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domingo, 8 de fevereiro de 2015

A singularidade extraordinária de Buchenwald

"Porém, quando se fala da Europa, para mim é absolutamente necessário regressar aos
campos. Embora tenha decidido, por uma questão de higiene pessoal, nunca mais aludir deliberadamente a esse passado, sou obrigado a fazê-lo indirectamente aqui. Buchenwald é um campo onde o símbolo, a incarnação do projecto europeu nos seus primórdios, é evidente e se inscreve na própria realidade geográfica dfo campo. A chaminé so crematório domina o campo tal como se apresenta heje, e foi ela que se tornou lugar de memória. Mas, no fim da colina que desce para a planície da Turíngia, há uma floresta muito recente, que os velhos deportados sabem muito bem que não existia na época. Foi plantada pelas autoridades da República Democrática Alemã. Porquê? Para esconder as valas comuns do campo estalinista.
Porque a singularidade extraordinária de Buchenwald reside no facto de, dois meses depois da partida dos últimos deportados, resistentes jugoslavos, portanto em Setembro de 1945, o campo ter reaberto para se transformar num campo da polícia soviética, na zona da ocupação russa na Alemanha. Transformou-se no Speziallager Nr. 2, o «campo especial nº2». O campo só esteve vazio de prisioneiros durante um breve intervalo de poucas semanas. É evidente que esse símbolo possui uma força extraordinária. É por esse motivo que a Alemanha tem um papel essencial a desempenhar, além da «expiação» dos crimes nazis: porque é o único país da Europa onde se sucederam directamente os dois totalitarismos, pelo menos numa parte dessa Alemanha reunificada. É por esse motivo que a motivação europeia é particularmente sensível na Alemanha em geral, e em Buchenwald em particular."

Jorge Semprún, A Linguagem é a Minha Pátria - Entrevistas com Franck Appréderis, Bizâncio, (tr. )
    2013,  p. 113-114        

Vermeer, A Vista de Delf (1660-61) e Rubens, As três Graças (1639)


Por sugestão de Jorge Semprún, A Linguagem é a Minha Pátria - Entrevistas com Franck Appréderis, Bizâncio, (tr. ) 2013, p. 68, onde se pode ler:
"Com efeito, creio que poderia contar a minha vida, ou escrever as minhas memórias (cada período diferente, cada episódio, cada camada de mil-folhas), em torno de um certo número de museus. Poderia, por exemplo, contar o fim da infância e a minha adolescência em torno do museu de Haia, o Mauritshuis, porque o visitava muito nesse período, e dele conservo a recordação de A Vista de Delf de Vermeer. Poderia também contar toda a minha vida política clandestina em torno do museu de Praga, a Galeria Nacional, bem como de certos museus da URSS, como o Ermitage de São Petersburgo, Petrogrado ou Leninegrado, ou a Galeria Tretiakov de Moscovo.
Mas há sobretudo esse museu que me acompanha de uma ponta à outra da minha existência: o Prado. Em primeiro lugar, porque passei a minha infância a duzentos metros daqui, numa rua vizinha, e, todos os domingos, o meu pai levava alguns dos seus filhos - não todos, mas três ou quatro dos mais velhos - ao Prado. Tratava-se, porém, de uma visita selectiva: não tínhamos o direito, por exemplo, de ir ver os nus femininos. Portanto, foi muito mais tarde que vi a pintura de Rubens. Vínhamos para a pintura histórica, a pintura religiosa, a pintura de Goya - mas não para os nus a transbordarem de carne de Rubens, que eram censurados!"


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Jorge Semprun (1923-2011)

"Por vezes, a confiança que eu sentia por ter passado pela morte desaparecia, deixando, contudo, um efeito diabólico. Essa passagem tornava-se então a única realidade concebível, a única experiência verdadeira. Desde então tudo tinha sido apenas um sonho, quando muito uma aventura fútil, mesmo quando agradável. Apesar das minhas acções diárias e da sua eficácia, apesar da evidência dos meus sentidos, que me permitiam orientar-me num labirinto de perspectivas -  numa multiplicidade de pessoas e de coisas - a impressão precisa e esmagadora de viver apenas num sonho acabava sempre por surgir. De ser eu próprio um sonho. Antes de morrer em Buchenwald, antes de ser levado pelo fumo sobre o Ettersberg, tinha sonhado com essa vida futura, com essa incarnação enganadora. (16)

Apesar do fumo mefítico e do odor pestilento que se agarrava constantemente ao edifício, as latrinas do Pequeno Campo eram um lugar de convívio, uma espécie de refúgio onde se podiam encontrar compatriotas e amigos do bairro ou da clandestinidade; era um local para trocar notícias, uns poucos fragmentos de tabaco, memórias, risos e um pouco de esperança - em resumo, alguma vida. No pequeno Campo, as revoltantes latrinas eram um lugar de liberdade: os SS e os Kapos evitavam, naturalmente, o edifício e o seu fedor nauseabundo, tornando-o assim no único local de Buchenwald onde a pessoa se sentia o mais livre possível da tirania inerente ao funcionamento do mundo concentracionário." (p. 39)
(tr. do inglês, LFB)
[Uma entrevista a Semprun, realizada em 2005 por Carlos Vaz Marques (TSF), pode ser ouvida aqui)