quarta-feira, 6 de maio de 2015
domingo, 3 de maio de 2015
como um rebento de relva que começa a nascer num terreno bravio rodeado de ervas daninhas
"Ontem à tarde lemos juntos os apontamentos que ele me tinha dado. E quando chegámos a estas palavras: «Porém deveria bastar que houvesse uma pessoa digna de se chamar "Mensch" para se acreditar nas pessoas e na Humanidade», então abracei-o num impulso espontâneo. Este é o problema dos tempos que correm. O grande ódio contra os alemães, que me envenena a alma. «Eles que se afoguem, essa ralé, deveriam ser todos fumigados.» Estas observações fazem parte da conversa do dia-a-dia e às vezes provocam-nos a sensação de que é impossível viver nesta época. Até que de repente, há umas semanas, me surgiu a ideia libertadora, hesitante e frágil como um rebento de relva que começa a nascer num terreno bravio rodeado de ervas daninhas: mesmo que só houvesse um alemão digno de ser protegido contra essa chusma bárbara, por causa desse alemão decente não se devia derramar o ódio sobre um povo inteiro.
Isso não significa que uma pessoa deva ter uma atitude indecisa em relação a determinadas correntes, uma pessoa toma posição, indigna-se regularmente com determinadas coisas, tenta informar-se, mas o ódio indiferenciado é a pior coisa que existe. É uma doença da própria alma. O ódio não faz parte do meu feitio. Se chegasse a esse ponto na época actual, então a minha alma ficaria ferida e teria de tentar encontrar um remédio para isso o mais rapidamente possível. (...)
Às vezes encho-me repentinamente de ódio, depois de ler o jornal ou de ouvir uma qualquer notícia do exterior, nesses momentos sou por vezes capaz de me exceder em palavrões contra os alemães. E tenho consciência de que o faço de propósito para magoar Käthe, para dar vazão ao ódio, apesar de ser contra uma querida amiga que eu sei que ama o seu país natal, o que é perfeitamente natural e compreensível, mas nesses momentos não consigo suportar que ela não os odeie tanto como eu - procuro, digamos, sintonia nesse ódio aos meus semelhantes. E isso sabendo eu que ela detesta a nova mentalidade tanto quanto eu, e fica igualmente acabrunhada com os excessos do seu povo. Porém, no íntimo, continua ligada àquele povo, e eu sinto-o, mas nesses momentos não consigo aguentar, esse povo inteiro deve ser exterminado pela raiz, e de vez em quando digo, malévola: «Escumalha, é o que são», enquanto fico envergonhada ao mesmo tempo. E mais tarde fico muito triste e não tenho sossego, porque sinto que tudo isto não está certo.
E então é verdadeiramente tocante o modo como de vez em quando dizemos muito amigavelmente a Käthe, para a animar:«Claro que sim, ainda existem alemães decentes, ao fim e ao cabo os soldados também nem sempre podem fazer alguma coisa, há alguns que são simpáticos.» Mas isso é só em teoria, dizemos isto só para mostrar um pouco de humanidade em meia dúzia de palavras inócuas. Porque se fossem verdadeiras, se sentíssemos realmente aquilo que afirmamos, não precisávamos de as enfatizar como fazemos, nesse caso seria um sentimento partilhado tanto pela saloia alemã como pelas estudantes judias, e então poderíamos falar sobre o bom estado do tempo e sobre a sopa de legumes, em vez de nos atormentarmos com conversas sobre política que nos servem apenas para dar vazão ao ódio. Porque o pensamento político, o tentar ver algo das linhas gerais e descortinar um pouco do que está por detrás delas, é coisa que praticamente desapareceu das nossas discussões; nada é aprofundado e, por esse motivo, hoje em dia não é interessante conversar sobre esses assuntos com outras pessoas. É por isso que S. se apresenta como um oásis no meio do deserto e que o abracei tão subitamente.
Ainda há muito para dizer a este respeito, mas agora tenho de pensar outra vez no trabalho, primeiro vou tomar uma lufada de ar fresco e depois atiro-me ao eslavo litúrgico. Até já."
Etty Hillesum, Diário 1941-1943, Assírio e Alvim, 2009, pp. 68-71.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Billie Holiday, Blue Moon
Billie Holiday -- vocals
Charlie Shavers -- trumpet
Flip Phillips -- tenor saxophone
Oscar Peterson -- piano
Ray Brown -- double bass
Barney Kessel -- guitar
Alvin Stoller -- drums
"who knows?"
"This basic text establishes first of all the extreme distante between human beings and God, and the identification of humanity with animals (which squares well with Gen. 1 and 2). The breath of life vivifies animal and human being alike. But the word here is ruah, well-known as an ambiguous term. Qohelet says nothing here about spirituality, humana beings bearing God's image, etc. Therefore, unquestionably, we are animals. After all, this conclusion does not strike me as so out of the ordinary: since humanity does not behave like the image of God, it is nothing more than an animal.
Our identity with animals is indicated by our common lot: death. A human being may have ruah, but he can in no way claim to be God's equal. He knows nothing of an afterlife, and this indicates his distance from God. Human beings wanted and established this distance, pretending to be equal with God! One wonders why Christians have been so scandalized by scientific hypotesis, including Charles Darwin's, considering they had Qohelet. Human beings and animals are subject to the same fate, just like the wise person and the fool (2:14), the righteous and the wicked, and the pure and impure ...(9:2). Their lot is identical: death. But this as nothing to do with destiny or fate.
Since we cannot fail to come up against death, we must question our identity with animals, who have the same lot, as we have already seen. But we cannot offer a definitive answer; we can only ask: "who knows?" (3:21). You cannot maintain that your spirit will experience a different fate (rising upward) from the life-breath of an animal (which will go downward). We can state nothing in this regard. The unquestionable difference between human beings and animals does not allow us to infer an absolute qualitative difference. Qohelet obliges us to limit ourselves to the question: "who knows?" No revelation can simplify this issue for us. All we have is God's work, this blockage, and this insoluble question. "
Jaques Ellul, Reason for Being - a Meditation on Ecclesiastes, (tr.) Eerdmans Pub., 1990, 222-223.
one and the same fate
"So I decided, as regards men, to dissociate them [from] the divine beings and to face the fact that they are beasts. For in respect of the fate of man and the fate of beast, they have one and the same fate: as the one dies so dies the other, and both have the same lifebreath; man has no superiority over beast, since both amount to nothing. Both go to the same place; both came from dust and both return to dust. Who knows if a man's lifebreath does rise upward and if a beast's breath does sink down into the earth?"
Ecclesiastes (JSP) 3: 17-21
terça-feira, 28 de abril de 2015
Coleman Hawkins - live In Europe 60's
London, England, October 1964
1. Stoned
2. September Song
3. What's New
4. Willow Weep For Me
5. Centerpiece
6. Caravan
London, England, 26 November, 1966
7. Blue Lou
8. I Can't Get Started
9. Body And Soul
10. Disorder At The Broder
Belgium, early June 1962
12. Blowing For Aldolphe sax
13. Disorder At The Border
14. South Of France Blues
15. Rifftide
:
1962,
1964,
1966,
Grandes Mestres
segunda-feira, 27 de abril de 2015
O ponto de vista animal
"Crítica dos animais. Temo que os animais considerem o homem como um ser da sua espécie que perdeu o senso comum animal de forma extremamente perigosa, como o animal alucinado, o animal que ri, o animal que chora, o animal desditoso."
Nietzsche, A Gaia Ciência, Relógio D'Água, 1998, p.175.
sábado, 25 de abril de 2015
domingo, 19 de abril de 2015
domingo, 12 de abril de 2015
like a shadow
"No mistake about it, Qohelet means to leave us no escape. He warns us that something very small (a dead fly) will suffice to ruin a jar of perfume or scholarly wisdom. I cannot help but think of certain more or less great philosophers of modern times whose entire system appears ruined by their support of a political error: the great G. W. F. Hegel, for instance, whom I cannot take seriously because he sees the culmination of History, Idea, and Spirit in the State! Everything he says is truly wonderful, but when I come up against this dead fly that corrupted and killed Western society in the nineteenth and twentieth centuries, I cannot continue to take anything seriously in his preceding discourse on so many other problems.
The great Martin Heidegger, in whose work everything is so profound, enticing, and innovative, failed to display any lucidity at all in discerning the real nature of national socialism. Those few months of his support for Nazism suffice for me to consider the rest of his work null and void. How can anyone expect me to follow such a guide in his Holzwege, when he was unable to make the right choice in that one simple matter in his life? The dead fly - misplaced loyalty - may appear for just an instant! And I fully realize that by blackballing certain thinkers, I in turn deserve Qohelet´s other judgment in the same passage!
Wisdom is fragile - it can vanish when we change a single line. Even worse, wisdom is impossible. Anyone who thinks he has reached it has grasped only wind. Who knows anything? Who can pride himself on "knowing"? "Who knows what is good for a person during life, during the number of days of his vain life, which he passes like a shadow?(6:12) Wisdom is as fragile as the person himself. After all, why should wisdom be surer and truer than those who create it? It is like a shadow. We can mesure, situate, and weigh everything, but not a shadow. It has no existence in itself, since it depends both on the object that projects it and on light, which changes constantly.
(...) As for us moderns, we have discovered a great many things. But, as we have already seen, the horizon continually moves farther from us. In this connection, Qohelet seems to posit a kind of absolute: no matter what he does, he cannot find the ultimate secret, the key that would enable him to understand everything. As little as I know, what strikes me most is that further we advance, the more everything we know becomes complex and elusive."
Jaques Ellul, Reason for Being - a Meditation on Ecclesiastes, (tr.) Eerdmans Pub., 1990, pp.148-149.
sábado, 11 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Kohéleth
"Dead flies turn the perfurmer's ointment fetid and putrid; so a little folly outweighs massive wisdom."
Ecclesiastes, 10:1
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Min Kamp - Karl Ove Knausgaard talking to Andrew O’Hagan
"Talvez nunca ninguém como Celan tivesse conseguido estar mais perto do que é a apropriação do real pela palavra e ao mesmo tempo das suas limitações quando o faz. Sem as palavras o mundo colapsa, mas o mundo por vezes mata as palavras. Hitler destruiu as de Celan, porque a sua linguagem era diferente. O sentido que um e outro conferiram à mesma palavra não se ajustava."
(Entrevista de Isabel Lucas a Karl Ove Knausgaard, revista Ler, Março 2015, nº137, p.70)
terça-feira, 24 de março de 2015
Herberto Helder
Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
Ninguém tem mais peso que o seu canto.
A lua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: - a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
●
Ninguém tem mais peso que o seu canto.
A lua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: - a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
do livro Última Ciência, em Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1996, p. 543.
István Farkas, Cielo de tormenta (1927)
Por sugestão de Imre Kertész, Um Outro - Crónica de Uma Metamorfose, Presença, 2009, onde se pode ler:
"István Farkas é um das figuras maiores da pintura europeia; quanto ao «fim trágico» quer dizer que foi morto em Auschwitz.
(p.89)
«Pode viver-se num só dia o horror do inferno; há mais do que tempo»
(Wittgenstein)
Nunca poderei saber como vou viver este horror, a agonia de A., como - no fim de contas - nem sequer posso saber nada de essencial sobre mim mesmo. O meu presente é, de momento, um tempo consagrado às recordações: no futuro, hei-de julgar o meu presente actual, e, portanto, uma insidiosa falsificação infiltra-se como um veneno manhoso em todos os meus pensamentos, em todas as minhas acções. O que eu tenho, ainda assim, que registar: a traição que o ser vivo comete em todos os instantes, a humilhação bem conhecida, e invencível, da sobrevivência. Cedo ou tarde, encontramo-nos na situação em que se luta por uma sobrevivência que o caos do moribundo ameaça engolir. Primeiramente, toma-se conhecimento da doença mortal de um próximo; em seguida, aceita-se a ideia; mais tarde, resignamo-nos, e entrega-se nas mãos dos especialistas. Num certo sentido, tornamo-nos assassinos e poucos poderão evitar este destino, salvo, talvez, os solitários, as pessoas sós. Mas também eles tiveram, talvez, um pai ou uma mãe que lhes falavam do fundo do seu balde do lixo. Tenho ainda que anotar que as situações que dão origem a tais práticas e, decorrentes destas práticas, a tais ideias, se devem ao modo de vida moderno. A morte - mais precisamente, o morrer - é um problema já antigo, mas era, digamos, um problema natural. As situações modernas rimam sempre um pouco com Auschwitz; Auschwitz resulta sempre um pouco das situações modernas."
(pp. 94-95)
sábado, 14 de março de 2015
sexta-feira, 13 de março de 2015
terça-feira, 10 de março de 2015
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