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terça-feira, 25 de abril de 2017
sexta-feira, 3 de junho de 2016
segunda-feira, 25 de abril de 2016
sábado, 11 de abril de 2015
domingo, 11 de janeiro de 2015
terça-feira, 20 de agosto de 2013
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
esta liberdade
"agora parecia a K. que todas as amarras que o prendiam haviam sido cortadas, que era agora mais livre do que nunca, que podia esperar o tempo que quisesse naquele lugar que lhe era proibido, que lutara por esta liberdade como nenhum outro e que ninguém podia tocá-lo, expulsá-lo, sequer dirigir-lhe a palavra, ao mesmo tempo, porém, não menos forte era a sua convicção de que nada era mais absurdo, mais desesperado, do que esta liberdade, esta espera, esta invulnerabilidade."
Franz Kafka, O Castelo, Relógio d´Água Editores, (tr. I.C.S.), 2006, p.102.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Aprender a pensar com sobriedade - As sementes e germes da liberdade
"Germany was neither a geographic nor even a clear-cut linguistic entity. There were large, cohesive German-speaking communities in distant Russia, on the banks of the Volga and on the shores of the Black Sea in what are today Ukraine, Moldavia, and Romania. There was as yet no hint of a national consciousness anywhere to unite the speakers of more than a dozen dialects (...)
Jews were by no means newcomers to these regions. No one knows exactly when they first arrived. They seem to have reached the Rhineland and the Danube valley in the wake of Roman legions, long before the establishment of Christianity. In some parts they may have settled earlier than the (later Germanized) Celts, Balts, and Slavs. Long before there were Saxons, Bavarians, or Prussians, Jews lived in what was later known as the Germans lands. A literate community of ancient renown, in the early Middle Ages they constituted an early urban middle class of traders, surgeons, apothecaries, and crafsmen in gold, silver, and precious stones. The earliest written record testifying to their presence in the Rhineland is the text of a decree of A.D. 321 by the emperor Constantine (...). It instructs the Roman magistrate of Cologne on relations with the local rabbi.
During the Christianization of Western Europe, they were the only people who retained their religious faith, sometimes at a high price. The first centuries of Christian rule were, by and large, relatively tolerant. For long periods Jews and Germans coexisted peacefully. Prior to the Crusades, Jews were free to own property and practice all trades and professions. Later, their lives were made miserable by the brutality and superstition of the mob, the greed of princes, and the growing intolerance of the Church. By the fifteenth and sixteenth centuries they had become mostly rag dealers, pawnbrokers, money changers, peddlers, and vagrants. The remarkable thing about them was that the poorest men (and some of the women) were often literate, though in Hebrew only."
Amos Elon, The Pity Of It All - A portrait of the German-Jewish Epoch 1743 -1933, Picador, 2002, pp. 20-21
quinta-feira, 11 de abril de 2013
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
our constant problem
Nothing is as hard to supress as the will to be slave to one´s pettiness. Gallantly, ceaselessly, quietly, man must fight for inner liberty. Inner liberty dependes upon being exempt from domination of things as well as from domination of people. There are many who have acquiered a high degree of political and social liberty, but only very few are not enslaved to things. This is our constant problem - how to live with people and remain free, how to live with things and remain independent.
Abraham Joshua Heschel, The Sabbath, FSG Classics, 2005, p. 89.
domingo, 11 de setembro de 2011
10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (4)
"No serão de um Outono próximo do fim, um estudante de Paris sentou-se na minha cozinha, em Berlim, e perguntou, a propósito de nada, onde é que estava quando ouvi as notícias. Este estudante podia ter vindo de Boston, de Santiago ou de Zagreb. Onde quer que estivéssemos, quem quer que sejamos, foi um momento que não esquecemos e que devemos recordar repetidamente - tivemos de ver o World Trade Center cair, uma e outra vez, na televisão, até nos sentirmos suficientemente enjoados para termos a certeza de que era real. Isto é a globalização. Será também Lisboa? [ a autora refere-se ao terramoto de 1755]
O paralelismo é inegável. A surpresa e a rapidez dos ataques parecem-se com uma catástrofe natural. Não houve aviso. Também não havia mensagem. A ausência de ambos criou o tipo de medo que nos fez saber que não tínhamos, até essa altura, compreendido o significado do terrorismo internacional. Como os terramotos, os terroristas atacam ao acaso: quem vive e quem não vive depende de acasos que não podem ser merecidos ou previstos. Pensadores como Voltaire encolerizaram-se contra Deus por falhar na protecção das regras morais elementares que os seres humanos tentam seguir. As crianças não deviam ser súbita e brutalmente torturadas; coisas tão importantes como a diferença entre a vida e a morte não deviam depender de algo tão trivial como a sorte. O desastre natural é cego quanto a distinções morais que mesmo a justiça mais brutal define. O terrorismo desafia-as deliberadamente. Ao sublinhar a contingência, o 11 de Setembro sublinhou a nossa infinita fragilidade. Mesmo em Nova Iorque há muitas pessoas que não conheciam ninguém que estivesse no World Trade Center à hora dos ataques, mas toda a gente parece conhecer alguém que estivesse a curar uma ressaca ou a levar uma criança ao jardim de infância. Quando uma falta ao trabalho se torna uma maneira de salvar a vida, o nosso sentimento de impotência torna-se opressivo. Os terroristas escolheram alvos para o aumentar. Wall Street e o Pentágono são, ao mesmo tempo, um símbolo e a realidade da força ocidental, e não é claro o que foi mais assustador: o colapso das manifestamente notáveis Torres Gémeas ou o assalto aos impenetráveis centros do poderia militar. Nem a visibilidade nem a invisibilidade serviram de protecção. Ao ver ambos serem despedaçados tão depressa, ninguém podia sentir-se em segurança. Pessoas normais em todo o lado ecoavam as palavras de Hannah Arendt: o impossível tornou-se realidade.
(...) Ainda não podemos dizer até que ponto o mundo se modificará. Enfrentamos novas formas de perigo. Mas sugiro que não são novas formas de mal. As dificuldades em fazer frente ao terrorismo não são dificuldades conceptuais. Aqueles que levaram a cabo o assassínio de massa a 11 de Setembro encarnaram uma forma de mal tão antiquada que o seu ressurgimento faz parte do nosso choque. É antiquado, mas não por ter sido concretizado por defensores de ideologias fundamentalistas indiferentes a escrúpulos modernos. Ver o poder da crença num deus que recompensa com uma caricatura detestável de paraíso aqueles que destroem os seus inimigos apenas pode deixar-nos gratos ao cepticismo, mas o conteúdo da crença dos terroristas não é o aspecto principal da questão. A decisão de alguns nazis de morrerem em vez de se renderem nos últimos dias da guerra aproximou-se de fantasias primitivas arrepiantes, ainda que eu tenha defendido que o Terceiro Reich corporizou o mal contemporâneo. O 11 de Setembro constituiu um exemplo de mal antiquado na sua estrutura. O mal banal emerge da estrutura da vida normal que o 11 de Setembro dilacerou.
O mais importante é que foi terrivelmente intencional. A premeditação envolvida foi sólida. (...) O mais claro uso da racionalidade instrumental foi correspondido pela mais clara ostentação de raciocínio moral. A natureza não olha a distinções entre qualquer tipo de culpa ou qualquer género de inocência; os terroristas desprezaram-nos activamente. Mesmo que tivesse sido feita uma exigência para uma negociação, não havia a mais pequena desculpa para a destruição de vidas comuns. Os objectivos dos terroristas foram, pelo contrário, produzir o que moralidade tenta impedir: a morte e o medo. (...) A maldade e a premeditação, componentes clássicas da intenção malévola, raramente estiveram tão bem combinadas. Os terroristas contornaram modelos complexos como o de Mefistófeles e devolveram-nos a Sade. Alguns hão-de contrapor, sem dúvida, que eles acreditavam na justeza da sua causa. Mas a ausência de algo como um ultimato torna infrutífera qualquer tentativa de mostrar a razão de ser do terrorismo - mesmo para aqueles que gostam de defender contradições. Destruir, ao acaso, pessoas de uma cultura que se acha inaceitável não conta como causa admissível.
Mais tarde o ataque pareceu de mau agoiro. A lenta e inexorável destruição dos dois Budas gigantes no Afeganistão provocou calafrios na espinha de um mundo há muito acostumado a ver crianças a morrer à fome diante das câmaras. A explosão ordenada pelos talibãs no que afinal eram apenas estátuas e pedras prendeu, inexplicavelmente, a atenção global durante dias. Tratar-se-ia de um prenúncio da implosão das torres alguns meses depois? Heine escreveu que quem tivesse a inclinação para queimar livros não hesitaria em queimar pessoas. A sentença foi escrita muito antes da rejubilante juventude nazi ter empilhado livros banidos em grandes fogueiras públicas, e essa presciência chegou a parecer sinistra. (...)
O mal não é apenas o oposto do bem, mas o seu inimigo. O verdadeiro mal procura destruir até as distinções morais. Uma maneira de o fazer é transformar as vítimas cúmplices. Os sonderkommandos, que faziam o trabalho que permitia às câmaras de gás funcionar, foram implicados nelas, apesar de qualquer oportunidade para resistir se ter dissipado no momento em que souberam o que estavam a fazer. O pior horror do 11 de Setembro foi aqueles que comandavam os aviões que embateram no World Trade Center não só terem atirado vidas comuns para a morte, mas terem feito que essas pessoas se tornassem parte das explosões que mataram milhares de outras. Foi pelo menos esta leitura de uma cheia de passageiros a bordo do quarto avião, que se dirigia para um alvo incerto em Washington. Ao contrário dos passageiros dos outros voos, tiveram conhecimento das razões por que haviam de agir. Sem isso, estariam tão desamparados como aqueles que eram confrontados com o inimaginável quando as portas das carruagens de gado se abriam. Antes de aquilo ter acontecido, quem suporia que era possível exterminar seres humanos como insectos, ou transformados em bomba vivas?
Aqueles aviões desfeitos em pedaços deixam-nos pouca esperança de um dia chegarmos a saber tudo o que aconteceu, mas o que já sabemos é suficiente. Informadas por telemóvel de que outros aviões desviados tinham sido conduzidos contra as torres, algumas pessoas decidiram lutar. Não conseguiram vencer os terroristas, mas foram capazes de assegurar que o avião se despenhava em campo aberto. Morreram como morrem os heróis. De maneira diferente do indivíduo hipotético do exemplo de Kant, que prefere morrer a prestar um falso testemunho, a recusa deles em tornarem-se instrumentos do mal tornou-se mais do que um gesto. Nunca saberemos que tipo de destruição evitaram, mas sabemos que evitaram alguma. Provaram não só que os seres humanos têm liberdade, mas também que podemos usar essa liberdade para influenciar um mundo que receamos não controlar.
Isto não é uma teodiceia. Nem sequer é um consolo - embora seja toda a esperança que temos."
(Neiman, Susan, O mal no pensamento moderno, Gradiva, pp.313-320)
domingo, 19 de junho de 2011
Nobreza de Espírito
"O mundo ocidental atribui superioridade a tudo o que é novo e veloz e mostra progresso. A História é excomungada, como conclui Osip Mandelstam. As tradições não contam; a eternidade e a transcendência já não são reconhecidas. O resultado inexorável desta nova ordem é o de que o significado já não existe porque já não pode ser conhecido. Na melhor das hipóteses, é tido em consideração por um instante, ao critério de cada um. Medida, valor, o que perdura no mundo transitório - tudo desaparece. São substituídos pelo niilismo, o culta da ausência de valores. A verdade é reduzida a uma entidade empírica ou matemática e já não é o ideal ao qual a realidade deve aspirar.A "era moderna" e a arte que produz não podem ser entendidas sem uma consciência da perda dessa eternidade e das relações subsequentes.À mercê tanto do presente como da mortalidade, um ser humano não pode ser senão apressado, assediado, abandonado num universo sem sentido, perseguido pela falta de tempo. Mas as pessoas, como Sócrates aprende com Diotima, estão apaixonadas pela imortalidade, que as torna receptivas aos "sucedâneos de Deus" - palavras de Nietzsche. O "Império dos Mil Anos" e a "Utopia comunista" são inventados explicitamente como alternativas seculares à eternidade que foi expulsa. A sociedade ocidental tem as mesmas aspirações dos fascistas e dos comunistas. Não é por acaso que os seus pilares mais importantes, os meios de comunicação de massas e a economia social-capitalista, proclamam as virtudes do que é novo, veloz e progressista - tudo ao nível dos bens de consumo - e depois oferecem-nos a liberdade de sermos felizes com as nossas maquinetas. Temos de nos sentir eternamente jovens, ver sempre o que é novo como superior, aceitar que as limitações não existem - e será melhor esquecermos a morte."
(Riemen, Rob, Nobreza de Espírito, (tr.) Bizâncio, 2011, pp. 51-52)
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Ah, criatividade e tecnologia pela Liberdade!
Perante as enormes dificuldades de acesso à Internet impostas pelo governo egípcio, eis uma solução criativa -- as vozes revoltosas continuarão a ecoar pelo mundo.
(DO)
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Há alturas em que é difícil resistir à visão de que certos assuntos [políticos] estão fora do alcance e compreensão das pessoas comuns. Todavia, temos visto precisamente pessoas comuns a desmantelarem, corajosamente, regimes aparentemente intocáveis.
Tansey, S. (2004). Politics: the basics (3rd ed.). London: Routledge, pp.1-2. (tr. e adapt. DO)
domingo, 25 de abril de 2010
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
terça-feira, 17 de junho de 2008
O poder como opressão: uma introdução a Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell.
Um dos temas que se podem desenvolver a partir da leitura desta obra é o tema da opressão injusta que o Estado totalitário exerce sobre as pessoas. Mil Novecentos e Oitenta e Quatro apresenta-se como um tríptico (à semelhança de A Metamorfose de Kafka - sobre as diferentes nuances e leitura do número 3, ver Nabokov, Aulas de Literatura, Relógio d’Água p.325). Olhando de relance para cada uma das partes poderemos anotar diferentes aspectos da opressão.
Na primeira parte, Orwell dá-nos uma visão do mundo onde Winston – a personagem principal – vive imerso e sob total controlo. Winston e os demais habitantes de Oceânia vivem quase totalmente controlados pelo telecrã; nalgumas coisas tão parecido coma a TV do nosso mundo mas que, ao contrário desta, transmite e capta imagens. O telecrã é um dos meios privilegiados para dar corpo ao Big Brother, essa figura que representa a unidade e, simultaneamente, os perigos que ela contém: “(…) uma nação de guerreiros e fanáticos marchando em frente na mais perfeita unidade, pensando todos a mesma trezentos milhões com caras iguais (Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, Antígona, 1991, p.8o)”. Winston consegue encontrar um canto do seu quarto que talvez não seja captado e aí escreve o seu diário secreto. O pensamento surge como forma de libertação, incluindo o sonho/pesadelo que na obra é outra das formas libertadoras a que Winston recorre. Ele sonha com a sua mãe e irmã, sonha com o tempo antes da guerra, sonha com um outro espaço onde tudo seria mais belo e mais verdadeiro.
As pessoas vivem controladas pelas crianças que, tendo sido desde muito cedo educadas para denunciar os crime-pensantes (a verdade, independentemente das consequências, é das crianças), estão sempre prontas a apontar um suspeito. Controlados também pelas pessoas que se encontram à sua volta. Qualquer um pode denunciar outro e, por isso, qualquer um pode ser denunciado. Aqui nunca se sabe em quem confiar. Winston dúvida de Júlia e chega a desejar matá-la. Depois ama-a e deseja nunca traí-la. Winston confia em O’Brien e pensa, sem nenhuma justificação plausível que não “secretos devaneios, baseados em sonhos” que ele é também um “conspirador político” (174). Depositando a sua confiança num camarada confessa-se, sem saber, ao seu executor (na 3ª parte O’Brien usará essas mesmas palavras de Winston para lhe mostrar que, ao contrário do que afirma, ele não é nenhum anjo, cf. pp. 177 e 271):
“(…) somos inimigos do Partido. Não acreditamos nos princípios do SOCING. Somos crimepensantes. E também somos adúlteros. Conto-te isto para ficarmos à tua mercê. Se quiseres que aprofundemos o compromisso, estamos ao teu dispor.” (175)
Num dos momentos mais irónicos do livro:
“Estão dispostos a enganar, falsificar, fazer chantagem, corromper o espírito das crianças, distribuir drogas que provoquem dependência, fomentar a prostituição, espalhar doenças venéreas… a fazer tudo o que seja susceptível de desmoralizar e enfraquecer o poder político?”
A resposta de Winston é sim. E está pronto para muito mais, desde maltratar crianças até à mutilação do corpo e ao suicídio; ambos estão prontos para tudo. Até, se tal for necessário, obter uma nova identidade. O leitor não poderá deixar de se interrogar sobre o que distingue então Winston do seu carrasco. A diferença está em que um é capaz de fazer tudo para manipular e controlar as pessoas (o poder pelo poder) e Winston é capaz de fazer tudo para acabar com o partido (o poder pela liberdade). São iguais, do ponto de vista das consequências, Do ponto de vista dos ideais não podemos, tal como Winston não pode, aceitar o totalitarismo. Compreendemos até que se possam realizar crimes para cumprir esse objectivo maior. Haver gente, como Winston e Júlia, capaz de realizar todos esses actos transmite-nos alguma segurança, pois significa a afirmação de que, em vez da resignação silenciosa, a luta contra o grande ditador é sempre possível. Felizmente, na vida real e no livro, nem todos são colaboradores. Winston e Júlia só não estão dispostos a separarem-se definitivamente. Júlia é muito mais assertiva na sua resposta. O amor como uma das poucas coisas autênticas a que ambos se podem agarrar. No fim da história caberá a cada leitor saber até que ponto é esse sentimento autêntico. Controlados também pelo passado, pela ausência de memórias fidedignas; todo o passado é completa e diariamente alterado para servir os propósitos do partido. Controlados pela guerra constante. Controlados pela própria língua que, em fase de substituição pela novilingua, deixará de ser uma forma de riqueza e diversidade. A novilingua, limitando o número de palavras, controla e limita a possibilidade de certos pensamentos serem sequer concebidos. Haverá alguma forma de sair dessa prisão?
Na primeira parte é-nos também dada uma visão estratificada da sociedade. Uma sociedade dividida em três grupos: o partido interno – os seus membros viviam melhor do que os outros, vestiam castanho e eram responsáveis privilegiados. Eram, por exemplo, os únicos que podiam desligar, ainda que só por alguns minutos, o telecrã. O partido, composto por funcionários que vestiam de azul e que mantinham a grande máquina torturante em funcionamento. E, por último, os proles que vivem à margem do partido. Vivem na pobreza e na ignorância, é esta a forma que o partido tem de os controlar. Winston chega a acreditar que a salvação só poderá estar nos proles, só eles poderão rebelar-se contra as forças agonizantes da sociedade totalitária. Não é nada claro que assim seja até porque é um prole que denuncia Winston e Julia à polícia do pensamento. A fome e a ignorância sempre geraram bons colaboradores.
A segunda parte, em contraste total com a primeira, acontece sob o signo da luz, da beleza, da esperança e do sonho/realidade. Da escuridão, da fealdade, da resignação e da irrealidade – num certo sentido, tudo é irreal em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, ou não será? – passamos para a luz. Através da descoberta do amor, amante e amado são levados a acreditar que a única verdade possível está nos sentimentos, no coração, nos instintos mais básicos que o Partido tão veementemente tenta suprimir. O amor parental não é permitido – os filhos são separados dos pais; e existe uma forte repressão sexual (só a prostituição é tolerada por ser uma forma de escape e ao mesmo tempo uma forma de descobrir quem tem problemas com os seus instintos). É nos capítulos centrais da 2ª parte que o leitor é levado, por um lado, a crer que alguma saída há-de ser possível para Winston e Julia e que alguma saída há-de ser possível para a própria situação em que cada um de nós, efémeros leitores, se encontra; por muito boa que seja, terá sempre algo de irreal, de manipulado e de opressivo. Veja-se, para substanciar a crença na saída, o capítulo 8, onde sabemos que “estamos sós” (174) o que não deixa de ser surpreendente vindo de O´Brien, o homem em quem eles depositam confiança e onde se afirma que “a nossa única vida autêntica está no futuro” (181).
Por outro lado, o leitor é também colocado perante a pior hipótese: a de não haver saída. No capítulo 5, várias hipóteses são colocadas perante o acto de liberdade que ambos desejam realizar – o de se encontrarem secretamente, negando deste modo todos os postulados da sociedade tal como ela foi apresentada na primeira parte. Júlia acaba por dizer: “o que me interessa somos nós” (161); tese subjectivista que em qualquer tempo e em qualquer situação encontrará sempre os seus seguidores. A ideia de que “só os sentimentos contam” deixa os filósofos estarrecidos de tão crentes que são no poder da razão, na universalidade da verdade e na contingência dos sentidos. Nestas páginas centrais do livro há uma inversão de categorias – o irreal e fugidio torna-se o mais real e duradouro. Enquanto o mundo que os rodeia e as suas categorias foram já transformados na maior das farsas, os sonhos de Winston tornam-se realidade; o que de mais verdadeiro há na sua história pessoal. Contudo, ele sabe – são também os seus sonhos o veículo dessa revelação –e confessa-o a Júlia, que perante situações de miséria extrema, como as resultantes da fome e da guerra como as que ele enquanto criança teve que suportar, é o egoísmo que vem ao de cima – quer seja o egoísmo que o leva a roubar a única comida disponível que a mãe tinha para dar à irmã moribunda, quer seja o egoísmo de não suportar mais a dor da tortura do quarto 101.
Na terceira e última parte é a questão da liberdade interior – desde o início o refúgio de Winston - que é posta em causa. Tendo sido traídos por O’Brien, o que se segue é a tortura (em todos os sentido) como forma última de opressão. A morte seria um bem demasiado grande para poder ser oferecida, sem mais nem menos. Primeiro a limpeza, a purificação mental e, por fim, a negação da mais ínfima liberdade de pensamento. Depois de várias sessões, mas antes da ida ao quarto 101, Winston reconhece que 2+2 tanto pode ser 4 como 5 ou 3. Não há verdades absolutas. Essa é a primeira vitória sobre a liberdade de pensar. No entanto, Winston sonha (sempre o sonho como veículo da libertação) com uma bala que entra pelo seu cérebro e engendra, para esse momento que há-de chegar, a forma de morrer livre:
“Percebeu pela primeira vez que, a querer guardar um segredo, se via obrigado a escondê-lo até de si próprio. (…) daí em diante não lhe bastaria os pensamentos certos, os sonhos certos; tornava-se imperioso mostrar também os sentimentos certos, os sonhos certos. E entretanto guardar o ódio bem fechado dentro de si, como um corpo sólido que fizesse parte da sua pessoa e no entanto não estivesse em contacto com o resto de si, como uma espécie de quisto. (…)” (281/2)
Só “dez segundos” antes da bala atingir o seu cérebro é que ele “operaria uma revolta no seu interior” e libertaria o seu ódio: “Morrer a odiá-los: eis a liberdade.” (282). Depois de se submeter à vontade do Partido e esperando a morte Winston sente que, apesar de ter confessado tudo sobre a sua amada, não a traiu porque nunca deixou de a amar. Mas depois do quarto 101 – “o pior do mundo - continuou O’Brien – varia de indivíduo para indivíduo” (284) - ficamos na dúvida se a liberdade de amar Julia e a liberdade de fazer despertar o ódio antes de morte, coisas tão íntimas e tão difíceis de controlar, serão ainda uma possibilidade para Winston. O sinal de que algo foi ultrapassado no interior de Winston é dado pela traição ao amor que, como já vimos, tinha sido apresentado como real: “façam isto à Julia! Façam isto à Julia! A mim não!” (289) Depois disto podia-se dizer que foi o medo que nos fez dizer tal coisa. Que foi uma mentira feita para salvar a pele. Mas tal disfarce não funcionaria com O’Brien. “Algo morrera dentro dele: queimado, cauterizado” (291) E, no último encontro com Julia:
“- Só queremos saber de nós próprios – repetiu ele.
- Depois disso, jamais sentimos o mesmo por essa outra pessoa.
- Não – disse ele, já não sentimos o mesmo” (293)
Vence o egoísmo? Será a afirmação final de Winston: “Amava o grande irmão” (298), uma farsa? Ou será antes a prova de que Winston foi finalmente vencido? Como interpretar as “duas lágrimas” que Winston verte antes de afirmar o seu amor ao grande irmão? São a prova do amor? Ou o sentimento derivado da consciência de que perdeu a sua luta? Dado que no final Winston, num “sonho feliz”, vê a desejada bala penetrar-lhe o cérebro mas em vez de ódio o que vemos é amor ao grande irmão, a minha leitura é de que os bons perderam. Mas as conclusões a retirar ficam a cargo de cada leitor que deverá ler as últimas páginas do livro com redobrada atenção.
Na primeira parte, Orwell dá-nos uma visão do mundo onde Winston – a personagem principal – vive imerso e sob total controlo. Winston e os demais habitantes de Oceânia vivem quase totalmente controlados pelo telecrã; nalgumas coisas tão parecido coma a TV do nosso mundo mas que, ao contrário desta, transmite e capta imagens. O telecrã é um dos meios privilegiados para dar corpo ao Big Brother, essa figura que representa a unidade e, simultaneamente, os perigos que ela contém: “(…) uma nação de guerreiros e fanáticos marchando em frente na mais perfeita unidade, pensando todos a mesma trezentos milhões com caras iguais (Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, Antígona, 1991, p.8o)”. Winston consegue encontrar um canto do seu quarto que talvez não seja captado e aí escreve o seu diário secreto. O pensamento surge como forma de libertação, incluindo o sonho/pesadelo que na obra é outra das formas libertadoras a que Winston recorre. Ele sonha com a sua mãe e irmã, sonha com o tempo antes da guerra, sonha com um outro espaço onde tudo seria mais belo e mais verdadeiro.
As pessoas vivem controladas pelas crianças que, tendo sido desde muito cedo educadas para denunciar os crime-pensantes (a verdade, independentemente das consequências, é das crianças), estão sempre prontas a apontar um suspeito. Controlados também pelas pessoas que se encontram à sua volta. Qualquer um pode denunciar outro e, por isso, qualquer um pode ser denunciado. Aqui nunca se sabe em quem confiar. Winston dúvida de Júlia e chega a desejar matá-la. Depois ama-a e deseja nunca traí-la. Winston confia em O’Brien e pensa, sem nenhuma justificação plausível que não “secretos devaneios, baseados em sonhos” que ele é também um “conspirador político” (174). Depositando a sua confiança num camarada confessa-se, sem saber, ao seu executor (na 3ª parte O’Brien usará essas mesmas palavras de Winston para lhe mostrar que, ao contrário do que afirma, ele não é nenhum anjo, cf. pp. 177 e 271):
“(…) somos inimigos do Partido. Não acreditamos nos princípios do SOCING. Somos crimepensantes. E também somos adúlteros. Conto-te isto para ficarmos à tua mercê. Se quiseres que aprofundemos o compromisso, estamos ao teu dispor.” (175)
Num dos momentos mais irónicos do livro:
“Estão dispostos a enganar, falsificar, fazer chantagem, corromper o espírito das crianças, distribuir drogas que provoquem dependência, fomentar a prostituição, espalhar doenças venéreas… a fazer tudo o que seja susceptível de desmoralizar e enfraquecer o poder político?”
A resposta de Winston é sim. E está pronto para muito mais, desde maltratar crianças até à mutilação do corpo e ao suicídio; ambos estão prontos para tudo. Até, se tal for necessário, obter uma nova identidade. O leitor não poderá deixar de se interrogar sobre o que distingue então Winston do seu carrasco. A diferença está em que um é capaz de fazer tudo para manipular e controlar as pessoas (o poder pelo poder) e Winston é capaz de fazer tudo para acabar com o partido (o poder pela liberdade). São iguais, do ponto de vista das consequências, Do ponto de vista dos ideais não podemos, tal como Winston não pode, aceitar o totalitarismo. Compreendemos até que se possam realizar crimes para cumprir esse objectivo maior. Haver gente, como Winston e Júlia, capaz de realizar todos esses actos transmite-nos alguma segurança, pois significa a afirmação de que, em vez da resignação silenciosa, a luta contra o grande ditador é sempre possível. Felizmente, na vida real e no livro, nem todos são colaboradores. Winston e Júlia só não estão dispostos a separarem-se definitivamente. Júlia é muito mais assertiva na sua resposta. O amor como uma das poucas coisas autênticas a que ambos se podem agarrar. No fim da história caberá a cada leitor saber até que ponto é esse sentimento autêntico. Controlados também pelo passado, pela ausência de memórias fidedignas; todo o passado é completa e diariamente alterado para servir os propósitos do partido. Controlados pela guerra constante. Controlados pela própria língua que, em fase de substituição pela novilingua, deixará de ser uma forma de riqueza e diversidade. A novilingua, limitando o número de palavras, controla e limita a possibilidade de certos pensamentos serem sequer concebidos. Haverá alguma forma de sair dessa prisão?
Na primeira parte é-nos também dada uma visão estratificada da sociedade. Uma sociedade dividida em três grupos: o partido interno – os seus membros viviam melhor do que os outros, vestiam castanho e eram responsáveis privilegiados. Eram, por exemplo, os únicos que podiam desligar, ainda que só por alguns minutos, o telecrã. O partido, composto por funcionários que vestiam de azul e que mantinham a grande máquina torturante em funcionamento. E, por último, os proles que vivem à margem do partido. Vivem na pobreza e na ignorância, é esta a forma que o partido tem de os controlar. Winston chega a acreditar que a salvação só poderá estar nos proles, só eles poderão rebelar-se contra as forças agonizantes da sociedade totalitária. Não é nada claro que assim seja até porque é um prole que denuncia Winston e Julia à polícia do pensamento. A fome e a ignorância sempre geraram bons colaboradores.
A segunda parte, em contraste total com a primeira, acontece sob o signo da luz, da beleza, da esperança e do sonho/realidade. Da escuridão, da fealdade, da resignação e da irrealidade – num certo sentido, tudo é irreal em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, ou não será? – passamos para a luz. Através da descoberta do amor, amante e amado são levados a acreditar que a única verdade possível está nos sentimentos, no coração, nos instintos mais básicos que o Partido tão veementemente tenta suprimir. O amor parental não é permitido – os filhos são separados dos pais; e existe uma forte repressão sexual (só a prostituição é tolerada por ser uma forma de escape e ao mesmo tempo uma forma de descobrir quem tem problemas com os seus instintos). É nos capítulos centrais da 2ª parte que o leitor é levado, por um lado, a crer que alguma saída há-de ser possível para Winston e Julia e que alguma saída há-de ser possível para a própria situação em que cada um de nós, efémeros leitores, se encontra; por muito boa que seja, terá sempre algo de irreal, de manipulado e de opressivo. Veja-se, para substanciar a crença na saída, o capítulo 8, onde sabemos que “estamos sós” (174) o que não deixa de ser surpreendente vindo de O´Brien, o homem em quem eles depositam confiança e onde se afirma que “a nossa única vida autêntica está no futuro” (181).
Por outro lado, o leitor é também colocado perante a pior hipótese: a de não haver saída. No capítulo 5, várias hipóteses são colocadas perante o acto de liberdade que ambos desejam realizar – o de se encontrarem secretamente, negando deste modo todos os postulados da sociedade tal como ela foi apresentada na primeira parte. Júlia acaba por dizer: “o que me interessa somos nós” (161); tese subjectivista que em qualquer tempo e em qualquer situação encontrará sempre os seus seguidores. A ideia de que “só os sentimentos contam” deixa os filósofos estarrecidos de tão crentes que são no poder da razão, na universalidade da verdade e na contingência dos sentidos. Nestas páginas centrais do livro há uma inversão de categorias – o irreal e fugidio torna-se o mais real e duradouro. Enquanto o mundo que os rodeia e as suas categorias foram já transformados na maior das farsas, os sonhos de Winston tornam-se realidade; o que de mais verdadeiro há na sua história pessoal. Contudo, ele sabe – são também os seus sonhos o veículo dessa revelação –e confessa-o a Júlia, que perante situações de miséria extrema, como as resultantes da fome e da guerra como as que ele enquanto criança teve que suportar, é o egoísmo que vem ao de cima – quer seja o egoísmo que o leva a roubar a única comida disponível que a mãe tinha para dar à irmã moribunda, quer seja o egoísmo de não suportar mais a dor da tortura do quarto 101.
Na terceira e última parte é a questão da liberdade interior – desde o início o refúgio de Winston - que é posta em causa. Tendo sido traídos por O’Brien, o que se segue é a tortura (em todos os sentido) como forma última de opressão. A morte seria um bem demasiado grande para poder ser oferecida, sem mais nem menos. Primeiro a limpeza, a purificação mental e, por fim, a negação da mais ínfima liberdade de pensamento. Depois de várias sessões, mas antes da ida ao quarto 101, Winston reconhece que 2+2 tanto pode ser 4 como 5 ou 3. Não há verdades absolutas. Essa é a primeira vitória sobre a liberdade de pensar. No entanto, Winston sonha (sempre o sonho como veículo da libertação) com uma bala que entra pelo seu cérebro e engendra, para esse momento que há-de chegar, a forma de morrer livre:
“Percebeu pela primeira vez que, a querer guardar um segredo, se via obrigado a escondê-lo até de si próprio. (…) daí em diante não lhe bastaria os pensamentos certos, os sonhos certos; tornava-se imperioso mostrar também os sentimentos certos, os sonhos certos. E entretanto guardar o ódio bem fechado dentro de si, como um corpo sólido que fizesse parte da sua pessoa e no entanto não estivesse em contacto com o resto de si, como uma espécie de quisto. (…)” (281/2)
Só “dez segundos” antes da bala atingir o seu cérebro é que ele “operaria uma revolta no seu interior” e libertaria o seu ódio: “Morrer a odiá-los: eis a liberdade.” (282). Depois de se submeter à vontade do Partido e esperando a morte Winston sente que, apesar de ter confessado tudo sobre a sua amada, não a traiu porque nunca deixou de a amar. Mas depois do quarto 101 – “o pior do mundo - continuou O’Brien – varia de indivíduo para indivíduo” (284) - ficamos na dúvida se a liberdade de amar Julia e a liberdade de fazer despertar o ódio antes de morte, coisas tão íntimas e tão difíceis de controlar, serão ainda uma possibilidade para Winston. O sinal de que algo foi ultrapassado no interior de Winston é dado pela traição ao amor que, como já vimos, tinha sido apresentado como real: “façam isto à Julia! Façam isto à Julia! A mim não!” (289) Depois disto podia-se dizer que foi o medo que nos fez dizer tal coisa. Que foi uma mentira feita para salvar a pele. Mas tal disfarce não funcionaria com O’Brien. “Algo morrera dentro dele: queimado, cauterizado” (291) E, no último encontro com Julia:
“- Só queremos saber de nós próprios – repetiu ele.
- Depois disso, jamais sentimos o mesmo por essa outra pessoa.
- Não – disse ele, já não sentimos o mesmo” (293)
Vence o egoísmo? Será a afirmação final de Winston: “Amava o grande irmão” (298), uma farsa? Ou será antes a prova de que Winston foi finalmente vencido? Como interpretar as “duas lágrimas” que Winston verte antes de afirmar o seu amor ao grande irmão? São a prova do amor? Ou o sentimento derivado da consciência de que perdeu a sua luta? Dado que no final Winston, num “sonho feliz”, vê a desejada bala penetrar-lhe o cérebro mas em vez de ódio o que vemos é amor ao grande irmão, a minha leitura é de que os bons perderam. Mas as conclusões a retirar ficam a cargo de cada leitor que deverá ler as últimas páginas do livro com redobrada atenção.
Luis Filipe Bettencourt (Maio de 2008)
O culto de Che, por Paul Berman
"O culto de Che Guevara é algo digno de nota na frieza moral do nosso tempo. Che foi um totalitário. Não conseguiu nada mais do que o desastre. Muitos dos primeiros lideres da revolução Cubana favoreciam uma direcção democrática ou social democrática para a nova Cuba. Mas Che era um defensor da facção dura pro-soviética e a sua facção ganhou. Che presidiu aos primeiros esquadrões da morte da revolução Cubana. Ele fundou o sistema dos "campos de trabalho" em Cuba - o mesmo sistema que, por fim, serviu para encarcerar homossexuais, dissidentes e vítimas do SIDA. Conseguir matar-se e matar muitas outras pessoas era algo central na imaginação de Che. No famoso ensaio onde apelou para "dois, três, muitos Vietnames", também falou de martírio e conseguiu escrever uma série de frases arrepiantes: "O ódio como um elemento de luta; ódio inquebrável pelo inimigo que transporta um ser humano para lá das suas limitações naturais tornando-o numa máquina de espalhar a morte que seja efectiva, violenta, selectiva e de sangue frio. É nisto que os nossos soldados se devem tornar..." - e por aí adiante. Che foi morto na Bolívia em 1967, liderando um movimento de guerrilha que não conseguiu recrutar um único camponês boliviano. Mesmo assim conseguiu inspirar dezenas de milhar de latino-americanos de classe média a sair das universidades e a organizar movimentos de guerrilha insurgentes. Estas insurgências também não conduziram a nada, a não ser à morte de dezenas de milhar de pessoas e ao atraso da causa democrática na américa latina - uma tragédia em grande escala.
O presente culto de Che - as t-shirts, os bares, os posters - conseguiu obscurecer essa terrível realidade. (...) Che foi um inimigo da liberdade e, mesmo assim, foi erigido como um símbolo da liberdade. Ajudou a estabelecer, em Cuba, um sistema social injusto e foi erigido como um símbolo de justiça social. Defendeu a antiga rigidez do pensamento latino-americano, numa versão marxista-leninista, e tem sido celebrado como um livre-pensador e como um rebelde. (...)
Berman, Paul, The Cult of Che Don't applaud The Motorcycle Diaries, (2004) in http://www.slate.com/ (tr. de LFB, Junho de 2008)
PS: Este obscuro culto a Che nas palavras de Hugo Chavés é assim: "Che viveu como Cristo e morreu como Cristo".
Tudo muito recentemente numa entrevista (rtp1) onde discursos inacreditáveis e algumas falsidades foram proferidas perante a passividade do entrevistador Mário Soares (um 'espiritualista laico', nas palavras do próprio).
O presente culto de Che - as t-shirts, os bares, os posters - conseguiu obscurecer essa terrível realidade. (...) Che foi um inimigo da liberdade e, mesmo assim, foi erigido como um símbolo da liberdade. Ajudou a estabelecer, em Cuba, um sistema social injusto e foi erigido como um símbolo de justiça social. Defendeu a antiga rigidez do pensamento latino-americano, numa versão marxista-leninista, e tem sido celebrado como um livre-pensador e como um rebelde. (...)
Berman, Paul, The Cult of Che Don't applaud The Motorcycle Diaries, (2004) in http://www.slate.com/ (tr. de LFB, Junho de 2008)
PS: Este obscuro culto a Che nas palavras de Hugo Chavés é assim: "Che viveu como Cristo e morreu como Cristo".
Tudo muito recentemente numa entrevista (rtp1) onde discursos inacreditáveis e algumas falsidades foram proferidas perante a passividade do entrevistador Mário Soares (um 'espiritualista laico', nas palavras do próprio).
(LFB)
segunda-feira, 11 de setembro de 2006
"... Qualquer que tenha sido a história passada e presente das relações do Ocidente com o resto do mundo, é uma falácia pretender que os pecados desta história justificam (versão forte, que diz o que quer dizer) ou permitem compreender (versão fraca, no fundo ininteligível: compreender seria qualquer coisa como uma desculpa mole) o que se está a passar. E é uma falácia a vários títulos, sem ter sequer de kantianamente se lembrar que nunca o mal que me é feito pode justificar o mal que faço. O que se está a passar e a construir, e nos ameaça aqui onde estamos, onde cada um de nós está, é uma frente de ódio que inaugura algo de inédito. Dando-se misturadamente com coisas velhas em que é difícil distinguir causas e efeitos, em que ninguém tem completamente culpa porque todos têm alguma ou muita razão - estou antes de tudo mais a pensar, evidentemente, no conflito entre israelitas e palestinianos -, aquilo que desde há alguns anos irrompe e é radicalmente novo é a rejeição sem apelo, e sem quartel, da sociedade livre ocidental. (...) (p.228)
"...estou certo de que, face ao terrorismo, os governos ocidentais ficarão eternamente agradecidos a quem for capaz de lhes ensinar a maneira adequada de conciliar plena liberdade e segurança - a sua, e a minha. Será talvez pathos de mau gosto mas não consigo evitar pensar que se a polícia italiana não tivesse controlado, provavelmente ilegalmente, as conversas dos telefones dos terroristas - foi por esse meio que os descobriram -, eu poderia neste momento estar debaixo da terra. (...) Por fim, há excelentes razões - pelo menos! - para presumir que as limitações às liberdades terminarão mal a guerra teminar, como aconteceu depois das duas guerras mundiais do século xx. Obviamente. Estejamos descansados, comemoremos em liberdade o oitavo centenário da Magna Carta em 2015! Entre parênteses, permito-me recordar (será ainda de mau gosto?) que há cem mil cruzes brancas americanas nos cemitérios da costa francesa do desembarque.
Porque não são estas evidências reconhecidas, e menos ainda assumidas? A resposta só pode ser uma, e vejo nela a manifestação mais forte do niilismo. É que no fundo não se quer aceitar que a guerra nos foi imposta - e que estamos em guerra.(...)"
Fernando Gil, "dois artigos", em Gil, Tunhas e Cohn, Impasses, Europa-América, 2003, pp.236-237.
segunda-feira, 8 de maio de 2006
AULA ABERTA
ESCOLA SECUNDÁRIA VITORINO NEMÉSIO
FILOSOFIA.
FILOSOFIA.
A actividade está relacionada com a passagem dos 32 anos sobre o 25 de Abril de 1974 e consistirá numa AULA ABERTA subordinada à seguinte questão: “O que é a liberdade nas democracias e o que é que as escolas têm a ver com isso?”.
Sumário: Tentativa de relacionar quatro conceitos fundamentais da nossa cultura política: ‘liberdade’, ‘democracia’, ‘privado’ e ‘público’. Exposição de algumas contradições resultantes dessa relação e destaque para o modo como elas estão presentes na vida de uma escola.
Data: 9 de Maio de 2006
Hora: 14:15 às 15:45
Local: biblioteca da escola
Professor: Luís Filipe Bettencourt
Assistência: Ensino secundário em geral, 10º ano em particular.
Sumário: Tentativa de relacionar quatro conceitos fundamentais da nossa cultura política: ‘liberdade’, ‘democracia’, ‘privado’ e ‘público’. Exposição de algumas contradições resultantes dessa relação e destaque para o modo como elas estão presentes na vida de uma escola.
Data: 9 de Maio de 2006
Hora: 14:15 às 15:45
Local: biblioteca da escola
Professor: Luís Filipe Bettencourt
Assistência: Ensino secundário em geral, 10º ano em particular.
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