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sábado, 21 de abril de 2012

Ainda sobre Campanhã

"Trabalho desde 1997 na freguesia mais pobre do concelho do Porto. Às terças e quartas vou ao encontro dos moradores do Bairro do Lagarteiro, em Campanhã. Esta ligação e proximidade, o envolvimento na resolução dos seus principais problemas, o compromisso de os politizar e o afecto que sinto por esta gente sofrida devolvem-me alguma legitimidade para falar e escrever sobre a pobreza severa que agora invade estes agregados familiares. 

O caminho do empobrecimento, da austeridade, dos cortes cegos nos apoios sociais e do desmantelamento do Estado social desta governação neoliberal de Passos Coelho tem-se reflectido muito no agravamento das condições de subsistência destas famílias. Antes de o FMI ter chegado a Portugal, o Governo de José Sócrates já tinha aberto com delicadeza a porta às decisões políticas subordinadas ao capitalismo. Agora para fazerem uma refeição de carne, alguns dos meus utentes vão de forma envergonhada ao fim do dia bater à porta do proprietário do talho pedir aparos, carne que, vulgarmente, no Porto, se dá aos cães. 
Muitas famílias já não conseguem visitar com a mesma regularidade os familiares detidos. Começa a ser frequente pedir à professora para colocar mais comida no prato dos meninos, porque à noite estas crianças não vão ter oportunidade de fazer em casa uma refeição digna. Muitos adolescentes deixaram de viajar com  passe dos STCP. As famílias criaram débitos gigantescos à EDP, à Águas do Porto, à câmara municipal, à farmácia, à mercearia. Os doentes pobres não conseguem adquirir os medicamentos prescritos nas receitas médicas. Muitos casais jovens, já com filhos, começam a regressar a casa dos pais, por verem a casa que compraram ser hipotecada pelo banco. (...)"

(José  António Pinto, Assistente Social, daqui) 

O Porto paralelo

"É em momentos como o de ontem vivido no Alto da Fontinha que Rui Rio revela o seu rosto de autarca e a sua aversão a tudo o que lhe cheire a diferença, particularmente a todas as formas de cultura e cidadania que escapem à Kultura, ao papel 'couché' e à rotina institucional. 
(...)
Uma ilha de iniciativa, de partilha, de democracia participativa? Era de mais para Rui Rio. Ateliés de leitura, de música, de teatro, de fotografia?, formação contínua?, apoio educativo?, aulas de línguas?, xadrez?, yoga?, debates?, assembleias? - Intolerável! "
(Manuel António Pina, daqui) 

***

O Porto é a cidade portuguesa com mais prédios devolutos (em termos absolutos). Passar por exemplo por Campanhã (onde se encontra uma importante estação ferroviária) é profundamente deprimente, já que a massa de prédios degradados faz adivinhar a miséria que se esconde por detrás de cada uma daquelas fachadas [a este propósito, vale a pena clicar aqui].  
Mas isto não acontece só em Campanhã. Basta um ligeiro desvio aos circuitos turísticos para entrar neste Porto paralelo, lúgubre, abandonado pelos poderes públicos. Nunca estive no Alto da Fontinha, mas diz-me uma amiga que fica no cimo da Rua de Santa Catarina, principal rua comercial da baixa da cidade. "Parece outra cidade, outro mundo." A existência de um grupo de pessoas que por iniciativa própria e para benefício dos moradores resolve pôr mãos à obra para requalificar e dar uso a um dos inúmeros prédios deixados por todos - inclusive pela Câmara do Porto - ao abandono, parece-me um milagre. 
É claro que há a questão da propriedade, mas será esse o único elemento a considerar/valorizar nesta situação? Será que se compreende que, numa altura em que as relações de poder e condições de vida das pessoas vêm sendo  profundamente alteradas, ao ritmo dos noticiários, seja a existência deste projecto comunitário instalado num  prédio devoluto de uma zona pobre a suscitar este tipo de acção por parte da Câmara e da polícia de choque? 

Apenas uma nota sobre o gosto -- ou será obsessão? -- de Rui Rio pela 'ordem pública'; foi eleito tendo prometido "limpar as ruas do Porto", i.e., limpar os sítios públicos de prostitutas e arrumadores de carros (frequentemente sem-abrigos consumidores de heroína). Os seus métodos 'dissuasores' acabaram por vir a público: acordou com a polícia prender -- ilegalmente-- arrumadores durante a noite deixando-os a ressacar; no âmbito do projecto "Porto Feliz", eram levados em carrinhas para longe da cidade e abandonados por lá. Foi uma psicóloga, à época a trabalhar no projecto que, em profundo desacordo com estas práticas, falou a um cronista do jornal Público, que por sua vez escreveu sobre o assunto. Felizmente o Porto Feliz terminou. É que a legitimidade de uma acção política não advém apenas da vitória numas eleições. 

Relativamente à Es.Col.A, pouco poderei dizer porque não o conheço por dentro o projecto. No entanto, há coisas que devem ser ditas. Para além de me parecer uma iniciativa cívica louvável, uma vista de olhos pelos horários e actividades propostas, a reacção e o discurso dos habitantes da Fontinha face ao despejo parecem indicar que os princípios fundamentais e legitimadores de qualquer intervenção comunitária têm sido respeitados: o envolvimento da comunidade no que se chama em psicologia "avaliação das necessidades", "definição de objectivos" e de "avaliação dos resultados". Uma das necessidades atendidas  referida várias vezes pelas pessoas à comunicação social é a do apoio educativo a crianças sem possibilidade de pagar por ele.
A ideia de que apenas académicos/especialistas estão autorizados a definir os objectivos e os métodos de qualquer intervenção, para além de servir propósitos de protecção profissional (somos nós psicólogos e assistentes sociais que do alto do nosso saber científico decidimos o que é melhor para vocês e portanto o poder de planear e agir é nosso), é, segundo mostra a evidência na área, errada. Quanto mais espontâneas forem as iniciativas (de baixo para cima), maior a probabilidade de se reunirem os ingredientes necessários a mudanças positivas, i.e., o estabelecimento de relações de confiança  e a percepção de que se tem poder, de que a sua voz é ouvida (o chamado "locus de controlo interno" por oposição ao externo, onde as pessoas crêem que tudo lhes é alheio, pelo que não há nada que possam fazer para mudar). É mais ou menos a isto que se refere um modelo relativamente recente e muito popular chamado "Empowerment". 
Assim, a ideia da câmara aqui exposta de substituir este projecto por outro de sua iniciativa e autoria parece-me no mínimo contraproducente.
Qual a probabilidade de ser entendida pelas pessoas como um abuso de poder que não tem minimamente em conta as suas vontades e interesses? 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dulce Maria Cardoso

"(...) Só damos valor ao que não temos?
Ou isso ou uma coisa mais grave que é procurar fontes de infelicidade. Talvez tenhamos alguma vocação para isso. Se estivermos muito bem com o presente, não há mais nada a acrescentar. Na verdade, o bem-estar - e depois podemos falar da felicidade e de outros conceitos - é quase o antipensamento, e também quase a antivida. Tinha uma ideia mitificada da metrópole porque havia de tudo e era tudo melhor na metrópole. Coisas absurdas. Nós tínhamos as férias da escola de acordo com as da metrópole. Portanto, lá no tempo da cacimbo - com o tempo mais fresco - estávamos em casa, e no tempo quente estávamos nas aulas. Era tudo muito absurdo. Havia pessoas com alcatifa em casa, com lareira. Continuavam a fazer feijoadas, as pessoas ficavam todas encarnadas. Imitávamos a metrópole mas também tínhamos a sensação de que éramos portugueses de segunda.
(...)
Os retornados eram pessoas com mais espírito de iniciativa?
Não era tanto a iniciativa, pelos casos que depois fui conhecendo. Era mais o desespero, a fome. A fome desinquieta e desassossega muito.
A fome é uma força motriz?
Exatamente. Mais do que qualquer outra ideia. Depois temos a mania de romantizar. «Ah, a aventura.» Não é nada disso. São mesmo filhos para alimentar. Quando viemos para cá, é claro que a vida correu bem às pessoas que lá pertenciam aos serviços do Estado. Mas essa realidade não a conheço bem porque foram as pessoas que não ficaram nos hotéis. Para os retornados que conheço, de que posso falar e que foram os mais injustiçados, não foi assim. Os bem-sucedidos seriam bem-sucedidos em qualquer parte do mundo porque eram pessoas muito fortes e capazes. A maior parte não foi muito bem-sucedida, só que dos fracos não reza a história.
(...)
Vê-se mais como testemunha ou como interveniente, enquanto escritora?
Testemunha. Não gosto muito de ser protagonista.
Quando usei a expressão «interveniente» era no sentido de ser alguém que com essa proposta de reflexão pretende mexer de alguma forma no que a rodeia.
Não no sentido de o mudar. Quer dizer, vai-se mudando sempre. Cada ato nosso muda qualquer coisa. Acho, basicamente, que a história da civilização é a história da luta entre o bem e o mal. É a coisa maior que nos distingue. E depois temos este problema grave: o bem é antipensamento. Ou seja, não é dramático, não se consegue fazer o raio de uma ficção só com o bem porque é altamente monótono. Portanto, o mal aparece-nos com a sedução toda e aquilo é fantástico. Toda a nossa organização social são milénios a tentar proteger-nos do mal. O «não matarás», «não roubarás» e essas coisas todas são apenas uma maneira de vivermos em conjunto protegidos do mal que sabemos que há em nós. É aquela velha frase de S. Paulo: «Perdoa-me por não fazer o bem que quero mas o mal que não quero.» Por isso, é interessante pensar que se retirássemos o mal do mundo não tínhamos nada. Não tínhamos arte, romances, não tínhamos civilização sequer, como a concebemos.
Isso justifica um elogio do mal, quanto mais não seja pela necessidade cultural que temos dele.
Sim, não podemos prescindir dele. Eu, uma otimista, acho que haverá um dia em que poderemos prescindir dele, das suas formas mais puras pelo menos.
(...)
Há aqui uma homenagem e há também isto: o império, que teve cinco séculos, ruiu. Foi assustador ver o bicho em movimento. Aquela velha máxima que diz que nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, e que gostamos tanto de aplicar à matéria, nas coisas afetivas e sociais não funciona. Perdem-se coisas e ganham-se coisas.
(...)
Correu mal porque era já tarde demais, e depois porque não houve vontade política para que corresse melhor.
Não houve vontade política por parte dos protagonistas políticos da altura?
Exatamente. E quando digo isto nem falo dos colonos brancos. Estou a falar dos que ficaram. Deixámos um país já em guerra entre os movimentos de libertação. Nós, Estado português, favorecemos uma parte. Demos a independência a um. Que ainda lá está. Aquilo foi tão bem dado que nunca mais saiu de lá. Ao menos deixámos uma coisa duradoura. Agora, consigo perceber o racismo que havia lá e muitos negam. Mas só me interessa pensar nestas coisas fazendo uma ponte com o presente. É relativamente fácil prendermo-nos àquilo que já não podemos mudar e criticar, culpar, quando neste momento estão a acontecer coisas muito semelhantes, embora não da mesma magnitude. Embora se possa dizer que a morte de um homem é tão trágica como a morte de cem milhões. Pode dizer-se que isto é uma versão lírica. Estamos viciados numa questão de escala. Neste momento Portugal passa por uma situação muito semelhante.
Está a falar de impor sacrifícios a um grupo social em nome de uma mudança histórica qualquer?
Sim. Em nome de um objectivo. Não pode ser. Cada um de nós vale a mesma coisa. Nós não somos peças de uma engrenagem em que uns vão para carne picada para salvar os outros. Não se pode dizer que há democracia enquanto existir sequer esse conceito ou essa possibilidade. Vamos ter um cartão de pobre, não é?
É o tipo de assistencialismo que lhe faz recordar o assistencialismo do IARN?
Sim. Era terrível. Havia retornados que preferiam ter fome a apresentarem-se com o cartão.
Isso é muito sensível, no seu romance, sobretudo na questão das roupas.
Sim. Havia aquela coisa de que os pobres não têm de ter gosto, não têm de parecer bem, precisam é de estar tapados. A pessoa em situação de pobreza fica sem necessidade alguma: de poder escolher o que come, de poder vestir-se. Continuamos a fazer o mesmo.
(...)
Voltou a Angola?
Não. E não penso voltar.
É uma recusa?
É, por várias razões. Já pareço aqueles políticos que têm sempre várias razões. Por um lado, acho perigoso mexer numa série de memórias.
Perigoso para a sua saúde pessoal?
Sim. Não sei como reagiria. Em termos pessoais não me interessam picos de emoção. Canalizo tudo para o que escrevo e depois gosto de uma coisa mais apaziguada. Mas é também porque o regime de Angola não é um regime aconselhável. Custa-me - para dizer o mínimo - perceber que Angola se tornou uma oportunidade de dinheiro e que toda a gente esteja contente porque vem para cá dinheiro angolano. Aquele dinheiro é criminoso. Temos de ter consciência disso. Não é uma sorte eles estarem a investir em Portugal, é uma vergonha. Isto tem de ser dito. Só pobres sem qualquer dignidade - como nos tornámos - podem achar isto bem. O Presidente de Angola está sempre nas listas dos homens mais corruptos do mundo. E nós fazemos negócios com ele e dizemos que é uma sorte? Mas em que raio de povo nos tornámos? Nós não somos isto. Os portugueses não são isto, o que é outra coisa.
(...)"

Entrevista de Carlos Vaz Marques a Dulce Maria Cardoso, revista Ler, número 106, Outubro 2011, pp. 29-32.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Prioridades

I.

II.
"Cerca de 43 milhões de pessoas estão em risco de carência alimentar na Europa e não têm meios para pagar uma refeição completa e 79 milhões vivem abaixo do limiar de pobreza, indicam dados do Programa Europeu de Apoio Alimentar. As instituições em Portugal temem os efeitos dos cortes que o programa vai sofrer. (...) Os alimentos distribuídos pela Segurança Social às instituições vêm deste programa europeu que, em 2012, terá um orçamento para Portugal de 4,5 milhões de euros, menos 15,5 milhões que em 2011." (daqui)

III.
"(...) atribuição do prémio de 100 mil euros por jogador se Portugal ganhar 'a essa potência do futebol que é a Bósnia Herzegovina (...)'." (daqui)


De acordo com os melhores especialistas, o Sol não deixará de nascer amanhã.
(DO)