domingo, 12 de abril de 2015

like a shadow

"No mistake about it, Qohelet means to leave us no escape. He warns us that something very small (a dead fly) will suffice to ruin a jar of perfume or scholarly wisdom. I cannot help but think of certain more or less great philosophers of modern times whose entire system appears ruined by their support of a political error: the great G. W. F. Hegel, for instance, whom I cannot take seriously because he sees the culmination of History, Idea, and Spirit in the State! Everything he says is truly wonderful, but when I come up against this dead fly that corrupted and killed Western society in the nineteenth and twentieth centuries, I cannot continue to take anything seriously in his preceding discourse on so many other problems.
The great Martin Heidegger, in whose work everything is so profound, enticing, and innovative, failed to display any lucidity at all in discerning the real nature of national socialism. Those few months of his support for Nazism suffice for me to consider the rest of his work null and void. How can anyone expect me to follow such a guide in his Holzwege, when he was unable to make the right choice in that one simple matter in his life? The dead fly - misplaced loyalty - may appear for just an instant! And I fully realize that by blackballing certain thinkers, I in turn deserve Qohelet´s other judgment in the same passage!
Wisdom is fragile - it can vanish when we change a single line. Even worse, wisdom is impossible. Anyone who thinks he has reached it has grasped only wind. Who knows anything? Who can pride himself on "knowing"? "Who knows what is good for a person during life, during the number of days of his vain life, which he passes like a shadow?(6:12) Wisdom is as fragile as the person himself. After all, why should wisdom be surer and truer than those who create it? It is like a shadow. We can mesure, situate, and weigh everything, but not a shadow. It has no existence in itself, since it depends both on the object that projects it and on light, which changes constantly.
(...) As for us moderns, we have discovered a great many things. But, as we have already seen, the horizon continually moves farther from us. In this connection, Qohelet seems to posit a kind of absolute: no matter what he does, he cannot find the ultimate secret, the key that would enable him to understand everything. As little as I know, what strikes me most is that further we advance, the more everything we know becomes complex and elusive."
Jaques Ellul, Reason for Being - a Meditation on Ecclesiastes, (tr.) Eerdmans Pub., 1990,  pp.148-149.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Kohéleth

"Dead flies turn the perfurmer's ointment fetid and putrid; so a little folly outweighs massive wisdom."
Ecclesiastes, 10:1

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Min Kamp - Karl Ove Knausgaard talking to Andrew O’Hagan



"Talvez nunca ninguém como Celan tivesse conseguido estar mais perto do que é a apropriação do real pela palavra e ao mesmo tempo das suas limitações quando o faz. Sem as palavras o mundo colapsa, mas o mundo por vezes mata as palavras. Hitler destruiu as de Celan, porque a sua linguagem era diferente. O sentido que um e outro conferiram à mesma palavra não se ajustava."

(Entrevista de Isabel Lucas a Karl Ove Knausgaard, revista Ler, Março 2015, nº137, p.70)


terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder

Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.


                                                  ●


Ninguém tem mais peso que o seu canto.
A lua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: - a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.


         do livro Última Ciência, em Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1996, p. 543.             

István Farkas, Cielo de tormenta (1927)




Por sugestão de Imre Kertész, Um Outro - Crónica de Uma Metamorfose, Presença, 2009, onde se pode ler:

"István Farkas é um das figuras maiores da pintura europeia; quanto ao «fim trágico» quer dizer que foi morto em Auschwitz.
(p.89)

«Pode viver-se num só dia o horror do inferno; há mais do que tempo»
(Wittgenstein)
Nunca poderei saber como vou viver este horror, a agonia de A., como - no fim de contas - nem sequer posso saber nada de essencial sobre mim mesmo. O meu presente é, de momento, um tempo consagrado às recordações: no futuro, hei-de julgar o meu presente actual, e, portanto, uma insidiosa falsificação infiltra-se como um veneno manhoso em todos os meus pensamentos, em todas as minhas acções. O que eu tenho, ainda assim, que registar: a traição que o ser vivo comete em todos os instantes, a humilhação bem conhecida, e invencível, da sobrevivência. Cedo ou tarde, encontramo-nos na situação em que se luta por uma sobrevivência que o caos do moribundo ameaça engolir. Primeiramente, toma-se conhecimento da doença mortal de um próximo; em seguida, aceita-se a ideia; mais tarde, resignamo-nos, e entrega-se nas mãos dos especialistas. Num certo sentido, tornamo-nos assassinos e poucos poderão evitar este destino, salvo, talvez, os solitários, as pessoas sós. Mas também eles tiveram, talvez, um pai ou uma mãe que lhes falavam do fundo do seu balde do lixo. Tenho ainda que anotar que as situações que dão origem a tais práticas e, decorrentes destas práticas, a tais ideias, se devem ao modo de vida moderno. A morte - mais precisamente, o morrer - é um problema já antigo, mas era, digamos, um problema natural. As situações modernas rimam sempre um pouco com Auschwitz; Auschwitz resulta sempre um pouco das situações modernas."
(pp. 94-95)

sábado, 14 de março de 2015

terça-feira, 10 de março de 2015

MEDEIROS/LUCAS - Mar Aberto

segunda-feira, 9 de março de 2015

Luiz Pacheco

"A televisão está a matar a literatura?
A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos! Eu, até há dois anos e meio, não
tinha televisão, nem telefone, nem frigorífico. Agora, é tipo novo-rico, deixo as coisas aí a estragaram-se. Eu não tinha televisão e caiu-me em casa, estava eu de cama, dia e noite. Via muito. E nunca tinha visto cenas de quartos, nem essas gajas brasileiras que cá vêm, aquilo era tudo para mim novidade, caras novas, bons actores, boas encenações: espanto! Fiquei um bocado obcecado. Estava a vigiar, agora muito menos, o Herman José, que foi, para mim, um belíssimo professor. Até porque a televisão, como é uma imagem deturpada, mas imagem, da sociedade actual, levou-me onde eu não podia ir sem ela. Com a televisão entrou-me o século xx pelo quarto dentro.

E apanhou-o deitado...
E apanhou-me deitado, é uma posição boa, não é? [risos]. Agora vejo uma telenovela, espanto, vejo uma, vejo duas, vejo três, vejo sempre o mesmo gajo que aparece em todas e que é um tipo chato, um actor de merda. Nos filmes querem-me impressionar com  aquelas músicas de treta. E depois com as boquinhas de peido da Catarina Furtado, são palhaços! E as gargalhadas dão-me cabo da cabeça. Riem-se de nada, então naqueles filmes que têm gargalhadas por detrás, supõem que rimos por eco. Isto é que dá cabo da literatura? Nunca.

Mensagens para as novas gerações?
Puta que os pariu.
(132-133)
 O Pacheco dizia-se um libertino, mas segundo consta quando lhe fizeram a si o que fazia aos outros ficou todo chateado.
Não sei ao que se refere.
Quando apanhou a sua primeira mulher com a Natália Correia...
Não apanhei. Se a apanhasse não sei o que é que faria.

Então o que é que se passou?
A Natália é que era uma maluca, uma degenerada. Não arranjava amantes de borla, era só velhos com massa. A maluca teve lá em casa a minha companheira e o miudito. eu estava no Limoeiro a cumprir pena. Já sabia como é que a maluca era, por isso, sempre que era visitado pela minha, perguntava: «Então, como vai aquilo lá por casa da Natália?» Aquilo eram conversas de prisão com uma grade à frente: «vai bem, mas houve uma coisa que eu não percebi...» «Alto lá!», pensei. E perguntei-lhe logo: «O que foi?»; «Olha, fomos para a casa de banho as duas, dois homens já é mais complicado - ela despiu-se toda e começou a esfregar a rata no espelho.» Essa é de um gajo morrer a rir. A minha era uma camponesa, sabia lá o que era aquilo de esfregar a rata no espelho. Agora aquela demonstração de sexo, de esfregar a rata na rata do espelho... Quando saí, tive de esclarecer o assunto com a Natália.

Mas é libertino...
Não se pode ser. Não. Sou é um velhadas muita louco. 
(144-145)
E esta solidão em que vive alimenta-lhe alguma nostalgia?
Não. Também não adiantava. Eu nunca aguentaria uma situação idêntica à do Saramago, por exemplo. A Pilar controla tudo, de manhã à noite. O homem não pode ter aventuras nem com homens nem com mulheres. Nada. Está ali com o mirone sempre a pau. O que é que há-de fazer? Faz bolhetins do gabinete do senhor escritor José Saramago. Tanto dá que tenha sido escrito por ele, pela mulher-a-dias, pela Pilar, pela Desidéria. Ele no fim assina e pronto. Vai aqui, vai ali, recebe prémio, não recebe prémio. Ele é um computador. Mesmo que tivesse vivido ao longo destes anos uma aventura qualquer não pode escrevê-la. Está impedido.

Percebo o que quer dizer. Pergunto-lhe então no que é que aplica a sua liberdade.
Agora uso-a para mijar.

(159)

Como é que se tem dado aqui neste lar?  
Há uns tempos andei com a ideia de fazer uns trabalhos sobre lares. A má fama dos lares é justificada... e não sabes tu da metade do que se passa aqui... há uns casos humanos dramáticos, por exemplo, a senhora do quarto aqui ao lado... à noite têm de lhe mudar a fralda... passa horas a berrar «senhora empregada, senhora empregada.» Ninguém aparece... eu ainda lá fui uma vez... aqui não há campainha de alarme, não há telefone. Também, o que é que isso interessa, no lar de Palmela havia telefone, mas tocava-se e não estava lá ninguém... Esse lar de Palmela era o lar n.º I, o melhor do país segundo a Deco. Era um modelo. O projecto do lar deve ter sido gamado do estrangeiro. Era um lar invulgar, com todas as condições. Mas o ambiente era muito desumano, era uma espécie de aldeia turística. (...) Era um lar no meio de uma serrra, com o ar puríssimo de Palmela, uma construção nova, em arco, sem vizinhança, sem casas à volta... Era muito bonito... Fui para lá logo quando aquilo começou... no início, a fase da promoção, serviam um bacalhau altíssimo, as torradas pareciam as das pastelarias da Baixa, dois andares de torradas, molhadas em manteiga, o café com leite vinha com dois pacotes de açucar... depois, um dia, começou a aparecer um só pacote...vieram as economias... as torradas passaram a ter só um andar com uma lambidela de margarina... Agora este aqui, do Príncipe Real, já se aproxima mais da generalidade. Por exemplo, as giletes que eles dão algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia... Isto é um armazém de pré-cadáveres, é uma parada de monstros. Há um gajo que não tem uma perna, anda de cadeira de rodas empurrado por um velhinho de 88 anos, há outro que é cego, tem glaucoma, mais a namorada, que é horrorosa, mas como ele não vê também não faz mal... outro tem alzheimer, o senhor Américo, entra aqui, de boné e pijama, dá uma volta pelo quarto, às vezes vai à casa de banho, sai, não repara em ninguém, não diz nada... há outro que é o senhor Virgílio, anda pelos corredores a rir e a assobiar, são dois fantasmas... há um que anda aqui a passear de um lado para o outro, diz «ai, ai, ai», depois vai bater na outra que está sempre sentada na cama, vai lá mexer... não tem mão nela... com estes gajos não se pode estar a discutir, é comprimido, água para o bucho, não vai um vão dois, fica a dormir dois dias seguidos. Isto agora aqui são os últimos dias do condenado. Aqui a lei é morrer devagar. Está uma a morrer ali, ou já morreu, não sei, estou eu a morrer aqui, está outra a morrer ali... A ver quem morre primeiro... «Já foi», é o que dizem quando alguém morre. Agora já sei o que vão dizer quando eu morrer."
(194)
A propósito, no outro dia na televisão disseste que te estavas nas tintas para os jovens de hoje.
Disse «puta que os pariu».

É blague. Falas dos teus filhos, de uma neta muito bonita, para que é que dizes essas coisas?
A primeira vez que disse isso foi para a revista Ler. O gajo massacrou-me horas com a entrevista, eu já estava cansado, às tantas fiz-lhe um manguito, mas ele, no corredor, ainda me veio com essa do futuro. Puta que os pariu.
 (272)
              Entrevistas a Luiz Pacheco, O Crocodilo que Voa, Tinta da China Edições, 2015               

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A singularidade extraordinária de Buchenwald

"Porém, quando se fala da Europa, para mim é absolutamente necessário regressar aos
campos. Embora tenha decidido, por uma questão de higiene pessoal, nunca mais aludir deliberadamente a esse passado, sou obrigado a fazê-lo indirectamente aqui. Buchenwald é um campo onde o símbolo, a incarnação do projecto europeu nos seus primórdios, é evidente e se inscreve na própria realidade geográfica dfo campo. A chaminé so crematório domina o campo tal como se apresenta heje, e foi ela que se tornou lugar de memória. Mas, no fim da colina que desce para a planície da Turíngia, há uma floresta muito recente, que os velhos deportados sabem muito bem que não existia na época. Foi plantada pelas autoridades da República Democrática Alemã. Porquê? Para esconder as valas comuns do campo estalinista.
Porque a singularidade extraordinária de Buchenwald reside no facto de, dois meses depois da partida dos últimos deportados, resistentes jugoslavos, portanto em Setembro de 1945, o campo ter reaberto para se transformar num campo da polícia soviética, na zona da ocupação russa na Alemanha. Transformou-se no Speziallager Nr. 2, o «campo especial nº2». O campo só esteve vazio de prisioneiros durante um breve intervalo de poucas semanas. É evidente que esse símbolo possui uma força extraordinária. É por esse motivo que a Alemanha tem um papel essencial a desempenhar, além da «expiação» dos crimes nazis: porque é o único país da Europa onde se sucederam directamente os dois totalitarismos, pelo menos numa parte dessa Alemanha reunificada. É por esse motivo que a motivação europeia é particularmente sensível na Alemanha em geral, e em Buchenwald em particular."

Jorge Semprún, A Linguagem é a Minha Pátria - Entrevistas com Franck Appréderis, Bizâncio, (tr. )
    2013,  p. 113-114        

Vermeer, A Vista de Delf (1660-61) e Rubens, As três Graças (1639)


Por sugestão de Jorge Semprún, A Linguagem é a Minha Pátria - Entrevistas com Franck Appréderis, Bizâncio, (tr. ) 2013, p. 68, onde se pode ler:
"Com efeito, creio que poderia contar a minha vida, ou escrever as minhas memórias (cada período diferente, cada episódio, cada camada de mil-folhas), em torno de um certo número de museus. Poderia, por exemplo, contar o fim da infância e a minha adolescência em torno do museu de Haia, o Mauritshuis, porque o visitava muito nesse período, e dele conservo a recordação de A Vista de Delf de Vermeer. Poderia também contar toda a minha vida política clandestina em torno do museu de Praga, a Galeria Nacional, bem como de certos museus da URSS, como o Ermitage de São Petersburgo, Petrogrado ou Leninegrado, ou a Galeria Tretiakov de Moscovo.
Mas há sobretudo esse museu que me acompanha de uma ponta à outra da minha existência: o Prado. Em primeiro lugar, porque passei a minha infância a duzentos metros daqui, numa rua vizinha, e, todos os domingos, o meu pai levava alguns dos seus filhos - não todos, mas três ou quatro dos mais velhos - ao Prado. Tratava-se, porém, de uma visita selectiva: não tínhamos o direito, por exemplo, de ir ver os nus femininos. Portanto, foi muito mais tarde que vi a pintura de Rubens. Vínhamos para a pintura histórica, a pintura religiosa, a pintura de Goya - mas não para os nus a transbordarem de carne de Rubens, que eram censurados!"


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os velhos professores

Foram precisos dez anos anos para que os responsáveis pela Educação Regional emendassem o erro de obrigar os professores com muitos anos de serviço, nas suas horas de redução lectiva, a permanecer nas escolas. Violentados e perseguidos por campaínhas desenfreadas saídas da rigidez das fábricas, jovens ruidosos, colegas rancorosos e funcionários obedientes e prontos a marcar a respectiva falta (falta a quê?), os velhos professores foram-se retirando. Uns para a doença, outros para a morte; os restantes foram envelhecendo mais e aguentando. Estes vêem agora alguma justiça reposta (não toda porque o mal está feito e porque ainda não podem sair da escola em todas as suas horas de redução; a burocracia continua e o critério de separação entre as horas que têm que ficar na escola e as que não têm continua vago e condicionado à decisão de quem faz os horários). Assisti à violência, mas não calado (aqui). E não falo directamente de mim. Não tenho reduções e quem sabe se chegarei a velho. Comecei a dar aulas com um horário de 20 horas lectivas. Hoje tenho 22 horas (trabalhar à noite deixou de ser trabalho nocturno!) mais quatro de trabalho escolar que preencho, no exterior, praticando agricultura biológica. Não é da competência da política educativa reconhecer a importância pedagógica das hortas, dos pomares e dos jardins nas escolas. Por enquanto ainda estão ao nível do relvado que ninguém deve pisar.
Rogam-nos pela qualidade do ensino, subscrevendo tacitamente a inevitável técnica do balde (como o prova a eliminação da Área de Projecto, (aqui) disciplina do 12º ano, que incentivava a capacidade crítica, criatividade e autonomia): o professor despeja a matéria para os alunos que, depois de mastigada e resumida pelo google, a despejam nos testes. Ouvem-se, de vez em quando, vozes que assinalam a falta de empenho dos alunos; que andam apáticos, sem interesse, sem criatividade. Fechados na caverna (aqui e aqui) que outra coisa se poderia esperar? A solução, que nos deixa, por ora, descansados, vai variando nas designações e no formato, mas no essencial é a mesma de sempre: apontar em documentos oficiais o número correspondente às actividades que cada uma das partes terá que realizar para que todos tenham sucesso. Assunto encerrado.
Agora que, por aqui, se vai percebendo que humilhar e ofender não é forma de tratar professores, chega silenciosamente a permissão de passar algumas das horas de redução lectiva fora da escola. Obrigado!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Leo Haas (1901-1983), Jewish Children Marching in Terezin, 1942

Etching and aquatint on paper, 21.7 x 28.7 cm
Inscribed (in German) and dated, lower left: Terezin 1942, Für das Museum der Ghettokämpfer im Israel [to the Ghetto Fighters' House Museum in Israel]

domingo, 18 de janeiro de 2015

Salmo

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
Ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direção
a ti.

Um Nada
fomos, somos, continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.

Com
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-de-céu,
a corola vermelha
da purpúrea palavra que cántamos
sobre, oh sobre
o espinho.

 Paul Celan, citado em Bloom, Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura, Temas e Debates, 2014, p.889.

"MUST ONE SUFFER

and then feel death’s ice-cold breath on the nape of one’s neck in order to understand why one has been going around since earliest childhood with an ill-defined despondency close to melancholy?"

                           (Elie Wiesel, The Sonderberg Case, A knopf Book, 2010, p.3)                      

Thelonious Monk, Straight, No Chaser



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Estados de Espírito



“Que aqueles que não sabem o que fazer nesta vida desperdicem o seu tempo a pensar na vida eterna. Se vivermos intensamente, virá o tempo em que adormecer será como uma bênção. Se amarmos intensamente, virá o tempo em que a morte será como uma bênção. (...) A vida que eu quero viver é uma vida que eu não poderia suportar na eternidade. É uma vida de amor e de intensidade, de sofrimento e de criação. (...) Do mesmo modo que merecemos uma boa noite de sono, também merecemos morrer. Porque deveria eu querer acordar outra vez? Porque deveria querer fazer aquilo que não fiz no meu tempo de vida? Todos nós temos muito mais tempo do que aquele que aproveitamos bem. (...) O sentimento de que a morte é distante e irrelevante torna a vida um desperdício. (...) Melhor seria se tivéssemos um encontro com a morte. (...) Não há nada de mórbido em pensar e falar sobre a morte. Aqueles que desacreditam a honestidade desconhecem as suas alegrias.”


(Kaufmann, W., The Faith of an Heretic, citado em Phillips, C., Socrates Café - a fresh taste of philosophy, Norton, p.160. tr. LFB)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O mundo dos meus olhos

O futebol, a julgar pelo número de horas que a TV lhe dedica, deve ser uma coisa muito importante.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Hannah Arendt (D: Margarethe von Trotta)



"Diga-se de passagem que a linguagem administrativa se havia tornado a sua língua porque era totalmente incapaz de pronunciar uma só frase que não fosse um lugar comum." (...) A melhor oportunidade que Eichmann teve para mostrar este lado positivo do seu carácter surgiu em Jerusalém, quando o jovem polícia encarregue do seu bem-estar moral e psicológico lhe deu Lolita para se distrair. Passados dois dias, Eichmann devolveu o livro, visivelmente indignado: "um livro muito doentio" - (unwholesome) "Das is aber ein sehr unerfreuliches buch" - disse ao polícia."
            Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, Tenacitas, 2003, p.105.               

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Love and Love Affairs

"In the 1920s, while I was living at the Residencia, there was a strange suicide in Madrid that fascinated me for years. In the neighborhood of Amaniel, a student and his young fiancée killed themselves in a restaurant garden. They were know to be passionately in love; their families were on excellent terms with each other; and when an autopsy was performed on the girl, she was found to be a virgin.
On the surface, then, there seem to be no obstacles; in fact, the "Amaniel lovers" were making wedding plans at the time of their deaths. So why the double suicide? I still don't have the answer, except that perhaps a truly passionate love, a sublime love that's reached a certain peak of intensity, is simple incompatible with life itself. Perhaps it's too great, too powerful. Perhaps it can exist only in death.
As a child, I felt intense love, divorced from any sexual attraction, for both boys and girls. As Lorca used to say, "Mi alma niña e niño" - I have an androgynous soul. These were purely platonic feelings; I loved as a fervent monk would love the Virgin Mary. The mere idea of thouching a woman's sex or breasts, or that I might feel her tongue against mine, repelled me.
These platonic affairs lasted until my baptism in the tradicional Saragossa brothel, but these platonic feelings never gave way interely to sexual desire. I've fallen in love with women many times, but maintained perfectly chaste relationships with them. On the other hand, from the age of fourteen until the last few years, my sexual desire remained powerful, stronger than hunger, and usually far more difficult to satisfy. No sooner would I sit down in a railway carriage, for example, than erotic images filled my mind. All I could do was succumb, only to find them still there, and sometimes even stronger, afterwards."
             Buñuel, My Last Sigh, the Autobiography of Luis Buñuel, Vintage, 2013, pp.146-147.              

The Phantom of Liberty


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Emily Dickinson, Will there really be a «Morning»?

Will there really be a «Morning»?
Is there such a thing as «Day»?
Could I see it from the mountains
If I were as tall as they?

Has it feet like Water lilies?
Has it feathers like a Bird?
Is it brought from famous countries?
Of which I have never heard?

Oh some Scholar! Oh some Sailor!
Oh some Wise Man from the skies!
Please to tell a little Pilgrim
Where the place called «Morning» lies!

                
                  *

Será que a manhã virá?
Que há isso chamado Dia?
Se fosse alta como elas,
Das montanhas vê-lo-ia?

Terá pé como os Nenúfares?
E penas de Passarinho?
Virá de célebres terras
Que o nome não adivinho?

Que um Mestre, que um Marinheiro,
Um Sábio que os astros leia,
Diga a um pobre Peregrino,
Onde a manhã se recreia!

            80 Poemas de Emily Dickinson, (Tradução e apresentação de Jorge de Sena), Ediçoes 70, 1978 pp. 194-5.              

Bob Dylan, One More Cup of Coffee


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Rembrandt, Bathsheba with King David Letter & Hendrickje Bathing


Por sugestão de Pedro Citati, Israel e o Islão - as Centelhas de Deus, Livros Cotovia, 2005, p. 232, onde se pode ler:
"Hannah Arendt e Heinrich Blücher percorriam, frequentemente, as ruazinhas que atravessam a place Saint-Sulpice e o Sena e iam até ao Louvre. Admiravam um quadro de Rembrandt: Betsabé com a carta de David. Blücher não tinha lido a Bíblia, ou tinha-a esquecido. Não se lembrava de que o rapidíssimo olhar e a carta de David à sua súbdita tinham arrastado consigo as mais tremendas desgraças de Israel - a morte de Uriah, marido de Betsabé, em combate, a maldição de Javé e do profeta de Javé, a morte do filho de David, a violência contra Tamar, irmã de Absalão, cometida por Amom, o assassínio deste, às mãos de Absalão, o pranto de David no monte das Oliveiras, Absalão que viola a cuncubina do pai, a derrota de Absalão na batalha, a sua morte, com os cabelos emaranhados na enorme árvore de terebinto, o seu corpo atirado para uma cova na floresta, o lamento de David: "Meu filho! Absalão, meu filho! Filho meu, Absalão! Tivesse eu morrido em teu lugar, Absalão meu filho." Não sabia quantas maldições e catástrofes tinha causado o breve e rápido coito entre David e a mulher que Blücher julgava ser Frau Rembrandt. No quadro, ele admirou apenas o corpo de Betsabé, nu, sensual, que os anos mal tinham desgastado; imaginou o seu banho de Vénus, a sua arte de amante, de deusa, de esposa fiel, de prostituta sagrada. Pensou que Betsabé era Hannah e David era ele - "o homem da luta e do sofrimento, o revolucionário" que combatia o nazismo." (p.232).

e de Michael taylor, Rembrandt's Nose - Of Flesh & Spirit in the Master's Portraits, d.a.p., 2007, p.116, onde se pode ler:

 "Given the context - Protestant Amsterdam in the mid-seventeeth century - it was a provocative work (...). Yet although it depicts a pretty young woman who has became an object of lust, and moreover depicts her with a sensuousness that would move a stone (it his hard to imagine a detail more physical than the red ribbon touching her breast or the contrast between her white thighs and the tawny shadow on her left leg), its eroticism is tragic. For the subject of the painting is Bathsheba being prepared for King David's bed. The old woman washing Bathsheba's feet is a familiar figure in seventeenth-century painting: the wrinkled procuress who acts simultaneously as a broker for a lustful transaction and as a reminder of how time ravages flesh (you might say that she sets the price on flesh and undercuts it at the same time). In Bathsheba's hand is the summons to the royal palace the crone has delivered to her, and it is not a summons she can refuse. The minute King David spied her naked as she was bathing, her body ceased to belong to her (and still less to her husband); the royal "invitation" is merely a confirmation of this. As if to underscore the notion that desire at its rawest is already a kind of possession. Rembrandt´s painting collapses together two separate episodes of the Bathsheba drama: the arousal of King David's lust and the transformation of Bathsheba into his concubine-to-be. What is more, unlike most of Rembrandt's unclothed female figures,which are simply ungainly, this nude and the related Hendrickje Bathing in London are, for all their stockiness, deeply appealing."

Estados de espírito


AMOR DA VIRTUDE

  "A cotovia é uma ave da qual se diz que, sendo levada à presença de um enfermo, se o dito enfermo deve morrer esta ave volta a cabeça para o lado contrário e nunca o olha; e se esse enfermo deve salvar-se, a ave nunca o abandona de vista, o que aliás é causa de lhe passar toda a doença.
   Analogamente, o amor da virtude não olha nunca coisa vil nem triste, e em contrapartida fixa-se sempre em coisas honestas e virtuosas, retorna sempre ao coração gentil, à semelhança dos pássaros nas verdes selvas por cima dos floridos ramos; isto demonstra mais o amor na adversidade do que na prosperidade, fazendo como a luz, que mais resplandece onde encontra mais tenebroso sítio."
                     Leonardo da Vinci, Bestiário, Fábulas e Outros Escritos, Assírio e Alvim, p. 15.                  

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

o mundo dos meus olhos

Não fora a tinta para o cabelo, e o mundo seria muito diferente!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"há tanto tempo que precisamos de um demónio"


"... tudo o que é possível produz-se, e só é possível o que se produz, diz K., o grande, o triste, o sábio, que já sabia rigorosamente, ao observar as vidas particulares, o que aí vinha, quando loucos  criminosos olhassem racionalmente para o mundo, e se, por seu lado, o mundo os olhasse racionalmente, isto é, que ele lhes obedeceria. E não digam, pude dizer, provavelmente, que esta explicação não passa de uma explicação tautológica dos factos pelos factos, porque sim, é uma explicação, mesmo se, sei, vos é difícil aceitar que vulgares malfeitores nos governem, difícil, ainda, se os tratais como vulgares malfeitores e sabeis que o são, e, todavia, a a partir do momento em que um louco criminoso acomete qualquer coisa, não num asilo de doidos ou num estabelecimento prisional, mas numa chancelaria ou num qualquer quartel-general, já vos preocupais em sondar nele o que tem de interessante, a originalidade, o extraordinário, não vos arriscais a dizê-lo, mas, no fundo, é isso: procurais a grandeza para não vos sentirdes tão pequenos, para não verdes tão absurda a vossa história universal, pude dizer, provavelmente, sim, para se poder continuar a lançar um olhar racional sobre o mundo e que o mundo lance também sobre vós um olhar racional. E é perfeitamente compreensível, mais, perfeitamente respeitável, que a vossa diligência não seja ««científica», nem «objectiva», como gostaríeis de acreditar, mas não: é puro lirismo de moralista, na medida em que se deseja restabelecer uma ordem do mundo racional, isto é, que se possa viver, e, por estas pequenas e grandes portas, os proscritos do mundo insinuam-se, de novo, no mundo, pelo menos aqueles que o desejam e que acreditam que o mundo será, de futuro, um lugar construído pelos homens, mas isso é outra história, pude dizer, provavelmente, mas o problema é que é assim que nascem as lendas, esse género de obras líricas «objectivas», esse género de romances «negros» científicos que nos ensinam, por exemplo, que esses grandes homens tinham um sentido táctico excepcional, não é?, como se todos os paranóicos e todos os maníacos não induzissem em erro e não semeassem a dúvida no espírito de quem os rodeia e dos seus médicos com o seu sentido táctico excepcional, e, depois, que a situação social era assim, que a política internacional era assado, que a filosofia, a música e outras larachas artísticas corromperam a maneira de pensar das pessoas, mas, sobretudo, e bem vistas as coisas, o grande homem, diga-se claramente o que é, era um grande homem, havia nele qualquer coisa de sedutor, de cativante, para sermos breves e concisos: qualquer coisa de demoníaco, aí está, um traço demoníaco ao qual não se pode, iniludivelmente, resistir, e mais, não se lhe quer resistir, porque nós vamos à procura, justamente, de um demónio, há tanto tempo que precisamos de um demónio para os nossos negócios sujos, para satisfazer os nossos desejos sujos, mas um demónio, que levaria às costas tudo o que há de demoníaco em nós, como um Anticristo a Cruz de ferro, e que não nos deslizaria descaradamente entre as garras para se enforcar prematuramente, como Stavroguine. Sim, divinizais aqueles que considerais uns loucos criminosos vulgares, mal açabarcam o ceptro e o globo, divinizai-los mesmo amaldiçoando-os, enumerais as circunstâncias objectivas, dizeis em que é que eles tinham objectivamente razão em que é que, pelo contrário, não tinham subjectivamente razão, o que se pode compreender objectivamente, e não se pode compreender subjectivamente, que intrigas aconteciam nos bastidores, que interesses entravam em jogo, e sois incansáveis em explicações, somente para salvar as vossas almas e tudo o que se possa salvar, para ver a uma luz grandiosa e teatral dos acontecimentos mundiais o banditismo vulgar, o crime e a exploração, em que todos participamos ou participámos, de uma maneira ou de outra, pude dizer, provavelmente todos os que estamos aqui, sim, para recuperar farrapos do grande naufrágio no qual tudo se quebrou, sim, só para não ver os séculos que por todo o lado pasmam à vossa volta, à vossa frente, atrás, por baixo, o nada, o vazio, isto é, a nossa situação real, para não ver que servis, e a natureza do poder, a natureza particular de cada poder particular, o qual poder não é necessário nem supérfluo, mas somente uma decisão, uma decisão tomada, ou não, nas vidas particulares, que nem é diabólico, nem sofisticado, e não tem essa grande e subtil classe do fascínio, não, é simplesmente vulgar, ignóbil, criminoso, estúpido e hipócrita, e, inclusive no momento das suas maiores realizações, limita-se a ser organizado, pude dizer, provavelmente, sim, fundamentalmente, nada sério, porque, depois que as oficinas da morte abriram aqui e ali, e em tantos lugares, desde então, acabou, e há já um bom pedaço de tempo que não se pode levar seriamente nada a sério, pelo menos no que respeita à imagem do poder, de não importa que poder. E deixai, enfim, de repetir, pude dizer, provavelmente, que Auschwitz não se explica, que Auschwitz é fruto de forças irracionais, inconcebíveis para a razão, porque o mal tem sempre uma explicação racional, pode bem acontecer que Satã em pessoa, tal como Iago, seja irracional, mas as suas criaturas, sim, são seres perfeitamente racionais, podemos deduzir todos os seus actos, qual uma fórmula matemática, podem-se explicar por qualquer coisa, pelo interesse, cupidez, preguiça, vontade de poder, concupiscência, cobardia, esta ou aquelas satisfação dos instintos, ou, em última instância, em desespero de causa, uma qualquer loucura - paranóia, mania depressiva, piromania, sadismo, masoquismo, megalomania demiúrgica ou de outra espécie, necrofilia, que sei eu, por numerosas perversões, e talvez todas de uma só vez; em contrapartida, pude dizer, provavelmente, agora, ouvi-me bem, o que é realmente irracional e não tem verdadeiramente explicação, não é o mal, pelo contrário, é o bem."


Imre Kertész, Kaddish para uma criança que não vai nascer, (tr. E. R.), Presença, 2004, pp. 37 a 40.

sábado, 29 de novembro de 2014

Anthony Braxton - (840M)-Realize-44M 44M



From the Album:"3 Compositions of New Jazz"

Personnel:

Anthony Braxton: alto saxophone, soprano saxophone, clarinet, flute, oboe musette, accordion, bells, snare drum, mixer.

Leroy Jenkins: violin, viola, harmonica, bass drum, recorder, cymbals, slide whistle,

Wadada Leo Smith: trumpet, mellophone, xylophone, kazoo.

domingo, 23 de novembro de 2014

Porto Judeu


"«O ódio mortal e indiscreto que nesses tempos menos ilustrados tinham desenvolvido contra os desta Nação, faria dar a qualquer objecto menos agradável o epíteto de Judeu, e parece que neste dia o deu a este porto: como quer que se desse o facto, é certo que o apelido ficou ao lugar, hoje uma grande freguesia...» Segundo as melhores tradições, Jácome de Bruges, capitão Donatário da Ilha, teria desembarcado no dia 1º de Janeiro de 1451, numa pequena baía, «à qual deu o nome de Porto Judeu em razão de estar ali o mar revolto, e não porque viesse algum desta família»."

                      Pedro de Merelim, Os Hebraicos na Ilha Terceira, 1995, p. 39.                                

Lester Young & Harry Edison Sextet - That's All





segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"Os Judeus de Ostrowiec são levados, de noite, para as câmaras de gás. Resistem."

"(...)
A 10 de Dezembro, estacionava na estação um comboio de judeus de Ostrowiec e o comandante do campo foi informado de que, na manhã seguinte, chegaria a Treblinka um novo transporte. O comandante ordenou que levassem, de noite, os judeus de Ostrowiec para a câmara de gás. Assim se fez. Nós estavamos fechados nos barracões e nada vimos. Só tínhamos ouvido os gritos habituais. Mas quando fomos para o trabalho na manhã seguinte, descobrimos vestígios dos acontecimentos da noite. Os rampiajes abriram as portas das câmaras de gás e começaram a tirar os cadáveres. Os carregadores transportaram-nos até às valas. Desta vez, os carregadores e encarregados da limpeza da coluna chamada do Schlauch tiveram que realizar uma tarefa inédita.
O corredor do edifício que albergava as três câmaras de gás pequenas estava juncado de cadáveres. Havia sangue coagulado até à altura dos tornozelos. Soubemos o que se tinha passado pelos ucranianos. Um grupo de algumas dezenas de homens tinha-se recusado a entrar na câmara de gás. Resistiram e, inteiramente nus, tinham usado os punhos para lutar e não se deixaram encerrar. Os SS tinham então aberto, fogo, com as suas espingardas automáticas, no corredor e abatido ali mesmo os resistentes.
Os carregadores retiraram os cadáveres, a equipa de limpeza lavou o corredor. Como de costume, os pintores deram uma mão de cal nas paredes manchadas com o sangue e a massa encefálica dos suplicados. O edifício ficou outra vez pronto para acolher novas vítimas.
O comandante Mathias veio então ver-nos, aos dentistas, e disse ao Dr. zimerman, o nosso chefe de grupo:«Doutor, estes tipos tentaram fazer batota!»
Mathias estava verdadeiramente magoado e ainda em choque. Não conseguia compreender porque é que aqueles judeus não se tinham deixado matar pacatamente, achava aquilo anormal.
Esse dia foi particularmente difícil. Chegou logo outro comboio e quis o acaso que houvesse muitos dentes postiços e coroas para extrair."

    Chil Rajchman, Sou o último judeu - Treblinka (1942-1943), Teorema, (tr. T.C.), 2009, pp. 93-94.   

domingo, 16 de novembro de 2014

"O meu silêncio nunca significará que isto corre mal."



"Há dois anos, descobri por acaso numa livraria junto aos cais do Sena a última carta de
um homem que partiu no comboio de 22 de Junho (...).
A carta estava à venda, como qualquer autógrafo, o que significava que o destinatário dela e os seus parentes tinham desaparecido igualmente. Um fino quadrado de papel recoberto por uma escrita minúscula de ambos os lados. Fora remetida do Campo de Drancy por um certo Robert Tartakovsky. (...) Copio a sua carta, nesta quarta-feira 29 de Janeiro de 1997, cinquenta e cinco anos mais tarde.

(...)
Foi anteontem que me designaram para a partida. Estava moralmente pronto desde há bastante tempo. As pessoas aqui do campo andam assustadas, muitas choram, têm medo. A única coisa que me aborrece é que várias das roupas que pedi já há algum tempo nunca chegaram às minhas mãos. Enviei uma senha de encomenda de vestuário: ainda receberei a tempo aquilo por que espero? Gostaria que a minha mãe não se afligisse, nem ela nem ninguém. Farei o possível por regressar são e salvo. (...)
Gostava que não se atormentassem muito. Quero que a Marthe vá de férias. O meu silêncio nunca significará que isto corre mal. (...) Somos perto de um milhar os que vamos partir. Há também arianos no campo. Obrigam-nos a usar a insígnia judaica. Ontem o capitão alemão Doncker veio ao campo e houve uma debandada geral. Recomendar a todos os amigos que, se puderem, vão apanhar ar noutro lado, pois aqui temos de abandonar toda a esperança. Não sei se nos encaminharão para Compiègne antes da grande abalada. Não envio roupa, lavá-la-ei aqui. A cobardia da maior parte arrepia-me. Pergunto a mim mesmo o que acontecerá quando estivermos lá longe. (...) Devolverei provavelmente os livros de Arte que muito vos agradeço. Deverei sem dúvida resistir ao Inverno, estou pronto, não se inquietem. (...) O pior é que rapam o cabelo muito rente a todos os deportados e isto ainda os identifica mais do que a insígnia. (...)
Não sei, mas receio uma partida precipitada. Hoje devem cortar-me o cabelo rente. Logo à noite, os que vão partir serão sem dúvida fechados num corpo do edifício especial e vigiados de perto, até mesmo acompanhados aos WC por um gerdarme. Uma atmosfera sinistra paira sobre o campo. (...) Sosseguem, ter-vos-ei sempre no pensamento. (...) O que me desola é ser obrigado a separar-me da caneta e não ter o direito de possuir papel (um pensamento ridículo atravessa-me o espírito: as facas estão proibidas e não disponho de um simples abre-latas). Não me armo em valentão, não tenho feitio para isso; eis a atmosfera: doentes e enfermos em grande número também foram designados para a partida. (...) Julgo que talvez seja inútil tirar agora livros de minha casa, façam o que acharem melhor. Contanto que tenhamos bom tempo para a viagem! (...) Obrigado de todo o coração aos que me permitiram «passar o Inverno». Vou deixar esta carta em suspenso. Preciso de preparar o saco. Até logo! (...) esta nota é para o caso de eu não poder continuar. Mãe adorada, e vós, minhas queridas, beijo-vos com emoção. Sejam corajosas. Até logo, são 7 horas."
            Patrick Modiano, Dora Bruder, (tr. Cascais Franco), Edições Asa, 2000, pp.104-109.               

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O eu


O AMOR

"AMOR - O que é o amor? Um grande coração que dói
 E nervosas mãos; e silêncio; e longo desespero.
 Vida - O que é a vida? Um pântano deserto
 Onde chega o amor e de onde parte o amor."

                 R. L. Stevenson, Poemas, (Tr. José Agostinho Baptista) Assírio e Alvim, 2006, p.11.          

Madeleine Peyroux - Hey sweet man


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Só vento

"- Que faz por aqui?
- Nada, nada, nada, nada, nada, nada - respondeu-me ele, com um sorriso de bem-aventurança.
- Que é que lhe dá assim tanta alegria?
- O quê? Nada! É precisamente isso: "Nada"! Pois, é um calembur, eh... É esse "nada" que me diverte, está o meu excelentíssimo senhor, o meu distinto companheiro de aventuras a ver? porque é "nada" o que se leva toda a vida a fazer. Um pobre diabo levanta-se, senta-se, fala, escreve... e nada. Um pobre diabo compra, vende, casa-se, ou não se casa, e nada. E aqui está um pobre diabo sentado em cima dum tronco de árvore, e nada. Só vento."

Gombrowicz, Cosmos, (TR. Luísa Neto Jorge), Vega, 1995, p.107.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Encontro com Gonçalo M. Tavares, José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia


Os Poetas


"OS POETAS, numa enorme fila que ultrapassa já a esquina do quarteirão seguinte, aproveitam o momento de espera para preencherem cuidadosamente o formulário."

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

domingo, 12 de outubro de 2014

domingo, 5 de outubro de 2014

René Marie, Bolero / Suzanne


"people don't really sit down and think very hard" - Interview with David Malouf


because we have lived through this day with him.

"Shukhov has no reason in the world to be happy. The conditions of his life constitute the most terrible form we can imagine of modern misery: a prisoner of the state in the wastes of Siberia with no rights of any kind; reduced to a number in a camp; freezing, half-starved and with little hope of seeing out his sentence. But as we see him at the end of his day, settling down to sleep and preparing for the next of his three thousand, six hundred and fifty-three days of forced labour, he is happy and he tells us so. For all the conditions that have been created - deliberately, officially - to break his spirit and keep him miserable, he is 'content,' as so many of us who enjoy the good life and ought to be are not.
Unlikely as it may seem, Shukhov is our perfect example of the happy man. And we understand his state, and believe him when he tells us he is happy, because we have lived through this day with him.
Fiction, with its preference for what is small and might elsewhere seem irrelevant; its facility for smuggling us into another skin and allowing us to live a new life there; its painstaking devotion to what without it might go unnoticed and unseen; its respect for contingency, and the unlikely and odd; its willingness to expose itself to moments of low, almost animal being and make them nobly illuminating, can deliver truths we might not otherwise stumble on.
Shukhov is not happy because he has solved the problem of 'how to live' - the life he lives is too provisional, to makeshift for that. Or because, as the classical schools would have put it, he has achived self-contaiment, self-sufficiency. Quite the opposite.
What he achives, briefly, intermittently, is moments of self-fulfilment, something different and more accessible, more democratic we might call it, than self-containment. But he achives it only at moments.
He is happy now - who can know what tomorrow or the day after will do to him? He his happy within limits - and this may be a clue to what makes happiness possible for him, or for any of us."
 David Malouf, The Happy Life - The Search for Contentment in the Modern World, Chatto & Windus, 2011, pp.92-94)


 (Para a Daniela!)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Le cyclope Polypheme, de Annibale Carracci


Por sugestão de Lovecraft, The Call of Cthulhu, onde se pode ler:  

"... the titan Thing from the stars slavered and gibbered like Polypheme cursing the fleeing ship of Odysseus. Then, bolder than the storied Cyclops, great Cthulhu slid greasily into the water and began to pursue with vast wave-raising strokes of cosmic potency."

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Francis A. & Edward K.- Frank Sinatra, Sunny


Simão da Fonseca

Another rabbi of the community was Isaac Aboab da Fonseca (1605–93), and it was he who had been most directly and deeply imbued with the spirit of Lurianic kabbalah, which he transmitted to the young men who studied with him, so that a significant number of them also claimed themselves as disciples of the esoteric tradition. The rabbi had been baptized Simão da Fonseca in Castro Daire, Portugal, and the family had fled when he was a child, first to France and then to Amsterdam. He was a disciple of the only kabbalist to have written in Spanish, Abraham Herrera (c. 1570–1635), who was also of a Marrano family and born in Portugal. Herrera’s studies of Neoplatonism, as it was taught in the Florentine Academy, together with his studies of Lurianic kabbalah (which also, as was pointed out above, has a strong Neoplatonic cast, inherited from the original kabbalists of Gerona), resulted in his own synthesis. Aboab translated into Hebrew such works of Herrera’s as his Puerta del cielo (Gates of Heaven), and these translations were in Spinoza’s library at his death, presenting once again the tantalizing suggestion that Spinoza’s own strongly Platonic orientation, most especially the focus on salvation, which sets him apart from his rationalist confreres Descartes and Leibniz, might have been transmitted to him by way of the kabbalist influence. Interestingly, Herrera also wrote a treatise on logic, Epítome y compendio de la lógica o dialéctica, which was his only published work.
(...)
Aboab left Amsterdam, accepting the invitation to become the rabbi of the prosperous community of Recife, Brazil, which was then under the rule of the Dutch, making him the first American rabbi. His departure might very well have been a result of the fracas regarding the afterlife. He remained in Brazil from 1642 until the reconquest of Recife by the Portuguese in 1654, when all the Jews were forced to leave. Twenty-three of the refugees—men, women, and children—ended up in Dutch New Amsterdam after their ship was attacked by a Spanish privateer who deprived them of their possessions. Peter Stuyvesant, the Dutch colonial governor, was ill-disposed toward Jews and disinclined to allow these particular Jews—now indigent—to stay. Their former Jewish neighbors back in Holland interceded on their behalf with the Dutch West India Company, which directed Stuyvesant to tolerate their presence, so long as they proved no burden to the community. In this way these twenty-three from Recife became the first Jewish New Yorkers—even before there was a New York.
     Rebecca Goldstein, Betraying Spinoza:The Renegade Jew Who Gave Us Modernity, p.147 e 157   

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Jordi Savall, Montserrat Figueras, "El Moro de Antequera" (Sephardic Jewish music from Rhodes)



Dante, Inferno VIII:31-51

So, rushing forwards on that lifeless slick,
there jerked up, fronting me, one brimming slime
who spoke: 'so who - you come too soon! - are you?'
And my riposte: 'I come, perhaps; I'll not rermain.
But who might you be, brutishly befouled?'
His answer was: 'Just look at me. I'm one
who weeps.' And I to him: 'Weep on. In grief,
may you remain, you spirit of damnation!
I know who you are, filth as you may be.'
And then he stretched both hands towards our gunwales.
My teacher, though - alert - soon drove him back,
saying: 'get down! Be off with all that dog pack!'
And then he ringed both arms around my neck.
He kissed my face, then said: 'You wrathful soul!
Blessed the one that held you in her womb.
That man, alive, flaunted his arrogance,
and nothing  good adorns his memory.
So here his shadow is possessed with rage.
How many, in the word above, pose there
as kings but here lie like pigs in muck,
leaving behind them horrible dispraise.'


(tr. Robin kirkpatrick)

Eugene Delacroix, Dante et Virgile aux enfers (1822)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

terça-feira, 2 de setembro de 2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"Uriel da Costa

 had been baptized Gabriel, born in Oporto, Portugal. His father was a devout Catholic, but his mother came from a converso family and, as the work of recent historians has unearthed, most likely observed some of the secret rites of Marranism. Gabriel studied canon law at the University of Coimbra and was a church treasurer. Da Costa described himself as having become disillusioned with Christianity. In studying and comparing the New Testament with the Five Books of Moses, he found contradictions and reached the conclusion that Judaism, from which Christianity had sprung, presented the authentic experience, with Christianity a corruption of it. He also confessed that Christianity’s emphasis on hell’s damnation terrified him. Soon both he and his five brothers were inwardly identifying themselves as Jewish. After the death of their Catholic father, the six boys, together with their mother, Banca, determined to leave Portugal.
He presents himself as having voluntarily left Portugal for the freedom to practice Judaism openly, but the historian Israel Révah, researching the records of the Oporto Inquisition, found that, unsurprisingly, the converso had attracted the attention of the office of the Inquisition, which was preparing a devastating case against him, so his emigration was most likely not simply a spiritual journey but an attempt to escape with his life.
Once in Amsterdam, da Costa found that the Judaism being practiced there did not live up to his expectations. The departures from the pristine ancient religion of Moses were, in his eyes, unjustifiable extensions of God’s direct revelations. The accretions of rabbinical ordinances and Talmudic rulings, the codification of the so-called Oral Law, offended da Costa’s construction of what Judaism ought to be. The organized hierarchical religion of the rabbis was as much a corruption of the original Mosaic Code as was Catholicism, and da Costa set about single-handedly to reform it, to purify it of all its post-Mosaic content. As the historian Yirmiyahu Yovel points out, we must read Examplar with several grains of salt. It is highly dubious that da Costa believed that “the religion of Moses had been petrified for over two millennia, waiting for Uriel da Costa to perform an unhistorical leap into it. However vaguely and unwillingly, da Costa was aware that post-biblical Judaism was different from the original model. But he hoped and believed that the fluid New Jewish situation offered a historical opportunity to remedy this. … Da Costa expected that (unlike the Catholicism of which he had despaired) Judaism could lend itself to a purifying reform in the original direction of the Bible, especially within the New Jewish communities where, out of a minimal and shattered basis, former Marranos were trying to reconstruct a Jewish life for themselves. Since these New Jews were already engaged in an effort to recapture their lost essence, they may as well have regressed further back to their origins and restored the purer biblical Judaism that elsewhere had been obliterated.”
Needless to say, his efforts did not find favor with the rabbis of Amsterdam, who were charged with the task of transporting the former Marranos back to the halakhic Judaism from which history had separated them.
Da Costa reacted with fury to the intransigence of the religious authorities of the community, and in search of a more authentic Judaism left Amsterdam for the Sephardic community of Hamburg, which did not respond any more favorably to his reforming ideas than Amsterdam had. In 1616 he composed a set of eleven theses attacking what he called “the vanity and invalidity of the traditions and ordinances of the Pharisees.” He claimed that the rabbis, in equating Talmudic interpretations with the Torah, “make the word of man equal to that of God.”
On August 14, 1618, da Costa was put in kherem by the chief rabbi of Venice, Rabbi Leon de Medina, who was the teacher of the chief rabbi of Amsterdam, Rabbi Morteira. He was also put under a ban in Hamburg, and returned to Amsterdam, still fighting. He committed his protest to writing, publishing in 1624 his feisty Exame das tradições phariseas (Examination of the Pharisaic Traditions), which objects to such laws as male circumcision, the laying on of tefillin, or phylacteries, and also vehemently protests the extrabiblical inclusion of the doctrine of immortality and divine retribution. This doctrine, he confesses, was precisely what had driven him from Catholicism. “In truth, the most distressful and wretched time in my life was when I believed that eternal bliss or misery awaited man and that according to his works he would earn that bliss or that misery.” He was terrified by the eschatological metaphysics and found peace only when he realized the absurdity of the claim that the soul might survive the death of the body, since the soul is only an aspect of the body, the vital source that animates it and also accounts for rationality.
(...)
But the community was under rabbinical orders to regard the religious renegade as a pariah. Da Costa writes in the Examplar that even children mocked him on the streets and threw stones at his windows. Nevertheless, da Costa did not absent himself from the community. Of course, he was already under kherem in Venice and Hamburg, and he must have reasoned that wherever he went Jewish communities would find him intolerable. But interestingly, even though he had reached the intellectual conclusion that Judaism, like Christianity, was but a man-made system arising out of man’s needs, and that the true religion was deism—the belief, based solely on reason and not revelation, in a God who created the universe and then left it to its own devices, assuming no control over life and never intervening in the course of history or of natural phenomena—still, on an emotional level, da Costa seemed incapable of taking leave of Judaism, or at least of the Jewish community. He lived among the Amsterdam Sephardim as a despised individual, clinging to the margins of a world that had become for him an open narcissistic wound. Yet he did not simply pick himself up and quit Jewish life decisively. Though the Jews had excommunicated him he was not prepared to excommunicate the Jews. His disinclination to think of himself as outside the religious community is telling and casts a dramatic contrast with Spinoza. "

   Rebecca Goldstein, Betraying Spinoza:The Renegade Jew Who Gave Us Modernity, p.133-137.   

The obsession with the questions of who is a Jew

In the 1630s there were again a rash of accusations in Portugal that the conversos were crypto-Judaizers, and that they were trying to convert Old Christians, particularly their Christian servants. The inquisitor of Llerena wrote in 1628 or soon thereafter, “From the moment of its conception, every fetus permanently carries with it the moral attributes—in the case of the Marranos, the moral depravity—of its parents.” This was not a new idea in Portugal. The sermons preached on the occasion of autos-da-fé throughout the fifteenth century often stressed the immutability of the Jews, a moral trait passed on from generation to generation.
The former conversos who came to Amsterdam brought with them the interwoven preoccupations with Jewish identity and personal identity that the Inquisition had forced on them. While the rash of accusations were going on in Portugal, conversos kept arriving, leaving relatives and friends behind.
In the relative freedom of Protestant Amsterdam, the former Marranos set about organizing themselves into the kind of community required for the full performance of the halakha from which they had been severed. At first, rabbis had to be imported to instruct them, though they soon started producing their own; a model school was organized; an elaborate hierarchical system was erected for guidance as well as for chastisement. 
But the old painful dilemmas would not so easily be laid to rest; how could they possibly be when the trauma had gone so deep and those who walked the streets of the Vlooienburg and the Breestraat had New Christian friends and relatives in Portugal still kept under the ever watchful eye of the Inquisition? The Jews of Amsterdam—especially those whose unorthodoxy brought them into conflict with the rabbis— were themselves still objects of pointed interest to the Church, and inquisitorial spies walked among the Dutch Sephardim. 
In fact, we owe what scant knowledge we have of Spinoza himself during the period that had been known as his “lost years”—the four years between his excommunication and his known fraternization with various dissenting Christians, known collectively as the Collegiants—to investigative diggings in the records of the Inquisition by the historian Israel Révah. Révah discovered reports on the young Spinoza from two different sources. One was a Latin-American Augustinian monk, Friar Tomás Solanao y Robles, who had visited Amsterdam in late 1658 and voluntarily reported to the Madrid Inquisition upon his return. He volunteered the information to clear himself of any suspicion he may have attracted by traveling in non-Catholic lands. And then on the following day, a report was filed, this time upon request, by a Spanish soldier, Captain Miguel Pérez de Maltranilla3 Spinoza’s surfacing to light from out of the medieval murk of the inquisitorial files of the Church—which still, apparently, considered his soul of their concern, since he was the offspring of conversos, and so, in its eyes, still Christian— underscores the anachronistic audacity of Spinoza’s choice: to define his life on his terms, not as a heterodox Jew or Christian. But it underscores, as well, how vividly present the powerful and hidden forces of the Inquisition remained in the lives of the community—even in the life of the banished of the community, in a heretic Jew like Spinoza. 
The obsession with the questions of who is a Jew, what is a Jew, can a person be un-Judaized, re-Judaized—all of these questions intertwined with the Marrano preoccupation with redemptive possibilities—would have been, one imagines, like an incessant nervous murmur registering just below audibility, a constant discordant accompaniment to conversations in homes and streets and synagogues, as well as in the inner recesses of unquiet minds. Sometimes the murmur would break out into painfully articulated communal conflicts and contretemps, ripping apart whatever façade of placid Dutch burghers they might have been trying to assume."

   Rebecca Goldstein, Betraying Spinoza:The Renegade Jew Who Gave Us Modernity, p.130-133.   

Plano do Inferno



Se não houver fruto, a árvore será esquecida.

"A ficção e a não-ficção não podem dividir-se assim tão facilmente. A ficção talvez não seja real, mas é verdadeira; vai além da colectânea de factos para chegar a verdades emocionais e psicológicas. Quanto à não ficção, à história, pode ser real, mas a sua verdade é escorregadia, de difícil acesso, sem um significado indelevelmente associado. Se a história não se transformar em estória, morre para todos excepto para o historiador. A arte é a mala da história, na qual se transporta o que é essencial. A arte é a bóia de salvação da história. A arte é semente, a arte é memória, a arte é vacina. - Pressentindo que o historiador se preparava para o interromper, Henry apressou-se a prosseguir incoerentemente: - Com o Holocausto, temos uma árvore com enormes raízes históricas e apenas alguns escassos e minúsculos frutos ficcionais. mas é no fruto que está a semente! É o fruto que as pessoas escolhem. Se não houver fruto, a árvore será esquecida. Cada um de nós é como um flip book - continuou Henry, embora não houvesse uma progressão lógica entre essa ideia e o que acabara de dizer. Cada um de nós é uma mistura de facto e ficção, um tecido feito de histórias que vive no nosso corpo real. Não é assim?"
                          Yann Martel, Beatriz e Virgílio, Editorial Presença, 2010, pp.17-18.