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domingo, 22 de janeiro de 2012

A inquisição e a modernidade




(...) What we now refer to as the Inquisition, with a capital “I,” was begun by Pope Gregory IX in 1231 when he appointed “inquisitors of heretical depravity” — usually Dominican friars — to root out those who disputed the Vatican’s authority. They started with the Cathars, members of a Christian sect, who were ruthlessly eradicated from their stronghold near the Pyrenees. The inquisitors then ventured further afield to enforce the pope’s dictates, particularly against conversos, Jewish converts, and secondarily, Christianized Muslims, Protestants and freethinkers.

Persecution is as old as man. What distinguishes inquisitions are communications, bureaucracy and single-mindedness. It is the last feature that gives rise to what Mr. Murphy calls “the inquisitorial impulse.”

“Moral certainty ignites every inquisition and then feeds it with oxygen,” he writes. But to keep it going, one must also have an organized bureaucracy that establishes a set of repressive procedures that are formalized in law and enforced by an institutional power.

“Moral certainty ignites every inquisition and then feeds it with oxygen,” he writes. But to keep it going, one must also have an organized bureaucracy that establishes a set of repressive procedures that are formalized in law and enforced by an institutional power.

Mr. Murphy notes that the Inquisition walked hand in hand with civilization. In earlier times Rome would be largely unaware of deviant views elsewhere. But once a code of canon law and an administrative infrastructure began to take form, “questionable beliefs could be examined against codified standards,” he writes. “Casual remarks could be sorted into pre-existing categories of nonconformity.”

Inquisitors like Bernard Gui (who appears in Umberto Eco’s novel “The Name of the Rose”) and Nicholas Eymerich created manuals that outlined model sermons, methods of interrogation and a range of punishments, from wearing a yellow cross to death.

Gui meticulously recorded his expenses, like the wood, stakes, ropes and manpower required for burning four heretics. But it is the similarities between the medieval prosecutorial strategies — play good cop, bad cop; instill a sense of futility; use rapid-fire questioning — and the United States Army interrogation manual that are chilling.

Sobre o livro de Cullen Murphy, GOD’S JURY - The Inquisition and the Making of the Modern World,

by P. Cohen, The New York Times,  January 18, 2012.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (3)

"Os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova Iorque a 11 de Setembro de 2011 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Destruíram o mito dominante do Ocidente.
As sociedades ocidentais regem-se pela crença de que a modernidade é uma condição única, idêntica em todo o lado e sempre benigna. À medida que as sociedades se tornam mais modernas, mais parecidas se tornam. Ao mesmo tempo tornam-se melhores. Ser moderno significa realizar os nossos valores - os valores do iluminismo, como gostamos de os pensar.
Não há cliché mais surpreendente do que aquele que descreve a Al-Qaeda como uma regressão aos tempos medievais. Ela é um produto secundário da globalização. Como os cartéis mundiais da droga e as empresas virtuais que se desenvolveram na década de 90, evoluiu num tempo em que a desordem económica criava vastas aglomerações de riqueza em países onde os impostos eram menos pesados e o crime organizado se tornara global. O seu aspecto mais evidente - projectar uma forma clandestina de violência organizada a nível mundial - era impossível no passado. Do mesmo modo, a convicção de que é possível acelerar a criação de um mundo novo através de actos espectaculares de destruição não se encontra em parte nenhuma na época medieval. Os precursores mais próximos da Al-Qaeda são os revolucionários anarquistas dos finais o século XIX da Europa.
Quem pensa que o terror revolucionário não é uma invenção moderna está a esquecer a história recente. A União Soviética foi uma tentativa de dar corpo ao ideal do iluminismo de um mundo sem poder e sem conflitos. Em nome desse ideal matou e escravizou dezenas de milhões de seres humanos. A Alemanha nazi cometeu o pior acto de genocídio de todos os tempos. Fê-lo com o objectivo de produzir um novo tipo de ser humano. Nenhuma época anterior acalentou projectos semelhantes. As câmaras de gás e os gulags são modernos.

Há muitas maneiras de ser moderno, algumas delas monstruosas. Contudo, a convicção de que há uma única maneiras de o ser, e que é sempre uma coisa boa, tem raízes profundas. A partir do século XVIII chegou a acreditar-se que o crescimento do conhecimento científico e a emancipação da humanidade caminhavam  a par e passo. (...) O conhecimento científico geraria uma moralidade universal em que o objectivo da sociedade seria produzir tanto quanto possível. Com o uso da tecnologia, a humanidade estenderia o seu poder aos recursos da Terra e venceria as piores formas de escassez natural. A pobreza e a guerra poderiam ser abolidas. Através do poder que lhe era dado pela ciência, a humanidade seria capaz de criar um novo mundo.

Houve sempre divergências acerca da natureza desse novo mundo. Para Marx e Lenine ele seria uma anarquia igualitária sem classes, para Fukuyama e os neoliberais, um mercado livre universal. estas visões de um futuro alicerçado na ciência são muito diferentes; mas isso não enfraqueceu de modo nenhum a força da fé que elas expressam.

Através da sua profunda influência sobre Marx, as ideias positivistas inspiraram a desastrosa experiência soviética no planeamento da economia central. Quando o sistema soviético se desmoronou, as mesmas ideias reemergiram no culto do mercado livre. Chegou-se mesmo a acreditar que só o «capitalismo democrático» ao estilo americano seria verdadeiramente moderno, e que estaria destinado a propagar-se a todo o mundo. Quando tal se verificasse surgiria uma civilização universal, e a história deixaria de existir.

Esta poderá parecer uma crença fantástica, e de facto é. O mais fantástico é que se continua a acreditar largamente nela. é ela que modela os programas dos partidos políticos de maior relevo em todo o mundo. É ela que orienta as políticas de organizações como o Fundo Monetário Internacional. É ela que estimula a «guerra contra o terrorismo», em que a Al-Qaeda é vista como uma relíquia do passado.

Esta visão está simplesmente errada. Tal como o comunismo e o nazismo, o Islão é moderno. Apesar de alegar que é antiocidente, é tão modelado pela ideologia ocidental como pelas tradições islâmicas. à semelhança dos marxistas e dos neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como um prelúdio para um novo mundo. Todos eles estão convencidos de que podem refazer a condição humana. Se acaso existe um mito exclusivamente moderno, é este.

No novo mundo, tal como a Al-Qaeda o imagina, o poder e o conflito desapareceram. Esta é uma invenção da imaginação revolucionária, e não a receita para uma sociedade moderna viável; mas neste aspecto o novo mundo imaginado pela Al-Qaeda em nada difere das fantasias planeadas por Marx e Bakunin, por Lenine e Mao, e pelos evangelistas do neoliberalismo, que tão recentemente anunciaram o fim da história. E tal como aconteceu com esses movimentos ocidentais modernos, a Al-Qaeda encalhará nas imutáveis necessidades humanas.

O mito moderno é que a ciência permite à humanidade ser senhora do seu destino; mas a «humanidade» é ela própria um mito, um resíduo empoeirado da fé religiosa. A verdade é que existem apenas humanos, fazendo uso do conhecimento crescente que lhes é dado pela ciência para prosseguirem os seus objectivos conflituosos."
(Gray, John, Al-Qaeda e o Significado de Ser Moderno, (tr. M.P.) Relógio d'Água, 2004, pp. 15-18)