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segunda-feira, 21 de julho de 2025

51 e 52. Diário da Peste I e II: Grant Green e Gonçalo M. Tavares

"Alguém mexeu na aparelhagem do mundo e diminuiu o som."





I.


II.



 Programa de jazz e zumbidos outros, à volta do seu ouvido. Transmitidos, pela primeira vez, no Rádio Clube de Angra, a 14 e a 29 de Julho de 2021, respectivamente.. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Sou Investigador. Quero estudar a água.

"Para Tales, pessimista, o tempo só trazia atributos negativos: magreza à saúde, fraqueza à força.
Paixão significava desilusão; e é o entusiasmo da noite que, mais tarde, de manhã, nos fará ficar sem forças - pensava Tales.
Recusou então Lianor; não por sobranceria, mas por prudência. As mulheres guardam no corpo a serpente, sempre pensara.
Desespero em Lianor, claro, como em qualquer mulher rejeitada.
Quis morrer: atirou-se ao mar.
Tales interrompeu a sua tarefa de olhar o que não é possível ser olhado, ouvira os gritos dos habitantes de Mileto:
Lianor desaparecera nas águas!
Tales correu para a praia. Olhou para o fundo:
- Este mar matou - disse. - Está calmo demais.
Indisciplinado por natureza, depois deste acontecimento, Tales transformou-se. Levantava-se agora, todas as manhãs, a hora certa.
O que fazia?
Ele, o filósofo, o sábio, pegava no barco, que enchera de arroz na véspera, e entrava no mar. à medida que avançava ia atirando arroz à água, como se esta fosse um ser com fome.
- Se os peixes e a água comerem arroz, os peixes e a água esqueceram a carne de Lianor.
Assim pensava Tales, o sábio.
Durante vinte e cinco anos ele manteve o mar alimentado com arroz. Jurava, no entanto, não o fazer por amor; era orgulhoso. Dizia:
- Sou Investigador. Quero estudar a água."
                    Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas, Caminho, 2014, pp. 25-26.                       

Se me queres não me podes julgar.

"Há uma história oriental que nos pode ensinar algo nesta situação. é a de um monge que tem por tarefa levar um mocho mágico, dentro de um saco, de um lado ao outro da cidade. O mocho diz-lhe: vou contar-te algumas histórias acerca da minha vida, actos bárbaros que pratiquei e actos generosos. Sempre que julgares os meus actos eu desapareço e tu és obrigado a começar de novo. Assim foi: o animal contou então uma das suas façanhas medonhas e o monge não resistiu a dizer: isso é mau! Resultado: de imediato o mocho desapareceu do saco e o homem viu-se obrigado a voltar ao ponto de partida, onde o animal mágico o esperava para relembrar:
Se me queres não me podes julgar.
Falhou mais duas vezes o monge, pois a meio do caminho descuidava-se e, por palavras ou pensamentos, aprovava ou desaprovava as histórias contadas. à quarta tentativa conseguiu, finalmente. Ouviu histórias, do princípio ao fim, e não as julgou. Conseguiu, assim, levar o mocho até ao outro lado da cidade. A aprendizagem terminara."

                         Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas, Caminho, 2014, pp. 44-45.                       

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Encontro com Gonçalo M. Tavares, José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia


Os Poetas


"OS POETAS, numa enorme fila que ultrapassa já a esquina do quarteirão seguinte, aproveitam o momento de espera para preencherem cuidadosamente o formulário."

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

"Multiplicar, enfim, as possibilidades de se continuar a pensar" (p.67)

"Vistas como indiscutíveis, a verdade e a explicação única destroem a amizade, que deveremos definir como o espaço onde podemos discordar sem matar.
Sou teu amigo, posso discordar de ti. Ou seja: posso explicar de uma outra maneira; sei que não corro perigo se o fizer à tua frente.
Inimigo será, neste sentido, aquele que não aceita discordar. Inimigo é aquele que exige concordância, sempre; amigo, pelo contrário, é aquele que aceita e, por vezes, até exige, discordância."

        Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação - Teoria, Fragmentos e Imagens, Caminho, 2013, p. 68.    

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Estados de espírito

"De certa maneira, a investigação que investiga conceitos é um pensamento que está perdido - há tanta coisa à nossa volta, tantos acontecimentos, livros, autores: porquê seleccionar uns e não outros?, porquê mais atenção a esta obra e não à outra do mesmo autor?, a este conceito, a esta frase e não a outra?, qual a razão, enfim, para se avançar por este e não por aquele lado? 
Todo o investigador investiga porque está perdido e  será sensato não ter a ilusão de que deixará de o estar. Deve, sim, no final da sua investigação, estar mais forte. Continua perdido, mas está perdido com mais armas, com mais argumentos. Como alguém que continua náufrago, mas que tem agora, contra as intempéries e os perigos, um refúgio mais eficaz.
Llansol: "tentar dizer o que uma coisa é, é viver""

                       Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação - Teoria, Fragmentos e Imagens, Caminho, 2013, p. 38.           

sexta-feira, 4 de março de 2011

"
Perceber não é uma actividade para lentos,
é urgente.
Nascemos: e quase nos afogamos; e perceber é tentar
nadar até à margem seca.
Não existe margem seca, dirá o senhor Shankra,
mas que sabemos nós?
Somos humanos: estamos encostados a hábitos
que nos fazem sentir imortais. Enganamo-nos, portanto.
Estamos vivos, levantamos a cabeça: cortam-nos a cabeça.
Eis tudo.
"



Tavares, Gonçalo, M., Uma viagem à Índia, Caminho, 2010, p.355.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"
A verdadeira democracia é um compartimento
que está ocupado
- e o homem terá de esperar.
A vingança poderá ser exercida como um qualquer direito
de cidadania, desde que dentro dos prazos
estabelecidos. (...)"

Tavares, Gonçalo, M., Uma viagem à Índia, Caminho, 2010, p.79

sábado, 24 de julho de 2010

José Saramago

[...]
- Foi hoje anunciado o vencedor do prémio Nobel da Literatura.
- quem é que ganhou?
- Herta Müller
- Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
- Não, até hoje de manhã... Mas o seu próprio nome aparece constantemente como um potencial vencedor...
- Isso é um erro. O meu nome é falado na imprensa, mas não na Suécia. Isso é apenas falatório. [...]
- Conhece o trabalho de José Saramago?
- Não, não conheço."
(Entrevista de João Luz a Philip Roth, Jornal Expresso # 1929, 17 Outubro de 2009, revista Actual)
«»«»«»«»
[...]
"Podemos olhar para parte da obra de Saramago a partir de um ensaio de Sloterdijk sobre a aprendizagem na «cultura pânica», onde se fala do «ensino pela catástrofe» - essa ideia de que «somente o ensino prático do que é mau pode iniciar uma viragem para o que é melhor». A ideia é simples: os ouvidos e os olhos são meios frágeis de aprender, meios rudimentares, dir-se-ía. Só se aprende quando as coisas tremem e as catástrofes podem assim ser vistas como avisos, como algo mais forte que não tem outra forma de ensinar a não ser assustar-nos - e nesta categoria entrariam as calamidades naturais e outras; «quem não quer ouvir tem que sentir», escreve Sloterdijk, que realça nesse ensaio essa «aprendizagem com o pior no último minuto». Trata-se de uma «pedagogia pela catástrofe» em que se acredita que há «conexões imperativas entre a desgraça e o entendimento» e «energias didácticas e transformadoras da opinião que irradiam das tragédias»." [...]
(Gonçalo M. Tavares, revista Ler, Julho/Agosto 2010, nº93, p.49)
«»«»««»
[...]
- Como me disse que há escritores para quem o prémio se torna um farol...
- Ah, isso há. Agora mesmo, o Philip Roth está esperando o Nobel. Esse está claríssimo.
- Isso é claro, para si, também naquilo que ele tem escrito?
- Não é naquilo que ele escreve. É na postura.
- Seria um bom Nobel?
- Eu creio que sim. é um grande narrador. Um enorme narrador. Capaz de tornar fascinante qualquer descrição que faça. De uma situação de um lugar. É realmente muito bom. não me surpreenderia nada que fosse."
[...]
(Entrevista de de Carlos Vaz Marques, em Julho de 2008, a José Saramago, revista Ler, Julho/Agosto 2010, nº93, p.64)

domingo, 11 de fevereiro de 2007

  1. Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump, p.117

    "(...) Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas. Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem altamente inteligênte mas imóvel. (...)"

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Depois das Eleições

Depois de uma campanha eleitoral animada, a grande vantagem de qualquer eleição democrática é a de o povo sair, finalmente, da sala de estar dos políticos. É uma sensação de alívio que alguns eleitos descrevem como semelhante ao momento em que uma dor intensa, por qualquer razão obscura, termina.(...) Depois de qualquer eleição a sensação dos políticos - quer tenham perdido quer tenham ganho - é a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltará apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a eleição seguinte.Esse intervalo temporal é indispensável para que o político tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou a indiferença em nova paixão genuína.



Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Kraus



Até às próximas!


(D.O.)