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terça-feira, 22 de outubro de 2019

os livros

- Kraus, qual a sua relação com os livros?

- A minha paixão é a de ter sempre mais e mais livros (nunca fotocópias); é, se quiser, a de morrer soterrado em livros que não servem nem poderão servir para nada. É a paixão pela inutilidade.


(da entrevista a 'o Pristino')

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Em teoria, devias ter acesso a tudo o que se publica no mundo inteiro

"Uma livraria de fundos tem todos os livros que não são novidade. Os livros novos são 15 mil por ano, mas os outros são 250 mil. Se tiveres só novidades também és capaz de saber tudo o que tens lá porque desses 15 mil só tens 1500. Quem quer ter uma livraria de fundos não pode pensar que sabe o que está ou que leu tudo. Esqueça. Perguntei ao Pacheco Pereira e ele disse-me que uma pessoa, na vida inteira, não consegue ler mais do que quatro ou cinco mil livros. Uma pessoa que leia muito. Os que não leem muito chegam a 400 livros. Há pessoas que falam como se tivessem lido tudo o que existe. Depois há pessoas que gostam de determinados temas e pensam que os outros também têm de gostar e nem percebem como tu não leste. Há uma coisa que me enerva, quando me vêm falar dos livros que leram como se fossem quase bíblias. Falo-lhes nos que li e eles nem sabem do que estou a falar. O assunto fica logo encerrado. "

Excerto da entrevista de Ana Sousa Dias a José Pinho, Revista Ler, nº127, Setembro de 2013, pp.39-40              


domingo, 24 de março de 2013

How diabolic can one get? (p.113)

Precioso testemunho de um médico que, como "participante involuntário" (p.11), nos revela o que foi trabalhar como médico legista junto dos sonderkomando («comando especial» constituído por presos encarregados de retirar os cadáveres das câmaras de gás e de os levar até aos fornos crematórios).

Enquanto milhares morriam diariamente - a grande maioria era, à chegada ao  KZ, seleccionada para a fila da esquerda pelo infame Mengele (o que significava a morte imediata nas câmaras de gás); os outros, os que eram seleccionados para a direita, morreriam em pouco tempo de exaustão causada pela violência, pela dureza do trabalho e pela falta de condições de vida - alguns conseguiam, quem saberá dizer se por sorte se por azar, viver com o mínimo de decência (roupa , comida, muito álcool - só ébrios, quer prisioneiros quer nazis, conseguem "aguentar" esse inferno - e, para os médicos, quarto individual). Entre estes 'privilegiados' contava-se o grupo dos sonderkomando do qual o médico húngaro Miklos Nyiszli fez parte e cuja experiência de cerca de um ano nesse inferno que englobava câmaras de gás, crematórios e sala de autópsias é aqui relatada.

Lendo o livro, vemos o Dr. Nyiszli deitado na cama do seu quarto, mas o cheiro que paira no ar não o deixa descansar. Aguarda Mengele que em breve chegará com mais corpos para autopsiar. Assistimos à forma como os dois médicos mantém uma relação cordial e ao modo como o Dr. Myiszli, através do seu brio profissional, se tornou um quase protegido de Mengele. Desse relação muitas vantagens resultaram: Mengele assinou o passe que permitiu que Myiszli circulasse, pelos vários campos de Auschwitz à procura da sua mulher e filha; permitiu que Myiszli, beneficiando de informação privilegiada, conseguisse que elas fossem transferidas para outro campo pouco antes de serem enviadas para as câmaras de gás, salvando-lhes assim as vidas, e salvou-lhe a própria vida protegendo-o das "limpezas" feitas na mudança de um comando para outro.
Assistimos à chegada do gueto de Litzmannstadt; depois de cinco anos de gueto "chegaram completamente apáticos. (...) A selecção mandou 95% para a esquerda" (p. 175). Assistimos à última paragem das famílias vindas do gueto de Theresienstadt: " foram precisas 48 horas para os exterminar a todos" (p. 189). Assistimos à última ceia de pai e filho (foram enviados por Mengele para o Dr. Nyiszli estudar as suas deficiências; desvio de coluna e hipomielia) e, quando começamos a ganhar simpatia por eles, logo chega a sua morte (ler o relato aqui).

Alguns questões inquietantes sobre o conteúdo do livro são colocadas no prefácio de Bruno Bettelheim (1).

Nyiszli tornou-se o médico legista de confiança de Mengele tendo feito todo o tipo de autópsias pseudo-científicas. O que terá levado este médico a "ajudar as SS nas suas experiências com seres humanos?" (Bettelheim, p.v).

Dos catorze sonderkomando que existiram em Auschwitz  (ao fim de três meses, para eliminar testemunhas, todos os elementos (centenas de pessoas) eram mortos com um tiro na nuca e um novo grupo era formado; a sua primeira tarefa era transportar para os crematórios os colegas recém abatidos. Era-se mais bem tratado, mas sabia-se que por pouco tempo). Que se saiba só um sonderkomando - o décimo segundo - ofereceu resistência aos nazis, matando setenta SS e destruindo um crematório. Todos os oitocentos e cinquenta e três prisioneiros do komando foram mortos pelos nazis.
Segundo Bettelheim: esse grupo "redescobriu a liberdade nos últimos dias de existência e no último dia recuperou-a, por isso morreram como homens , não como cadáveres vivos. (...) Se eles o fizeram também outros o podiam fazer. Porque não o fizeram? Porque desperdiçaram as suas vidas em vez de dificultar as coisas para o inimigo?" (p.vi);

O que terá levado "milhões de pessoas  a andarem calmamente, e sem resistência, em direcção à sua morte quando mesmo à sua frente, tinham exemplos como o desse comando (...)?" (xvii)

Bettelheim tem uma visão muito negativa sobre a responsabilidade dos judeus na sua própria aniquilação. Para ele o que é único no holocausto é o facto de "milhões de pessoas terem marchado passivamente em direcção à sua própria morte" (p.vii).

O seu principal princípio explicativo, fundado na ideia freudiana da luta contra o instinto de morte, é o de que a passividade perante os campos de extermínio começa com o que Bettelheim designa de: "business as usual" ou princípio da inércia. Essa é a força que levava os prisioneiros a servir os seus carrascos ao ponto de "abrirem a porta à sua própria morte" (p.viii). É isso que explica a passividade e a submissão perante a criação dos guetos, que explica a atitudes dos médicos cooperantes e que, mesmo nos casos onde houve resistência organizada - como no gueto de Varsóvia -  explica a sua acção tardia, quando já havia poucas pessoas no gueto para lutar.

O conhecido caso da família Frank, que também não acreditou em Auschwitz, é outro exemplo do mesmo fenómeno: eles podiam ter fugido ou ter lutado (podiam ter arranjado armas e "podiam ter morto pelo menos um ou dois SS", p.xiv) em vez de, como família, se esconderem à espera que o inimigo chegasse para os levar. E o reconhecimento mundial do diário (a nossa parte da culpa) de Anne Frank -  que também "só queria continuar com a vida de costume e ninguém a pode culpar" - resulta de "queremos esquecer as câmaras de gás e glorificar a atitude do "business as usual", acreditamos na bondade humana e esquecemos Auschwitz. 

Mas o homem do princípio único ainda tem mais para explicar:
"Tudo isto seriam histórias passadas se não fosse o caso de o mesmo "business as usual" estar por detrás da nossa tentativa de esquecer duas coisas: que homens do século vinte como nós enviaram milhões para as câmaras de gás, e que milhões de homens como nós marcharam para a sua morte sem resistência." (p.xi)

A shoah é um fenómeno complexo demais poder ser explicado de forma tão simplificadora;
parafraseando Michael Berenbaum (aqui),  é tão "imenso" que a única forma de olhar para ele é através do particular, estudando cada vida, cada história, cada imagem, cada facto particular. Não defendo que tudo o que Nyiszli fez seja desculpável pelo facto de ele ser uma vítima inocente nas mãos dos nazis. Mas não podemos ignorar que a sua sobrevivência - nas suas palavras, o motivo porque quis continuar vivo foi o de poder testemunhar - deu-nos um relato único do que foi ser assistente de Mengele no inferno que foram as câmaras de gás.

Bettelheim esquece as revoltas de Sobibor e de Treblinka, os muitos grupos de resistência activa que se refugiaram nos bosques e que dificultaram a vida aos nazis mas, sobretudo, ignora o facto de a resistência ser uma acção, não apenas colectiva, mas também individual, onde cada gesto - veja-se a recusa de Korczak, outro médico, em usar a estrela amarela no gueto de Varsóvia desafiando abertamente os nazis e colocando a cada momento a sua vida em perigo, e ele poderia ter fugido mas escolheu não o fazer para permanecer junto das crianças do seu orfanato - cada silêncio, cada obediência esconde, muitas vezes, uma resistência interior contra o inimigo tão fina que escapa à lente grosseira de Bettelheim.

Mais um exemplo talvez seja suficiente. É Filip Müller, um dos poucos sobreviventes dos sonderkomando, quem conta a história (2). Depois de várias horas a realizar exercícios absurdos até à exaustão ("o que em Auschwitz tinha o nome de sport"), depois de vários prisioneiros, por não aguentarem mais, terem sido mortos à bastonada pelo Kapo de serviço, eis que uma voz se ergue contra o "tormento diabólico":
"Herr Kommandant, como ser humano e advogado desejo reportar que o funcionário do bloco - apontando a Vacek - matou arbitrariamente várias pessoas inocentes. Os seus corpos estão deitados ali. Estou convencido que o funcionário do bloco matou estes prisioneiros sem conhecimento quer dos seus superiores imediatos quer das autoridades. Enviaram-nos para aqui para trabalhar não para sermos mortos (...) Surpreendidos pela coragem e determinação os prisioneiros suspenderam a respiração e fixaram Schlage.(...)
 O resultado foi que, por ordem de Schlage, o kapo matou o queixoso à bastonada.
 "Depois Schlage, que tinha observado a acção de Vacek com satisfação, virou-se para nós e cinicamente perguntou: 'Mais alguém quer apresentar queixa?'"
O que teria feito o Dr. Bettelheim nesta situação?
____________________

(1) Este psicólogo austríaco também passou pela experiência dos campos de concentração - esteve em Dachau e Buchenwald entre 1938 e 1939, numa altura em que o pior ainda estava para vir. Tal facto terá levado Primo Levi a escrever: "Ele não viveu, pois, a experiência fundamental da alienação, que foi a nossa. Suportou sofrimentos graves físicos, foi espancado, sofreu de fome e de cansaço, mas a deportação com o desenraizamento que implica, não a conheceu." Levi, O Dever da Mémória, Brevíssima, 1997, p.58). 

(2) Müller, Eyewitness Auschwitz - Three years in the Gas Chambers, Ivan R. Dee, 1999, pp. 3-5.

domingo, 27 de janeiro de 2013

I “was” my voice


"My father’s robust health began to fail him in his late seventies and he died in late 1987. My brother, Peter, in the meantime, had become engaged to a Jewish girl and had taken her to meet “Dodo”—old Mrs. Dorothy Hickman—our only surviving grandparent. Later, and after she’d congratulated him on his choice, she rather disconcerted Peter by saying: “She’s Jewish, isn’t she?” He had agreed that this was the case and then she’d disconcerted him even further by saying, “Well, I’ve got something to tell you. So are you.”
Christopher Hitchens, Hitch-22: A Memoir

" The absorbing fact about being mortally sick is that you spend a good deal of time preparing yourself to die with some modicum of stoicism (and provision for loved ones), while being simultaneously and highly interested in the business of survival. This is a distinctly bizarre way of “living”—lawyers in the morning and doctors in the afternoon—and means that one has to exist even more than usual in a double frame of mind. The same is true, it seems, of those who pray for me. And most of these are just as “religious” as the chap who wants me to be tortured in the here and now—which I will be even if I eventually recover—and then tortured forever into the bargain if I don’t recover or, presumably and ultimately, even if I do.
(Loc. 227-32)

There is an even longer shot that I do propose to attempt, even though its likely efficacy lies at the outer limits of probability. I am going to try to have my entire DNA “sequenced,” along with the genome of my tumor. Francis Collins was typically sober in his evaluation of the usefulness of this. If the two sequencings could be performed, he wrote to me, “it could be clearly determined what mutations were present in the cancer that is causing it to grow. The potential for discovering mutations in the cancer cells that could lead to a new therapeutic idea is uncertain—this is at the very frontier of cancer research right now.” Partly for that reason, as he advised me, the cost of having it done is also very steep at the moment. But to judge by my correspondence, practically everybody in this country has either had cancer or has a friend or relative who has been a victim of it. So perhaps I will be able to contribute a little bit to enlarging the knowledge that will help future generations.

I say “perhaps” partly because Francis has now had to lay aside a lot of his pioneering work, in order to defend his profession from a legal blockade of its most promising avenue of endeavor. Even as he and I were having those partly thrilling and partly lowering conversations, last August a federal judge in Washington, D.C., ordered a halt to all government expenditure on embryonic stem–cell research. Judge Royce Lamberth was responding to a suit from supporters of the so–called Dickey–Wicker Amendment, named for the Republican duo who in 1995 managed to forbid federal spending on any research that employs a human embryo. As a believing Christian, Francis is squeamish about the creation for research purposes of these nonsentient cell clumps (as, if you care, am I), but he was hoping for good work to result from the use of already existing embryos, originally created for in vitro fertilization. These embryos are going nowhere as it is. But now religious maniacs strive to forbid even their use, which would help what the same maniacs regard as the unformed embryo’s fellow humans! The politicized sponsors of this pseudoscientific nonsense should be ashamed to live, let alone die. If you want to take part in the “war” against cancer, and other terrible maladies, too, then join the battle against their lethal stupidity.
(Loc. 379-96 )


LIKE SO MANY OF LIFE ’S VARIETIES OF EXPERIENCE, the novelty of a diagnosis of malignant cancer has a tendency to wear off. The thing begins to pall, even to become banal. One can become quite used to the specter of the eternal Footman, like some lethal old bore lurking in the hallway at the end of the evening, hoping for the chance to have a word. And I don’t so much object to his holding my coat in that marked manner, as if mutely reminding me that it’s time to be on my way. No, it’s the snickering that gets me down. On a much too regular basis, the disease serves me up with a teasing special of the day, or a flavor of the month. It might be random sores and ulcers, on the tongue or in the mouth. Or why not a touch of peripheral neuropathy, involving numb and chilly feet? Daily existence becomes a babyish thing, measured out not in Prufrock’s coffee spoons but in tiny doses of nourishment, accompanied by heartening noises from onlookers, or solemn discussions of the operations of the digestive system, conducted with motherly strangers. On the less good days, I feel like that wooden–legged piglet belonging to a sadistically sentimental family that could bear to eat him only a chunk at a time. Except that cancer isn’t so . . . considerate.

Most despond–inducing and alarming of all, so far, was the moment when my voice suddenly rose to a childish (or perhaps piglet–like) piping squeak. It then began to register all over the place, from a gruff and husky whisper to a papery, plaintive bleat. And at times it threatened, and now threatens daily, to disappear altogether. I had just returned from giving a couple of speeches in California, where with the help of morphine and adrenaline I could still successfully “project” my utterances, when I made an attempt to hail a taxi outside my home— and nothing happened. I stood, frozen, like a silly cat that had abruptly lost its meow. I used to be able to stop a New York cab at thirty paces. I could also, without the help of a microphone, reach the back row and gallery of a crowded debating hall. And it may be nothing to boast about, but people tell me that if their radio or television was on, even in the next room, they could always pick out my tones and know that I was “on” too.

Like health itself, the loss of such a thing can’t be imagined until it occurs. In common with everybody else, I have played versions of the youthful “Which would you rather?” game, in which most usually it’s debated whether blindness or deafness would be the most oppressive. But I don’t ever recall speculating much about being struck dumb. (In the American vernacular, to say “I’d really hate to be dumb” might in any case draw another snicker.) Deprivation of the ability to speak is more like an attack of impotence, or the amputation of part of the personality. To a great degree, in public and private, I “was” my voice. All the rituals and etiquette of conversation, from clearing the throat in preparation for the telling of an extremely long and taxing joke to (in younger days) trying to make my proposals more persuasive as I sank the tone by a strategic octave of shame, were innate and essential to me. I have never been able to sing, but I could once recite poetry and quote prose and was sometimes even asked to do so. And timing is everything: the exquisite moment when one can break in and cap a story, or turn a line for a laugh, or ridicule an opponent. I lived for moments like that. Now if I want to enter a conversation, I have to attract attention in some other way, and live with the awful fact that people are then listening “sympathetically.” At least they don’t have to pay attention for long: I can’t keep it up and anyway can’t stand to."
(Christopher Hitchens, Mortality, Loc. 466-93)

sábado, 24 de novembro de 2012

domingo, 18 de novembro de 2012

Antoine Watteau, The Lesson of Love (1716)


Por sugestão de Philip Sandblom, Creativity and Disease (Marion Boyars, 1996), onde se pode ler:
"In the history of creative work, there are many who, like Molière and Watteau, had their efforts influenced and their lives shortened by tuberculosis. One has the impression that this disease often exerted a singular effect on their talent. The slight fever livened the associations and filled the thoughts with fantastic, dreamlike pictures." (p.168)


terça-feira, 30 de outubro de 2012

three figures of dancing women and a head (detail)


(Simona Cremante, Leonardo da Vinci - the complete works, D&C, 2006, p.311)

sábado, 6 de outubro de 2012

o sentido do eu


É verão, os problemas ainda estão longe. Entra-se numa livraria e encontra-se o livro de Richard David Precht. O título atrai, diz-nos muito. Mas a capa deixa dúvidas. O original é alemão. O autor, na fotografia da contracapa, parece um actor de novelas. E custa 18 euros. Não...
Volta-se no dia seguinte. Folheia-se. Os temas são conhecidos. A divisão do livro em três partes - seguindo as questões da filosofia kantiana: O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? - é muito interessante. E os títulos dos capítulos atraem: "Lucy in the Sky - de onde viemos", ou "Mr. spock ama - o que são os sentimentos". Compra-se o livro. Começa-se a ler e não se consegue parar.

O que é facto é que estamos perante uma excelente introdução à filosofia. Cheia de humor, descontraída, com capítulos (34) que raramente excedem as cinco páginas. Não é apenas uma história da filosofia e das suas ligações com outra ciências. É a busca do conhecimento onde quer que ele esteja e independentemente da super-especialização a que muitos departamentos se submeteram. Cada capítulo introduz o tema falando de um autor e de um lugar, o que acrescenta uma dimensão espacial aos temas (por exemplo, o capítulo sobre a questão de saber se a moral é inata começa em Boston com a experiência do vagão sem condutor do psicólogo Marc Hauser. E não deixa de ser irónico que não tenha sido escrita originalmente em inglês.
A novidade do livro, não são os temas, nem as respostas às perguntas da filosofia. A força do livro está na forma como o autor vai buscar informação relevante a outras áreas do conhecimento  - psicologia, antropologia, neurociência, entre muitas outras - e  a insere na discussão das questões filosóficas. E está também no dom que autor tem de colocar as questões certas (o dom filosófico) e de com elas ir construindo as ligações entre os capítulos. Não admira que nos países onde já foi traduzida esteja a ser um sucesso.
Não fosse a tradução pobre e muitas vezes retirada tal e qual do tradutor do google e seria um excelente manual para qualquer curso  introdutório de filosofia ( a começar pelo ensino secundário). Merecia pois uma tradução mais cuidada. E  a ausência de revisão científica num livro desta natureza é lamentável (por exemplo, livros de referência que existem em tradução portuguesa aparecem apenas em alemão, e outros aparecem em português e alemão).

Leia-se, um exemplo, entre muitos:

"... O eu é uma ilusão? Aquilo que cada pessoa julga ser é apenas um truque de magia enganador no cérebro. Andaram os filósofos durante dois mil anos a enganar-se a si mesmos, ao admitirem como a maior das evidências que existe um eu que se confronta, com maior ou menor sucesso, com coisas do mundo?
...Só nos resta recorrer aos neurocientistas que nos últimos anos se têm envolvido com frequência e veemência na discussão. Estes parecem sentir-se hoje predestinados, mais do que todos os demais, para responder à questão. A resposta de muitos neurocientistas (embora não de todos) à questão se existe um  eu é a seguinte: «Não! Não existe nenhum eu. Ninguém foi ou teve até hoje um eu. Não existe nada que mantenha as pessoas unidas interiormente. David Hume e Ernst Mach tinham inteira razão: o eu é uma ilusão!» 
... O eu não é outra coisa senão um complexo mecanismo electroquímico. É como se uma criança abrisse a sua boneca que fala e no interior, para sua desilusão, encontrasse um pequeno aparelho.
Mas o senso comum tem sorte. Felizmente, um tal centro não existe. Bem longe de ser uma desilusão, como pretendem alguns neurocientistas, trata-se de uma boa notícia. Já o famoso anatomista Rudolf Virchow, no século XIX, se comprazia expulsar o eu do corpo da filosofia, dizendo: «Já dissequei milhares de cadáveres, mas jamais encontrei uma alma.» E aqui pode dizer-se (sem sentido religioso): «Graças a Deus!» Evidentemente, é muito melhor não encontrar uma alma ou um eu do que encontrá-lo, para depois o decompor e desmistificar. E imagine-se o que seria se os cirurgiões cerebrais fossem capazes de remover o eu!
Bom, não existe então um centro onde esteja sediado o eu. Isto também não admira, pois quem - para além de René Descartes, com a sua glândula pineal - acreditou em tal coisa? Nenhum filósofo de nomeada dos últimos duzentos anos afirmou alguma vez que o eu fosse uma substância material no cérebro. A maior parte deles simplesmente não se comprometeu com uma posição precisa. Immanuel kant, por exemplo, fala de forma bastante nebulosa, quando diz que o eu é um «objecto do sentido interno», por oposição ao «objecto do sentido externo», o corpo. Isto deixa muita coisa em aberto, pois como havemos de imaginar tal coisa em concreto?
Em suma, a filosofia deixa a questão do eu sem resposta definida.  A divisa parece ser: sobre o eu não se fala, temo-lo simplesmente. Também não admira que a neurociência não o consiga achar assim tão facilmente. (...)
Mas a neurociência conhece um segundo caminho para resolver a questão do eu: o estudo de pessoas que se afastaram da normalidade, quer dizer, de pacientes com perturbações, cujo eu manifestamente não funciona,funciona apenas parcialmente ou sob condições alteradas. (...) Aquilo que [Oliver]Sacks, há mais de 20 anos, podia apenas descrever, foi desde então estudado intensamente. Numerosos neurocientistas tendem a concluir que não existe um eu mas sim muito estados do eu: o meu eu corporal encarrega-se de me dar  a saber que o corpo, com o qual vivo, é realmente o meu próprio corpo; o meu eu orientador diz-me onde me encontro neste preciso momento; o meu eu perspectivista informa-me de que eu sou o centro do mundo por mim experienciado; o meu eu enquanto sujeito de vivências, diz-me que as minhas percepções sensoriais e os meus sentimentos são, de facto, os meus próprios, e não os de outras pessoas; o meu eu autorial e de controlo faz-me perceber que sou eu o responsável pelos meus pensamentos e pelas minhas acções, o meu eu autobiográfico, olha por que eu não seja excluído do meu próprio filme, mas antes me capte continuamente como um e o mesmo; o meu  eu auto-reflexivo possibilita-me pensar sobre mim próprio e jogar o jogo psicológico do «I» e do «me»; o eu moral, por fim, forma algo como a minha consciência, que me diz o que é bom e o que é mau.
... Os diferentes estados do eu, indicados pelos neurocientistas, são esquemas de divisão pertinentes, mas não nos devemos iludir: trata-se, ao mesmo tempo, de construções cujos contornos nem sempre se apresentam assim tão nítidos. Não provam de forma alguma que de tudo isto não resulta um estado geral ao qual se poderia chamar, seguindo alguns neurocientistas, uma «corrente da percepção do eu» - ou, porque não, pura e simplesmente «eu»?
... A velha ideia segundo a qual a unidade intelectual do Homem é mantida por um supervisor no cérebro não foi ainda refutada. este eu é uma coisa complicada. Por vezes, permite a sua decomposição em diferentes eus, mas, ao mesmo tempo, revela-se como uma realidade sentida que resiste à sua pura e simples superação por parte das ciências naturais. não chega a observação de que nos sentimos como um eu, para constatar que existe eu eu? «Somos indivíduos», escreve o sociólogo Niklas Luhmann, «simplesmente pela pretensão de o ser. Isso basta.» Podia dizer-se a mesma coisa a respeito do eu."
Richard David Precht, Quem sou eu e se sou quantos? Uma viagem filosófica, D. Quixote, 2010 tr. nada cuidada de LC (a edição original é de 2007),  70-77.


I had to see everything (p. 154)


O que poderá fazer com que uma pessoa ocupe algumas das suas preciosas horas de leitura com a autobiografia do comandante de Auschwitz, Rudolph Hoess, um monstro entre monstros ao serviço do mal?

O homem que "tinha que ver tudo. ... Que tinha que olhar pelo buraco das câmaras de gás e ver o processo da morte em si, porque os médicos queriam que visse."(154); embora a ideia de usar o Zyklon B, como meio mais eficaz (uma das palavras-chave do nazismo), tivesse sido sua.

Este é o homem que, nos dias em que sentia "profundamente afectado por algum acidente" e como forma de poder regressar a casa, ao jardim e aos filhos, "montava o seu cavalo até que a terrível imagem desaparecesse"(155). Mas como pôde ele, e os seus homens, suportar tudo aquilo? A resposta que ele nos dá é que "... a determinação de ferro com a qual tínhamos de obedecer às ordens de Hitler só poderia ser obtida através de uma asfixia de todas as emoções humanas" (155).

Que tipo de homem é esse que pôde organizar e comandar o maior campo de extermínio da Alemanha nazi, durante vários anos e, depois de capturado e condenado à morte, termina o livro afirmando: "Tive uma vida preenchida e variada"(180)?

Hoess pergunta si próprio: "Quais são hoje as minhas opiniões no que respeita ao terceiro reich? (...)
Permaneço, nas minhas atitudes perante a vida, um nacional socialista convicto, como sempre fui. Quando um homem aderiu a uma crença e a uma atitude há quase vinte cinco anos, cresceu com ela e está a ela ligado de corpo e alma, ele não pode simplesmente atirá-la para o lado só porque o corpo desse ideal, o Estado Nacional-Socialista e os seus lideres usaram os seus poderes de forma errada e criminosa, e porque, como resultado dessa falha e de más orientações, o seu mundo ruiu e todo o povo alemão mergulhou por décadas em grande miséria. Eu, pelo menos, não consigo." (176)

Todavia, é Primo Levi que, na introdução que escreveu em 1985 para o livro, nos dá algumas razões para o valorizarmos. A primeira razão é contingente e prende-se com os factos. Ainda há quem negue quer o número real de vítimas, quer a utilização de gás como arma de extermínio. "No que concerne a estes dois pontos, o testemunho de Rudolph Hoess é completo e explícito. (...) Hoess mente muitas vezes, como forma de se justificar, mas nunca mente acerca de factos; na verdade ele parece orgulhoso do seu trabalho organizacional".
A segunda razão é essencial: "surpreende-me, numa altura em que muitas lágrimas são derramadas sobre o fim das ideologias,  a forma como este texto revela de forma exemplar até onde uma ideologia pode ir quando é aceite de forma radical como o foi pelos alemães de Hitler; de facto pelos extremistas em geral. As ideologias podem ser boas ou más, e é bom conhecê-las, confrontá-las e tentar avaliá-las. Mas é sempre mau abraçar uma ideologia mesmo que ela esteja camuflada de palavras respeitáveis como 'País' e 'Dever'. As consequências últimas da aceitação cega do Dever - isto é, o Führerprinzip da Alemanha nazi, o princípio da devoção inquestionável a um Grande Líder - são demonstradas pela história de Rudolph Hoess." (25)

Rudolf Hoess, Commandant of Auschwitz, (introduced by Primo Levi), Phoenix, 2000 (1ª ed. inglesa 1959). Tr. de excertos de LFB.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Death Camp Treblinka: Survivor Stories - BBC 2012




Contada pelos seus dois últimos sobreviventes, a história do terrível campo de Treblinka e da revolta dos prisioneiros que aí se deu.

Dois 'fotogramas' retirados do documentário e que ilustram um dos poucos 'trabalhos' que não era feito pelos prisioneiros:


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O livro essencial sobre Treblinka é da escritora Gitta Sereny, Into that Darkness - From Mercy Killing to Mass Murder, Pimlico, 1995 (1ª ed. 1974). 
O livro é construído a partir de 70 horas de entrevistas feitas ao comandante de Treblinka, Franz Stangl, o único comandante de um campo  de extermínio (por oposição a campos mistos - extermínio e trabalho escravo) a ser julgado. Depois de ter sido capturado, em 1968, no Brasil de onde foi extraditado, Stangl foi julgado na Alemanha e condenado a prisão perpétua.

Aqui fica o Epílogo do livro:

"I do not believe that all men are equal, for what we are above all other things is individual and different. But individuality and difference are not only due to the talents we happen to be born with. They depend as much on the extent to which we are allowed to expand in freedom.
There is an as yet ill-defined, little-understood essential core to our being which, given this freedom, comes into its own, almost like birth, and which separates or even liberates us from intrinsic influences, and thereafter determines our moral condut and growth. A moral monster, I believe, is not born, but is produced by interference with this growth. I do not what this core is: mind, spirit, or perhaps a moral force as yet unnamed. But I think that, in the most fundamental sense, the individual personality only exists, is only valid from the moment when it emerges: when, at whatever age (in infancy, if we are lucky), we begin to be in charge of and increasingly responsible for our actions.
Social morality is contingent upon the individual's capacity to make responsible decisions, to make the fundamental choice between right and wrong; this capacity derives from this mysterious core - the very essence of the human person.
This essence, however, cannot come into being or exist in a vacuum. It is deeply vulnerable and profoundly dependet on a climate of life; on freedom in the deepest sense: not license, but freedom to grow: within family, within community within nations, and within human society as a whole. The fact of its existence therefore - the very fact of our existence as valid individuals - is evidence or our interdependence and of our responsability for each other"
Gita Sereny, Into that Darkness - From Mercy Killing to Mass Murder, Pimlico, 1995, p.367.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Europe was depressed

"E quando os nazis perderam a guerra, os países vencedores organizaram um tribunal internacional e os advogados ponderaram sobre a designação a dar à solução final da questão Judaica e aos vários planos para a exterminação dos Ciganos, Eslavos, etc., e inventaram o termo genocídio. Os historiadores concluíram que, no século vinte, ocorreram cerca de sessenta genocídios, mas nem todos entraram na memória histórica. Os historiadores afirmaram que a memória histórica não era parte da história e que a memória tinha sido transferida da esfera histórica para a esfera psicológica, e isto instituiu um novo modo de memória onde a questão já não era a memória dos acontecimentos mas sim a memória da memória. E a psicologização da memória fez surgir nas pessoas um sentimento de que tinham, de algum modo, uma dívida para com o passado, mas o quê ou a quem não era óbvio. A solução final da questão Judaica foi mais tarde designada de Holocausto ou shoa, porque os judeus afirmaram que não era exactamente genocídio, mas algo que ia além do genocídio, algo que ia além da compreensão humana, e afirmaram que era algo especificamente judeu, e muitas pessoas sentiram que os judeus se estavam a apropriar do genocídio e afirmaram que as vítimas de qualquer genocídio percepcionam a sua experiência como algo que vai além da compreensão humana, e que os judeus estavam a confundir a realidade histórica com a sua representação e logo paradoxalmente ajudaram a garantir a imagem que a maioria das pessoas tem do holocausto ao vê-lo como uma cena dramática retirada de um filme. E alguns rabbis afirmaram que os judeus não tinham morrido nos campos de concentração por acidente ou erro, mas que se tratava da reincarnação das almas que tinham pecado noutras vidas, porque apenas algumas almas permaneceram tementes a Deus e imaculados durante a sua vida na terra. E os historiadores afirmaram que a sociedade Ocidental tinha mudado de uma compreensão tradicional da história como um contínuo de memória para um conceito de memória que é projectado numa descontinuidade histórica. E ainda outros rabbis afirmaram que Deus durante o Holocausto se tinha retirado de cena, mas não era um castigo, como tal, mas sim o retorno da terra ao seu estado original, antes de Deus ter imposto ordem e quando havia trevas sobre a face do abismo. E uma jovem mulher judia sobreviveu à guerra porque na estação do caminho de ferro do campo de concentração de Struthof tocou, no violino, uma ária de Merry Widow. E os historiadores afirmaram que a idade da identidade tinha finalmente chegado ao fim, porque a historiografia tinha entrado na era epistemológica. (32)

Os sexólogos afirmaram que a Barbie foi a primeira ferramenta que serviu para inculcar uma identidade feminina nas meninas, e o seu sucesso provou existência da sexualidade infantil. Depois de se descobrir que as meninas gostariam de ter um filho do seu pai, a sexualidade infantil gerou muita discussão... (46)

E nos anos setenta o número de pessoas com depressão aumentou e no fim do século um em cada cinco europeus estava deprimido. Os sociólogos afirmaram que a neurose e a depressão espelhava a transformação cultural, no século vinte, da sociedade Ocidental. E a neurose espelhava uma sociedade dominada pela disciplina e pela hierarquia e pelos tabus sociais e que era uma expressão patológica do sentido  de culpa. (65)

Depois da guerra, nas cidades os cavalos tornaram-se escassos e o exército e a maioria dos estábulos das cidades fecharam ou foram reconstruídos como jardins de infância porque a arquitectura dos estábulos adequava-se às necessidades dos jardins de infância. (72)

E os médicos americanos recomendavam que as pessoas, para manterem a forma, respirassem ar fresco e praticassem desportos e andassem de bicicleta. A sugestão de andar de bicicleta destinava-se sobretudo aos homens americanos pois a bicicleta era de algum modo inadequada para as mulheres, e os médicos afirmaram que, para uma mulher, uma bicicleta era sobretudo um parceiro sexual e que o esfreganço do celim contra os lábios e o clitóris excitava as mulheres e incitava-as a práticas sexuais perversas. Como forma de prevenção desses comportamentos concebeu-se um celim especial com um furo no meio, mas era bastante desconfortável." (95)

 Patrick Ouředník, Europeana - a Brief History of the Twentieth century, Dalkey Archive Press, 2005. (Tr. dos excertos de LFB)


Um livro que consiste numa visão do século XX lançada no papel como uma catadupa de frases conjuntivas, sem capítulos e sem nenhum tipo de discussão deixa algo a desejar do ponto de vista do rigor e da verdade (nenhuma fonte bibliográfica é apresentada). Mas como exercício literário (talvez seja por isso que o livro está inserido na colecção de literatura oriental europeia) e como apresentação de opiniões e de factos, em 122 páginas, do avassalador século XX não está nada mal. Acrescente-se o humor e a ironia de algumas descrições e tem-se uma visão descontraída desse tempo. E a tradução do checo para o inglês foi premiada!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

illiterate in mathematics


 
"(Because of Faraday’s poverty-stricken youth, he was illiterate in mathematics, and as a consequence his notebooks are full not of equations but of hand-drawn diagrams of these lines of force. Ironically, his lack of mathematical training led him to create the beautiful diagrams of lines of force that now can be found in any physics textbook. In science a physical picture is often more important than the mathematics used to describe it.) Historians have speculated on how Faraday was led to his discovery of force fields, one of the most important concepts in all of science. In fact, the sum total of all modern physics is written in the language of Faraday’s fields. In 1831, he made the key breakthrough regarding force fields that changed civilization forever. One day, he was moving a child’s magnet over a coil of wire and he noticed that he was able to generate an electric current in the wire, without ever touching it. This meant that a magnet’s invisible field could push electrons in a wire across empty space, creating a current. Faraday’s “force fields,” which were previously thought to be useless, idle doodlings, were real, material forces that could move objects and generate power. Today the light that you are using to read this page is probably energized by Faraday’s discovery about electromagnetism."

(Michio Kaku, Physics of the Impossible: A Scientific Exploration into the World of Phasers, Force Fields, Teleportation, and Time Travel)


 

 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Artista, O filósofo e o Guerreiro

"
«Não publicarei nem divulgarei tais coisas devido à natureza perversa dos homens.» Antes, Leonardo mostrara-se disposto a divulgar os planos de algumas das mais horripilantes máquinas de guerra, sem pensar aparentemente nas consequências. Mas agora a maneira como encarava o seu trabalho tivera uma alteração significativa. (...) A clareza absoluta de cada visão individual permaneceria, no entanto, o conjunto perdia-se na incoerência. A ciência da percepção - aquela filosofia unificadora da visão que o levara a ver e a investigar tanto - nunca seria alcançada no meio da desordem generalizada do seu trabalho.
Leonardo faria várias tentativas para superar essa desordem. Elaboraria listas e planos para organizar por temas os elementos separados dos seus cadernos de apontamentos, começando depois a dar-lhes uma sequência. Mas algo, «a natureza perversa dos homens», impedi-lo-ia de completar essa tarefa, para poder legar ao mundo. deve ter sido alguma coisa que ele viveu enquanto trabalhava para Bórgia. Durante o massacre em Fossombrone? No meio do caos em Siniogallia? Depois das atrocidades em Sam Quirico? Ou teria sido um acontecimento mais cerebral: talvez a compreensão aniquiladora de alguma coisa? Podemos imaginar Leonardo a desenhar aqueles esboços do retrato de Bórgia com este estendido junto à lareira na sua câmara. Talvez, ao tentar reconciliar a clareza absoluta em que via os traços fisionómicos de Bórgia com a aura mortal de caos, assassínio, incesto e traição que o envolvia, Leonardo tenha compreendido que essa clareza de percepção nunca poderia ser inocente, no final. Por isso, nunca haveria final - retirar-se-ia disso, deixando o horror último sem ser visto, a visão final inacabada, o esquema global incompleto. Em vez da ordem global, o caos global." (316)

Apesar de tão nobres sentimentos, Maquiavel estava fora das boas graças, fora do trabalho e num limbo político. E fez o que à primeira vista poderia parecer uma escolha surpreendente - voltou a escrever poesia. Maquiavel não tinha de facto abandonado a ideia de que alguma dia cumpriria o seu sonho de juventude de alcançar a fama literária. De facto, de muitas maneiras, o seu trabalho proporcionara-lhe numerosas oportunidades para praticar a sua arte e refinar o seu estilo. A clareza e a precisão dos despachos que escrevia durante as suas missões revelavam a sua originalidade, bem como a sua independência de espírito, enquanto as suas cartas mais informais lhe davam margem para a sua vivacidade de espírito e de imaginação (para já não falar de algum exagero). A consciência trocista que tem de si próprio, juntamente com a análise psicológica que faz das figuras que vai conhecendo, a sua visão dos acontecimentos históricos que se desenrolam à sua volta podem não ter sido literatura enquanto tal, mas podiam transformar-se nela, e parece que Maquiavel alimentava essa ideia havia já algum tempo. Tudo isto é inevitavelmente especulativo - mas acontecimentos como a cena do seu primeiro encontro arrepiante  à luz da vela com Bórgia, no palácio de Urbino, terão de certo despertado a sua imaginação poética. (324)

Bórgia morreu, neste obscuro campo de batalha, a 12 de março de 1507, com apenas 31 anos. Quando a notícia da sua morte chegou a Itália, todos os governantes - desde Nápoles a Milão - suspiraram de alívio. Só em Ferrara é que a sua morte foi chorada. Quando Lucrécia teve conhecimento da morte do irmão adorado, conta-se que terá gritado: «Quanto mais eu me viro para Deus, mais ele se afasta de mim.» Manteve a compostura até se retirar finalmente para o seu quarto, onde a ouviram gritar pelo nome de César, uma e outra vez, num agonia sem fim.
Alguns anos antes, o historiador contemporâneo Andrea Bernardi escreveu que, quando Bórgia cavalgava ao encontro dos seus inimigos, tinha gritado: «é melhor morrer em cima da cela do que na cama». Mas foi preciso a empatia de uma irmã para compreender  a verdade que havia por trás destas palavras. Conta-se que Lucrécia teria suspeitado de que, no seu desespero perante o fracasso final de todas as suas ambições, a temeridade de Bórgia terá sido uma forma de suicídio.
Bórgia estava morto, mas o seu nome perduraria como exemplo, de uma maneira que ele nunca podia ter previsto. O responsável por isso seria o seu amigo Maquiavel, que o vira em ação e compreendera como ele foi quase bem-sucedido na sua enorme ambição. Para Maquiavel apenas um homem assim podia salvar a Itália das guerras autodestruidoras, que ameaçavam despedaçá-la no meio do seu grande Renascimento cultural." (365-6)

Paul Strathern, O Artista, O filósofo e o Guerreiro - Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o mundo que eles criaram, Clube do Autor, (tr. AGL), 2012.

Aqui temos um livro que mistura muito bem o rigor da investigação histórica (587 notas, lista com caracterização de personagens, ilustrações e mapas), com o carácter ficcional da narrativa (não há propriamente ficção, o que há é uma imaginário tecido em torno dos prováveis encontros entre os três gigantes) que nos transporta para a Itália de 1500. Como leitura de verão, não poderia haver melhor.
Foi o primeiro livro que li com a leitura perturbada pela ausência legal de letras e outros erros acordados. A experiência não é agradável: "projeto de nada"; "suscetível ato"; "fações"; "exceção", "percetuais". E ainda o absurdo de os nomes dos meses estarem escritos com letra minúscula. Mas porquê?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O K-mito

James Hawes  -  escritor e professor de Literatura alemã e um dos poucos que teve o privilégio de estudar cuidadosamente os manuscritos de Kafka e a sua arca (bookcase) fechada à chave - escreveu um livro para desmistificar o fenómeno Kafka (Quercus, 2008). Para que não haja equívocos, Hawes declara logo nas primeiras linhas do seu livro que Kafka é um monstro da literatura do século XX e que deve ser lido por todos.
Ele não está contra o escritor (quem estará?), mas contra a imagem que o público (nós? Não, eles, os ingleses!) tem de Kafka. Ele parece estar zangado com alguns dos seus colegas académicos - não germanófilos, certamente - que, na eterna busca de fundos para as suas investigações, "têm um grande interesse em apresentar Kafka como um homem e um escritor de um complexidade psicológica/literária insondável" (6).
 O que é facto é que o livro se lê muito bem e, como biografia, é, no mínimo, refrescante. À parte alguma repetição desnecessária dos diferentes aspectos do mito - o que deu para desconfiar que, se calhar, o mito era auto-criado - lê-se sem parar.
Eis uma pequena selecção das variantes do K-mito  (muitos outros aspectos são, é claro, discutidos no livro) seguida da desmistificação apresentada no livro:
i) Terá sido Kafka um desconhecido durante a sua vida (em parte, por ter vergonha de publicar) e ignorado pelos seus contemporâneos?
Não. Kafka, muito por influência do seu amigo Brod, mereceu a atenção do público mesmo antes de ter publicado o que quer que fosse. Kafka beneficiou, no início, de muitas ajudas literárias e aceitou-as todas de bom grado.

ii)  "Kafka ordenou que os seus livros fossem destruídos depois da sua morte"?
Sim. Mas não é bem verdade que Kafka quisesse que, depois da sua morte, os seus escritos fossem destruídos. Ao escrever o que escreveu "estava apenas a dramatizar como sempre fez em todos os aspectos da sua vida: estava a manobrar alguém para que tomasse as grandes decisões, tentando manter a ficção de que ele era um homem sem intenções, um mero brinquedo subjugado aos desejos dos outros" (121).

iii) "Em Praga, Kafka vivia aprisionado, como um judeu que falava alemão, num duplo gueto, uma minoria dentro de uma minoria, e no meio de um absurdo e colapsante Império-opereta".
 Não é verdade. Kafka sentiu-se sempre um alemão e um escritor na tradição da grande literatura alemã. Em 1915, tinha a primeira grande guerra começado, Kafka comprava "war bonds" emitidos pelo Império dos Habsburgos, como forma de ajudar os "alemães" a ganhar a guerra. Então como poderia Kafka sentir-se mal por ser um judeu checo que falava e escrevia em alemão?
Para lá disso, Kafka ajudou a criar e trabalhou num sanatório para pessoas com doenças mentais causadas pela guerra num local chamado Frankenstein! "Isso mostra que até à queda do império dos Habsburgos, Kafka identificava-se completamente com a comunidade de língua Alemã da Boémia (aquilo que se tornaria a Checoslováquia)." (92).
Mais informativo é que a proclamação publica escrita por Kafka para a criação do sanatório começa com a palavra "VOKSGENOSSEN" ("good fellow germans"), palavra que seria, dez anos mais tarde, usada pelos ultranacionalistas alemães (pelos nazis). Isso, segundo o autor, é bem revelador do K-mito que, demasiado focado no Kafka-icon de Praga, esquece ou ignora o Kafka alemão. No entanto, 'voksgenosssen' não é um termo nazi, mas sim um termo cunhado pelos socialistas em 1890.

 iv) Foi Kafka uma pessoa de saúde débil e, depois de ter sido diagnosticado com a tuberculose, não pôde escrever mais?
Não. Apesar de, após quatro anos de doença, ter morrido de tuberculose. Só na fase final ficou mais debilitado. Kafka foi, na maior parte da sua vida, uma pessoa bastante saudável. Tinha uma preocupação peculiar com a sua saúde (vegetariano, não fumador, não bebia café, nem chá, nem tocava em chocolate. Fazia ginástica nu todos os dias e mastigava muito a comida até ela ficar reduzida a "uma espécie de sopa auto-deglutida" (22).

v) "Kafka foi esmagado por um emprego burocrático e desmotivador"?
Não. O Kafka advogado tinha um emprego de seis horas diárias (saía às duas), num companhia de seguros semi - estatal, com um salário acima da média. Emprego esse que não só lhe permitia viver muito bem, como lhe serviu de desculpa para não ir para a guerra: era um trabalhador imprescindível! E era amigo do filho do presidente da empresa.

vi) "Kafka foi incrivelmente honesto com as mulheres da sua vida, talvez demasiado honesto"?
Não. Ele alimentou relações complexas e ambíguas com várias mulheres (sendo o caso mais bizarro o da sua relação com Felice com quem Kafka esteve para casar por várias vezes. O livro dedica dois capítulos às duas principais namoradas de Franz cujos títulos são significativos: "Kafka and Felice: Nothing to do with sex" e "kafka and Milena [que era casada]: all about sex").
Kafka frequentou, como todos os homens da época, bordéis e tinha amizades fugazes com todo o tipo de meninas ("shop girls, factory girls, typist, maids" (31). Um dos melhores exemplos do mito de que nos fala Hawes está presente na apresentação mais comum de uma das fotografias mais conhecidas de Kafka.



 E a foto, agora na totalidade, com a menina Falcon, ignorada por alguns biógrafos mais contidos.
 

A interpretação de Hawes da fotografia de estúdio (uma foto encenada) é reveladora: passando pelo significado dos dentes da menina - Kafka usa, em alguns dos seus contos, "imagens de dentes para indicar um vida impiedosamente interesseira" (82) -, pelo facto de Kafka querer parecer na foto mais pequeno do que era realmente - uma vez que seria muito mais alto do que ela - e pela presença do cão que revelaria o lado masoquista de Kafka: no conto de Sacher-Masoch a personagem permite-se ser tratada como um cão e a relação disto com as palavras finais de Josef K. n'O Processo: «Como um cão!».
Para além, disso, Kafka coleccionava pornografia (desenhos e revistas encontrados na bookcase). Coisa que Hawes não sabia pois "nunca ninguém o tinha discutido, muito menos publicado"(57). E: "o lado porno de kafka não é nenhum segredo. O mistério é que pareça um segredo" (58).
De novo, trata-se de uma querela entre académicos: "o facto parece ser que os estudiosos simplesmente não querem saber do Franz Kafka real: pornografia, prostitutas e tudo" (60). Mas será mesmo pornografia?  Eis dois exemplos:
 
 Vale a pena ler a resposta de Hawes, dada numa das muitas notas que, pelos pormenores que revelam sobre o que se passa nos corredores das academias, constituem outra das delícias do livro: "alguns comentadores alemães acusam-me de ser um britânico reprimido que não sabe a diferença entre erótica e pornografia. Claro que há uma diferença: erótica é aquilo que os pornógrafos chamam pornografia, como um rápido passeio pelo Soho pode facilmente mostrar." (8)

E para finalizar: vii) "Kafka previu, sinistramente, Auschwitz"?
Não. Kafka não poderia ter previsto o holocausto simplesmente porque ninguém - "nem mesmo em 1928, que fará em 1915" (90) - poderia ter previsto tal coisa. E insinuar tal antevisão é "um insulto à memória de milhões que, estando lá, não o «previram» nem mesmo quando ele lhes bateu à porta ..." (91)

Uma pequena, mas interessante, entrevista com o autor pode ser lida aqui.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

ser a própria luz

"
Onde estáveis quando lancei os fundamentos da Terra?
 Job 38:4

...
Para o universo, o passado não desaparece. Nós não vemos como o universo era outrora olhando para a luz que nos chega do passado do universo - de lá de fora. A luz das estrelas distantes convence-nos de que existem objectos como as estrelas, e o estudo repetido da luz recebida de muitas estrelas convence-nos de que o universo físico se tornou uma hierarquia constituída por elas.
Olhar lá para fora para o espaço é o mesmo que olhar para trás no tempo. A luz do passado mais remoto do universo chega como radiação de microondas, a CMB [radiação cósmica de fundo], um ténue retrato do universo tal como era 400 000 anos após o Big Bang. É também em parte, o retrato mais ténue daquilo que fomos outrora. A CMB é um mapa do todo e, a partir desse todo, evoluiu o todo do universo do século XXI. Fazer de novo a pergunta - Em que está contido o universo? - deverá provocar respostas curiosas. Nunca poderemos atingir o local em que estávamos há 13 700 milhões de anos. O universo está em expansão e levando as suas origens para cada vez mais longe. Mesmo que pudéssemos viajar à velocidade da luz, o horizonte leva já um avanço de 13 700 milhões de anos. Em qualquer dos casos, para viajarmos à velocidade da luz, teríamos que ser a própria luz: paradoxalmente, pareceria não haver para nós o tempo a passar. Nós não conseguimos ver a radiação que se está a afastar de nós à velocidade da luz. Os objectos mais distantes que estão ainda visíveis são os quasares, a afastarem-se de nós à velocidade de 93% da velocidade da luz. A fronteira do universo é na realidade um horizonte; mas é impossível dizer um horizonte de quê. Se nos fosse possível aproximármo-nos fisicamente do horizonte para vermos o que está para além dele, aquilo que lá estivesse não se pareceria em nada com o universo visível, tal como é presentemente descrito."

(Cristopher Potter, Você está aqui - uma história portátil do universo, casa das Letras, 2009, pp.191-192. Tradução não muito cuidada de uma excelente introdução ao Universo a partir do nada!)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

"It took chickens almost a century to learn not to cross the road"


Jean-Philippe de Tonnac. Let's come back to the changes in technology that may or may not persuade us to leave the book behind. Today's media formats are definitely more fragile and less long-lasting than our wonderfully tenacious incunabula. And yet, whether we like it or not, these new tools are having a profound effect on our thought patterns, and gradually altering them from those engendered by the book. 


Umberto Eco. The speed with which technology reinvents itself has forced us into an unsustainably reorganization of our mental habits. We feel the need to buy a new computer every couple of years, precisely because they are designed to become obsolete after a certain time, and to be more expensive to repair than to replace. (...) And every new piece of technology requires the acquisition of a new system of reflexes, which in turn requires effort on our part, and all of this on a shorter and shorter cycle. It took chickens almost a century to learn not to cross the road. In the end, the species did adapt to the new traffic conditions. But we don't have that kind of time. 

Jean-Claude Carrière. But is it even possible to adapt to a rythim that is accelerating to this pointless degree? Take the example of film editing. Music videos have increased the pace of  editing to such an extent that it simply can't go any faster. You wouldn't be able to see the images. I give this example to show how a cycle is created in which a media format gives birth to its own language, which in turn forces the format to evolve, and so on, in ever more hasting and hurried circles. In today's Hollywood 'action' films no shot lasts more than three seconds. It's become a kind of rule. A man goes home, opens the door, hangs up his coat and goes upstairs. Nothing happens, he isn't under any threat, and yet the sequence is cut into eighteen shots. As if the technology is dictating the action, as if the action was in the camera itself, rather than what it depicts. 

Umberto Eco & Jean-Claude Carrière (2011). This is not the end of the book; (tr.P. McLean). 
London: Vintage Books, pp. 39-40.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Oblomovitis

"
'What, then, is life in your opinion?',
'It is --' Stolz pondered or a while, trying to find a name for this sort of life - 'it is a sort of Oblomovitis!' he said at last.
'Oblomovitis! Oblomov repeated slowly, surprised at this strange definition and scanning it syllable by syllable. 'Oblomovitis - ob-lo-mo-vi-tis!'
He gave Stolz a strange and intent look.
'And what is this ideal of life, in our opinion, then? What is not Oblomovitis? he asked timidly and without enthusiasm. 'Doesn't everybody strive to achive the very thing I dream of? Why', he added, 'isn't the whole purpose of all your rushing about, all your passions, wars, trade, and politics to attain rest - reach this ideal of a lost paradise?'
'Your utopia, too, is a typical Oblomov utopia,' replied Stolz.
'But everyone seeks peace and rest!' Oblomov defend himself."

Ivan Goncharov, Oblomov, Penguin Books, p.180.

Por sugestão da entrevista a Henrique Vila-Matas publicada no último número da revista LER.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Diálogo sobre a ciência e os homens

Uma tradução recente (2012) de um texto antigo (1984). No entanto, tudo o que aqui se pode ler é refrescante. Tullio Regge escreve como um físico fascinante; Primo Levi - ainda que exerça sobretudo o papel de entrevistador - escreve como um químico sábio. O prefácio é do professor emérito de física J. Moreira Araújo e pode ser lido aqui.

"Levi: (...) Esperava ir muito longe, até ao ponto de possuir o Universo, entender o porquê das coisas. Agora, eu sei que não existe o porquê das coisas, pelo menos é o que julgo. (...) Tinha uma sensação curiosa: que havia um conluio contra mim, que família e escola mantinham alguma coisa escondida, e que eu procurava nos lugares que me eram reservados: por exemplo, a química ou, também, a astronomia (...)"

Regge: (...) eu também achava que havia uma conspiração, que era o que se ensinava na escola. (...) Na verdade a ciência era tão mal ensinada que desencorajava mesmo os mais interessados. (...) A escola não me deu nada. Com o velho telescópio que o meu pai comprou num mercado de rua, aprendi a reconhecer todas as constelações; observei estrelas duplas, nebulosas anulares, os planetas, as galáxias. O meu professor de Ciências Naturais não estava minimamente interessado nestes assuntos.
 (43-54)
Levi: E, depois, [ na Universidade] o laboratório: todos os anos tinham o seu laboratório. Passávamos lá cinco horas por dia; era uma bela obrigação, uma experiência extraordinária. em primeiro lugar porque trabalhávamos com as mãos, literalmente, e foi a primeira vez que isso me aconteceu, sem nos importarmos se as escaldávamos ou cortávamos. Era um regresso às origens. A mão é um orgão nobre, mas a escola, toda preocupada com o cérebro tinha-a desprezado. (...) Era um trabalho de grupo, que, na escola precedente, era desconhecido (...). É uma experiência fundamental, cometer erros em grupo. Participa-se muito nas vitórias e derrotas mútuas. (...)
 (49-50)
Para mim, havia uma complicação, como contei nos meus livros: as leis raciais. A libertação universitária coincidiu com o trauma de me ser dito: cuidado, tu não és como os outros, na verdade vales menos que eles; tu és avarento, tu és um estranho, tu és sujo, tu és perigoso, tu és pérfido. (...)
 (50-51)
Regge: Outra qualidade rara de Wataghin era reconhecer num primeiro relance se uma pessoa era medíocre ou não.

Levi: Isso talvez não seja assim tão difícil, dados alguns parâmetros. deve pôr-se de lado sentimentos de simpatia ou antipatia. Sobretudo, simpatia. A simpatia é, muitas vezes, um meio de esconder a incompetência. A Itália está cheia de pessoas simpáticas que nada sabem dos seus ofícios. é uma operação básica ser capaz de avaliar a pessoa na sua frente, pesá-la. Suponho que, também entre os físicos, há aqueles que representam um papel.
(53)
Regge: (...) É designado por «redução dimensional», e postula a existência de uma quinta dimensão, para além das quatro do espaço-tempo. Um objecto move-se em três dimensões espaciais, mas também se deve mover na quarta, mesmo que não a consigamos ver. Esta quarta dimensão deve ter alguma coisa muito diferente das outras, já que estamos impedidos de a ver no sentido tradicional. A razão de esta percepção estar inibida é essa dimensão ser muito pequena. É o mesmo que percorrer um caminho que se fecha sobre si próprio, de modo que somos imediatamente devolvidos ao ponto de partida. Podemos comparar o espaço a um cilindro onde as dimensões normais se realizam ao longo do eixo do cilindro, enquanto a quinta dimensão completa uma volta em torno do cilindro. Uma volta incrivelmente curta, 10 -33 centímetros. (...)
(68)
Levi: Desenvolvi o hábito de escrever de forma compacta, evitando o supérfluo. Precisão e concisão, que, dizem-me, são a minha forma de escrever, surgiram-me da profissão de químico. E também o hábito da objectividade, de não me deixar enganar facilmente por aparências. (...)
Outra virtude que a profissão de químico desenvolve é a paciência, não ter pressa. Hoje, a química está completamente mudada; é química rápida. (...) Agora, acontece que, tal como nas escolas elementares decorre uma discussão sobre se as crianças devem ser ensinadas a usar uma calculadora em vez de fazerem a sua aritmética manualmente, para o químico surge a questão de avaliar se vale a pena ensinar o método de análise manual, a chamada análise sistemática, que exige muito tempo e também muito material. (...) Mas a análise manual, tal como o trabalho manual, tem um valor formativo, é demasiado semelhante às nossas origens, como mamíferos, para ser desprezada. No fim de contas, nós devemos saber usar as nossas mãos, os nossos olhos, o nosso nariz. (...)
Compreendi que hoje podemos, seguramente, viver sem um computador, mas é uma vida nas margens e condena-nos a ficar cada vez mais desligados da sociedade activa. Os Gregos diziam de uma pessoa inculta: «Ele não sabe escrever nem nadar.» Hoje, devia-se juntar: «Nem usar um computador.»"
(93-97)
(Levi & Regge, Diálogo sobre a ciência e os homens, Gradiva, 2012, tr. mui cuidada de E.L.)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Coisas boas sobre o mal: duas visões

"Chegamos agora a uma descoberta que parece ser central para compreender a ideia e mal. O mal não tem, ou parece não ter, finalidade prática. O mal é supremamente inútil. Qualquer coisa monótona como uma finalidade mancharia a sua pureza letal.  Nisto assemelha-se a Deus que, a existir, não tem absolutamente nenhuma razão para fazê-lo. Ele é a sua própria razão de ser. E criou o universo, não por haver alguma finalidade, mas apenas por prazer (just for fun). O mal rejeita a lógica da causalidade. Se tivesse uma finalidade à vista, auto-dividir-se-ia, não seria auto-idêntico, estaria à frente de si mesmo. Mas o nada não pode ser dividido dessa forma. É por isso que não pode existir realmente no tempo. Pois o tempo é uma questão de diferença, e o mal é aborrecidamente e perpetuamente o mesmo. É neste sentido que se diz que o inferno é para toda a eternidade."
(Eagleton, Terry, On evil, Yale U.P., 2010, pp. 84-85. Tr LFB)

A visão literária: Um interessante livro que, a partir das ideias psicanalistas e marxistas (combinação exuberante!) realiza um estudo feito a partir de obras literárias para compreender o problema do mal.  


"The standard explanation is that the Holocaust (sadly, as we shall see, echoed in many cultures historically across the globe) is an example of the “evil” that humans are capable of inflicting on one another. Evil is treated as incomprehensible, a topic that cannot be dealt with because the scale of the horror is so great that nothing can convey its enormity. The standard view turns out to be widely held, and indeed the concept of evil is routinely used as an explanation for such awful behaviors: Why did the murderer kill an innocent child? Because he was evil. Why did this terrorist become a suicide bomber? Because she was evil. But when we hold up the concept of evil to examine it, it is no explanation at all. For a scientist this is, of course, wholly inadequate. What the Nazis (and others like them) did was unimaginably terrible. But that doesn’t mean we should simply shut down the inquiry into how people are capable of behaving in such ways or use a nonexplanation, such as saying people are simply evil. As a scientist I want to understand what causes people to treat others as if they were mere objects. In this book I explore how people can treat each other cruelly not with reference to the concept of evil, but with reference to the concept of empathy. Unlike the concept of evil, empathy has explanatory power. In the coming chapters I put empathy under the microscope."
Simon, Baron - Cohen, The Science of Evil, Basic Books, 2011, Highlight Loc. 114-24.

A visão científica: Uma tentativa de produzir uma explicação científica para a crueldade e para o problema do mal. O autor é um reconhecido psicopatologista da Universidade de Cambridge que aqui apresenta um estudo sobre a forma como aquilo que ele designa 'a corrosão da empatia' pode estar na origem do mal.
 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

"Quem é contra o suicídio assistido e a eutanásia tem de admitir que há pessoas que, diante do sofrimento físico e da perspectiva de não sobreviverem desligadas de uma máquina, querem pôr fim à vida.
Gostaria de contribuir para que, no meu país, a indefinição que rodeia este assunto terminasse. A actual situação leva a que os que desejam suicidar-se, por motivos compreensíveis, se defrontem com dificuldades inúteis. Note-se que o suicídio, outrora tido como crime, é hoje aceite pelo Código Penal. É aliás o único acto em que alguém que participa num gesto legal é considerado cúmplice de um crime. No fundo, aqueles que precisam de ajuda para se suicidar não estão a pedir mais do que um direito concedido a toda a gente. Uma democracia laica, como é o caso de Portugal, deve respeitar os sentimentos que a fé religiosa faz brotar na alma dos crentes, mas não pode autorizar que seja ela, a fé, a ditar a formulação das leis. Os católicos têm o direito de se abster de actos que consideram pecaminosos, mas não podem impor aos outros os seus valores. (76)

De acordo com J. S. Mill, nenhuma questão, moral ou empírica, pode ser resolvida em absoluto, o que nos obriga a admitir que as nossas respostas deverão ser temporárias, pelo que temos de aceitar a sua revisão. A verdade, ou mais correctamente, a «maior» verdade - uma vez que, segundo ele, a Verdade nunca poderá ser atingida - surge do conflito entre as opiniões falsas e as verdadeiras (ou, seguindo-o, as mais falsas e as mais verdadeiras). Isto leva-o a defender que nunca se deve suprimir uma opinião, por mais chocante que seja, porque, se o fizermos, nunca chegaremos à mais justa. Mais do que noutros campos, é na moral que se torna necessário adoptar uma atitude humilde. (...)
É provável que morra nos próximos dez, quinze anos. Tenho filhos e netos, amei e fui amada, escrevi livros, ouvi música e viajei. Em princípio, poderia dar-me por satisfeita, o que infelizmente não me faz encarar a morte com placidez. Como Montaigne afirmou, com o tempo, o dilema Vida versus Morte vai-se transformando, num outro, Velhice versus Morte. Sei que as minhas células foram morrendo, as minhas articulações se tornaram rígidas e até o meu crânio diminuiu, mas nada disto conta quando se trata de pensar no fim. Se amanhã um médico me disser que sofro de uma doença incurável, terei um ataque de coração, o que, convenhamos, resolveria o problema. Mas, se isso não acontecer, quero ter a lei do meu lado." (80)

Maria Filomena Mónica, A Morte, FFMS, 2011.

Maria Filomena Mónica (MFM) é uma mulher que admiro. Aprecio a sua frontalidade, a sua sinceridade e o seu sentido de justiça. Identifico-me com ela quando diz que é liberal, anglo-saxónica e de esquerda por não ser de direita. 
Acontece que o livrinho que ela escreveu sobre o tema da morte assistida e da eutanásia está muito bem escrito. Coisa que, embora possa parecer fácil, não o é. Em poucas páginas, num tom descontraído e, muitas vezes, pessoal, é-nos dada uma visão cuidada das principais posições a ter em conta no debate sobre o complexo problema da eutanásia. Em Portugal são raros os ensaios sobre temas éticos que resultam bem. Recordo um outro texto bem intencionado, no caso sobre o aborto, escrito por Miguel Oliveira da Silva e intitulado Sete Teses Sobre o Aborto (Caminho, 2005). Apesar de esclarecedor nas questões médicas relacionadas com o aborto, acaba por resultar num texto confuso, de leitura arrastada e, ainda que não seja esse o seu propósito, pouco recomendável para ser trabalhado em aulas de ética. O contrário daquilo que se passa com o livro de MFM. Lê-se num ápice, é de uma clareza exemplar e é muito recomendável para ser lido por alunos de ética aplicada.

(LFB)