Mostrar mensagens com a etiqueta Drogas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Drogas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de julho de 2018

domingo, 22 de abril de 2012

Profecia autocumprida

"Dois anos antes [1956] haviam começado os trabalhos de um comité conjunto da Sociedade Médica Americana e da Federação de Colégios de Advogados, no qual iriam incorporar-se sociólogos de diferentes universidades em busca de uma alternativa viável à política oficial em matéria de drogas. As suas conclusões, que se publicaram em 1958 (...) afirmavam que a cruzada era uma empresa pseudomédica e extrajurídica cujas consequências só podiam ser o crime e a marginalização. Apoiando-se no conceito de profecia autocumprida (acabado de desenvolver pelo sociólogo R. K. Merton), a cruzada farmacológica apresentava-se como um processo circular, onde lhe é imposta uma certa imagem de realidade, que a seguir é exibida como efeito independente da sua imposição; o facto de os consumidores de algumas drogas serem adolescentes, criminosos, indesejáveis ou mendigos não podia atribuir-se a esta ou àquela substância, mas sim à lei vigente. 

O relatório incluía dois apêndices: o primeiro elogiava o método inglês de tratar os adictos -- receitando-lhes gratuitamente ou a preço muito baixo heroína e morfina --, tanto pelos seus resultados práticos como pelos seus fundamentos teóricos; o segundo apêndice criticava a legislação norte-americana por omitir requisitos formais e substantivos próprios de qualquer norma positiva num Estado de direito."

Antonio Escohotado, História Elementar das Drogas, p. 131.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Desolados gangsters

" Em 1933 revoga-se a lei Seca, atendendo a que produziu «injustiça, hipocrisia e a criminalização de grandes sectores sociais, obscura corrupção e a criação do crime organizado». As três «famílias», separadas até então por ferozes rivalidades, acordam numa política de coexistência pacífica, aconselhável perante a iminente ruína que para elas representa o fim desta proibição. 
É então que os chefes do gang judeu e do italiano -- M. Lansky e S. Luciano -- estudam a possibilidade de se   dedicarem à morfina e cocaína, aproveitando a proibição vigente para essas drogas. A cocaína não serve, porque nesse mesmo ano acaba de se comercializar a anfetamina -- um estimulante muito mais activo, de venda livre nas farmácias --, e a morfina -- com escassa capacidade eufórica -- parece ainda demasiado ligada a gente de ordem. Mas o legislador americano decidiu há pouquíssimo tempo ilegalizar a produção e venda de heroína -- usada até esse momento como cura de opiómanos e morfinómanos --, e aqui encontrarão os desolados gangsters a sua tábua de salvação."

Antonio Escohotado, História Elementar das Drogas, p. 100. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A beautiful scam!


"A beautifully bizarre law of that time, when the National Health started, was that if you were a junkie, you registered with your doctor, and that would register you with the government as being a heroin addict, and then you would get pure little heroin pills, with a little phial of distilled water to shoot it up with. And of course any junkie is going to double how much he says he needs. Now, at the same time, whether you wanted it or not, you got the equivalent in cocaine. The theory being that the coke would counteract the junk and maybe make the junkies useful members of society, on the grounds that if they take just the junk, they’ll lie down and meditate and read things and then shit and stink. And the junkies of course would sell off their cocaine. They doubled their actual need for heroin, so they’ve got half their heroin stash to sell off, plus all of the cocaine. A beautiful scam! And it was only when the program stopped that you really began to have a drug problem in the UK."

Life (Keith Richards and James Fox (Contributor))
- Highlight Loc. 3801-8

sexta-feira, 6 de abril de 2012

what a trip!

There’s not much you can really say about acid except God, what a trip! Stepping off into this area was very uncertain, uncharted. In the years ’67 and ’68 there was a real turnover in the feeling of what was going on, a lot of confusion and a lot of experimentation. The most amazing thing that I can remember on acid is watching birds fly—birds that kept flying in front of my face that weren’t actually there, flocks of birds of paradise. And actually it was a tree blowing in the wind.

Life (Keith Richards and James Fox (Contributor))
- Highlight Loc. 3002-5

 

The Moroccan specialty was kef, the leaf cut up with tobacco, which they smoked in long pipes—sebsi, they called them— with a tiny little bowl on the end. One hit in the morning with a cup of mint tea. But what Achmed had in large quantities and which he imbued with a new glamour was a kind of hash. It was called hash because it came in chunks, but it wasn’t hash strictly speaking. Hash is made from the resin. And this was loose powder, like pollen, from the dried bud of the plant, compressed into shape. Which was why it was that green color. I heard that a way of collecting it was to cover children in honey and run them naked through a field of herb, and they came out the other end and they scraped ’em off. Achmed had three or four different qualities, decided by which kind of stocking he put it through. There would be the coarser ones, and there would be the twenty-four denier, very close to the dirham, the money. The high-quality one went through the finest, finest silk. It was just powder by then.

Life (Keith Richards and James Fox (Contributor))
- Highlight Loc. 3198-3205

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Guerra contra a droga": efeitos colaterais


"(...) uma série de trabalhos de investigação evidenciava o facto de serem as respostas repressivas instigadas pela política proibicionista a estarem na base dos aspectos mais preocupantes das drogas em meio urbano. Destacaremos as principais: a prática do consumo injectado como modo de rentabilização dum produto excessivamente caro para o utilizador; a organização de mercados de rua que se instalariam nas zonas mais fragilizadas das cidades contribuindo para o agravamento das suas dificuldades estruturais; a ilegalidade dos mercados como favorecedora do envolvimento no negócio de delinquentes de carreira, reforçando assim a sua posição na hierarquia do crime; a condenação do utilizador regular a uma série de juízos negativos que, em muitos casos, terminam em forte estigmatização social; a associação do consumo ao pequeno delito urbano e do abastecimento ao crime organizado; os problemas causados à gestão do sistema penitenciário pela chegada à prisão duma grande quantidade de dependentes de drogas duras; a violência policial contra certos grupos marginalizados com o pretexto da repressão ao tráfico… Em suma, o proibicionismo seria responsável por uma série de efeitos colaterais ao objectivo de erradicação das drogas – como é, aliás, típico de toda e qualquer guerra. Dito doutro modo, uma parte importante dos riscos e danos que as políticas de saúde baseadas na Redução de Riscos procuram minorar são decorrentes, não da natureza química das drogas, não da natureza psicológica dos seus utilizadores – mas do próprio modelo proibicionista."

Fernandes, L. (2009). "O que a droga faz à norma". Revista Toxicodependências. Vol. 15, nº1, p. 12

sábado, 13 de agosto de 2011

O senso comum e a "droga"

"Em síntese, as várias investigações sobre as representações sociais e sobre as imagens mediáticas da “droga”, do “drogado”, do “toxicodpendente”, mostram o carácter simplista, redutor e ambíguo dos elementos com que se compõem essas figuras. O pensamento coisista uniformiza (“a droga” em vez de drogas várias, sejam legais ou ilegais; o “drogado”, o “toxicodependente” em vez das várias relações com as várias substâncias), toma a parte pelo todo (o "toxicodependente”, o “traficante”, como os actores das drogas, não reservando espaço para outros actores e relações), não discerne diferenças, igualando todos numa espécie de consequência universal da tirania da dependência química. Para agravar este quadro, os anos 90 seriam também os do crescimento epidémico do VIH-Sida, de que o utilizador de drogas por via intra-venosa se tornou um dos principais atingidos e difusores. "

Fernandes, L. (2011). "Do estereótipo à visão fenomenológica: análises sobre o 'agarrado' ". Revista Toxicodependências. Vol. 17, nº1, p. 22. 

quarta-feira, 16 de março de 2011

Violência

Relato de um utilizador de drogas: "Outro dia fui eu quem foi parar à esquadra! Não me viram todo inchado? Levei um enfardamento. Eu estava no bairro S. a vender umas peças, mas já só tinha um pacote para mim. Tinha no bolso 47.5 euros (...). Um dos polícias veio ter comigo e disse-me 'Ei, tu aí, seu monte de esterco! Andas a vender? Espera aí que eu já te vou foder!' Empurraram-me contra a parede, ao lado do café e obrigaram-me a tirar a roupa toda. Até as cuecas tive de baixar. Não encontraram nada. Eu tinha metido o pacote debaixo da língua. Eles ficaram furiosos, deram-me um soco no estômago e foram ter com outros" (diário de campo, 3. 2. 09).

Relato de um técnico de equipa de rua: "Levavam-nos para os calabouços e davam-lhes cada coça! Quando os utentes tomavam banho lá no centro de apoio eu vi cada coisa! Eles ficavam com o corpo todo marcado. Muitas vezes vi alguns que nem conseguiam andar, punham-nos lá de pé e com o bastão pisavam-lhes as unhas dos pés todas! (...) Ah! Nós presenciamos muitas vezes violência policial. Eles evitavam bater quando estávamos ao pé deles, mas mal nós saíamos, era um vê-se-te-avias! Por isso, muitas vezes ficávamos ao pé deles quando vinha a polícia. E muitos vinham ter connosco!"

A violência policial não deve, contudo, ser isolada (...). [A violência] apresenta-se de várias formas e é exercida sobre vários actores: de utilizadores de drogas contra a polícia, da polícia contra eles, de grupos de jovens contra toxicodependentes, de moradores contra vizinhos... Os junkies que são presença diária na cena drug de rua aparecem como alvo preferencial: são agredidos pelas crianças, pelos dealers, pelos polícias. Configuram-se como perfeitos bodes expiatórios: enfraquecidos, sem voz e sem ninguém que os defenda. "Uma vez os putos pediram-me um cigarro; como não tinha atiraram-me pela ribanceira abaixo. Fodi as costas todas." (Consumidor, registos da equipa de rua, 24.0.06) (...).

Fernandes, L. & Neves, T. (2010). "Controlo da marginalidade, violência estrutural e vitimações colectivas". in Machado, C. (org.). Novas Formas de vitimação criminal. Braga: Psiquilíbrios Edições, pp. ??

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Obama e política das drogas


Estaremos perante o início do fim do paradigma proibicionista/repressivo?
(DO)