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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Darumá


Por sugestão de Wenceslau de Moraes, O culto do chá,  BI/Relógio D'Água, p.11, onde se pode ler: 
"[Hokusai] pintando um famoso Darumá sobre uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza, empregando oitenta litros de tinta no desenho e servindo-se de cinco vassouras à laia de pincéis; estendida a tela sobre o campo, no telhado de um templo a turba admirava a obra e aplaudia o mestre."
A versão original de O Culto do Chá, de onde o Darumá foi retirado, pode ser lida aqui.

sábado, 31 de dezembro de 2011

"Sumo é o desporto nacional do Japão. Parte religião, parte ritual. A origem deste desporto está nas competições de força que se realizavam para entreter os deuses durante os festivais. O nível mais elevado - no Japão moderno o sumo profissional continua a acontecer sob um telhado suspenso de um templo Shinto - e o ringue são abençoados, antes de cada torneio, por um sacerdote. Os torneios estão envoltos em pompa e cerimónia. As árbitros assemelham- se a sacerdotes. Antes de cada luta, os rikishi [atletas] atiram sal para o ringue num ritual de purificação e o grande campião - o yokozuna  - enquanto realiza as elaboradas cerimónias de entrada usa roupas brancas, estilizadas a partir das usadas nos templos Shinto.
Os combates raramente duram mais de trinta segundos. É um show dos diabos. Explosivo e, no entanto, contido. No sumo não se dividem os atletas em categorias de peso, o que significa que um pequeno meia caneca (halfpint) de noventa quilos pode defrontar um gigante de duzentos e cinquenta quilos e os gigantes nem sempre ganham. O sumo requer um centro de gravidade baixo - daqui as dietas forçadas e as grandes e redondas barrigas - mas os rikishi pequenos, rápidos e mais espertos podem entrar, agarrar o cinto e perturbar homens muitos maiores que caiem como sequóias derrubadas."
(57-58)
(Will Ferguson, Hokkaido Highway Blues - Hitchhiking Japan, Cannongate, Abridged ed., 2003. Tr. LFB)





quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Do outro lado do estacionamento está uma roda gigante, empurrada pelo seu próprio momentum, gira com o mar e o céu como pano de fundo. O truque de qualquer roda gigante está em começar a andar e depois manter a rotação. O Momentum é a única força capaz de derrotar simultaneamente a inércia e a gravidade. No espaço, os satélites não órbitam o planeta. Eles estão em queda, continuamente em queda, levados, pelo ângulo da sua descida, para além do arco da Terra.  E o que é o andar em si senão simplesmente manter uma queda? Para colocar um objecto em movimento é necessário um grande esforço, mas depois de ele estar em andamento torna-se cada vez mais fácil mantê-lo. Esforçamo-nos para pôr o carro a trabalhar, mas depois de ele estar a andar o esforço é quase imperceptível. É mantê-lo em andamento com o seu próprio momentum. Viajar é uma questão de manter o momentum. Resistir à gravidade. Em queda livre para lá do horizonte, caindo, nunca aterrando.
(p.23)

O professor era claramente um perito na sua área. A sua mulher mostrou-me um livro que ele escreveu e, sempre que eu o cumprimentava, ela abanava a cabeça fechando os olhos em sinal de concordância profunda. Ela, mais do que sua mulher, era sua fã. Infelizmente não consigo levar um qualquer careca a sério quando ele unta o cabelo em longos fios mutantes e o penteia por cima da cabeça. E eu estava no banco de trás, o que não ajudava, pois o que eu via era um ovo cozido. Em vez de prestar atenção à vida social dos macacos japoneses, eu estava mais fascinado com a própria estratégia do pentear-por-cima. Será que essas pessoas pensam realmente que conseguem enganar alguém? Será que não têm espelhos? Ou será que os espelhos é que são o problema? Em frente do espelho da casa de banho deve ser o único modo de o estilo de pentear-por-cima parecer remotamente natural E mesmo assim, quantas vezes é quer nós vemos pessoas com o cabelo a crescer-lhes horizontalmente por cima da testa? Os japoneses, que têm um certo charme para descrições cómicas, referem-se ao estilo de pentear-por-cima como a cabeça código-de-barras, referindo-se aos preços com códigos-de-barras dos supermercados. Sentado no banco de trás, com esta vista desfavorável de um professor (pausa) da Universidade de Tóquio, apetecia-me passar a mão ligeiramente por cima da sua cabeça e ver que tipo de preço surgiria.
«E portanto, poderá deduzir o quanto a vida social dos macacos é tão importante,» disse ele em conclusão.
«Absolutamente», disse eu."
(p.31-32)

(Will Ferguson, Hokkaido Highway Blues - Hitchhiking Japan, Cannongate, Abridged ed., 2003. Tr. LFB)