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segunda-feira, 8 de abril de 2013

"to resolve our fate"

"Agamemnon (...) deve, a mando dos deuses, sacrificar sua própria filha ou, abandonando
a campanha Grega contra Troia, renunciar à sua honra. A tragédia do seu dilema é que ele não pode ter ambas as coisas. Os protagonistas da tragédia grega, divididos entre o dever e o amor, entre a justiça e o auto-sacrifício, a família e a cidade, e muitos outros fins irreconciliáveis, são aprisionados pelas circunstâncias e por si próprios. Habitando um mundo onde o conflito é inevitável e a luta predestinada, eles não podem fazer-se a si próprios felizes; como sombriamente proclama o Mensageiro na Medeia de Eurípedes, neste universo trágico não há, entre os mortais, "nenhum homem feliz". O Coro no Filoctetes de Sófocles é ainda mais desolador, lamentando a "raça infeliz":
Do homem mortal condenado a um círculo sem fim
De tristeza, e incomensurável aflição!
Neste peça, como em tantas outras do género, a única salvação para o herói titular é através da intervenção improvável de um deus. Assim como o céu se abriu para banhar a pira de Creso, Hércules chega, no momento final da peça de  Sófocles, para desenredar Filoctetes de sua situação. Hércules é um deus ex machina (theos ek mēchanēs) - à letra um "deus a partir da máquina" - uma referencia à convenção da tragoidia grega de baixar um actor para o palco através de um guindaste, ou de alguma outra geringonça, como forma de finalizar o drama. Pode-se argumentar, como Aristóteles veio a fazer na Poética, que esta é uma maneira desajeitada de terminar uma peça. Mas o deus ex machina serve perfeitamente para dramatizar um ponto muito mais importante: No tradição trágica, a felicidade é quase sempre um milagre, exigindo a intervenção directa do divino.
(pp.8-9)

VLADIMIR: Diz que estás, mesmo que não seja verdade.
ESTRAGON:  O que devo eu dizer?
VLADIMIR: Diz, estou feliz.
ESTRAGON: Estou feliz.
VLADIMIR: Também eu.
ESTRAGON: Também eu.
VLADIMIR: Estamos felizes.
ESTRAGON: Estamos felizes. (Silêncio.) O que fazemos agora, agora que estamos felizes?
VLADIMIR:  Esperaramos por Godot.
À Espera de Godot de Beckett é, inquestionavelmente, trágica e, de facto, a sua "tragédia" é muito mais pronunciada do que a dos seus predecessores clássicos. Ao contrário da tragoidia dos tempos antigos, a variante moderna acaba completamente com a convenção que garantia sempre, até ao fim, um raio de esperança. Aqui, não pode haver um deus ex machina esperando nas asas para produzir uma salvação final, milagrosa, nenhum deus na máquina pronto para saltar e desestimular ["spirit away"] os heróis, para salvar Creso das chamas, para resolver o nosso destino. Vladimir e Estragon anseiam pelo misterioso Godot, eles acreditam que a chegada desse homem é a garantia de que "nós vamos ser salvos." Mas Godot, claro, nunca aparece. O Deus na máquina tornou-se o fantasma na máquina que assombra pela sua ausência, deixando apenas um fio, um traço, a sensação esbatida da presença espiritual, uma esperança fugaz de felicidade cujo reino é decididamente desta terra.
(pp.454-455)
Darrin McMahon, The Pursuit of Hapiness, Penguin Books, 2007.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

a democracia constitucional

" a democracia constitucional é dualista: distingue o poder constituinte do poder ordinário, bem como a lei superior do povo da lei ordinária dos corpos legislativos. A supremacia parlamentar é rejeitada.
O supremo tribunal encaixa nesta ideia de democracia constitucional como um dos instrumentos institucionais que protegem a lei superior. "
John Rawls, Political Liberalism, Columbia UP, 1993, p. 22.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BRUEGHEL, Jan the Elder, Orpheus in the Underworld (1594)

Por sugestão de Darrin McMahon, The Pursuit of Happiness (Penguin, 2007) onde se pode ler: "Seria a felicidade como a Euridice do mito grego, que se escapa dos nossos braços quando nos viramos para abraçá-la, desaparecendo mal a vislumbramos? (xi) 

domingo, 18 de novembro de 2012

Antoine Watteau, The Lesson of Love (1716)


Por sugestão de Philip Sandblom, Creativity and Disease (Marion Boyars, 1996), onde se pode ler:
"In the history of creative work, there are many who, like Molière and Watteau, had their efforts influenced and their lives shortened by tuberculosis. One has the impression that this disease often exerted a singular effect on their talent. The slight fever livened the associations and filled the thoughts with fantastic, dreamlike pictures." (p.168)


domingo, 11 de novembro de 2012

our desperate, malevolent, contemporary doppelgänger

“The word metastasis, used to describe the migration of cancer from one site to another, is a curious mix of meta and stasis—“beyond stillness” in Latin—an unmoored, partially unstable state that captures the peculiar instability of modernity. If consumption once killed its victims by pathological evisceration (the tuberculosis bacillus gradually hollows out the lung), then cancer asphyxiates us by filling bodies with too many cells; it is consumption in its alternate meaning—the pathology of excess. Cancer is an expansionist disease; it invades through tissues, sets up colonies in hostile landscapes, seeking “sanctuary” in one organ and then immigrating to another. It lives desperately, inventively, fiercely, territorially, cannily, and defensively — at times, as if teaching us how to survive. To confront cancer is to encounter a parallel species, one perhaps more adapted to survival than even we are.
This image — of cancer as our desperate, malevolent, contemporary doppelgänger — is so haunting because it is at least partly true. A cancer cell is an astonishing perversion of the normal cell. Cancer is a phenomenally successful invader and colonizer in part because it exploits the very features that make us successful as a species or as an organism.
Like the normal cell, the cancer cell relies on growth in the most basic, elemental sense: the division of one cell to form two. In normal tissues, this process is exquisitely regulated, such that growth is stimulated by specific signals and arrested by other signals. In cancer, unbridled growth gives rise to generation upon generation of cells. Biologists use the term clone to describe cells that share a common genetic ancestor. Cancer, we now know, is a clonal disease. (...)
But cancer is not simply a clonal disease; it is a clonally evolving disease. If growth occurred without evolution, cancer cells would not be imbued with their potent capacity to invade, survive, and metastasize. Every generation of cancer cells creates a small number of cells that is genetically different from its parents. When a chemotherapeutic drug or the immune system attacks cancer, mutant clones that can resist the attack grow out. The fittest cancer cell survives. This mirthless, relentless cycle of mutation, selection, and overgrowth generates cells that are more and more adapted to survival and growth. In some cases, the mutations speed up the acquisition of other mutations. The genetic instability, like a perfect madness, only provides more impetus to generate mutant clones. Cancer thus exploits the fundamental logic of evolution unlike any other illness. If we, as a species, are the ultimate product of Darwinian selection, then so, too, is this incredible disease that lurks inside us.
Such metaphorical seductions can carry us away, but they are unavoidable with a subject like cancer. In writing this book, I started off by imagining my project as a “history” of cancer. But it felt, inescapably, as if I were writing not about something but about someone. My subject daily morphed into something that resembled an individual—an enigmatic, if somewhat deranged, image in a mirror. This was not so much a medical history of an illness, but something more personal, more visceral: its biography.”
Excerto de: Mukherjee, Siddhartha. The Emperor of All Maladies,  Scribner, 2010, p.38- 39.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

uma questão de respeito próprio ou não

"Se integrarmos os sentimentos humanos na questão colocada no início [devemos comer animais?], então esta toma a seguinte forma: é aceitável comer animais que não seríamos capazes de matar por mão própria? No estado presente da civilização ocidental, os nossos sentimentos tornam difícil à maioria das pessoas matar um porco ou uma vitelinha - mesmo se soubéssemos como fazê-lo. Quanto aos peixes, pelo contrário, acham-se muito mais pessoas capazes de os matar. E «matar» ovos de galinha representa para bem poucos uma dificuldade. Em tempos mais recuados, deve ter sido mais fácil para o homem matar animais, e aos povos tradicionais isso também provoca, em regra, menos problemas. Mas a moral também é sempre uma questão de sensibilização cultural. É menos dependente de uma definição abstracta do humano do que do estado de sensibilidade de uma sociedade. E é perfeitamente de admitir que este estado de sensibilidade na Europa ocidental dos nossos dias represente um cume provisório no desenvolvimento da humanidade. Exactamente por esse motivo, para a indústria da carne e hoje necessária a «ilusão» de dar a uma perna de vitela uma aparência que não nos lembre a vitela. A nossa intuição é aqui induzida em erro, o recalcamento é-nos facilitado. A maior parte das pessoas na nossa sociedade só não tem nojo nem pudor de comer carne, porque o sofrimento dos animais não lhes está imediatamente patente diante dos olhos. Os nossos neurónios-espelho reagem ao mugido de uma vitela no matadouro, mas permanecem inactivos perante um bife já empacotado.
A questão de até que ponto nos deixamos ou não levar, movidos por argumentos refinados, a não comer mais carne, é algo que cada um tem de decidir por si mesmo. Quando se pensa racionalmente sobre isso, há porventura que dizer que os argumentos contra o consumo de carne são provavelmente melhores e mais convincentes do que os argumentos em seu favor, quer se trate dos utilitaristas quer do recurso à intuição moral. Se agora decidimos prescindir totalmente do bife, do hambúrguer e do frango assado, ou se passamos apenas a comê-los com menor frequência do que até agora, depende largamente da medida em que nos sensibilizamos a nós mesmos ou deixamos sensibilizar para esta questão, por outras palavras: se fazemos dela uma questão de respeito próprio ou não. Um novo olhar sobre a imagem que temos de nós próprios, em face dos nossos parentes peludos, deverá conferir um impulso adicional a este processo."

Richard David Precht, Quem sou eu e se sou quantos? Uma viagem filosófica, D. Quixote, 2010 tr. nada cuidada de LC (a edição original é de 2007), pp.220-221.

domingo, 28 de outubro de 2012

o que falta à democracia para escolher os homens de mérito

portrait retirado daqui
"Faça-se o que se fizer, é impossível elevar as luzes de um povo acima de um certo nível. Por mais que se facilite o acesso aos conhecimentos humanos, por mais que se melhore os métodos de ensino e se coloque a ciência ao alcance de todos, nunca se conseguirá que os homens se instruam e desenvolvam a sua inteligência sem consagrarem tempo a essa tarefa.
A maior ou menor facilidade que o povo encontra para viver sem trabalhar constitui pois o limite necessário dos seus progressos intelectuais. Este limite situa-se mais longe em certos países, menos longe noutros; mas, para que ele deixasse completamente de existir, seria necessário que o povo deixasse de ter de se ocupar dos problemas materiais da vida, quer dizer, que deixasse de ser povo. Assim, é tão difícil conceber uma sociedade onde todos os homens sejam muito esclarecidos como um Estado onde todos os cidadãos sejam ricos: estas são duas dificuldades correlativas. Admitirei, sem dificuldade, que a massa dos cidadãos deseja muito sinceramente o bem do país; irei mesmo mais longe, dizendo que, de um modo geral, as classes inferiores da sociedade parecem associar a este desejo menos combinações de interesse pessoal do que as classes altas; mas o que lhes falta sempre, mais ou menos, é a arte de julgar os meios quando desejam afincadamente e sinceramente o fim. Quão longo estudo, quantas noções diversas são necessárias para se fazer uma ideia exacta do carácter de um só homem! Como se a multidão pudesse triunfar onde os maiores génios tropeçam! O povo nunca encontra o tempo e os meios para se entregar a este trabalho. É-lhe sempre necessário julgar precipitadamente, baseando-se apenas nos factos mais salientes. Daí os charlatães de todo o género saberem tão bem o segredo para lhe agradar, ao passo que, na maior parte das vezes, os seus verdadeiros amigos não o conseguem.
De resto, nem sempre é capacidade o que falta à democracia para escolher os homens de mérito, mas sim desejo e gosto."

Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, Principia, 2001, tr. mui cuidada de CCMO, p.245

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Europe was depressed

"E quando os nazis perderam a guerra, os países vencedores organizaram um tribunal internacional e os advogados ponderaram sobre a designação a dar à solução final da questão Judaica e aos vários planos para a exterminação dos Ciganos, Eslavos, etc., e inventaram o termo genocídio. Os historiadores concluíram que, no século vinte, ocorreram cerca de sessenta genocídios, mas nem todos entraram na memória histórica. Os historiadores afirmaram que a memória histórica não era parte da história e que a memória tinha sido transferida da esfera histórica para a esfera psicológica, e isto instituiu um novo modo de memória onde a questão já não era a memória dos acontecimentos mas sim a memória da memória. E a psicologização da memória fez surgir nas pessoas um sentimento de que tinham, de algum modo, uma dívida para com o passado, mas o quê ou a quem não era óbvio. A solução final da questão Judaica foi mais tarde designada de Holocausto ou shoa, porque os judeus afirmaram que não era exactamente genocídio, mas algo que ia além do genocídio, algo que ia além da compreensão humana, e afirmaram que era algo especificamente judeu, e muitas pessoas sentiram que os judeus se estavam a apropriar do genocídio e afirmaram que as vítimas de qualquer genocídio percepcionam a sua experiência como algo que vai além da compreensão humana, e que os judeus estavam a confundir a realidade histórica com a sua representação e logo paradoxalmente ajudaram a garantir a imagem que a maioria das pessoas tem do holocausto ao vê-lo como uma cena dramática retirada de um filme. E alguns rabbis afirmaram que os judeus não tinham morrido nos campos de concentração por acidente ou erro, mas que se tratava da reincarnação das almas que tinham pecado noutras vidas, porque apenas algumas almas permaneceram tementes a Deus e imaculados durante a sua vida na terra. E os historiadores afirmaram que a sociedade Ocidental tinha mudado de uma compreensão tradicional da história como um contínuo de memória para um conceito de memória que é projectado numa descontinuidade histórica. E ainda outros rabbis afirmaram que Deus durante o Holocausto se tinha retirado de cena, mas não era um castigo, como tal, mas sim o retorno da terra ao seu estado original, antes de Deus ter imposto ordem e quando havia trevas sobre a face do abismo. E uma jovem mulher judia sobreviveu à guerra porque na estação do caminho de ferro do campo de concentração de Struthof tocou, no violino, uma ária de Merry Widow. E os historiadores afirmaram que a idade da identidade tinha finalmente chegado ao fim, porque a historiografia tinha entrado na era epistemológica. (32)

Os sexólogos afirmaram que a Barbie foi a primeira ferramenta que serviu para inculcar uma identidade feminina nas meninas, e o seu sucesso provou existência da sexualidade infantil. Depois de se descobrir que as meninas gostariam de ter um filho do seu pai, a sexualidade infantil gerou muita discussão... (46)

E nos anos setenta o número de pessoas com depressão aumentou e no fim do século um em cada cinco europeus estava deprimido. Os sociólogos afirmaram que a neurose e a depressão espelhava a transformação cultural, no século vinte, da sociedade Ocidental. E a neurose espelhava uma sociedade dominada pela disciplina e pela hierarquia e pelos tabus sociais e que era uma expressão patológica do sentido  de culpa. (65)

Depois da guerra, nas cidades os cavalos tornaram-se escassos e o exército e a maioria dos estábulos das cidades fecharam ou foram reconstruídos como jardins de infância porque a arquitectura dos estábulos adequava-se às necessidades dos jardins de infância. (72)

E os médicos americanos recomendavam que as pessoas, para manterem a forma, respirassem ar fresco e praticassem desportos e andassem de bicicleta. A sugestão de andar de bicicleta destinava-se sobretudo aos homens americanos pois a bicicleta era de algum modo inadequada para as mulheres, e os médicos afirmaram que, para uma mulher, uma bicicleta era sobretudo um parceiro sexual e que o esfreganço do celim contra os lábios e o clitóris excitava as mulheres e incitava-as a práticas sexuais perversas. Como forma de prevenção desses comportamentos concebeu-se um celim especial com um furo no meio, mas era bastante desconfortável." (95)

 Patrick Ouředník, Europeana - a Brief History of the Twentieth century, Dalkey Archive Press, 2005. (Tr. dos excertos de LFB)


Um livro que consiste numa visão do século XX lançada no papel como uma catadupa de frases conjuntivas, sem capítulos e sem nenhum tipo de discussão deixa algo a desejar do ponto de vista do rigor e da verdade (nenhuma fonte bibliográfica é apresentada). Mas como exercício literário (talvez seja por isso que o livro está inserido na colecção de literatura oriental europeia) e como apresentação de opiniões e de factos, em 122 páginas, do avassalador século XX não está nada mal. Acrescente-se o humor e a ironia de algumas descrições e tem-se uma visão descontraída desse tempo. E a tradução do checo para o inglês foi premiada!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

illiterate in mathematics


 
"(Because of Faraday’s poverty-stricken youth, he was illiterate in mathematics, and as a consequence his notebooks are full not of equations but of hand-drawn diagrams of these lines of force. Ironically, his lack of mathematical training led him to create the beautiful diagrams of lines of force that now can be found in any physics textbook. In science a physical picture is often more important than the mathematics used to describe it.) Historians have speculated on how Faraday was led to his discovery of force fields, one of the most important concepts in all of science. In fact, the sum total of all modern physics is written in the language of Faraday’s fields. In 1831, he made the key breakthrough regarding force fields that changed civilization forever. One day, he was moving a child’s magnet over a coil of wire and he noticed that he was able to generate an electric current in the wire, without ever touching it. This meant that a magnet’s invisible field could push electrons in a wire across empty space, creating a current. Faraday’s “force fields,” which were previously thought to be useless, idle doodlings, were real, material forces that could move objects and generate power. Today the light that you are using to read this page is probably energized by Faraday’s discovery about electromagnetism."

(Michio Kaku, Physics of the Impossible: A Scientific Exploration into the World of Phasers, Force Fields, Teleportation, and Time Travel)


 

 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

The proportions of the human body in the manner of Vitruvius (The Vitruvian Man) c. 1490



"Os estudos posteriores levariam ao seu famoso desenho, O Homem de Vitrúvio, assim chamado a a partir do nome de Vitrúvio, um arquiteto romano do século 1 a.C. que escreveu sobre as proporções do corpo humano e que o desenho de Leonardo pretendia ilustrar. Este desenho insere uma figura humana nua, com as pernas e os braços estendidos, dentro de um círculo e de um quadrado: o quadrado demostra a ideia de Vitrúvio de que a largura dos braços abertos de um homem é igual à sua altura, enquanto o círculo mostra que os braços levantados e as pernas abertas chegam ao limite de um círculo cujo centro é o umbigo do homem. A força e a poesia desta imagem derivam da justaposição da sua humanidade integralmente nua e da abstração das linhas geométricas nas quais ela está inserida. pode ser interpretada como qualquer coisa, desde um emblema da autodescoberta científica da humanidade até à imagem retumbante de um homem indefeso pregado como uma borboleta dentro dos limites do mundo matemático. A cabeça individualizada do homem de Vitrúvio, com as suas madeixas de cabelo abertas ao meio e o seu olhar grave e resoluto, é quase de certeza um autorretrato de Leonardo na meia-idade."

(Paul Strathern, O Artista, O filósofo e o Guerreiro - Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o mundo que eles criaram, Clube do Autor, 2012, p.42)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Artista, O filósofo e o Guerreiro

"
«Não publicarei nem divulgarei tais coisas devido à natureza perversa dos homens.» Antes, Leonardo mostrara-se disposto a divulgar os planos de algumas das mais horripilantes máquinas de guerra, sem pensar aparentemente nas consequências. Mas agora a maneira como encarava o seu trabalho tivera uma alteração significativa. (...) A clareza absoluta de cada visão individual permaneceria, no entanto, o conjunto perdia-se na incoerência. A ciência da percepção - aquela filosofia unificadora da visão que o levara a ver e a investigar tanto - nunca seria alcançada no meio da desordem generalizada do seu trabalho.
Leonardo faria várias tentativas para superar essa desordem. Elaboraria listas e planos para organizar por temas os elementos separados dos seus cadernos de apontamentos, começando depois a dar-lhes uma sequência. Mas algo, «a natureza perversa dos homens», impedi-lo-ia de completar essa tarefa, para poder legar ao mundo. deve ter sido alguma coisa que ele viveu enquanto trabalhava para Bórgia. Durante o massacre em Fossombrone? No meio do caos em Siniogallia? Depois das atrocidades em Sam Quirico? Ou teria sido um acontecimento mais cerebral: talvez a compreensão aniquiladora de alguma coisa? Podemos imaginar Leonardo a desenhar aqueles esboços do retrato de Bórgia com este estendido junto à lareira na sua câmara. Talvez, ao tentar reconciliar a clareza absoluta em que via os traços fisionómicos de Bórgia com a aura mortal de caos, assassínio, incesto e traição que o envolvia, Leonardo tenha compreendido que essa clareza de percepção nunca poderia ser inocente, no final. Por isso, nunca haveria final - retirar-se-ia disso, deixando o horror último sem ser visto, a visão final inacabada, o esquema global incompleto. Em vez da ordem global, o caos global." (316)

Apesar de tão nobres sentimentos, Maquiavel estava fora das boas graças, fora do trabalho e num limbo político. E fez o que à primeira vista poderia parecer uma escolha surpreendente - voltou a escrever poesia. Maquiavel não tinha de facto abandonado a ideia de que alguma dia cumpriria o seu sonho de juventude de alcançar a fama literária. De facto, de muitas maneiras, o seu trabalho proporcionara-lhe numerosas oportunidades para praticar a sua arte e refinar o seu estilo. A clareza e a precisão dos despachos que escrevia durante as suas missões revelavam a sua originalidade, bem como a sua independência de espírito, enquanto as suas cartas mais informais lhe davam margem para a sua vivacidade de espírito e de imaginação (para já não falar de algum exagero). A consciência trocista que tem de si próprio, juntamente com a análise psicológica que faz das figuras que vai conhecendo, a sua visão dos acontecimentos históricos que se desenrolam à sua volta podem não ter sido literatura enquanto tal, mas podiam transformar-se nela, e parece que Maquiavel alimentava essa ideia havia já algum tempo. Tudo isto é inevitavelmente especulativo - mas acontecimentos como a cena do seu primeiro encontro arrepiante  à luz da vela com Bórgia, no palácio de Urbino, terão de certo despertado a sua imaginação poética. (324)

Bórgia morreu, neste obscuro campo de batalha, a 12 de março de 1507, com apenas 31 anos. Quando a notícia da sua morte chegou a Itália, todos os governantes - desde Nápoles a Milão - suspiraram de alívio. Só em Ferrara é que a sua morte foi chorada. Quando Lucrécia teve conhecimento da morte do irmão adorado, conta-se que terá gritado: «Quanto mais eu me viro para Deus, mais ele se afasta de mim.» Manteve a compostura até se retirar finalmente para o seu quarto, onde a ouviram gritar pelo nome de César, uma e outra vez, num agonia sem fim.
Alguns anos antes, o historiador contemporâneo Andrea Bernardi escreveu que, quando Bórgia cavalgava ao encontro dos seus inimigos, tinha gritado: «é melhor morrer em cima da cela do que na cama». Mas foi preciso a empatia de uma irmã para compreender  a verdade que havia por trás destas palavras. Conta-se que Lucrécia teria suspeitado de que, no seu desespero perante o fracasso final de todas as suas ambições, a temeridade de Bórgia terá sido uma forma de suicídio.
Bórgia estava morto, mas o seu nome perduraria como exemplo, de uma maneira que ele nunca podia ter previsto. O responsável por isso seria o seu amigo Maquiavel, que o vira em ação e compreendera como ele foi quase bem-sucedido na sua enorme ambição. Para Maquiavel apenas um homem assim podia salvar a Itália das guerras autodestruidoras, que ameaçavam despedaçá-la no meio do seu grande Renascimento cultural." (365-6)

Paul Strathern, O Artista, O filósofo e o Guerreiro - Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o mundo que eles criaram, Clube do Autor, (tr. AGL), 2012.

Aqui temos um livro que mistura muito bem o rigor da investigação histórica (587 notas, lista com caracterização de personagens, ilustrações e mapas), com o carácter ficcional da narrativa (não há propriamente ficção, o que há é uma imaginário tecido em torno dos prováveis encontros entre os três gigantes) que nos transporta para a Itália de 1500. Como leitura de verão, não poderia haver melhor.
Foi o primeiro livro que li com a leitura perturbada pela ausência legal de letras e outros erros acordados. A experiência não é agradável: "projeto de nada"; "suscetível ato"; "fações"; "exceção", "percetuais". E ainda o absurdo de os nomes dos meses estarem escritos com letra minúscula. Mas porquê?

sábado, 21 de julho de 2012

Emil Filla (1882-1953), A Reader of Dostoievsky, 1907


Por sugestão de Gustav Janouch, Conversations with Kafka, new directions, p.17, onde se pode ler:

"He sat behind his desk, his head leaning back, legs outstretched, his hands resting on the desk. Filla's picture, A Reader od Dostoievsky, has something of the attitude he assumed. From this point of view, there was a great resemblance between Filla's picture and Kafka's bodily appereance Yet it was purely external. Behind the outward likeness lay a great inner difference."

sábado, 9 de junho de 2012



"The only time [fame] really matters is in the emergency room with your kids."

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O sentido interno profundo

"Mas eis senão quando, um belo dia, na proximidade da morte, acabaremos por perceber que o tempo, que é irreversível relativamente, o tempo do quotidiano, deixou de o ser - pufa! amanhã tenho de fazer o mesmo que hoje, ver as mesmas caras, e pelos tempos adiante sempre assim será - sentimos então que ele se tornou irreversível absolutamente. O tempo é uma forma da intuição do sentido interno profundo. Porém, agora mesmo esta interioridade assoma à superfície do Eu. Temos ainda uma hora e meia, uma pequena eternidade, um nada. Corpo e espírito dialogam em consonância um com o outro, o seu murmúrio é audível no espaço. O corpo sabe que dentro de noventa minutos, o tempo que costuma durar um filme, terá deixado de existir. Vai esmagar-se no asfalto, vai esvair-se em sangue, o sistema respiratório ficará paralisado ou então cairá num sono inquieto que o transformará para sempre."

(Jean Améry, Atentar contra si - discurso sobre a morte voluntária, p,95)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Os médicos não se preocupam com ensinar a morte também porque, raramente, o medo da morte é expresso pelos doentes. Na minha experiência é raro que o receio da morte seja referido pelo doente, mesmo em situação de morte iminente ou previsível, mas este temor esconde-se muitas vezes sob o véu do pânico de não acordar de uma anestesia. Por outro lado, muito do ensino que fazemos baseia-se em relatos de experiências clínicas e a morte não é redutível a uma experiência."

João Lobo Antunes, Inquietação Interminável, p.124

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Oblomovitis

"
'What, then, is life in your opinion?',
'It is --' Stolz pondered or a while, trying to find a name for this sort of life - 'it is a sort of Oblomovitis!' he said at last.
'Oblomovitis! Oblomov repeated slowly, surprised at this strange definition and scanning it syllable by syllable. 'Oblomovitis - ob-lo-mo-vi-tis!'
He gave Stolz a strange and intent look.
'And what is this ideal of life, in our opinion, then? What is not Oblomovitis? he asked timidly and without enthusiasm. 'Doesn't everybody strive to achive the very thing I dream of? Why', he added, 'isn't the whole purpose of all your rushing about, all your passions, wars, trade, and politics to attain rest - reach this ideal of a lost paradise?'
'Your utopia, too, is a typical Oblomov utopia,' replied Stolz.
'But everyone seeks peace and rest!' Oblomov defend himself."

Ivan Goncharov, Oblomov, Penguin Books, p.180.

Por sugestão da entrevista a Henrique Vila-Matas publicada no último número da revista LER.

sábado, 5 de maio de 2012

a verdadeira vida

A vida auto-analítica - comentava - conduz à existência artificial, onde cada sentimento visa um objectivo determinado e faz esquecer o resto; enquanto a verdadeira vida é a de quem se abandona espontaneamente, passivamente sem se controlar, sem fazer juízos, sem agir. Deste modo, condenava com violência todas as "construções" psicológicas que lhe tinham passado pela cabeça na primavera e no verão, ao ponto de o ensurdecer. Todos os debates sobre o matrimónio com que tinha feito sofrer Felice e a si mesmo, pareciam-lhe insensatos.
Abolido o alarido da razão, vivia no silêncio e na quietude mental.

(Pietro Citati, Kafka - Viagens às profundezas de uma alma, cotovia (tr. E.S.), 2001, p. 137)

Estados de espírito


"Mas tinha muitas dúvidas sobre a realidade. Gostaria de saber como era antes de se lhe mostrar, antes dos seus olhos frágeis e dissolventes a terem contemplado, e julgava que para os outros ela aparecia inteira, compacta, rotunda, pesada, completamente inteligível. Para eles, mesmo um simples cálice de licor estava firme sobre a mesa como um monumento. Quanto a Kafka, não estava inteiramente certo de que fosse sólida. O primeiro sinal da realidade era ser irreal. Tudo era tão frágil, incerto, desagregado, cheio de fendas."
(Pietro Citati, Kafka - Viagens às profundezas de uma alma, cotovia (tr. E.S.), 2001, p.21)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Acender a chama

“Education is not filling a bucket, but lighting a fire.”

W. Keats,
via Plutarco, aqui.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

a virtude e a política

"A virtude quase não floresceu nos assuntos públicos, que não de forma breve e precária. Os valores que admiramos - compaixão, misericórdia, justiça, bondade - têm estado largamente confinados ao domínio privado. A cultura humana tem sido, em larga medida, uma narrativa de cobiça, rapina, e exploração. O século tumultuoso do qual acabamos de emergir foi marcado, de uma ponta à outra, por milhões de mortes desnecessárias. Habituámo-nos a ver a vida política como algo violento, corrupto, opressivo ao ponto de já não nos surpreendermos com a curiosa persistência dessa condição. Não seria de esperar, simplesmente pela lei mítica da média, que tropeçássemos, nos anais da história humana, num maior número de surtos de doçura e luz?"
(Eagleton, Terry, On evil, Yale U.P., 2010, p.147. Tr LFB)