sexta-feira, 8 de abril de 2016

viver uma vida boa e digna de ser vivida

"E hoje, enfraquecido, sem fôlego, com os músculos outrora firmes debilitados pelo cancro, dou por mim a pensar, cada vez mais, não no sobrenatural ou no espiritual, mas no que significa viver uma vida boa e digna de ser vivida, de modo que nos sintamos em paz connosco. Descubro que os meus pensamentos se voltam para o Sabat, o dia de repouso, o sétimo dia da semana, e talvez também o sétimo dia da nossa própria vida, quando sentimos que fizemos o nosso trabalho e que, com a consciência em paz, podemos descansar."
Oliver Sacks, Gratidão, Relógio D'Água, 2016, p.47.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Kenny Garrett - Equinox



Kenny Garrett - alto saxophone
Pat Metheny - guitar
Rodney Whitaker - bass
Brian Blade - drums

Oh, Kertész is dead

Oh, Kertész is dead
Eco is dead
Sacks is dead
Oh, show me in the face
something new about Kertész.
Eco is studing
Sacks is writing
Oh, show me the way
to the next dead man.
Yeah, show me in the face
now that we can no more
that I me still breathing.

sábado, 12 de março de 2016

Oliver Sacks on Tourette Syndrome


Estados de espírito


"Sou um contador de histórias, para o melhor e para o pior. Suspeito que a sensibilidade para histórias, para narrativas, é uma predisposição universal,  nos seres humanos, tão universal como a capacidade linguística, a consciência de si próprio e a memória autobiográfica.
O ato de escrever, quando corre bem, proporciona-me um prazer, uma alegria, que não tem comparação com mais nada. Conduz-me para outro lugar - independentemente do assunto -, onde me absorvo por inteiro e esqueço pensamento distrativos, cuidados, preocupações, e até o próprio passar das horas. Nesses raros mas divinais estados de espírito, posso escrever sem interrupções até deixar de conseguir ver a página. Só então me dou conta de que a noite caiu e de que estive o dia todo a escrever.
Ao longo duma vida, escrevi milhões de palavras, mas o ato de escrever parece-me sempre tão novo, e tão divertido, como no dia em que comecei, há quase setenta anos."
                             Oliver Sacks, Em movimento - Uma Vida, Relógio D'Água, 2015, p.320.                 



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Sorry, Ludwig: Oliver Sacks' Brain on Bach

quinta-feira, 10 de março de 2016

terça-feira, 8 de março de 2016

Art Blakey & The Jazz Messengers - A Night In Tunisia




Drums: Art Blakey
Trumpet: Lee Morgan
Sax: Benny Golson
Piano: Bobby Timmons
Bass: Jymie Merritt

quinta-feira, 3 de março de 2016

Render a alma

Meursius
Por sugestão de Casanova, História da Minha Vida I, Divina Comédia Editores, 2013, p. 338-339, onde se pode ler:

"M. M. pega nas estampas de Mersius, onde havia belos combates amorosos entre mulheres, e, lançando-me um olhar malicioso, pergunta-me se quero que ela mande acender a lareira no quarto da alcova; percebendo a sua ideia, respondo-lhe que tal me daria prazer porque, como a cama era grande, poderíamos deitar-nos lá os três. Ela receou que eu pudesse suspeitar de que o amigo estivesse no esconderijo. Assim, põe-se a mesa diante da alcova e eis-me descansado quanto à suspeita de ser visto. Servem-nos e ceamos com vivíssimo apetite. M. M. ensinava C. C. a preparar o ponche. Com elas à minha frente, admirava o progresso da beleza de C. C."

O mundo dos meus olhos

Kraus foi ao  médico que, olhando para uma chapa dos seus pulmões, lhe disse que não via nada de especial. Kraus sentiu uma nesga de alívio mas não deixou de registar como os médicos podem ser uma desilusão.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

gratificações subjectivas e ordem na consciência

"Existem duas palavras cujo significado reflecte a nossa atitude relativamente aos níveis de compromisso com actividades mentais ou físicas. Estes termos são amador e diletante. Actualmente, estes rótulos são um pouco depreciativos. Um amador ou um diletante é alguém que não está muito a par, uma pessoa que não se leva muito a sério ou cuja actuação não se conforma com as normas profissionais. Originalmente, contudo, «amador», do latim amare, «amar», referia-se a uma pessoa que gostava do que fazia. Do mesmo modo, um «diletante», do latim delectare, «deleitar-se», era alguém que desfrutava de uma actividade. Os significados primitivos destas palavras reportavam-se, portanto, mais à experiência do que à realização; descreviam as gratificações subjectivas que se obtinham por fazer coisas, e não a forma como elas estavam a ser realizadas. Nada ilustra melhor a nossa mudança de atitude relativamente à experiência como o destino destas duas palavras. Tempos houve em que era admirável ser-se poeta amador ou cientista diletante, porque isso significava que a qualidade de vida podia ser melhorada pela dedicação a essas actividades. Gradualmente, contudo, aumentou a ênfase dada ao valor do comportamento em desprestígio dos estados subjectivos; o que se admira é o sucesso, a realização, a qualidade da execução e não a qualidade da experiência. Consequentemente, tornou-se embaraçoso ser-se chamado diletante, embora ser um diletante signifique alcançar o que é mais importante -  o desfrute que as acções possibilitam.
É verdade que o tipo de aprendizagem diletante fomentada aqui pode ser abalada mais facilmente do que a disciplina profissional, se quem aprende descurar o objectivo que o motiva. Leigos com interesses pessoais viram-se para a pseudociência para conseguir os seus intentos e, muitas vezes, os seus esforços quase não se distinguem dos amadores intrinsecamente motivados.
O interesse na história das origens étnicas, por exemplo, pode ser facilmente pervertido por uma procura de provas de superioridade relativamente a outros grupos. O movimento nazi, na Alemanha, recorreu à antropologia, à história, à anatomia, à língua, à biologia e à filosofia para forjar a teoria da supremacia da raça ariana. Académicos profissionais também foram apanhados por este projecto duvidoso apesar de ter sido inspirado por amadores e de ser regido por regras que pertenciam à política e não à ciência.
(...)
A má conotação que os termos amador e diletante adquiriram ao longo dos anos deve-se, em larga medida, ao esbatimento da distinção entre objectivos intrínsecos e extrínsecos. Um amador que julga saber tanto como um profissional está provavelmente errado e pretende ludibriar-nos. O objectivo de um cientista amador não é competir com profissionais no seu terreno, mas utilizar uma disciplina simbólica para alargar as suas faculdades mentais e criar ordem na consciência. A este nível, o conhecimento amador tem o seu lugar e pode mesmo ser mais eficaz do que o seu parceiro profissional. Mas, logo que o amador perde de vista este objectivo e utiliza o conhecimento principalmente para alimentar o ego ou obter benefícios materiais, torna-se numa caricatura do académico. Sem formação na disciplina do cepticismo e da crítica recíproca subjacentes ao método científico, as pessoas comuns que se aventuram nos domínios do conhecimento com objectivos preconceituosos podem tornar-se mais cruéis e mais ostensivamente indiferentes à verdade do que o académico mais corrupto."
                                  Mihaly Csikszentmihalyi, Fluir, (tr. M. A.), Relógio D´Água, 1999, pp. 192-4.               

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Ahmad Jamal - Moods


Homem máquina

"Uns quilómetros adiante, perguntou-me de repente: "Já ouviste falar no processo de Bessemer?"
"Já", disse eu. "Demo-lo em química, na escola".
"Alguma vez ouviste falar do John Henry, o preto de aço? Pois bem, morava aqui mesmo. Quando foi inventada uma máquina para cravar estacas de aço num leito de rio, eles dissaram que o trabalho humano nunca poderia competir com a máquina. Os pretos fizeram uma aposta, e trouxeram o mais forte dentre eles: o John  Henry. Diz-se que os bíceps dele tinham mais de cinquenta centímetros de diâmetro. Pegou em duas marretas, uma em cada mão, e cravou cem estacas mais depressa do que a máquina. Quando chegou ao fim, deitou-se no chão e morreu. Nem  mais! Isto é a região do aço."
                            Oliver Sacks, Em movimento - Uma Vida, Relógio D'Água, 2015, p.76.                

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

"Nenhum homem, durante um espaço razoável de tempo, pode usar uma cara para si e outra para a multidão, sem que por fim fique confuso sobre qual delas é a verdadeira."

(Nathaniel Hawthorne, A letra Encarnada (The Scarlet letter), tr. Fernando Pessoa, Pub. D. Quixote, 2009, p. 227)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O mundo dos meus olhos.

Quem sou eu para avaliar a arte? Mas a verdade é que ser arte é pôr-se a jeito. Quando a arte é boa sou eu que saio destrochado. Quando a arte é má, é ela que sai destroçada.

Robert Glasper - Stella By Starlight


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

continuar a moldar

«Há momentos em que chego a pensar que chegou a hora, por exemplo num daqueles dias em que me sinto em baixo», disse ele. «Às vezes, uma pessoa está farta de tudo, percebe? Eu moía o juízo à minha Shelley. Dizia-lhe: "sabes que em África, quando uma pessoa envelhece e deixa de produzir, o grupo leva-a para a selva e deixa-a lá para ser consumida pelos animais selvagens." Ela achava que eu era doido. "Não", dizia eu. "Já não produzo nada, só estou a custar dinheiro ao governo." De vez em quando, dá-me para isso. Mas depois penso: Ei, a vida é o que é. Deixa-te ir. Se te querem por cá que mal tem?»
(...) Estávamos a falar sobre a história da vida dele há quase duas horas, quando me apercebi de que, pela primeira vez na vida, não tinha medo de chegar à fase em em que ele estava. O Lou tinha noventa e quatro anos e realmente não havia nada de cativante nisso. Os dentes pareciam pedra caídas. Doíam-lhe todas as articulações. Perdera um filho e a mulher já não conseguia andar sem o andarilho (...). Mas também era evidente que conseguia viver de uma maneira que o fazia sentir que ainda tinha um lugar no mundo. As pessoas ainda o queriam por perto. E isso levantava a possibilidade de o mesmo ser verdade, um dia, para qualquer um de nós.
O pavor da doença e da velhice não é só o pavor das perdas que nos vemos obrigados a suportar; é também o pavor do isolamento. À medida que as pessoas se vão apercebendo da finitude da sua vida, deixam de pedir muito. Não procuram mais riquezas. Não procuram mais poder. Pedem apenas que as deixem, dentro do possível, continuar a moldar a história da sua vida no mundo:  a fazer escolhas  e a manter relações com os outros segundo as suas próprias prioridades. Na sociedade moderna, temos vindo a partir do princípio de que a debilidade e a dependência excluem esse tipo de autonomia. O que aprendi com o Lou (...) é que, sim, é possível.
«Não me preocupo com o futuro», disse o Lou. «Os japoneses têm a palavra karma. Significa: se é para acontecer, não há nada que eu possa fazer para o impedir. Sei que o tempo é limitado e daí? Tive uma boa vida.»

Atul Gawande, Ser Mortal, Lua de Papel, 2014, p. 148-149

pensamentos e preocupações

Morrer costumava fazer-se acompanhar por um conjunto predefinido de costumes. Guias sobre a ars moriendi, a arte de morrer, eram extraordinariamente populares; uma versão medieval publicada em latim, em 1415, foi reeditada em mais de uma centena de edições em toda a Europa. As pessoas achavam que a morte devia ser aceite estoicamente, sem medo ou autocompaixão ou esperança de algo mais que não o perdão de Deus. Refirmar a fé, arrepender-se dos seus pecados e desapegar-se dos seus bens materiais e desejos mundanos eram etapas cruciais, e os guias ofereciam às famílias preces e perguntas para fazerem aos moribundos, de modo a colocá-los no estado de espírito certo, nas suas derradeiras horas de vida. As últimas palavras revestiam-se de uma reverência especial.
Hoje em dia, uma doença catastrófica e rápida é que é a exceção. Para a maior parte das pessoas, a morte só chega depois de uma longa luta médica com uma doença que, no fim, é imbatível (...). Em todos os casos, a morte é certa, mas o momento em que vai chegar, não. Por isso, toda a gente se debate com esta incerteza: como, e quando, aceitar que a batalha está perdida? Quanto a últimas palavras, parece que praticamente já nem existe tal coisa. A tecnologia pode sustentar os nossos orgãos até estarmos muito para lá de um estado de consciência e coerência. Além disso, como é que podemos tratar dos pensamentos e preocupações dos mortos, quando a Medicina fez com que se tornasse quase impossível ter a certeza sobre quem é que está a morrer? Estará  uma pessoa com um cancro terminal, demência ou insuficência cardíaca incurável efetivamente à beira da morte?

Atul Gawande, Ser Mortal, Lua de Papel, 2014, p. 158

Miles Davis Quintet



Trumpet: Miles Davis
Saxophone: Wayne Shorter
Piano: Herbie Hancock
Bass: Ron Carter
Drums: Tony Williams

dois eus diferentes

"Achamos que uma dor de longa duração é pior do que uma dor de curta duração e que ter um nível médio de dor maior é pior do que ter um nível médio de dor menor. Mas não foi nada disso que os doentes disseram. As suas classificações finais ignoraram em grande parte a duração da dor. Em vez disso, as classificações regeram-se mais por um fenómeno a que Kahneman chamou « a regra do fico-fim»: a média da dor sentida em apenas dois momentos: o pior momento em toda a intervenção e o final. (...)
As pessoas parecem ter dois eus diferentes: um que passa pelas experiências e vivencia cada instante, e outro que recorda as experiências e atribui quase todo o peso do juízo de valor a dois meros pontos no tempo, o pior e o último. O eu que recorda parece ater-se à regra pico-fim, mesmo quando o final é uma anomalia. Bastou uns minutos  sem dor no fimda intervenção médica para reduzir drasticamente as classificações globais de dor dos doentes, inclusive tendo sentido mais de meia hora intensa de dor. «Não custou tanto», disseram depois. Um final penoso também fez disparar de maneira igualmente radical as classificações de dor. (...) A investigação demonstrou também que o fenómeno se aplica exatamente da mesma maneira à forma como as pessoas classificam as experiências agradáveis. Toda a gente conhece a experiência de ver uma prova desportiva em que uma equipa joga lindamente durante o jogo quase todo e depois, no fim, estraga tudo. Sentimos que o final dá cabo da experiência toda. Existe, todavia, uma contradição na origem desse valor. O eu que vive as coisas desfrutou de horas de prazer e de apenas um momento de desprazer, mas o eu que recorda não vê prazer nenhum.
 Se o eu que recorda e o eu que vive podem ter opiniões radicalmente diferentes sobre a mesma experiência, então a pergunta difícil que se levanta é a qual dos dois devemos dar ouvidos."
Atul Gawande, Ser Mortal, Lua de Papel, 2014, p.233

obtusos e negligentes

"A sociedade tecnológica esqueceu aquilo a que os estudiosos chamam o «papel do moribundo» e a sua importância para as pessoas à medida que a vida se aproxima do fim. As pessoas à beira da morte querem partilhar recordações, transmitir conhecimentos e conselhos, firmar relações, definir o seu legado, fazer as pazes com Deus e certificar-se de que os entes queridos que deixam para trás ficarão bem. Querem terminar a sua história nos seus próprios termos. Ese papel, segundo os investigadores, é um dos mais importantes da vida, quer para quem está a morrer, quer para quem cá fica. E se assim é, a forma como negamos às pessoas esse papel, por sermos obtusos e negligentes, é motivo de vergonha para todo o sempre. Vezes sem conta, nós, profissionais de saúde, inflingimos feridas profundas no fim da vida das pessoas e depois ficamos a ver, sem termos consciência do mal que fizemos."
Atul Gawande, Ser Mortal, Lua de Papel, 2014, p.241

domingo, 17 de janeiro de 2016

David Bowie - Moss Garden


"Bowie existiu para que todos os desajustados aprendessem que a singularidade é uma coisa preciosa".
Guillermo del Toro, citado no Público de 12 de Janeiro de 2016.

Queen & David Bowie - Under Pressure


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

«que maravilha»

"A estupidez tem qualquer coisa de fascinante. Sou uma pessoa que não conhece exactamente a sua natureza. Por vezes sou sensível como uma donzela. É um aborrecimento ouvir falar da paisagem e de outras coisas do género. As pessoas que têm uma certa cultura deveriam perceber que é néscio exclamar «que maravilha» diante de uma obra de arte. Tecer louvores revela falta de imaginação. O enlevo pode roçar por vezes a estupidez! Uma pessoa feliz pode tornar-se facilmente impopular. Não chega a ser falta de vergonha fazer assim alarde da sua boa disposição, permitir-se ter sempre os olhos a brilhar de felicidade? Sim, porque a todo o momento essa chama de felicidade pode extinguir-se. Deve-se ser comedido nas manifestações de contentamento. Prefiro ser prestável quando ninguém espera isso de mim, não gosto de o ser quando as pessoas crêem que o faço de bom grado."

Robert Walser, A Rosa, Relógio D'Água, 2004, pp.98-99.

sábado, 26 de dezembro de 2015

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

Oscar Peterson - C Jam Blues



Oscar Peterson - Piano
Ray Brown - Contrabaixo
Ed Thigpen - Bateria

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Thelonious Monk, Blue Monk




Thelonious Monk (piano)
Johnny Griffin (tenor saxophone)
Ahmed Abdul-Malik (bass)
Roy Haynes (drums)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Gerry Mulligan - My Funny Valentine




Recorded live on May 1953 ( At the Haig)  
Gerry Mulligan: Sax
Chet Baker: trumpet
Carson Smith: Bass 
Larry Bunker: drums

Lester Young with the Oscar Peterson Trio - "it takes two to tango"


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O seu destino foi funesto e a sua vida quase insuportável

"NA NOITE DE 26 DE SETEMBRO de 1849, Edgar Allan Poe passou pelo consultório de um médico de Richmond, Virgínia - John Carter -, com o intuito de obter alívio para a febre que o andava a atormentar. Depois, atravessou a rua e jantou numa estalagem local, tendo por engano levado a bengala do Dr. Carter consigo.
Poe estava prestes a embarcar no vapor para Baltimore. Esta seria a primeira paragem no caminho até Nova Iorque, onde o aguardava uma série de negócios a tratar. A partida do vapor estava marcada para as quatro horas da manhã seguinte, e a viagem teria uma duração de aproximadamente vinte e cinco horas. Poe surgiu alegre e sóbrio aos olhos dos amigos que o viram antes de partir. A sua ideia era estar fora de Richmond por não mais de duas semanas. Contudo, tinha-se esquecido de trazer a bagagem consigo. Esta foi a última aparição confirmável de Poe até ter sido encontrado moribundo numa taberna, seis dias mais tarde".

Peter Ackroyd, Poe - Uma Vida Abreviada, Camões e Companhia, 2009, p.11.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Roy Haynes, Phineas Newborn & Paul Chambers - After Hours


"a sociedade pestilenta das mulheres literatas"

"Anne Lynch descreveu-o como alguém desprovido de qualquer 'noção de moral'. Deve acrescentar-se que as suas histórias não apresentam qualquer 'noção de moral', e que ele desdenhava de semelhante princípio. Seria de esperar uma maior 'noção de moral' do homem do que do escritor?"

Peter Ackroyd, Poe - Uma Vida Abreviada, Camões e Companhia, 2009, pp.130-131.


deixar para trás todos os problemas e vexames

"Duas noites antes de sair de Richmond fez uma visita aos Talley, uns velhos amigos  a quem se declarou confiante e esperançoso. Poe revelou-lhes que 'as últimas semanas em contacto com os seus novos e velhos amigos tinham sido das mais felizes que tinha vivido nos últimos anos' e que acreditava estar prestes 'a deixar para trás todos os problemas e vexames do passado da sua vida.' Talley adicionou um post scriptum a este encontro pleno de alegria. 'Ele foi o último da festa a sair da nossa casa. Nós estávamos no alpendre, e, depois de avançar alguns passos, deteve-se, virou-se e voltou a levantar o chapéu, num último adieu. Nesse exacto momento, um meteorito brilhante surgiu no céu directamente sobre a sua cabeça, e desapareceu para leste.
Na noite seguinte, a última antes da sua partida, Poe encontrou-se com Elmira Shelton. Posteriormente, esta escreveu a Maria Clemm explicando que 'ele estava bastante triste e queixoso por se sentir doente. Tomei-lhe o pulso, e descobri que tinha muita febre'. A Sra. Shelton acreditava que Poe estava demasiado doente para viajar no dia seguinte, mas para sua mágoa e surpresa, descobriu que ele tinha realmente apanhado o vapor para Baltimore. Poe dava assim início à viagem fatal que iria culminar com a sua morte, tal como foi relatada no primeiro capítulo deste livro. Seis dias mais tarde, seria encontrado destroçado numa taberna em Baltimore. Ninguém sabia onde é que ele tinha estado ou o que tinha andado a fazer. Teria Poe, no estado perturbado em que se encontrava, deambulado pela cidade? Teria sido usado para propósitos de fraude eleitoral numa cidade conhecida pela sua pouca seriedade política? Teria um tumor no cérebro? Trata-se de um mistério tão atormentador como os que se podem encontrar nos seus contos. Poe morreu num hospital num domingo, a 7 de Outubro de 1849. Tinha quarenta anos de idade."
(166-167)

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Stan Getz - I Remember Clifford



Stan Getz: tenor
Chick Corea: piano 
Stanley Clarke: bass
Tony Williams: drums

Comprei o carro mais caro e o tabaco mais barato.

domingo, 8 de novembro de 2015

Brian Blade - Steadfast


Munch, Death in the Sickroom (1895)




Por sugestão de Guido Ceronetti, El Silencio del Corpo, Acantilado, 2006, p. 11, onde se pode ler:

"De Quincey incluía, entre las profundas tragedias de la infancia, «los labios de los muchachos, de los besos de sus hermanas para siempre separados», tragedia que comparte incluso quien no haya tenido hermanas. Tenebrosa, continua muerte de la hermana en las figuras de Munch."

sábado, 7 de novembro de 2015

terça-feira, 3 de novembro de 2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O mundo dos meus olhos

Não é só a morte que é democrática. Também toca a todos o ar poluído que respiramos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O mundo dos meus olhos

Tornamo-nos naquilo que mais criticamos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

domingo, 20 de setembro de 2015

"Explaining Hitler: The Search For The Origins Of His Evil"


aqui no KL: ninguém se conhece a si mesmo. Quem és tu? [fala Doll o Herr Commandant]

"E quanto a Szmul, quanto aos Sonders? Ah,  quase me falta a coragem para passar isto para o papel. Sabem, nunco cesso de me espantar com o abismo da miséria moral a que certos seres humanos estão dispostos a descer...
Os Sonders executam as suas horrendas tarefas com a mais ignara indiferença. Usando grossos cintos de cabedal arrastam as peças dos duches para o Leichenkeller 1; extraem os dentes de ouro com alicates e formões e cortam o cabelo das mulheres com tesouras bem afiadas; arrancam os brincos e as alianças de casamento; depois, enchem com uma pilha a roldana (6 a 7 de cada vez), a qual é içada para fazer entrar os corpos nos fornos; por fim, moem as cinzas e o pó é levado em camiões e deitado ao rio Vístula. Como já disse, fazem tudo isto com a mais ignara insensibilidade. Parece que não se importam minimamente com o facto de as pessoas que eles desfazem serem seus camaradas de raça, seus parentes de sangue.
E os abutres do crematório alguma vez mostram a mais ligeira animação? Ach, sim: quando saúdam os evacuados na rampa e os conduzem para a sala em que os despem. Por outras palavras, eles só se animam com a traição e o embuste.  «Diz-me, qual é a tua profissão?», perguntam eles. «Engenheiro, hã? Excelente. Nós precisamos sempre de engenheiros.» Ou qualquer coisa do género: «Ernst Kahn... de Utreque? Sim, ele e a sua... Ah, sim, Kahn e a sua mulher e filhos estiveram aqui durante um mês ou dois e depois decidiram mudar-se para a estação agrícola. A número um em Stanislavov.» Quando há alguma dificuldade, os Sonders não têm o menor problema em apelar à violência; conduzem o tipo que está a causar chatices ao oficial subalterno mais próximo, o qual lida com a situação da maneira mais adequada.
Estão a ver, no caso de Szmul e dos outros Sonders, interessa-lhes que as coisas corram serena e rapidamente, porque estão impacientes por vasculharem nas roupas despidas e encontrarem qualquer coisa para beber ou fumar. Ou para comer. Eles estão sempre a comer - sempre a comer, os Sonders, a comer os restos surripiados na sala onde os prisioneiros se despem (apesar das rações relativamente generosas de que, ainda por cima, desfrutam). Sentam-se a comer a sopa em cima de uma pilha de Stucke; atolam-se até aos joelhos no pestilento prado enquanto comem um naco de presunto...
Espanta-me que eles decidam persistir, durar, deste modo. E é isso mesmo que eles decidem: alguns (não muitos) recusam categoricamente, apesar das óbvias consequências - porque também eles se tornam Geheimnistrager, portadores de segredos. Não que nenhum deles possa esperar prolongar  a sua cobarde existência por mais do que 2 ou 3 meses. Quanto a este ponto, somos muito claros e diretos: no fim de contas, a tarefa iniciatória dos Sonders é a cremação dos seus antecessores; e assim  continuará a ser. Szmul tem a dúbia distinção de ser o mais antigo cangalheiro do KL - aliás, não me admiraria se ele fosse o mais antigo cangalheiro em todo o sistema concentracionário. É virtualmente um Prominent (até os guardas o tratam com algum respeito). Szmul prossegue. Mas sabe muito bem o que é que lhes acontece - o que acontece a portadores de segredos.
Para mim, a honra não é um caso de vida ou de morte: é muito mais importante do que isso. Os sonders, muito obviamente, têm uma visão diferente. Honra? Nem traço; o desejo animal ou mesmo mineral de persistir. Existir é um hábito, um hábito que eles não conseguem largar. Ah, se eles fossem homens verdadeiros - no lugar deles, eu... Mas esperem. Nós nunca estamos no lugar de ninguém. E é verdade o que se diz, aqui no KL: ninguém se conhece a si mesmo. Quem és tu? Não sabes. Depois, vens para a Zona de Interesse e ela diz-te quem tu és.
  1 Cave dos cadáveres. (N. do E.)"

                         Martin Amis, A Zona de Interesse, Quetzal, 2015, pp. 83-85                                  

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O eu


Seremos o produto de uma cultura superior ou crianças da natureza?

"Quem se atribui muito valor nunca se pode precaver contra o desânimo e a humilhação, já que quem é muito consciente do seu valor sempre se confrontará com alguma coisa hostil a essa consciência. E, contudo, nós alunos não somos inteiramente desprovidos de dignidade, mas é uma dignidade muito, muito móvel, pequena, elástica e moldável. Pômo-la e tiramo-la conforme o que nos é pedido. Seremos o produto de uma cultura superior ou crianças da natureza? Também não sei dizer. Uma coisa sei com certeza: esperamos! É este o nosso valor. Sim, esperamos, mantemo-nos alerta na vida, sobre esta superfície a que chamam mundo, sobre o mar com as suas tormentas. Fuchs, a propósito deixou a escola. Parece-me muito bem. Não sabia o que fazer deste rapaz."
                  Robert Walser, Jakob Von Gunten, Relógio D´Água, 2005, p. 92.                           

Quem é que se aborrece neste mundo? Talvez tu.

"Perguntei há pouco tempo a Kraus se ele de vez em quando não se aborrece. Ele lançou-me um olhar de condenação e reprimenda, pensou um pouco e disse: «Aborrecer-me?» Não és lá muito inteligente, Jakob. E deixa-me que te diga que fazes perguntas tão ingénuas como pecaminosas. Quem é que se aborrece neste mundo? Talvez tu. Eu não, digo-te já. Estou aqui a aprender de cor passagens do livro. E agora? Tenho tempo para aborrecer-me? Que perguntas tão idiotas. Os aristocratas talvez se aborreçam, não Kraus, e tu também te aborreces, porque, se não te aborrecesses, não te teria ocorrido essa ideia e não terias vindo fazer-me essa pergunta. Podemos ocupar-nos sempre com alguma coisa, se não por fora, então por dentro, podemos murmurar. É claro que fazes troça de mim por eu murmurar, mas ouve bem e diz-me lá se sabes o que é que eu murmuro? Palavras querido Jacok. Murmuro e repito palavras constantemente. E é muito saudável, posso dizer-te. Desaparece daqui com o teu aborrecimento. Só se aborrecem aqueles que acham que lhes deve cair do céu alguma coise que os anime. Onde há mau humor, onde há nostalgia, aí encontrarás o aborrecimento. E agora sai daqui, não me perturbes, deixa-me estudar e vai tu fazer alguma coisa. Empenha-te em alguma tarefa que já não te sentirás aborrecido."

                  Robert Walser, Jakob Von Gunten, Relógio D´Água, 2005, p. 85.                              

Estados de espírito


"Dos filósofos, mais do que dos homens comuns, esperamos um sofrimento distinto; sofrer com a calma e a intensidade justas e atingir o sublime por essa via, é isto que se exige aos filósofos."

                                Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas, Caminho, 2014, p. 51.                            

Sou Investigador. Quero estudar a água.

"Para Tales, pessimista, o tempo só trazia atributos negativos: magreza à saúde, fraqueza à força.
Paixão significava desilusão; e é o entusiasmo da noite que, mais tarde, de manhã, nos fará ficar sem forças - pensava Tales.
Recusou então Lianor; não por sobranceria, mas por prudência. As mulheres guardam no corpo a serpente, sempre pensara.
Desespero em Lianor, claro, como em qualquer mulher rejeitada.
Quis morrer: atirou-se ao mar.
Tales interrompeu a sua tarefa de olhar o que não é possível ser olhado, ouvira os gritos dos habitantes de Mileto:
Lianor desaparecera nas águas!
Tales correu para a praia. Olhou para o fundo:
- Este mar matou - disse. - Está calmo demais.
Indisciplinado por natureza, depois deste acontecimento, Tales transformou-se. Levantava-se agora, todas as manhãs, a hora certa.
O que fazia?
Ele, o filósofo, o sábio, pegava no barco, que enchera de arroz na véspera, e entrava no mar. à medida que avançava ia atirando arroz à água, como se esta fosse um ser com fome.
- Se os peixes e a água comerem arroz, os peixes e a água esqueceram a carne de Lianor.
Assim pensava Tales, o sábio.
Durante vinte e cinco anos ele manteve o mar alimentado com arroz. Jurava, no entanto, não o fazer por amor; era orgulhoso. Dizia:
- Sou Investigador. Quero estudar a água."
                    Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas, Caminho, 2014, pp. 25-26.