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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
«que maravilha»
"A estupidez tem qualquer coisa de fascinante. Sou uma pessoa que não conhece exactamente a sua natureza. Por vezes sou sensível como uma donzela. É um aborrecimento ouvir falar da paisagem e de outras coisas do género. As pessoas que têm uma certa cultura deveriam perceber que é néscio exclamar «que maravilha» diante de uma obra de arte. Tecer louvores revela falta de imaginação. O enlevo pode roçar por vezes a estupidez! Uma pessoa feliz pode tornar-se facilmente impopular. Não chega a ser falta de vergonha fazer assim alarde da sua boa disposição, permitir-se ter sempre os olhos a brilhar de felicidade? Sim, porque a todo o momento essa chama de felicidade pode extinguir-se. Deve-se ser comedido nas manifestações de contentamento. Prefiro ser prestável quando ninguém espera isso de mim, não gosto de o ser quando as pessoas crêem que o faço de bom grado."
Robert Walser, A Rosa, Relógio D'Água, 2004, pp.98-99.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
domingo, 5 de outubro de 2014
because we have lived through this day with him.
"Shukhov has no reason in the world to be happy. The conditions of his life constitute the most terrible form we can imagine of modern misery: a prisoner of the state in the wastes of Siberia with no rights of any kind; reduced to a number in a camp; freezing, half-starved and with little hope of seeing out his sentence. But as we see him at the end of his day, settling down to sleep and preparing for the next of his three thousand, six hundred and fifty-three days of forced labour, he is happy and he tells us so. For all the conditions that have been created - deliberately, officially - to break his spirit and keep him miserable, he is 'content,' as so many of us who enjoy the good life and ought to be are not.
Unlikely as it may seem, Shukhov is our perfect example of the happy man. And we understand his state, and believe him when he tells us he is happy, because we have lived through this day with him.
Fiction, with its preference for what is small and might elsewhere seem irrelevant; its facility for smuggling us into another skin and allowing us to live a new life there; its painstaking devotion to what without it might go unnoticed and unseen; its respect for contingency, and the unlikely and odd; its willingness to expose itself to moments of low, almost animal being and make them nobly illuminating, can deliver truths we might not otherwise stumble on.
Shukhov is not happy because he has solved the problem of 'how to live' - the life he lives is too provisional, to makeshift for that. Or because, as the classical schools would have put it, he has achived self-contaiment, self-sufficiency. Quite the opposite.
What he achives, briefly, intermittently, is moments of self-fulfilment, something different and more accessible, more democratic we might call it, than self-containment. But he achives it only at moments.
He is happy now - who can know what tomorrow or the day after will do to him? He his happy within limits - and this may be a clue to what makes happiness possible for him, or for any of us."
David Malouf, The Happy Life - The Search for Contentment in the Modern World, Chatto & Windus, 2011, pp.92-94)
(Para a Daniela!)
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
terça-feira, 26 de novembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
FELICIDADE
Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta.
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética II, Caminho, 1995 (2ª ed.) p.121.
:
felicidade,
Sophia
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
As raízes do descontentamento
"A principal razão pela qual é tão difícil alcançar a felicidade é o facto de o universo não ter sido
concebido a pensar no conforto dos seres humanos. É quase incomensuravelmente grande e, na generalidade, de um vazio hostil e frio. É cenário de grande violência quando, por exemplo, uma estrela explode deixando em cinzas tudo o que se encontra à sua volta. O único planeta cujo campo gravitacional não nos esmagaria está, provavelmente, envolto num mar de gases letais. Mesmo o planeta Terra, que pode ser tão idílico e pitoresco, não oferece garantias de segurança. Para nele sobreviverem, os homens e mulheres tiveram de lutar durante milhões de anos contra o gelo, o fogo, as inundações, as feras e os microorganismos invisíveis que surgem do nada para nos aniquilar.
Parece que cada vez que conseguimos evitar um perigo iminente, uma nova e mais sofisticada ameaça surge no horizonte. Assim que inventamos uma substância nova já os seus subpropdutos contaminam o ambiente. Através da história, armas concebidas para garantir segurança inverteram o seu desígnio ameaçando destruir quem as construiu. Dominamos certas doenças e logo surgem nova patologias mais virulentas; e se, temporariamente, reduzimos a mortalidade, começamos a preocupar-nos com a superpopulação. Os quatro soturnos cavaleiros do Apocalipse nunca andam longe. A Terra pode ser a nossa única morada mas é um lar cheio de armadilhas prontas a saltar a qualquer momento.
Não é que o universo seja aleatório num sentido matemático abstracto. Os movimentos das estrelas, as transformações de energia que nele ocorrem são facilmente previsíveis e explicáveis. Mas os fenómenos naturais não têm em conta os desejos humanos. São surdos e cegos relativamente às nossas necessidades e, por conseguinte, são aleatórios, em contraste com a ordem que tentamos estabelecer através dos nossos objectivos. Um meteorito em rota de colisão com Nova Iorque pode estar a cumprir as leis do universo mas não deixará por isso de ser um terrível inconveniente. O vírus que ataca as células de um Mozart não está a fazer mais do que o que lhe compete, apesar de infligir uma dura perda para a humanidade. «O universo não é hostil nem, tão pouco, amistoso», disse J. H. Holmes. «É simplesmente indiferente»"
Mihaly Csikszentmihalyi, Fluir, (tr. M. A.), Relógio D´Água, 1999, pp.26-27
terça-feira, 24 de setembro de 2013
"um bruto afetivo"
"Apesar de tudo, dá a ideia de que consegue conciliar, preservar esse tempo lento, no meio de tantas coisas que vai fazendo.
Sim, consigo. São aquelas coisas que as pessoas nunca referem nas entrevistas: uma pessoa de bem consigo mesma, de mal com o mundo, sim, mas de bem consigo. Tenho a paz de espírito suficiente e a felicidade - é essa a palavra - suficiente para poder mobilizar os meus recursos para coisas muito diferentes da obsessão moderna pela autognose e pelos problemas da estima, pelos problemas subjectivos individuais que me são em grande parte alheios.
Digo às vezes na brincadeira que sou um bruto afetivo. Não tenho estado de alma. Isso significa que não perco tempo com aquela obsessão da interioridade psicológica, quase psicanalítica, que faz muito o mundo contemporâneo. É uma das pragas que caíram sobre o mundo desde o romantismo, em que as pessoas acham que só se movimentam por aquilo de que gostam ou desgostam, pelo amor, pelos afetos, pelos ódios, e isso tudo a um nível muito superficial e imediato. Naturalmente andam sempre meio deprimidas.
(...)
Conquistou o tempo para construir o seu trabalho?
Sim, com muitas defesas. Isso obriga-me a ser muito antissocial, num certo sentido. Não sinto a obrigação de responder aos e-mails, ao telemóvel. Não acho que se deva ceder a uma das maiores praga do mundo contemporâneo que é obrigar as pessoas, por vias tecnológicas, a estarem sempre presentes. Se eu quiser escrever ou ler, tenho que escapar dessa presença. Muitas vezes paga o justo pelo pecador.
(...)
Se eu não ler ou escrever ou trabalhar um certo número de horas por dia começo a ficar danado com o mundo e comigo mesmo. Faz parte da minha maneira natural de fazer as coisas. Ando sempre com livros atrás e nunca me aborreço, never a dull moment, como dizem os ingleses, tenho sempre coisas que quero ver, que quero ler. Enquanto não acabarem os livros, os jornais, o mundo exterior, a curiosidade com as coisas, a enorme quantidade de coisas que a gente não sabe e que pode aprender, eu não tenho um momento aborrecido.
(...)
Há uma certa hostilidade em relação ao saber, mesmo a este tipo de saber que é um saber de amador, no verdadeiro sentido do termo. Há mais defesa da ignorância, particularmente da parte daqueles que acham que sabem.
A ignorância é muito atrevida?
É das coisas mais insuportáveis que há e que mais me irritam, essa ignorância presumida que infelizmente se encontra por todo o lado, nos blogues, no espaço público, nos debates, no jornalismo, mesmo na academia. Muitas vezes são asneiras monumentais, ditas com muita prosápia. A prosápia tem uma proporção inversa com a sabedoria. "
Excerto da entrevista de Ana Sousa Dias a José Pacheco Pereira, Revista Ler, nº126, Julho/Agosto de 2013, pp.25-27
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
um véu perfumado
"A tua embriaguez é tão doce que me estonteia.Respiras suavemente. Estás vivo. Gostaria de passar para o teu lado do mundo, de ver nos teus sonhos. Será que sonhas com um amor branco, frágil, distante, tão longe? Com uma infância, com um palácio perdido? Sei que lá não tenho lugar. Que nenhum de nós lá terá lugar. Estás fechado como uma concha. E, no entanto, fácil te seria abrires-te, uma minúscula fenda por onde a vida se precipitaria. Adivinho o teu destino. Permanecerás na luz, serás celebrado, serás rico. O teu nome imenso como uma fortaleza irá esconder-nos da tua sombra. Irá esquecer-se o que aqui viste. Esses instantes irão desaparecer. Até tu esquecerás a minha voz, o corpo que desejaste, os teus tremores, as tuas hesitações. Como eu gostaria de que algo conservasses disso. Que levasses contigo uma parte de mim. Que se transmitisse o meu país distante. Não uma vaga recordação, uma imagem, mas a energia de uma estrela, a sua vibração no escuro. Uma verdade. Sei que os homens são crianças que expulsam o seu desespero com a cólera, e o seu medo para o amor; ao vazio respondem construindo castelos e templos. Agarram-se a historietas, levam-nas à sua frente como estandartes; cada um faz sua história para se ligar à multidão que partilha. São conquistados quando se lhes fala de batalhas, de reis, de elefantes e de seres maravilhosos; quando se lhes narra a felicidade que haverá para além da morte, a luz viva que presidiu ao seu nascimento, os anjos que giram à sua volta, os demónios que os ameaçam, e o amor, o amor, essa promessa de olvido e saciedade. Fala-lhes de tudo isso e hão de amar-te; far-te-ão igual a um deus. Mas, pois que estás aqui encostado a mim, tu saberás, tu, um franco malcheiroso que o acaso trouxe para te pôr ao alcance das minhas mãos, saberás que tudo isso não passa de um véu perfumado que esconde a eterna dor da noite."
Mathias Énard, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, (tradução de Pedro Tamen), D. Quixote, 2013, pp 64-65.
domingo, 11 de agosto de 2013
para assegurarem uma última felicidade
Franz Kafka, O Castelo, Relógio d´Água Editores, (tr. I.C.S.), 2006, p.48."«Acho que te compreendo», disse ela e abraçou-o e queria dizer ainda outra coisa mas já não conseguia falar, e porque a poltrona ficava mesmo ao lado, arrastaram-se vacilantes por cima dela e deixaram-se cair na cama. Ali ficaram deitados, mas já não com a entrega daquela noite. Ela procurava qualquer coisa e ele procurava qualquer coisa, furiosamente, rasgando o rosto com caretas, furando com a cabeça o peito do outro, e os abraços e os corpos que arremetiam entre si não os faziam esquecer, antes os lembravam daquela obrigação de procurar, como os cães esgaravatam desesperadamente na terra, também eles esgaravatavam no corpo um do outro e, desiludidos, desamparados, para assegurarem uma última felicidade, por vezes percorriam com a língua o rosto do outro. Só o cansaço os deixou parar e sentirem-se gratos um ao outro. As criadas entraram então, «vejam só estes dois aqui deitados», disse uma delas e por pena tapou-os com um lençol."
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felicidade,
Kafka
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
em território estranho
"«Meu querido! Meu querido!» murmurava ela, mas não tocava em K., como se desfalecesse de amor deitou-se de costas e estendeu os braços, o tempo não tinha fim agora que encontrara o seu amor feliz, começou não tanto a cantar mas a suspirar uma pequena canção. Depois assustou-se porque K. permanecia em silêncio, perdido nos seus pensamentos, e como uma criança começou a puxá-lo para perto de si: «Vem, aqui em baixo sufocamos», avançaram abraçados alguns passos - aquele corpo miúdo ardia nas mãos de K. - numa espécie de torpor dos sentidos, de que K. tentava constantemente livrar-se mas em vão, bateram surdamente contra a porta de Klamm e deitaram-se depois por entre as pequenas poças de cerveja e todo o lixo que cobria o chão. Passaram aí horas, horas de uma respiração a dois, de um bater de coração a dois, horas em que K. nem por um momento deixou de sentir que se perdia em território estranho ou que aí avançava mais do que qualquer outro homem antes de si, um território tão estranho que o próprio ar não tinha em comum sequer uma partícula com o ar da sua cidade, quem nele errasse morreria asfixiado por esta estranheza, e no entanto não poderia senão avançar, chamado por seduções absurdas, e perder-se cada vez mais. E assim, pelo menos de início, não foi com um susto, mas aliviado como se despertasse, que ouviu uma voz que chegava da sala de Klamm, grave, indiferente e autoritária, e chamava por Frieda."
Franz Kafka, O Castelo, relógio d´Água Editores, (tr. I.C.S.), 2006, p.44
:
felicidade,
Kafka
domingo, 28 de julho de 2013
“enjoying oneself!”
"But she was not happy in London. The people seemed so spectral and blank. They had no alive happiness, no matter how brisk and good-looking they were. It was all barren. And Connie had a woman’s blind craving for happiness, to be assured of happiness. In Paris at any rate she felt a bit of sensuality still. But what a weary, tired worn-out sensuality. Worn-out for lack of tenderness. Oh! Paris was sad. One of the saddest towns: weary of its now-mechanical sensuality, weary of the tension of money, money, money, weary even of resentment and conceit, just weary to death, and still not sufficiently Americanized or Londonized to hide the weariness under a mechanical jig-jig-jig! Ah, these manly he-men, these flaneurs, these oglers, these eaters of good dinners! How weary they were! Weary, worn-out for lack of a little tenderness given and taken. The efficient, sometimes charming women knew a thing or two about the sensual realities: they had that pull over their jigging English sisters. But they knew even less of tenderness. Dry, with the endless dry tension of will, they too were wearing out. The human world was just getting worn out. Perhaps it would turn fiercely destructive. A sort of anarchy! Clifford and his conservative anarchy! Perhaps it wouldn’t be conservative much longer. Perhaps it would develop into a very radical anarchy.Loc. 5219-28As for people! people were all alike, with very little differences. They all wanted to get money out of you: or, if they were travellers, they wanted to get enjoyment, perforce, like squeezing blood out of a stone. Poor mountains! poor landscape! it all had to be squeezed and squeezed and squeezed again, to provide a thrill, to provide enjoyment. What did people mean, with their simply determined enjoying of themselves?Loc. 5239-42“enjoying oneself!” Another modern form of sickness."Loc. 5248
though sun-cooked is more appropriate to the look of the mass of human flesh. It was pleasant in a way. It was almost enjoyment. But anyhow, with all the cocktails, all the lying in warmish water and sun-bathing on hot sand in hot sun, jazzing with your stomach up against some fellow in the warm nights, cooling off with ices, it was a complete narcotic. And that was what they all wanted, a drug: the slow water, a drug; the sun, a drug; jazz, a drug; cigarettes, cocktails, ices, vermouth. To be drugged! Enjoyment! Enjoyment!
Loc. 5306-10
D. H. Lawrence, Lady Chatterley's Lover.
sábado, 27 de julho de 2013
da nossa condição humana
"Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso esperança, no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais que, assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós, e tornam fragmentária e, por isso mesmo, suportável, a consciência dela."
Primo Levi, Se Isto É Um Homem,
Público, 2002, p.14. Cit. em D. McMahon, The Pursuit of Hapiness, Penguin Books, 2007, pp. 457.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
estado original
"Foi assim que a natureza, que faz tudo pelo melhor, constituiu no início [o homem]. Forneceu-lhe, imediatamente, apenas os desejos necessários para a sua preservação e as faculdades suficientes para satisfazê-los. Coloca, por assim dizer, todos os outros de reserva nas profundezas da sua alma, para aí serem desenvolvidos quando necessário. Apenas neste estado original estão em equilíbrio o poder e o desejo e o homem não está infeliz. A partir do momento em que as potenciais faculdades entram em acção, a imaginação, a mais activa de todas, acorda e ultrapassa-as."
Rousseau, Emílio, in, Darrin McMahon, The Pursuit of Hapiness, Penguin Books, 2007, pp. 240 (tr. LFB)
A vida é felicidade
"Afirmar que a vida é apenas uma combinação de infortúnios significa que a vida, ela mesma, é um infortúnio. Se é um infortúnio, então a morte é felicidade. Tais pessoas não escrevem de boa saúde, com as suas carteiras recheadas de dinheiro e contentamento nas suas almas por terem tido, nos seus braços, Cecílias e Marinas e com a certeza de que outras virão. Tais homens são uma raça de pessimistas (...) que só pode ter existido no meio de filósofos esfarrapados e de teólogos enganadores e mal humorados. Se o prazer existe e só o podemos gozar nesta vida, então a vida é felicidade. Há infortúnios, claro, como eu serei o primeiro a reconhecer. Mas a própria existência destes infortúnios mostra que a soma total da felicidade é maior."
Casanova, História da Minha vida, in, Darrin McMahon, The Pursuit of Hapiness, Penguin Books, 2007, pp. 231-232 (tr. LFB)
domingo, 12 de maio de 2013
a quimera da felicidade
"Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Loc. 195-99.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
"to resolve our fate"
"Agamemnon (...) deve, a mando dos deuses, sacrificar sua própria filha ou, abandonando
a campanha Grega contra Troia, renunciar à sua honra. A tragédia do seu dilema é que ele não pode ter ambas as coisas. Os protagonistas da tragédia grega, divididos entre o dever e o amor, entre a justiça e o auto-sacrifício, a família e a cidade, e muitos outros fins irreconciliáveis, são aprisionados pelas circunstâncias e por si próprios. Habitando um mundo onde o conflito é inevitável e a luta predestinada, eles não podem fazer-se a si próprios felizes; como sombriamente proclama o Mensageiro na Medeia de Eurípedes, neste universo trágico não há, entre os mortais, "nenhum homem feliz". O Coro no Filoctetes de Sófocles é ainda mais desolador, lamentando a "raça infeliz":
Do homem mortal condenado a um círculo sem fimNeste peça, como em tantas outras do género, a única salvação para o herói titular é através da intervenção improvável de um deus. Assim como o céu se abriu para banhar a pira de Creso, Hércules chega, no momento final da peça de Sófocles, para desenredar Filoctetes de sua situação. Hércules é um deus ex machina (theos ek mēchanēs) - à letra um "deus a partir da máquina" - uma referencia à convenção da tragoidia grega de baixar um actor para o palco através de um guindaste, ou de alguma outra geringonça, como forma de finalizar o drama. Pode-se argumentar, como Aristóteles veio a fazer na Poética, que esta é uma maneira desajeitada de terminar uma peça. Mas o deus ex machina serve perfeitamente para dramatizar um ponto muito mais importante: No tradição trágica, a felicidade é quase sempre um milagre, exigindo a intervenção directa do divino.
De tristeza, e incomensurável aflição!
(pp.8-9)
VLADIMIR: Diz que estás, mesmo que não seja verdade.ESTRAGON: O que devo eu dizer?VLADIMIR: Diz, estou feliz.ESTRAGON: Estou feliz.
VLADIMIR: Também eu.ESTRAGON: Também eu.VLADIMIR: Estamos felizes.ESTRAGON: Estamos felizes. (Silêncio.) O que fazemos agora, agora que estamos felizes?VLADIMIR: Esperaramos por Godot.
À Espera de Godot de Beckett é, inquestionavelmente, trágica e, de facto, a sua "tragédia" é muito mais pronunciada do que a dos seus predecessores clássicos. Ao contrário da tragoidia dos tempos antigos, a variante moderna acaba completamente com a convenção que garantia sempre, até ao fim, um raio de esperança. Aqui, não pode haver um deus ex machina esperando nas asas para produzir uma salvação final, milagrosa, nenhum deus na máquina pronto para saltar e desestimular ["spirit away"] os heróis, para salvar Creso das chamas, para resolver o nosso destino. Vladimir e Estragon anseiam pelo misterioso Godot, eles acreditam que a chegada desse homem é a garantia de que "nós vamos ser salvos." Mas Godot, claro, nunca aparece. O Deus na máquina tornou-se o fantasma na máquina que assombra pela sua ausência, deixando apenas um fio, um traço, a sensação esbatida da presença espiritual, uma esperança fugaz de felicidade cujo reino é decididamente desta terra.
(pp.454-455)
Darrin McMahon, The Pursuit of Hapiness, Penguin Books, 2007.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Vincent Van Gogh, Still life with bible (1885)
(Para o Miguel)
Por sugestão de Darrin McMahon, The Pursuit of Hapiness, onde se pode ler: " o antes pregador leigo Van Gogh justapõe aqui a escritura antiga e a moderna: a Bíblia e o romance de Émile Zola, La Joie de Vivre a alegria ou a felicidade de viver." p. 428.
Outras vistas em The Faith of Vincent Van Gogh
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