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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Hannah Arendt (D: Margarethe von Trotta)



"Diga-se de passagem que a linguagem administrativa se havia tornado a sua língua porque era totalmente incapaz de pronunciar uma só frase que não fosse um lugar comum." (...) A melhor oportunidade que Eichmann teve para mostrar este lado positivo do seu carácter surgiu em Jerusalém, quando o jovem polícia encarregue do seu bem-estar moral e psicológico lhe deu Lolita para se distrair. Passados dois dias, Eichmann devolveu o livro, visivelmente indignado: "um livro muito doentio" - (unwholesome) "Das is aber ein sehr unerfreuliches buch" - disse ao polícia."
            Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, Tenacitas, 2003, p.105.               

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os artistas de Terezin

"(...)
Quando o jovem e brilhante condutor Rafael Schächter conduziu o Requiem, o próprio Eichmann foi à estreia, acompanhado pelo seu ajudante, o capitão Moes das SS, o homem que era conhecido entre os judeus como "o pássaro da morte". Uma descrição do incidente descreve um Eichmann confuso, perdido, entrando como que numa espécie de devaneio quando os seus Judeus cantaram Dies Irae, Lebera me, libera nos! Em muitos alemães há, em relação às artes, uma boa dose de diletantismo, de amadorismo. Penso que reagiram com curiosidade diletante ao florescimento das artes em Terezin. Permitiram os concertos, as palestras, a biblioteca, os espectáculos e, por vezes, parecia que os incentivavam.
Mas quando a arte se tornou um adversário, tinha que ser esmagada. (...)"


Gerald Green, The Artists of Terezin, Schocken Books, 1978, p.32-35, tr LFB)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Os filósofos e o nazismo (3)

"O limite moral dos nazis

(…) Havia também uma versão altamente distorcida da filosofia moral de Kant. Eichmann, durante o interrogatório, afirmou acreditar no “cumprimento do dever”: “ é, de facto, a minha norma. Tomei o imperativo kantiano como a minha norma, e fi-lo há muito tempo atrás. Orientei a minha vida por aquele imperativo, e continuei a fazê-lo nos sermões que dava aos meus filhos quando percebia que eles se estavam a desencaminhar.”…
Kant, que acreditava que as pessoas devem ser tratadas como fins em si mesmas e não como meios, teria ficado chocado com este kantiano. Todavia, há um lado da filosofia moral kantiana ao qual os nazis podiam reclamar uma certa adesão: refiro-me à ênfase colocada na obediência incondicional às regras. De acordo com Kant, as regras morais seriam geradas de forma puramente racional, de uma forma que é independente do seu impacto nas pessoas. E devem ser obedecidas por puro dever, em vez de por simpatia com as pessoas. Agir motivado por um sentimento de simpatia é, para Kant, agir por inclinação em vez de por dever, e por isso agir assim não tem valor moral. Os Nazis produziram uma variante sinistra desta moral austera e fechada sobre si.”
(Glover, J., Humanity - A moral history of the twentieth century, Yale U. P. 2001, p.357, tr. LFB)