Programa de jazz e zumbidos outros, à volta do seu ouvido. Este programa foi transmitido, pela primeira vez, a 8 de Outubro de 2020. Às quintas, no ar às 20:00, no Rádio Clube de Angra.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Primo Levi, Se Isto é um Homem
"27 de Janeiro. Madrugada. No chão, a infame confusão de membros ressequidos, a coisa Sómogyi.
Há trabalhos mais urgentes; não podemos lavar-nos, por isso, só podemos mexer nele depois de termos cozinhado e comido. E, além disso «rien de si degoûtant que les débordements», diz justamente Charles; é preciso esvaziar o balde. Os vivos são mais exigentes; os mortos podem esperar. Começamos a trabalhar como todos os dias.
Os russos chegaram enquanto Charles e eu levávamos Sómogyi para um lugar um pouco afastado. Estava muito leve. Virámos a maca na neve cinzenta.
Charles tirou o boné. Tive pena de não ter boné.
Dos onze da Infektionsabteilung, apenas Sómogyi morreu durante os dez dias. Sertelet, Cagnolati, Tomarowski, Lakmaker e Dorget (...) morreram algums semanas mais tarde na enfermaria russa provisória de Auschwitz. Encontrei em Katowice, em Abril, Schenk e Alcalai de boa saúde. Arthur regressou felizmente à sua família, e Charles retomou a sua profissão de professor primário: trocámos longas cartas e espero poder reencontrá-lo um dia."
Últimos parágrafos do livro de Primo Levi, Se Isto é um Homem, Público, 2002, p.190
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
'I learnt it in Auschwitz.'
"The first days were terrible - for everyone. There is a 'shock', a trauma connected with entrance into a concentration camp which can last five, ten, twenty days. Nearly all the people who died, died during this first phase. Our way of life had changed totally in the space of a few days, especially in the case of us western Jews. Polish and Russian Jews had done some hard training for the auschwitz experience in the ghettos beforehand, and the shock for them was less severe. For us, the Italian, French and Dutch Jews, it was as if we had been plucked straight from our houses to a concentration camp.
But I could feel, along with fear and hunger and exhaustion, an extremely intense need to understand the world around me. To begin with, the language. I know a little German, but I felt I had to know a lot more. I went so far as to take private lessons, paid for with part of my bread ration. I didn´t know that I was learning a really vulgar kind of German. I found that out on a business trip to a chemical factory in Leverküsen. The people I was dealing with, very polite German types, said 'How strange. Italians don't usually know any German, and those who do know a different kind of German. Where did you learn it?' So I told them. 'I learnt it in Auschwitz.' They were upset, for lots of reasons. We were being friendly together and at least some of them, perhaps all of them, had been Nazis."
sábado, 27 de julho de 2013
da nossa condição humana
"Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso esperança, no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais que, assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós, e tornam fragmentária e, por isso mesmo, suportável, a consciência dela."
Primo Levi, Se Isto É Um Homem,
Público, 2002, p.14. Cit. em D. McMahon, The Pursuit of Hapiness, Penguin Books, 2007, pp. 457.
terça-feira, 18 de junho de 2013
'Prefácio a: Höss Commandant at Auschwitz'
"De forma simples, Höss não percebeu nada, nunca ultrapassou o seu passado, não está curado. Quando diz (e diz muitas vezes) 'agora percebo... Agora compreendo que ...' está a mentir descaradamente, tal como hoje todos os políticos arrependidos (pentiti) estão mentir, do mesmo modo estão todos aqueles que expressam o seu arrependimento, não com acções, mas com palavras. Porque mente ele? Talvez para deixar uma melhor imagem de si; talvez, simplesmente, porque os seus juízes, que são os seus novos superiores, lhe tenham dito que as opiniões correctas já não são as de antes, mas diferentes."
Primo Levi, The Black Hole of Auschwitz, Polity Press, 2005, p.87 (tr. lfb)
:
pentiti,
Primo Levi,
shoah
quinta-feira, 6 de junho de 2013
cantankerous and solitary philosopher, Jean Améry.
"The appalling episode of the 'Temple of the people', the collective suicide of 900 followers of a mystic-satanic sect, is today still incomprehensible, and perhaps will always be so, if by 'to comprehend' se mean to identify a motive. And anyway, each and every human action contains a kernel of incomprehensibility. If this were not the case, we would be in a position to foresee what our neighbour is going to do. Clearly we cannot do this, and perhaps it is just as well that we cannot. It is particularly difficult to understand why a person kills himself, since generally speaking the suicide himself is not fully aware, or else he supplies both himself and others with motives that are consciously or unconsciously altered.
News of the massacre at Georgetown appeared in the papers alongside another less clamorous item: the suicide of a cantankerous and solitary philosopher, Jean Améry. This event is, in the contrary, absolutely comprehensible, and has much to teach us. (...)
Améry wrote: '"Hear, Israel" is of no interest to me: only "Hear, world", only this warning could I offer with passionate anger'. But also: 'As a jew, I go round the world like a sick man afflicted with one of those illnesses which do not cause great suffering but which lead inevitably to death.' And finally, like an epitaph: '' The man who has been tortured remains tortured ... Whoever has suffered torment will no longer be able to find his way clearly in the world, the abomination of annihilation will never be extinguished. Trust in humanity, already fractured by the first slap in the face and then demolished by torture, can never be regained.'
No, the death of Jean Améry is not a surprise, and it is sad to think that torture, which had disappeared from Europe some centuries ago, made ita reappearance in our century, and is gaining ground in a number of countries, 'for the right reasons', as if suffering deliberately inflicted can give birth to anything good. It is unbearable to think that while the torture Améry suffered weighed down on him right to his death, indeed was for him an interminable death, it is more than likely that his torturers are sitting down in an office or enjoying their retirement. And if they were interrogated (but who his there to interrogate them?) they would give the same old answer with a clear conscience: they were only following ordens."Levi, The Black Hole of Auschwitz, Polity, (tr.) 2005, pp. 48-50.
sábado, 6 de outubro de 2012
I had to see everything (p. 154)
O homem que "tinha que ver tudo. ... Que tinha que olhar pelo buraco das câmaras de gás e ver o processo da morte em si, porque os médicos queriam que visse."(154); embora a ideia de usar o Zyklon B, como meio mais eficaz (uma das palavras-chave do nazismo), tivesse sido sua.
Este é o homem que, nos dias em que sentia "profundamente afectado por algum acidente" e como forma de poder regressar a casa, ao jardim e aos filhos, "montava o seu cavalo até que a terrível imagem desaparecesse"(155). Mas como pôde ele, e os seus homens, suportar tudo aquilo? A resposta que ele nos dá é que "... a determinação de ferro com a qual tínhamos de obedecer às ordens de Hitler só poderia ser obtida através de uma asfixia de todas as emoções humanas" (155).
Que tipo de homem é esse que pôde organizar e comandar o maior campo de extermínio da Alemanha nazi, durante vários anos e, depois de capturado e condenado à morte, termina o livro afirmando: "Tive uma vida preenchida e variada"(180)?
Hoess pergunta si próprio: "Quais são hoje as minhas opiniões no que respeita ao terceiro reich? (...)
Permaneço, nas minhas atitudes perante a vida, um nacional socialista convicto, como sempre fui. Quando um homem aderiu a uma crença e a uma atitude há quase vinte cinco anos, cresceu com ela e está a ela ligado de corpo e alma, ele não pode simplesmente atirá-la para o lado só porque o corpo desse ideal, o Estado Nacional-Socialista e os seus lideres usaram os seus poderes de forma errada e criminosa, e porque, como resultado dessa falha e de más orientações, o seu mundo ruiu e todo o povo alemão mergulhou por décadas em grande miséria. Eu, pelo menos, não consigo." (176)
Todavia, é Primo Levi que, na introdução que escreveu em 1985 para o livro, nos dá algumas razões para o valorizarmos. A primeira razão é contingente e prende-se com os factos. Ainda há quem negue quer o número real de vítimas, quer a utilização de gás como arma de extermínio. "No que concerne a estes dois pontos, o testemunho de Rudolph Hoess é completo e explícito. (...) Hoess mente muitas vezes, como forma de se justificar, mas nunca mente acerca de factos; na verdade ele parece orgulhoso do seu trabalho organizacional".
A segunda razão é essencial: "surpreende-me, numa altura em que muitas lágrimas são derramadas sobre o fim das ideologias, a forma como este texto revela de forma exemplar até onde uma ideologia pode ir quando é aceite de forma radical como o foi pelos alemães de Hitler; de facto pelos extremistas em geral. As ideologias podem ser boas ou más, e é bom conhecê-las, confrontá-las e tentar avaliá-las. Mas é sempre mau abraçar uma ideologia mesmo que ela esteja camuflada de palavras respeitáveis como 'País' e 'Dever'. As consequências últimas da aceitação cega do Dever - isto é, o Führerprinzip da Alemanha nazi, o princípio da devoção inquestionável a um Grande Líder - são demonstradas pela história de Rudolph Hoess." (25)
Rudolf Hoess, Commandant of Auschwitz, (introduced by Primo Levi), Phoenix, 2000 (1ª ed. inglesa 1959). Tr. de excertos de LFB.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Diálogo sobre a ciência e os homens
Uma tradução recente (2012) de um texto antigo (1984). No entanto, tudo o que aqui se pode ler é refrescante. Tullio Regge escreve como um físico fascinante; Primo Levi - ainda que exerça sobretudo o papel de entrevistador - escreve como um químico sábio. O prefácio é do professor emérito de física J. Moreira Araújo e pode ser lido aqui.
"Levi: (...) Esperava ir muito longe, até ao ponto de possuir o Universo, entender o porquê das coisas. Agora, eu sei que não existe o porquê das coisas, pelo menos é o que julgo. (...) Tinha uma sensação curiosa: que havia um conluio contra mim, que família e escola mantinham alguma coisa escondida, e que eu procurava nos lugares que me eram reservados: por exemplo, a química ou, também, a astronomia (...)"
Regge: (...) eu também achava que havia uma conspiração, que era o que se ensinava na escola. (...) Na verdade a ciência era tão mal ensinada que desencorajava mesmo os mais interessados. (...) A escola não me deu nada. Com o velho telescópio que o meu pai comprou num mercado de rua, aprendi a reconhecer todas as constelações; observei estrelas duplas, nebulosas anulares, os planetas, as galáxias. O meu professor de Ciências Naturais não estava minimamente interessado nestes assuntos.
(43-54)
Levi: E, depois, [ na Universidade] o laboratório: todos os anos tinham o seu laboratório. Passávamos lá cinco horas por dia; era uma bela obrigação, uma experiência extraordinária. em primeiro lugar porque trabalhávamos com as mãos, literalmente, e foi a primeira vez que isso me aconteceu, sem nos importarmos se as escaldávamos ou cortávamos. Era um regresso às origens. A mão é um orgão nobre, mas a escola, toda preocupada com o cérebro tinha-a desprezado. (...) Era um trabalho de grupo, que, na escola precedente, era desconhecido (...). É uma experiência fundamental, cometer erros em grupo. Participa-se muito nas vitórias e derrotas mútuas. (...)
(49-50)
Para mim, havia uma complicação, como contei nos meus livros: as leis raciais. A libertação universitária coincidiu com o trauma de me ser dito: cuidado, tu não és como os outros, na verdade vales menos que eles; tu és avarento, tu és um estranho, tu és sujo, tu és perigoso, tu és pérfido. (...)
(50-51)
Regge: Outra qualidade rara de Wataghin era reconhecer num primeiro relance se uma pessoa era medíocre ou não.
Levi: Isso talvez não seja assim tão difícil, dados alguns parâmetros. deve pôr-se de lado sentimentos de simpatia ou antipatia. Sobretudo, simpatia. A simpatia é, muitas vezes, um meio de esconder a incompetência. A Itália está cheia de pessoas simpáticas que nada sabem dos seus ofícios. é uma operação básica ser capaz de avaliar a pessoa na sua frente, pesá-la. Suponho que, também entre os físicos, há aqueles que representam um papel.
(53)
Regge: (...) É designado por «redução dimensional», e postula a existência de uma quinta dimensão, para além das quatro do espaço-tempo. Um objecto move-se em três dimensões espaciais, mas também se deve mover na quarta, mesmo que não a consigamos ver. Esta quarta dimensão deve ter alguma coisa muito diferente das outras, já que estamos impedidos de a ver no sentido tradicional. A razão de esta percepção estar inibida é essa dimensão ser muito pequena. É o mesmo que percorrer um caminho que se fecha sobre si próprio, de modo que somos imediatamente devolvidos ao ponto de partida. Podemos comparar o espaço a um cilindro onde as dimensões normais se realizam ao longo do eixo do cilindro, enquanto a quinta dimensão completa uma volta em torno do cilindro. Uma volta incrivelmente curta, 10 -33 centímetros. (...)
(68)
Levi: Desenvolvi o hábito de escrever de forma compacta, evitando o supérfluo. Precisão e concisão, que, dizem-me, são a minha forma de escrever, surgiram-me da profissão de químico. E também o hábito da objectividade, de não me deixar enganar facilmente por aparências. (...)
Outra virtude que a profissão de químico desenvolve é a paciência, não ter pressa. Hoje, a química está completamente mudada; é química rápida. (...) Agora, acontece que, tal como nas escolas elementares decorre uma discussão sobre se as crianças devem ser ensinadas a usar uma calculadora em vez de fazerem a sua aritmética manualmente, para o químico surge a questão de avaliar se vale a pena ensinar o método de análise manual, a chamada análise sistemática, que exige muito tempo e também muito material. (...) Mas a análise manual, tal como o trabalho manual, tem um valor formativo, é demasiado semelhante às nossas origens, como mamíferos, para ser desprezada. No fim de contas, nós devemos saber usar as nossas mãos, os nossos olhos, o nosso nariz. (...)
Compreendi que hoje podemos, seguramente, viver sem um computador, mas é uma vida nas margens e condena-nos a ficar cada vez mais desligados da sociedade activa. Os Gregos diziam de uma pessoa inculta: «Ele não sabe escrever nem nadar.» Hoje, devia-se juntar: «Nem usar um computador.»"
(93-97)
(Levi & Regge, Diálogo sobre a ciência e os homens, Gradiva, 2012, tr. mui cuidada de E.L.)
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Primo Levi sobre a coexistência da piedade e da brutalidade
“A piedade e a brutalidade podem coexistir, no mesmo indivíduo e no mesmo momento, contra toda a lógica; e, de resto, a própria piedade escapa à lógica. Não existe proporcionalidade entre a piedade que sentimos e a extensão da dor pela qual é suscitada a piedade; uma única Anna Frank desperta mais comoção que as miríades que sofreram como ela, mas cuja imagem ficou na sombra. É necessário talvez que assim seja; se devêssemos e pudéssemos passar pelos sofrimentos de todos, não
poderíamos viver. Talvez só aos santos seja concedido o dom da piedade para com os muitos; aos monatos, aos da Equipa
Especial e a todos nós, só resta, no melhor dos casos, a instável piedade dirigida ao individual, ao Mitmensch, ao co-homem; ao ser humano de carne e sangue que está à nossa frente, ao alcance dos nossos sentidos providencialmente míopes.”
(Levi, Primo, Os que Sucumbem e os que se Salvam,
(Tr. J.C.B) Teorema, 2008, p. 54.)
domingo, 16 de janeiro de 2011
A zona cinzenta
"A ascensão dos privilegiados, não só nos Lager mas em todas as convivências humanas, é um fenómeno angustiante mas infalível: é só nas utopias que eles estão ausentes. É dever do homem justo fazer guerra a todos os privilégios não merecidos, mas não se pode esquecer que esta é uma guerra sem fim. Onde existir um poder exercido por poucos, ou por um só, contra os muitos, o privilégio nasce e prolifera, mesmo até contra a vontade do próprio poder; mas é normal que o poder, pelo contrário, o tolere e encoraje. Limitemo-nos ao Lager, que contudo (mesmo na sua versão soviética) pode bem servir de «laboratório»: a classe híbrida dos prisioneiros-funcionários constitui a sua ossatura, e ao mesmo tempo o delineamento mais inquietante. É uma zona cinzenta, de contornos mal definidos, que ao mesmo tempo separa e associa os dois campos dos senhores e dos servos. Possui uma estrutura incrivelmente complicada, e aloja dentro de si o suficiente para confundir a nossa necessidade de julgar."
Levi, Primo, Os que Sucumbem e os que se salvam, Teorema, 2008, p.39.
sábado, 15 de dezembro de 2007
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Primo Levi

Agora que o anti-judaísmo ignóbil resurgiu em força e com a conivência ‘tolerante’ de alguns dirigentes políticos portugueses, vale a pena reler com atenção algumas das respostas de Primo Levi a questões colocadas pelos seus leitores.Entrevista Retirada de: Primo Levi, “The Author´s Answers to His Readers Questions” pp.381-398, in, If This Is a Man & The Truce, Abacus, 1999."1. No livro não há um sentimento de ódio pelos Alemães, nem um desejo de vingança. Perdoou-os?R: O Meu temperamento pessoal não está inclinado para o ódio. Vejo-o como animalesco e cruel, prefiro que as minhas acções e pensamentos sejam o resultado da razão (…) Se o fizesse estaria a seguir os preceitos dos Nazismo.Acredito na razão e na discussão como instrumentos do progresso, e por isso reprimo o ódio, mesmo dentro de mim. Prefiro a justiça. Por essa razão, ao descrever o mundo trágico de Auschwitz, adoptei a linguagem sóbria e calma da testemunha, e não os tons lamentáveis da vítima nem a voz irada de alguém que procura vingança. Penso que a minha tarefa seria tanto mais útil e credível quanto mais fosse objectiva e quanto menos soasse excessivamente emocional. Só desta forma pode uma testemunha realizar a sua função em termos de justiça; isto é, fornecer elementos válidos para o juiz poder julgar. Os juízes são os meus leitores.De qualquer modo, não gostaria que o facto de eu me abster de fazer um juízo explícito fosse confundido com um perdão indiscriminado. Não, eu não perdoei nenhum dos culpados, nem desejo perdoar nenhum deles, a não ser que eles mostrem (com acções, e não com palavras e não muito tempo depois) que estão conscientes dos crimes e erros do fascismo e estejam determinados em condená-lo (…). Só nestas condições estou pronto a perdoar.2. Sabia o povo alemão o que estava a acontecer?Como seria possível que a exterminação de milhões de seres humanos tivesse acontecido no coração da Europa sem o conhecimento das pessoas?As democracias têm uma tremenda vantagem sobre os estados autoritários: toda a gente pode saber tudo sobre tudo. A informação é um quarto poder (...). No estado autoritário a verdade é só uma e vem de cima. Todos os jornais são iguais e repetem as mesmas coisas. Não se pode ouvir a rádio de outros países. Os livros são censurados, muitos são queimados, e só aqueles que agradam ao estado são publicados e traduzidos. Isto aconteceu na Itália entre 1924 e 1945, e continuou depois na Alemanha de leste (…).Num estado autoritário é considerado permissível alterar a verdade; reescrever a história retrospectivamente, distorcer as notícias, suprimir a verdade, adicionar o falso, a propaganda substitui a informação. Nestes estados não se é um cidadão com direitos, mas sim um sujeito, e como tal deves ao estado uma lealdade fanática e uma obediência cega. Nestas condições torna-se possível apagar pedaços da realidade. Hitler e o seu ministro da propaganda (Goebbels) tornaram-se especialistas nesta tarefa de controlar e mascarar a verdade.Contudo, não era possível esconder do povo alemão a existência de campos de concentração. Nem tal era necessário do ponto de vista dos nazis. Criar e manter no país uma atmosfera de terror indefinido fazia parte dos objectivos dos nazis. Centenas de milhares de alemães foram presas nos campos desde os primeiros meses do nazismo: comunistas, social-democratas, liberais, judeus, protestantes, católicos. Todo o país sabia disso e sabia que nos campos sofriam e morriam pessoas.Mas não deixa de ser verdade que a grande maioria dos Alemães desconhecia os detalhes das enormes atrocidades que ocorreram mais tarde nos campos. Nomeadamente a exterminação industrializada numa escala de milhões; as câmaras de gás; os fornos crematórios, o despojo perverso dos corpos. Tudo isto deveria permanecer desconhecido, e de facto poucos foram os que souberam disso antes do fim da guerra. Para manter o segredo, só certos eufemismos – estudados cuidadosamente – eram usados: não se escrevia “exterminação”, mas sim ”solução final”; não “deportação, mas sim ”transferência”, não “gás mortal”, mas “tratamento especial”, e por aí a fora. (…).O relato que, a meu ver, melhor retrata a situação alemã na altura é o de Eugene Kogon, que passo a citar:“… e contudo não havia um único alemão que não soubesse da existência dos campos ou que acreditasse que eles eram sanatórios … todos os alemães foram testemunhas da barbárie anti-semita. Milhões estiveram presentes – com indiferença ou com curiosidade; com desdém ou com uma alegria maligna – na destruição de sinagogas pelo fogo, ou na humilhação de judeus que se tinham que ajoelhar no meio das ruas enlameadas.”(…) A maioria dos alemães não sabia porque não queria saber. É verdade que um estado terrorista é uma arma muito forte, muito difícil de resistir. Mas também é verdade que o povo alemão como um todo não quis, nem tentou, resistir.Usava-se um código na Alemanha de Hitler: aqueles que sabiam não falavam; aqueles que não sabiam não perguntavam; aqueles que faziam perguntas não recebiam respostas. (…) Saber e fazer com que as coisas fossem conhecidas era uma forma de uma pessoa se manter afastada do nazismo. Penso que o povo alemão não procurou este recurso e para mim são totalmente culpados desta omissão deliberada.3. Como pode ser explicado o ódio fanático dos nazis pelos judeus?O anti-semitismo é uma forma particular de intolerância; durante séculos teve um carácter mais religioso. Essa intolerância foi espalhada por toda a Europa pela eficiência da propaganda nazi e fascista que necessitava de um bode expiatório para carregar todas as culpas e ressentimentos (…). Mas estas explicações não me satisfazem, são redutoras, e não proporcionais aos factos que necessitam de explicação. (…).Eu partilho da humildade de alguns grandes historiadores que confessam não compreender o anti-semitismo de Hitler e da Alemanha que o suportava. Talvez não se possa, ou melhor não se deva compreender o que aconteceu, porque compreender é quase justificar. “Compreender” uma proposta, ou um comportamento, significa abrangê-la, pôr-mo-nos no seu lugar, identificarmo-nos com ela. Nunca nenhum ser humano normal será capaz de se identificar com Hitler (…) Isso desanima-nos, porque não compreendemos, mas ao mesmo tempo causa-nos uma sensação de alívio, porque talvez seja desejável que as suas palavras (e, infelizmente, os seus actos) sejam compreendidas por nós. (…) Não o podemos compreender, mas podemos compreender a árvore que o brotou e podemos permanecer alerta. Se compreender é impossível, ter conhecimento é imperativo, porque o que aconteceu pode acontecer novamente. A consciência pode ser seduzida e obscurecida novamente – mesmo a nossa própria consciência. Por esta razão é um dever de todos reflectir sobre o que aconteceu. Toda a gente deve saber, ou recordar, que Hitler e Mussolini falavam em público, que as pessoas acreditavam neles, aplaudiam, admiravam-nos, adoravam-nos como se fossem deuses. Eram líderes carismáticos (…).É necessário suspeitar daqueles que nos querem convencer com outros meios que não a razão; e é preciso suspeitar dos líderes carismáticos: é preciso muito cuidado ao delegarmos a nossa vontade e os nossos juízos. Uma vez que é muito difícil distinguir os falsos profetas dos verdadeiros, é melhor suspeitar de todos. É melhor renunciar a verdades reveladas (…), é melhor contentarmo-nos com verdades mais modestas e menos excitantes, aquelas que são adquiridas a custo, a pouco e pouco, com estudo, discussão e raciocínio crítico (…)."
(Tradução livre de LFB)
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