapareceram. Esta é uma invenção da imaginação revolucionária, e não a receita para uma sociedade moderna viável; mas neste aspecto o novo mundo imaginado pela Al-Qaeda em nada difere das fantasias planeadas por Marx e Bakunin, por Lenine e Mao, e pelos evangelistas do neoliberalismo, que tão recentemente anunciaram o fim da história. E tal como aconteceu com esses movimentos ocidentais modernos, a Al-Qaeda encalhará nas imutáveis necessidades humanas.
O mito moderno é que a ciência permite à humanidade ser senhora do seu destino; mas a «humanidade» é ela própria um mito, um resíduo empoeirado da fé religiosa. A verdade é que existem apenas humanos, fazendo uso do conhecimento crescente que lhes é dado pela ciência para prosseguirem os seus objectivos conflituosos."
(Gray, John, Al-Qaeda e o Significado de Ser Moderno, (tr. M.P.) Relógio d'Água, 2004, pp. 15-18)
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (2)
Sayyid era um solteirão de ar severo, de cabelos e olhos escuros, franzino e baixo, com uma testa alta e inclinada para trás e um bigode espetado e farfalhudo, um tanto mais estreito que o seu nariz. Os olhos denunciavam uma natureza autoritária e facilmente propensa à arrogância. (...)
Sob muitos aspectos, era um ocidental - na forma de vestir, no gosto pela música clássica e pelos filmes de Hollywood. Tinha lido traduções das obras de Darwin e de Einstein, de Byron e de Shelley; mergulhara na literatura francesa - Victor Hugo, em especial. Contudo, e ainda antes de partir nesta viagem, manifestava já alguma preocupação relativamente ao assédio da civilização ocidental a todos os níveis. Apesar da sua erudição, via o Ocidente como uma entidade cultural única. As diferenças entre capitalismo e marxismo, cristianismo e judaísmo, fascismo e democracia eram insignificantes perante a única grande fronteira que existia no pensamento de Qutb: o islão e o Oriente, de um lado, e o Ocidente cristão do outro.
No entanto, os EUA apareciam isolados das aventuras colonialistas que pautaram as relações da Europa com o mundo Árabe. (...) Qutb (cujo nome se pronuncia kâ-teb), à semelhança de muitos árabes, sentiu-se chocado e traído com o apoio dado pelo Governo dos EUA, no pós-guerra, à causa sionista. No momento em que Qutb zarpava do porto de Alexandria, o Egipto, em conjunto com os exércitos de cinco outros países árabes, encontrava-se na fase final da derrota na guerra que levou à criação de Israel como Estado judaico no seio do mundo árabe. Os árabes ficaram estupefactos não apenas com a determinação e a perícia dos soldados israelitas, mas também com a incompetência das suas próprias tropas e com as decisões desastrosas dos seus líderes. A vergonha que se seguiu a essa experiência iria moldar o universo intelectual árabe de uma forma mais profunda do que qualquer outro acontecimento na história contemporânea. « Sinto ódio e desprezo por esses ocidentais!», escreveu Qutb na sequência do apoio dado pelo presidente Harry Truman à transferência de 100 000 refugiados judeus para a Palestina. «Por todos eles, sem excepção: ingleses, franceses, holandeses e, por fim, os americanos, em quem tantos confiaram.»
(pp.19 -21)
Quando MCKillop chegou ao Ground Zero, ficou chocado com a montanha imensa de escombros que ainda ardia. As equipas de salvamento escavavam dia e noite, esperando encontrar sobreviventes, mas aquele cenário retirara qualquer esperança a MCKillop. (...)
De certa forma, os mortos do Trade Center formavam uma espécie de parlamento universal, representando 62 países e quase todos os grupos étnicos e religiões do mundo - um corrector de bolsa ex-hippie, o capelão católico homossexual do quartel dos bombeiros da cidade de Nova Iorque, um jogador de hóquei japonês, um chefe de cozinha equatoriano, uma coleccionadora de bonecas Barbie, um calígrafo vegetariano, um contabilista palestiniano... A diversidade de formas em que esta pessoas assumiram a sua ligação à vida dava testemunho da exortação do Corão, que sustenta que tirar uma única vida destrói um universo. A Al-Qaeda dirigira os seus ataques aos Estados Unidos da América, mas acabou por atingir toda a humanidade.
(pp. 366-367)
(Wright, Lawrence, A Torre do Desassossego - O percurso da Al-Qaeda até ao 11 de Setembro, tr.E.V.C., Casa das Letras, 2007)
domingo, 4 de setembro de 2011
10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (1)
"No verão de 2006 voltei a viver no Reino Unido após dois anos e meio na América do Sul. Mantenho que não me tornei mais fascista nesse ínterim - aos pés de um Galtieri, digamos, ou ajoelhado perante um Pinochet. Mas em política é surpreendentemente fácil movermo-nos de um lado para o outro enquanto permanecemos no mesmo sítio; e o terreno médio, descobri eu, não está onde costumava estar. A extensão dessa mudança tornou-se-me dramaticamente nítida num direto televisivo, quando apareci no "Tempo de Perguntas" (o programa interativo de debate da BBC) e me inquiriram acerca do nosso progresso naquilo a que agora chamam a Longa Guerra.
A resposta que dei foi, pensava eu, quase fastidiosamente centrista. Eu disse que o Ocidente deveria ter ocupado os últimos cinco anos a construir um modelo democrático e pluralista no Afeganistão, enquanto se ía meramente limitando a conter o Iraque. No Afeganistão já vimos, não o "genocídio" avidamente previsto por Noam Chomsky e outros, mas a "genogénese" (para usar o termo de Paul Berman) - um florescente censo. Desde 2001, a população aumentou em 25 por cento. (...)
Nesse ponto comecei a olhar para um rosto e para outro na assistência, e o que eu vi eram os esgares e as caretas, não da discórdia, mas da incredulidade. Tomou então a palavra uma rapariga. Numa quase-lacrimosa voz de apaixonada presunção, dizendo que tinham sido os americanos quem armara os islamitas no Afeganistão, e que por conseguinte os Estados Unidos, para responderem ao 11 de Setembro, "deviam bombardear-se a eles próprios!" Tive tempo para imaginar os F-16 a uivarem sobre Chicago, e o USS Abraham Lincoln a lançar projécteis do tamanho de Volkswagens para o centro de Miami - em destemida expiação pelo World Trade Center, pelo Pentágono, pelo voo 93 da United, o voo 11 da United e o voo 77 da American. Mas depois os meus pensamentos foram dispersos pelo som de um unânime aplauso.
Estamos solenemente acostumados, hoje em dia, à fetichização do "equilíbrio", à regra básica da "equivalência moral", em todos os conflitos entre o Ocidente e o Oriente, à incapacidade a 100 por cento e a 360 graus para ajuizarmos sobre qualquer etnia que não seja a nossa (exceto no caso de Israel). E contudo os que batiam palmas no "Tempo de Perguntas" tinham ido além da velha fórmula da piedosa paralisia. Isto não era equivalência, isto era abjeção hemisférica. Em consequência, dada a escolha entre George Bush e Osama bin Laden, o relativista liberal, ao que parece, é obrigado a apoiar o saudita, tornando-se assim conciliador de uma doutrina armada com os seguintes lemas: é racista, misógina, homofóbica, totalitária, inquisitória, imperialista e genocida.
Recolhendo o que podemos das obras de pensadores como Sayyid Qutb (...) e a partir de diversas declarações, fatwas, ultimatos, ameaças de morte e notas de suicídio, podemos comparar o islão radical aos movimentos políticos tanatoides que conhecemos melhor, nomeadamente o bolchevismo e o nazismo (de cada um dos quais o islamismo é devedor). Das muitas afinidades que emergem, poderemos enumerar, para começar, algumas características secundárias. A exaltação de um líder divino; a exigência, não somente de submissão à causa, mas de inteira transformação em nome dela; um romantismo autoindulgente; um ódio à sociedade liberal, ao individualismo e à copiosa inércia (ou Konformismus); uma obsessão pelo sacrifício e o martírio; uma mórbida rebeldia adolescente combinada com um amor pueril pela destruição; o "agonismo", ou aceitação da permanente e insaciável rivalidade; o uso e a invocação do muito novo e do muito velho; uma mania da purificação; e um feroz antissemitismo.
Mas estas são incidentais. O tanatismo deriva a sua verdadeira energia, a sua febre e a sua magia, de algo muito mais radical. E aproximamo-nos aqui de uma patologia que no final poderá não ser assimilável pelo espírito dos não-crentes. Refiro-me à rejeição da razão - à rejeição do sequitur, da causa e efeito, do dois mais dois. Extraordinariamente, nas suas obras escritas e na sua conversa de mesa, Hitler e Estaline (e Lenine) raramente permitem que o substantivo abstrato "razão" passe sem que lhe atribuam um adjetivo depreciativo: razão inútil, razão frouxa, razão cobarde. Quando aqueles sanguinários saloios, os talibãs, entoam a sua palavra de ordem, "Lancem a razão aos cães", eles estão procedendo ao mesmo tipo de jogada faustiana: esmagai a razão, matai a razão, e toda e qualquer coisa parece possível - o restaurado califado, por exemplo, presidindo a um império planetário expurgado de todos os infiéis. Transcender a razão é evidentemente transcender os confins da lei moral, é entrar no mundo ilimitável da insanidade e da morte.
(...) 11 de Setembro significa 11 de Setembro de 2001 - o dia em que as torres vieram abaixo. Foi também o dia em que algo nos foi revelado. Já sabemos agora o que era isso? Muita da nossa análise terá sido porventura inteiramente inapropriada, pois continuamos a tentar construir o islamismo nos termos do raciocinativo. Que aspeto tem ele quando o construímos nos termos das emoções? Estados emocionais familiares (dor, ódio, fúria, vergonha, desonra e, acima de tudo, humilhação), mas em intensidades nada familares - intensidade que a democracia secular, e as regras da lei e da sociedade civil, tenderão sempre a neutralizar. (...)
O islamismo tem andado connosco durante a parte de leão de um século. A irmandade Muçulmana foi fundada em 1928, e no espaço de uma década ramificou-se naquilo que dentro em pouco viria a ser o Paquistão. Mas o evento emocionalmente constitutivo, somos forçados a deduzir, foi o estabelecimento da Pátria Judaica. Na guerra que foi travada para concretizar isso, Israel, ocupando 0,6 por cento de territórios árabes e com uma população proporcional, derrotou os exércitos do Egito, da Síria e da Transjordânia, juntamente com as forças suplementares do Líbano, da Arábia Saudita e do Iraque.
Nos restantes 99,4 por cento dos territórios árabes, esse evento é conhecido como al-nakba: a catástrofe. E tal epíteto dificilmente exagera o caso. A "ímpia" União Soviética, após um revés comparável, poderia ter caído num perturbável autoescrutínio; mas que significa isso para os povos que acreditam sinceramente que uma divindade omnipotente está minuciosamente atenta aos seus desejos e desertos? Tendo suportado vários séculos de prosperidade, poder e alcance global, e eventual império por parte dos cristãos, as nações islâmicas foram vencidas por uma província que tem o tamanho de Nova Jérsia.(...)
O 11 de Setembro implicou uma quebra moral, em todo o planeta; também desprendeu o terreno entre a realidade e o delírio. Por isso, quando falamos dele, chamemo-lo pelo nome que lhe é próprio; façamos por não sugerir que a nossa experiência desse evento, desse desenvolvimento, foi absorvida sem fricções e arquivada. Não o foi. O 11 de Setembro continua, prossegue com todo o seu mistério, a sua instabilidade e o seu terrível dinamismo."
(Amis, Martin, O Segundo Avião, Quetzal, 2011, texto retirado do excerto publicado em exclusivo na revista Ler, nº 105, Setembro de 2011, pp. 43-45.)
segunda-feira, 11 de setembro de 2006
"... Qualquer que tenha sido a história passada e presente das relações do Ocidente com o resto do mundo, é uma falácia pretender que os pecados desta história justificam (versão forte, que diz o que quer dizer) ou permitem compreender (versão fraca, no fundo ininteligível: compreender seria qualquer coisa como uma desculpa mole) o que se está a passar. E é uma falácia a vários títulos, sem ter sequer de kantianamente se lembrar que nunca o mal que me é feito pode justificar o mal que faço. O que se está a passar e a construir, e nos ameaça aqui onde estamos, onde cada um de nós está, é uma frente de ódio que inaugura algo de inédito. Dando-se misturadamente com coisas velhas em que é difícil distinguir causas e efeitos, em que ninguém tem completamente culpa porque todos têm alguma ou muita razão - estou antes de tudo mais a pensar, evidentemente, no conflito entre israelitas e palestinianos -, aquilo que desde há alguns anos irrompe e é radicalmente novo é a rejeição sem apelo, e sem quartel, da sociedade livre ocidental. (...) (p.228)
"...estou certo de que, face ao terrorismo, os governos ocidentais ficarão eternamente agradecidos a quem for capaz de lhes ensinar a maneira adequada de conciliar plena liberdade e segurança - a sua, e a minha. Será talvez pathos de mau gosto mas não consigo evitar pensar que se a polícia italiana não tivesse controlado, provavelmente ilegalmente, as conversas dos telefones dos terroristas - foi por esse meio que os descobriram -, eu poderia neste momento estar debaixo da terra. (...) Por fim, há excelentes razões - pelo menos! - para presumir que as limitações às liberdades terminarão mal a guerra teminar, como aconteceu depois das duas guerras mundiais do século xx. Obviamente. Estejamos descansados, comemoremos em liberdade o oitavo centenário da Magna Carta em 2015! Entre parênteses, permito-me recordar (será ainda de mau gosto?) que há cem mil cruzes brancas americanas nos cemitérios da costa francesa do desembarque.
Porque não são estas evidências reconhecidas, e menos ainda assumidas? A resposta só pode ser uma, e vejo nela a manifestação mais forte do niilismo. É que no fundo não se quer aceitar que a guerra nos foi imposta - e que estamos em guerra.(...)"
Fernando Gil, "dois artigos", em Gil, Tunhas e Cohn, Impasses, Europa-América, 2003, pp.236-237.
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