segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Seremos o produto de uma cultura superior ou crianças da natureza?

"Quem se atribui muito valor nunca se pode precaver contra o desânimo e a humilhação, já que quem é muito consciente do seu valor sempre se confrontará com alguma coisa hostil a essa consciência. E, contudo, nós alunos não somos inteiramente desprovidos de dignidade, mas é uma dignidade muito, muito móvel, pequena, elástica e moldável. Pômo-la e tiramo-la conforme o que nos é pedido. Seremos o produto de uma cultura superior ou crianças da natureza? Também não sei dizer. Uma coisa sei com certeza: esperamos! É este o nosso valor. Sim, esperamos, mantemo-nos alerta na vida, sobre esta superfície a que chamam mundo, sobre o mar com as suas tormentas. Fuchs, a propósito deixou a escola. Parece-me muito bem. Não sabia o que fazer deste rapaz."
                  Robert Walser, Jakob Von Gunten, Relógio D´Água, 2005, p. 92.                           

Quem é que se aborrece neste mundo? Talvez tu.

"Perguntei há pouco tempo a Kraus se ele de vez em quando não se aborrece. Ele lançou-me um olhar de condenação e reprimenda, pensou um pouco e disse: «Aborrecer-me?» Não és lá muito inteligente, Jakob. E deixa-me que te diga que fazes perguntas tão ingénuas como pecaminosas. Quem é que se aborrece neste mundo? Talvez tu. Eu não, digo-te já. Estou aqui a aprender de cor passagens do livro. E agora? Tenho tempo para aborrecer-me? Que perguntas tão idiotas. Os aristocratas talvez se aborreçam, não Kraus, e tu também te aborreces, porque, se não te aborrecesses, não te teria ocorrido essa ideia e não terias vindo fazer-me essa pergunta. Podemos ocupar-nos sempre com alguma coisa, se não por fora, então por dentro, podemos murmurar. É claro que fazes troça de mim por eu murmurar, mas ouve bem e diz-me lá se sabes o que é que eu murmuro? Palavras querido Jacok. Murmuro e repito palavras constantemente. E é muito saudável, posso dizer-te. Desaparece daqui com o teu aborrecimento. Só se aborrecem aqueles que acham que lhes deve cair do céu alguma coise que os anime. Onde há mau humor, onde há nostalgia, aí encontrarás o aborrecimento. E agora sai daqui, não me perturbes, deixa-me estudar e vai tu fazer alguma coisa. Empenha-te em alguma tarefa que já não te sentirás aborrecido."

                  Robert Walser, Jakob Von Gunten, Relógio D´Água, 2005, p. 85.                              

Estados de espírito


"Dos filósofos, mais do que dos homens comuns, esperamos um sofrimento distinto; sofrer com a calma e a intensidade justas e atingir o sublime por essa via, é isto que se exige aos filósofos."

                                Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas, Caminho, 2014, p. 51.                            

Sou Investigador. Quero estudar a água.

"Para Tales, pessimista, o tempo só trazia atributos negativos: magreza à saúde, fraqueza à força.
Paixão significava desilusão; e é o entusiasmo da noite que, mais tarde, de manhã, nos fará ficar sem forças - pensava Tales.
Recusou então Lianor; não por sobranceria, mas por prudência. As mulheres guardam no corpo a serpente, sempre pensara.
Desespero em Lianor, claro, como em qualquer mulher rejeitada.
Quis morrer: atirou-se ao mar.
Tales interrompeu a sua tarefa de olhar o que não é possível ser olhado, ouvira os gritos dos habitantes de Mileto:
Lianor desaparecera nas águas!
Tales correu para a praia. Olhou para o fundo:
- Este mar matou - disse. - Está calmo demais.
Indisciplinado por natureza, depois deste acontecimento, Tales transformou-se. Levantava-se agora, todas as manhãs, a hora certa.
O que fazia?
Ele, o filósofo, o sábio, pegava no barco, que enchera de arroz na véspera, e entrava no mar. à medida que avançava ia atirando arroz à água, como se esta fosse um ser com fome.
- Se os peixes e a água comerem arroz, os peixes e a água esqueceram a carne de Lianor.
Assim pensava Tales, o sábio.
Durante vinte e cinco anos ele manteve o mar alimentado com arroz. Jurava, no entanto, não o fazer por amor; era orgulhoso. Dizia:
- Sou Investigador. Quero estudar a água."
                    Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas, Caminho, 2014, pp. 25-26.                       

Se me queres não me podes julgar.

"Há uma história oriental que nos pode ensinar algo nesta situação. é a de um monge que tem por tarefa levar um mocho mágico, dentro de um saco, de um lado ao outro da cidade. O mocho diz-lhe: vou contar-te algumas histórias acerca da minha vida, actos bárbaros que pratiquei e actos generosos. Sempre que julgares os meus actos eu desapareço e tu és obrigado a começar de novo. Assim foi: o animal contou então uma das suas façanhas medonhas e o monge não resistiu a dizer: isso é mau! Resultado: de imediato o mocho desapareceu do saco e o homem viu-se obrigado a voltar ao ponto de partida, onde o animal mágico o esperava para relembrar:
Se me queres não me podes julgar.
Falhou mais duas vezes o monge, pois a meio do caminho descuidava-se e, por palavras ou pensamentos, aprovava ou desaprovava as histórias contadas. à quarta tentativa conseguiu, finalmente. Ouviu histórias, do princípio ao fim, e não as julgou. Conseguiu, assim, levar o mocho até ao outro lado da cidade. A aprendizagem terminara."

                         Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas, Caminho, 2014, pp. 44-45.                       

sábado, 12 de setembro de 2015

sábado, 22 de agosto de 2015

Stan Getz Quartet - Times Lie



Stan Getz (ts)
Chick Corea (el-p)
Stanley Clarke (b)
Tony Williams (d)


(veja sem som e tente sincronizar com o disco aos 6'45'')

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Obedecemos sem pensar no que esta obediência inconsciente um dia nos trará

"Parece que antigamente o Instituto Benjamenta gozava de melhor fama e maior afluência. Numa das quatro paredes da nossa sala de aulas está uma grande fotografia onde podemos ver as figuras de muitos rapazes de um ano lectivo anterior. A nossa sala de aulas é de resto muito despida. Para além da mesa comprida, de dez a doze cadeiras, de um grande armário de parede, de uma mesa mais pequena, de um segundo armário pequeno, de uma velha mala de viagem e de um par de objectos insignificantes, não tem outros móveis. Sobre a porta que conduz ao mundo desconhecido e misterioso dos aposentos interiores está pendurado, como decoração, um sabre da guarda, de aspecto bastante aborrecido, que é cruzado pela bainha respectiva. Ambos são coroados pelo capacete. Esta decoração tem uma função de ilustração ou de prova elegante dos regulamentos que aqui vigoram. Quanto a mim, não queria nem dado este ornamento provavelmente adquirido num ferro-velho decadente. De duas em duas semanas, o sabre e o capacete são baixados para serem limpos, uma tarefa simpática mas também muito estúpida. Para além destes adornos, nas paredes da sala de aulas estão ainda pendurados os retratos do imperador e da imperatriz já mortos. O velho imperador aparenta uma incrível tranquilidade e a imperatriz tem um ar simples e materno. Muitas vezes nós pupilos lavamos a sala de aulas com sabão e água morna que deixam depois tudo com um aroma e brilho de limpeza. Temos de fazer tudo nós mesmos, e para este trabalho de criada de quarto todos nós pomos um avental, e com este adereço feminino todos nós, sem excepção parecemos muito cómicos. Mas estes dias de arrumação são divertidos. Polimos alegremente o soalho, areamos os utensílios, incluindo os da cozinha, e para isso temos trapos e panos de pó com fartura, passamos a mesa e as cadeiras por água, limpamos as dobradiças das porta até ganharem brilho, bafejamos e esfregamos  os vidros das janelas, cada um tem a sua pequena tarefa, cada um faz alguma coisa. Nestes dias em que limpamos, esfregamos e lavamos, fazemos lembrar aqueles duendes dos contos de fadas que, como é sabido, cumpriam todas as tarefas mais rudes e árduas apenas por uma sobrenatural bondade do coração. O que nós alunos fazemos, fazemos porque temos de o fazer, mas a razão por que o fazemos, nenhum de nós a conhece. Obedecemos sem pensar no que esta obediência inconsciente um dia nos trará, e trabalhamos sem pensar se é certo e justo que trabalhemos."

                   Robert Walser, Jakob Von Gunten, Relógio D´Água, 2005, pp. 36-37                               

O mundo dos meus olhos

Se todos tivessem direito a um criado, quem seriam os criados?

Buddy Rich - Jazz Legend (part two)


Buddy Rich - Jazz Legend (part one)


terça-feira, 4 de agosto de 2015

domingo, 12 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

Antony and the Johnsons - fistful of love


"A música e a síndrome de Tourette"

"Senti-me especialmente fascinado ao ouvir uma conversa entre Nick van Bloss e o destacado compositor Tobias Picker, que tem também a síndrome de Tourette - conversa durante a qual comparam impressões sobre o papel que a condição touréttica desempenhou na sua entrega à música. Picker tem igualmente numerosos tiques, mas quando compõe, toca piano ou dirige uma interpretação, os seus tiques desaparecem. Pude observar como esteve sentado quase imóvel horas a fio, a trabalhar ao computador na orquestração de um dos seus estudos para piano. Os tiques podem ter desaparecido, mas isso não significa que a síndrome  de Tourette se tenha afastado também. Picker sente, pelo contrário, que a síndrome de Tourette participa sua imaginação criadora, contribuindo para a sua música, mas sendo também moldada e modulada por ela. «Vivo a minha vida sob o controlo da síndrome de Tourette», disse-me ele, «mas uso a música para a controlar. Dominei a sua energia - toco com ela, manipulo-a, iludo-a, imito-a, rio-me dela, exploro-a, utilizo-a de todas as maneiras possíveis.» O seu concerto para piano mais recente é em certos trechos, extremamente turbulento, agitado por vórtices e turbilhões. mas Picker compõe em todos os registos - não o fazendo menos num registo sonhador e tranquilo do que no violento e tempestuoso - e passa de uma atmosfera a outra com uma facilidade consumada.
A síndrome de Tourette levanta cruamente as questões da vontade e da determinação: quem ordena o quê? Quem impele quem? Em que medida são os tourétticos governados por um «Eu» soberano, um si-próprio complexo, consciente de si e intencional, ou antes, por impulsos e sentimentos situados a níveis inferiores do conjunto mente-cérebro? Questões semelhantes são também introduzidas pelas alucinações musicais e pela «música que não sai da cabeça», por diversas formas de repetição e imitação quase automáticas. Normalmente, não temos consciência do que se passa nos nossos cérebros, das múltiplas instâncias e forças que se situam fora ou abaixo do nível da experiência consciente - e talvez esteja bem assim. A vida torna-se mais complicada, por vezes insuportavelmente complicada, para as pessoas que sofrem erupções de tiques, obsessões ou alucinações, e são forçadas a manter um contacto permanente  com mecanismos cerebrais e autónomos. Tais pessoas enfrentam uma prova muito particular, mas podem também, se os tiques e as alucinações não forem demasiado opressivos, alcançar uma espécie de conhecimento de si ou de reconciliação que as podem enriquecer decisivamente durante essa estranha batalha que é a sua vida dupla."
                             Oliver Sacks, Musicofilia, Relógio D'Água, 2008, p. 235-236.                         

A crise europeia à luz da Grécia | Intervenção de José Pacheco Pereira


quinta-feira, 2 de julho de 2015

O homem com a memória de sete segundos




Por sugestão de Oliver Sacks, Musicofilia, Relógio D'Água, 2008, p. 189/190.

"Clive sofreu uma infecção cerebral devastadora, uma encefalite herpética, que afectava especialmente as partes do seu cérebro associadas aos processos da memória. (...) Como escreveu Deborah, os novos acontecimentos e as novas experiências apagavam-se quase instantaneamente:

A sua capacidade de perceber o que via e ouvia, mantinha-se. Mas parecia não ser capaz de reter qualquer impressão que fosse por mais do que o tempo de um abrir e fechar de olhos. A verdade era que, se piscasse os olhos, as suas pálpebras voltavam a abrir-se sobre um novo cenário. A visão anterior ao batimento de pálpebras era completamente esquecida. Cada abrir e fechar de olhos, cada breve vaivém do olhar, dava lugar a uma visão inteiramente nova. eu tentava imaginar como seria aquilo para ele [...] Qualquer coisa como um filme cheio de saltos e interrupções, um copo semivazio, depois cheio, o cigarro de repente mais comprido, o cabelo do actor ora despenteado, ora liso. Mas este filme era a vida real, uma divisão da casa que mudava de várias maneiras fisicamente impossíveis.

Além desta incapacidade de conservar novas recordações, Clive tinha uma amnésia retrógrada maciça, que virtualmente anulava todo o seu passado."