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terça-feira, 1 de maio de 2012

sábado, 28 de abril de 2012

To Kill a Mockingbird (1962)


O filme tem muito do que me faz amar a América (que se calhar não existe): as cadeiras de balanço, os alpendres, os baloiços feitos de pneus, as ruas largas e as casas sem muros altos à volta, a justiça (e a injustiça), a infância perdida, o bom (e o mau), o medo (e a coragem) e o mistério.
A sugestão veio do Devaneios.

domingo, 22 de abril de 2012

Profecia autocumprida

"Dois anos antes [1956] haviam começado os trabalhos de um comité conjunto da Sociedade Médica Americana e da Federação de Colégios de Advogados, no qual iriam incorporar-se sociólogos de diferentes universidades em busca de uma alternativa viável à política oficial em matéria de drogas. As suas conclusões, que se publicaram em 1958 (...) afirmavam que a cruzada era uma empresa pseudomédica e extrajurídica cujas consequências só podiam ser o crime e a marginalização. Apoiando-se no conceito de profecia autocumprida (acabado de desenvolver pelo sociólogo R. K. Merton), a cruzada farmacológica apresentava-se como um processo circular, onde lhe é imposta uma certa imagem de realidade, que a seguir é exibida como efeito independente da sua imposição; o facto de os consumidores de algumas drogas serem adolescentes, criminosos, indesejáveis ou mendigos não podia atribuir-se a esta ou àquela substância, mas sim à lei vigente. 

O relatório incluía dois apêndices: o primeiro elogiava o método inglês de tratar os adictos -- receitando-lhes gratuitamente ou a preço muito baixo heroína e morfina --, tanto pelos seus resultados práticos como pelos seus fundamentos teóricos; o segundo apêndice criticava a legislação norte-americana por omitir requisitos formais e substantivos próprios de qualquer norma positiva num Estado de direito."

Antonio Escohotado, História Elementar das Drogas, p. 131.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (2)

"A bordo de um paquete que largara de Alexandria, Egipto, rumo a Nova Iorque, num camarote de primeira classe, Sayyid Qutb, um escritor e pedagogo franzino, de meia-idade, vivia uma crise de fé. ‹‹Quando estiver nos Estados Unidos, deverei limitar-me a comer e a dormir, como os outros bolsistas? Ou será que devo procurar ser especial?» eram questões que punha a si próprio. «Devo permanecer fiel às minhas crenças islâmicas e resistir às muitas tentações pecaminosas, ou devo ceder às inúmeras tentações que me rodeiam?» Estava-se em Novembro e 1948. O vulto do Novo Mundo, triunfante, rico e livre, erguia-se ameaçador no horizonte. Deixava para trás de si o Egipto desfeito em farrapos e lágrimas. O viajante nunca estivera ausente do seu país natal. A saída também não fora iniciativa sua.
Sayyid era um solteirão de ar severo, de cabelos e olhos escuros, franzino e baixo, com uma testa alta e inclinada para trás e um bigode espetado e farfalhudo, um tanto mais estreito que o seu nariz. Os olhos denunciavam uma natureza autoritária e facilmente propensa à arrogância. (...)
Sob muitos aspectos, era um ocidental - na forma de vestir, no gosto pela música clássica e pelos filmes de Hollywood. Tinha lido traduções das obras de Darwin e de Einstein, de Byron e de Shelley; mergulhara na literatura francesa - Victor Hugo, em especial. Contudo, e ainda antes de partir nesta viagem, manifestava já alguma preocupação relativamente ao assédio da civilização ocidental a todos os níveis. Apesar da sua erudição, via o Ocidente como uma entidade cultural única. As diferenças entre capitalismo e marxismo, cristianismo e judaísmo, fascismo e democracia eram insignificantes perante a única grande fronteira que existia no pensamento de Qutb: o islão e o Oriente, de um lado, e o Ocidente cristão do outro.
No entanto, os EUA apareciam isolados das aventuras colonialistas que pautaram as relações da Europa com o mundo Árabe. (...) Qutb (cujo nome se pronuncia kâ-teb), à semelhança de muitos árabes, sentiu-se chocado e traído com o apoio dado pelo Governo dos EUA, no pós-guerra, à causa sionista. No momento em que Qutb zarpava do porto de Alexandria, o Egipto, em conjunto com os exércitos de cinco outros países árabes, encontrava-se na fase final da derrota na guerra que levou à criação de Israel como Estado judaico no seio do mundo árabe. Os árabes ficaram estupefactos não apenas com a determinação e a perícia dos soldados israelitas, mas também com a incompetência das suas próprias tropas e com as decisões desastrosas dos seus líderes. A vergonha que se seguiu a essa experiência iria moldar o universo intelectual árabe de uma forma mais profunda do que qualquer outro acontecimento na história contemporânea. « Sinto ódio e desprezo por esses ocidentais!», escreveu Qutb na sequência do apoio dado pelo presidente Harry Truman à transferência de 100 000 refugiados judeus para a Palestina. «Por todos eles, sem excepção: ingleses, franceses, holandeses e, por fim, os americanos, em quem tantos confiaram.» 
(pp.19 -21)

Quando MCKillop chegou ao Ground Zero, ficou chocado com a montanha imensa de escombros que ainda ardia. As equipas de salvamento escavavam dia e noite, esperando encontrar sobreviventes, mas aquele cenário retirara qualquer esperança a MCKillop. (...)
De certa forma, os mortos do Trade Center formavam uma espécie de parlamento universal, representando 62 países e quase todos os grupos étnicos e religiões do mundo - um corrector de bolsa ex-hippie, o capelão católico homossexual do quartel dos bombeiros da cidade de Nova Iorque, um jogador de hóquei japonês, um chefe de cozinha equatoriano, uma coleccionadora de bonecas Barbie, um calígrafo vegetariano, um contabilista palestiniano... A diversidade de formas em que esta pessoas assumiram a sua ligação à vida dava testemunho da exortação do Corão, que sustenta que tirar uma única vida destrói um universo. A Al-Qaeda dirigira os seus ataques aos Estados Unidos da América, mas acabou por atingir toda a humanidade.
 (pp. 366-367)

 (Wright, Lawrence, A Torre do Desassossego - O percurso da Al-Qaeda até ao 11 de Setembro, tr.E.V.C., Casa das Letras, 2007)

domingo, 4 de setembro de 2011

10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (1)

"No verão de 2006 voltei a viver no Reino Unido após dois anos e meio na América do Sul. Mantenho que não me tornei mais fascista nesse ínterim - aos pés de um Galtieri, digamos, ou ajoelhado perante um Pinochet. Mas em política é surpreendentemente fácil movermo-nos de um lado para o outro enquanto permanecemos no mesmo sítio; e o terreno médio, descobri eu, não está onde costumava estar. A extensão dessa mudança tornou-se-me dramaticamente nítida num direto televisivo, quando apareci no "Tempo de Perguntas" (o programa interativo de debate da BBC) e me inquiriram acerca do nosso progresso naquilo a que agora chamam a Longa Guerra.
A resposta que dei foi, pensava eu, quase fastidiosamente centrista. Eu disse que o Ocidente deveria ter ocupado os últimos cinco anos a construir um modelo democrático e pluralista no Afeganistão, enquanto se ía meramente limitando a conter o Iraque. No Afeganistão já vimos, não o "genocídio" avidamente previsto por Noam Chomsky e outros, mas a "genogénese" (para usar o termo de Paul Berman) - um florescente censo. Desde 2001, a população aumentou em 25 por cento. (...)
Nesse ponto comecei a olhar para um rosto e para outro na assistência, e o que eu vi eram os esgares e as caretas, não da discórdia, mas da incredulidade. Tomou então a palavra uma rapariga. Numa quase-lacrimosa voz de apaixonada presunção, dizendo que tinham sido os americanos quem armara os islamitas no Afeganistão, e que por conseguinte os Estados Unidos, para responderem ao 11 de Setembro, "deviam bombardear-se a eles próprios!" Tive tempo para imaginar os F-16 a uivarem sobre Chicago, e o USS Abraham Lincoln a lançar projécteis do tamanho de Volkswagens para o centro de Miami - em destemida expiação pelo World Trade Center, pelo Pentágono, pelo voo 93 da United, o voo 11 da United e o voo 77 da American. Mas depois os meus pensamentos foram dispersos pelo som de um unânime aplauso.
Estamos solenemente acostumados, hoje em dia, à fetichização do "equilíbrio", à regra básica da "equivalência moral", em todos os conflitos entre o Ocidente e o Oriente, à incapacidade a 100 por cento e a 360 graus para ajuizarmos sobre qualquer etnia que não seja a nossa (exceto no caso de Israel). E contudo os que batiam palmas no "Tempo de Perguntas" tinham ido além da velha fórmula da piedosa paralisia. Isto não era equivalência, isto era abjeção hemisférica. Em consequência, dada a escolha entre George Bush e Osama bin Laden, o relativista liberal, ao que parece, é obrigado a apoiar o saudita, tornando-se assim conciliador de uma doutrina armada com os seguintes lemas: é racista, misógina, homofóbica, totalitária, inquisitória, imperialista e genocida.

Recolhendo o que podemos das obras de pensadores como Sayyid Qutb (...) e a partir de diversas declarações, fatwas, ultimatos, ameaças de morte e notas de suicídio, podemos comparar o islão radical aos movimentos políticos tanatoides que conhecemos melhor, nomeadamente o bolchevismo e o nazismo (de cada um dos quais o islamismo é devedor). Das muitas afinidades que emergem, poderemos enumerar, para começar, algumas características secundárias. A exaltação de um líder divino; a exigência, não somente de submissão à causa, mas de inteira transformação em nome dela; um romantismo autoindulgente; um ódio à sociedade liberal, ao individualismo e à copiosa inércia (ou Konformismus); uma obsessão pelo sacrifício e o martírio; uma mórbida rebeldia adolescente combinada com um amor pueril pela destruição; o "agonismo", ou aceitação da permanente e insaciável rivalidade; o uso e a invocação do muito novo e do muito velho; uma mania da purificação; e um feroz antissemitismo.
Mas estas são incidentais. O tanatismo deriva a sua verdadeira energia, a sua febre e a sua magia, de algo muito mais radical. E aproximamo-nos aqui de uma patologia que no final poderá não ser assimilável pelo espírito dos não-crentes. Refiro-me à rejeição da razão - à rejeição do sequitur, da causa e efeito, do dois mais dois. Extraordinariamente, nas suas obras escritas e na sua conversa de mesa, Hitler e Estaline (e Lenine) raramente permitem que o substantivo abstrato "razão" passe sem que lhe atribuam um adjetivo depreciativo: razão inútil, razão frouxa, razão cobarde. Quando aqueles sanguinários saloios, os talibãs, entoam a sua palavra de ordem, "Lancem a razão aos cães", eles estão procedendo ao mesmo tipo de jogada faustiana: esmagai a razão, matai a razão, e toda e qualquer coisa parece possível - o restaurado califado, por exemplo, presidindo a um império planetário expurgado de todos os infiéis. Transcender a razão é evidentemente transcender os confins da lei moral, é entrar no mundo ilimitável da insanidade e da morte.
(...) 11 de Setembro significa 11 de Setembro de 2001 - o dia em que as torres vieram abaixo. Foi também o dia em que algo nos foi revelado. Já sabemos agora o que era isso? Muita da nossa análise terá sido porventura inteiramente inapropriada, pois continuamos a tentar construir o islamismo nos termos do raciocinativo. Que aspeto tem ele quando o construímos nos termos das emoções? Estados emocionais familiares (dor, ódio, fúria, vergonha, desonra e, acima de tudo, humilhação), mas em intensidades nada familares - intensidade que a democracia secular, e as regras da lei e da sociedade civil, tenderão sempre a neutralizar. (...)
O islamismo tem andado connosco durante a parte de leão de um século. A irmandade Muçulmana foi fundada em 1928, e no espaço de uma década ramificou-se naquilo que dentro em pouco viria a ser o Paquistão. Mas o evento emocionalmente constitutivo, somos forçados a deduzir, foi o estabelecimento da Pátria Judaica. Na guerra que foi travada para concretizar isso, Israel, ocupando 0,6 por cento de territórios árabes e com uma população proporcional, derrotou os exércitos do Egito, da Síria e da Transjordânia, juntamente com as forças suplementares do Líbano, da Arábia Saudita e do Iraque.
Nos restantes 99,4 por cento dos territórios árabes, esse evento é conhecido como al-nakba: a catástrofe. E tal epíteto dificilmente exagera o caso. A "ímpia" União Soviética, após um revés comparável, poderia ter caído num perturbável autoescrutínio; mas que significa isso para os povos que acreditam sinceramente que uma divindade omnipotente está minuciosamente atenta aos seus desejos e desertos? Tendo suportado vários séculos de prosperidade, poder e alcance global, e eventual império por parte dos cristãos, as nações islâmicas foram vencidas por uma província que tem o tamanho de Nova Jérsia.(...)
O 11 de Setembro implicou uma quebra moral, em todo o planeta; também desprendeu o terreno entre a realidade e o delírio. Por isso, quando falamos dele, chamemo-lo pelo nome que lhe é próprio; façamos por não sugerir que a nossa experiência desse evento, desse desenvolvimento, foi absorvida sem fricções e arquivada. Não o foi. O 11 de Setembro continua, prossegue com todo o seu mistério, a sua instabilidade e o seu terrível dinamismo."

(Amis, Martin, O Segundo Avião, Quetzal, 2011, texto retirado do excerto publicado em exclusivo na revista Ler, nº 105, Setembro de 2011, pp. 43-45.)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Treinos num cubo de ar gigante

Sobre a questão da aceitação, ou não, da base aérea das Lajes como campo de treino para aviões de guerra americanos e para esclarecer o aproveitamento político que alguns têm feito da questão, dando a entender que se trata de uma imposição (mais uma!) dos americanos, vale a pena ler a entrevista à revista do DI (25 Abril 2010) do embaixador dos EUA em Lisboa , David Ballard, e reter a seguinte passagem que é bem esclarecedora sobre quem está na origem do problema e sobre quem terá alguma coisa a dizer:

"Quanto à área de treino - que foi uma proposta portuguesa que os Estados Unidos aceitaram, estamos a cooperar com a Força Aérea portuguesa e com o Ministério da Defesa para encontrar a melhor maneira de concretizar esse projecto." (destaque meu)

(LFB)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

JOHN UPDICKE

Estados Unidos

1932-1993


AÇORES


Grandes navios verdes

eis que navegam

ancoradas, para sempre;

sob as águas


enormes raízes de lava

prendem-nas firmes

a meio do Atlântico

ao passado


Os turistas, pasmando

do convés

proclamam aos guinchos lindas

as encostas malhadas


De casinhas

(confettis) e

doces losangos

de chocolate (terra).


Maravilham-se com

os campos graciosos

e os socalcos

feitos à mão para conter


Os modestos frutos

das vinhas e das árvores

importadas pelos

portugueses:


paisagem rural

vindo à deriva

de há séculos;

a distância


amplia-se.

O navio segue,

Outra vez a constante

música alimenta


um vazio à popa,

os Açores sumidos.

O vácuo atrás e o vácuo

à frente são o mesmo.


Poesia do Século XX (ant., tr., pre. e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, 1994, pp.454-455)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

OBAMA



"Deixai que venham as consequências, isso não me importa. Nenhum homem pode sofrer em demasia, nem tombar demasiado depressa, se sofrer ou se tombar em defesa das liberdades e da Constituição do seu país".

Daniel Webster, in John F. Kennedy, Retratos de Coragem (Profiles in Courage), Esfera do Caos, p.109.

(LFB)

domingo, 3 de agosto de 2008

Cronica de uma longa viagem

Eis-me na California apos uma infindavel viagem, pautada por algumas insuportaveis paragens para ligacao. Apos 5 anos longe destas terras, algumas coisas permanecem iguais. Fale-se do preenchimento obrigatorio de dois questionarios (do tipo sim/nao) onde se pergunta, por exemplo: "Esta envolvido em actividades terroristas?" ou "Esteve de algum modo ligado ao nazismo hitleriano (ou aos seus aliados)?". A minha primeira reaccao foi o riso. A segunda: se este tipo de estrategia funciona - presumo que sim, dado que nao foi abulida desde a minha ultima viagem -, sera enorme a satisfacao dos servicos secretos! Mas com (ou sem) vontade, tudo se preenche. E rapidamente prosseguem as 'actividades ligadas ao nazismo' (a leitura d'Os que sucumbem e os que se salvam, por Primo Levi).

Chegada a Boston: finalmente o solo americano. Ao primeiro paco, sinto-me inebriada por aquele cheiro a EUA (talvez conhecido de alguns). Ao segundo, vislumbro num ecra a quase caricatural face de Larry King que, como seria de esperar diante do calendario politico, parecia discutir qualquer pormenor da aguerrida campanha eleitoral que se vive por estes lados.
Sou muito bem recebida por um bem disposto guarda fronteirico (sera esta a sua profissao?) que muito rapidamente me pergunta o porque da minha viagem, com quem, onde e por quanto tempo vou ficar; pede todas as minhas impressoes digitais; regista a minha imagem atraves de uma maquina fotografica. Mas isto sao os pormenores: o interessante foi a conversa na qual comento que o sistema (de controlo froteirico) evoluiu muito desde que ca estive da ultima vez; ao que ele me responde "It's just smoking mirrors". O que interessa nao sera entao controlar efectivamente mas mostrar que se tem tudo controlado. Esclareceu ainda que ja alguem respondeu 'sim' a famosa 'pergunta terrorista'. Fiquei muito mais aliviada.
Ainda em Boston tive o prazer de ouvir ao vivo o sotaque local, semelhante ao de Woody Allen.

A caminho de Oakland, paragem em Denver. Viagem: 4:30h.
Conclui que os americanos (a UNITED) conseguem ser mais forretas que a SATA, pois que nao serviram qualquer alimento solido durante a longa viagem.

Denver - Oakland
Os americanos sao realmente um espanto!!! Um pais que produz coisas como um 'Keep your distance bug catcher!' merece imediatamente o meu mais profundo respeito.

No proximo capitulo, a minha percepcao acerca da campanha presidencial.


(P.S. Devido a constrangimentos informaticos, nao foi possivel apresentar os acentos e cedilhas contestados pela lingua portuguesa)


DO

domingo, 6 de janeiro de 2008

Bonobos e o puritanismo americano

...
"Descobri que protestar acerca dos "Americanos" não é um passatempo europeu muito simpático, mas é impossível discutir os bonobos sem dizer alguma coisa sobre o puritanismo. Embora eu tenho vivido nos EUA durante duas décadas e tenha uma carinho genuíno pelo país e pelas suas gentes, nunca me acostumarei à relação entre o sexo e o pecado. A culpa e o sofrimento - já para não mencionar a hipocrisia - que essa associação cria ultrapassam-me. De bom grado evitaria este tópico se não fosse pela questão que persistentemente surge quando as pessoas ouvem pela primeira vez falar de bonobos - nomeadamente, porque é que esta espécie não é mais amplamente conhecida. A resposta está, em parte, no facto de eles nos recordarem um aspecto de nós próprios que tentamos controlar a toda a força. Em vez de serem trabalhadores e castos os bonobos levam vidas promíscuas e hedonistas. Se eles são os nossos parentes mais próximos, o melhor é mantê-los afastados!
Ora, eu conheço muitos americanos que têm uma mente aberta no que a questões sexuais diz respeito mas, infelismente, a sua sociedade não é aberta. Chamo a isto a primeira lei do Puritanismo: o todo é mais puritano do que as partes. (...) A segunda lei é que a repressão sexual é mais difícil de ver do lado de dentro do que do lado de fora. Os americanos estão habituados a viver num país onde as casas de banho se chamam «restrooms», onde nem mesmo os ginecologistas observam os seus pacientes nus, onde se pode ser presa por amamentar em público, onde as «pinups» aparecem em fatos de banho e onde os comediantes chocam as audiências, provocando risos convulsivos, mencionando apenas o nome de uma parte tabu do corpo. Eles não se dão conta o quanto tudo isto parece estranho quando visto do exteri0r. Uma excepção possível está nos americanos que viajaram para o estrangeiro e que poderão ter visitado uma casa de banho Japonesa onde é obrigatório retirar toda a roupa mesmo na presença do sexo oposto. P0dem ter visto a prostituição livre e aberta em Amesterdão e Hamburgo ou ter encontrado pessoas que, no que toca à vida sexual dos seus lideres, simplesmente encolhem os seus ombros."
(Waal, The Ape and the Shushi Master, Basic books, 2001, p.134-135 tr. de LFB)

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Uma data para recordar


este texto de Paul Berman (2004).

"Um amigo, deitando-se sobre o balcão, disse "afirmas que a guerra no Iraque é uma guerra antifascista. Até dizes que é uma guerra de esquerda; uma guerra de libertação. No entanto, na esquerda, poucas pessoas concordam contigo."

"Não é verdade!", disse eu. "Aparte de X, Y, Z cujos nomes ligados com a esquerda conheces bem. O que pensas de Adam Michnik da Polónia? E Vaclav Havel não conta? (...)"

Ele persistiu. "A maioria das pessoas não concorda contigo. Porque será?"

Por que é que as pessoas de esquerda não pensam como eu? Exceptuando aqueles que pensam como eu? Dou-te várias razões:

Porque Bush é um político repulsivo e as pessoas estão cegas pela repulsão que sentem (...). "[se fosse, Clinton, seria diferente? Hoje é um benfeitor... digo eu]."

Porque muitos outras pessoas inteligentes decidiram, a priori, que todos os grandes problemas políticos vêem da América. Uma atitude que há sessenta anos atrás os teria impedido de compreender o fascismo europeu. (...)

Porque muitos, na sua bondade respeitosa para com as diferenças culturais, concluíram que os Árabes, por razões imprescrutáveis que só a eles dizem respeito, gostam de viver sob didaturas grotescas e não são capazes de mais nada...[uma espécie de racismo para com os Árabes, digo eu e ele]. A antiga esquerda costumava pensar que todos, e em todo o mundo, quereriam um dia viver de acordo com os mesmos valores fundamentais e deveriam se ajudados a conseguí-lo. Hoje, num espírito de tolerância igualitária afirmam: Democracia social para a Suécia. Tirania para os Árabes... É isto uma atitude de esquerda? A esquerda, a verdadeira, costumava ser a campeã das populações minoritáriascomo os Kurdos. Mas já não o é.

Porque muita gente acredita honestamente que os problemas de Israel com a Palestina representam mais do que uma disputa miserável sobre fronteiras e reconhecimento mútuo. Que os problemas de Israel são algo maior, um aspecto diabólico único do zionismo que explica o ódio e a humilhação sentida pelos muçulmanos de Marrocos à Indonésia. Na realidade muita gente sucumbiu perante fantasias anti-Semitas.... Muito se diz sobre os pecados de Israel, e muito pouco sobre os movimentos de influência fascista que causaram milhares e até milhões de mortes noutras partes do mundo muçulmano...Porque muita gente é cega perante o anti-Semitismo noutras culturas...Se abrissem os olhos poderiam ver que o partido Baath (um movimento fundado sob influência nazi em 1943 ) e os movimentos islâmicos são muito parecidos com os movimentos clássicos fascistas. Isto acaba por ser o legado fascista e totalitário que a Europa transmitiu ao mundo Muçulmano moderno.


Disse ele "E então As nações Unidas e a lei internacional não significam nada...?


Respondi, seria melhor combater o antifascismo com a aprovação da Onu. (...) Apoiar a guerra em nome do antifascismo, ou recusar a guerra em nome da lei internacional. Anti-fascismo sem a lei internacional; ou a lei internacional sem antifascismo. Uma escolha miserável, sem dúvida...

Ele disse, "Eu sou pela lei internacional e penso que traíste a esquerda. Um neocon!"

Eu disse, "Eu sou pelo derrube de tiranos, e desde quando é que derrubar o fascismo se tornou traição?".

"Mas não é Bush uma espécie de fascista?", disse ele.

"Não fazes ideia do que é fascismo." Disse eu. "Sempre pensei que a denúncia e o combate da extrema opressão eram as características principais de um coração de esquerda." Confundir sepulturas em massa, e uma população esmagada por trinta e cinco anos de Baath, com a corrupção e os favorecimentos de Bush é ridículo."(...)

Contudo, nada disto fez sentido para ele, e nada mais houve a fazer senão acenar com as nossas respectivas bebidas.

Berman, Paul, Dissent Magazine (Winter, 2004).

(Tradução livre LFB)

quinta-feira, 17 de maio de 2007

A esquerda e a América

Bernard -Henri lévi (BHL), mimetizando a viajem que Alexis de Tocqueville fez em 1831/32 e que deu origem ao livro A democracia na América, fez aquilo que qualquer homem político deveria fazer: viajou pela América, observou, falou com os americanos e escreveu sobre a experiência. O resultado é o livro American Vertigo (que eu não li, baseio este texto apenas na entrevista que BHL deu ao Ípsilon de 4 de Maio).
BHL defende que todos os clichés que a esquerda europeia exibe à boca cheia sobre a América são falsos, ou então que as coisas são muitos mais complexas do que o anti-americanismo nos quer fazer crer. Vindas de um intelectual da esquerda francesa vale a pena reter algumas das suas muito discutíveis ideias:

1) catalogar a América de imperialista é uma ideia a rever (os imperialismo estiveram sempre na Europa, e foi contra eles que a nação americana se revoltou. O peso da tradição imperialista é uma coisa dos países europeus e não da América);

2) a América tem um sistema de saúde e de segurança social que é "uma mistura de público e privado";

3) a segregação racial nos estados do sul é, em grande parte, uma coisa do passado;

4) A América é materialista mas "é provavelmente o país mais religioso do mundo";

5) Guantánamo "é inadmissível (...) mas não é o Gulag", este significou "dezenas de milhões de mortos aquele algumas centenas de prisioneiros sem direitos, em alguns casos torturados";

6) a democracia liberal é boa para todos e é preciso derrubar os ditadores, o que faltou à América no Iraque foi "um consenso Internacional, aliados no terreno e um plano de reconstrução";

7) "O anti-americanismo é uma ideia [com origens] na extrema direita" europeia; é uma ideia fascista contra uma nação democrática; é grave que a esquerda actual o queira introduzir nos seus programas políticos porque transporta consigo os perigos do nacionalismo fascista baseado na "raça" e no "sangue";

8) A luta contra o terrorismo islâmico é uma luta política contra o fascismo de origem ideológica europeia e não uma luta religiosa (é simplista pensar que o terrorismo existe porque os terroristas, orientados por gente cheia de dinheiro, passam fome e são dominados pelo imperialismo americano).

(LFB)

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

América, América

I love you.

(Jorge de Sena)