sábado, 25 de abril de 2015
domingo, 19 de abril de 2015
domingo, 12 de abril de 2015
like a shadow
"No mistake about it, Qohelet means to leave us no escape. He warns us that something very small (a dead fly) will suffice to ruin a jar of perfume or scholarly wisdom. I cannot help but think of certain more or less great philosophers of modern times whose entire system appears ruined by their support of a political error: the great G. W. F. Hegel, for instance, whom I cannot take seriously because he sees the culmination of History, Idea, and Spirit in the State! Everything he says is truly wonderful, but when I come up against this dead fly that corrupted and killed Western society in the nineteenth and twentieth centuries, I cannot continue to take anything seriously in his preceding discourse on so many other problems.
The great Martin Heidegger, in whose work everything is so profound, enticing, and innovative, failed to display any lucidity at all in discerning the real nature of national socialism. Those few months of his support for Nazism suffice for me to consider the rest of his work null and void. How can anyone expect me to follow such a guide in his Holzwege, when he was unable to make the right choice in that one simple matter in his life? The dead fly - misplaced loyalty - may appear for just an instant! And I fully realize that by blackballing certain thinkers, I in turn deserve Qohelet´s other judgment in the same passage!
Wisdom is fragile - it can vanish when we change a single line. Even worse, wisdom is impossible. Anyone who thinks he has reached it has grasped only wind. Who knows anything? Who can pride himself on "knowing"? "Who knows what is good for a person during life, during the number of days of his vain life, which he passes like a shadow?(6:12) Wisdom is as fragile as the person himself. After all, why should wisdom be surer and truer than those who create it? It is like a shadow. We can mesure, situate, and weigh everything, but not a shadow. It has no existence in itself, since it depends both on the object that projects it and on light, which changes constantly.
(...) As for us moderns, we have discovered a great many things. But, as we have already seen, the horizon continually moves farther from us. In this connection, Qohelet seems to posit a kind of absolute: no matter what he does, he cannot find the ultimate secret, the key that would enable him to understand everything. As little as I know, what strikes me most is that further we advance, the more everything we know becomes complex and elusive."
Jaques Ellul, Reason for Being - a Meditation on Ecclesiastes, (tr.) Eerdmans Pub., 1990, pp.148-149.
sábado, 11 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Kohéleth
"Dead flies turn the perfurmer's ointment fetid and putrid; so a little folly outweighs massive wisdom."
Ecclesiastes, 10:1
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Min Kamp - Karl Ove Knausgaard talking to Andrew O’Hagan
"Talvez nunca ninguém como Celan tivesse conseguido estar mais perto do que é a apropriação do real pela palavra e ao mesmo tempo das suas limitações quando o faz. Sem as palavras o mundo colapsa, mas o mundo por vezes mata as palavras. Hitler destruiu as de Celan, porque a sua linguagem era diferente. O sentido que um e outro conferiram à mesma palavra não se ajustava."
(Entrevista de Isabel Lucas a Karl Ove Knausgaard, revista Ler, Março 2015, nº137, p.70)
terça-feira, 24 de março de 2015
Herberto Helder
Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
Ninguém tem mais peso que o seu canto.
A lua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: - a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
●
Ninguém tem mais peso que o seu canto.
A lua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: - a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
do livro Última Ciência, em Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1996, p. 543.
István Farkas, Cielo de tormenta (1927)
Por sugestão de Imre Kertész, Um Outro - Crónica de Uma Metamorfose, Presença, 2009, onde se pode ler:
"István Farkas é um das figuras maiores da pintura europeia; quanto ao «fim trágico» quer dizer que foi morto em Auschwitz.
(p.89)
«Pode viver-se num só dia o horror do inferno; há mais do que tempo»
(Wittgenstein)
Nunca poderei saber como vou viver este horror, a agonia de A., como - no fim de contas - nem sequer posso saber nada de essencial sobre mim mesmo. O meu presente é, de momento, um tempo consagrado às recordações: no futuro, hei-de julgar o meu presente actual, e, portanto, uma insidiosa falsificação infiltra-se como um veneno manhoso em todos os meus pensamentos, em todas as minhas acções. O que eu tenho, ainda assim, que registar: a traição que o ser vivo comete em todos os instantes, a humilhação bem conhecida, e invencível, da sobrevivência. Cedo ou tarde, encontramo-nos na situação em que se luta por uma sobrevivência que o caos do moribundo ameaça engolir. Primeiramente, toma-se conhecimento da doença mortal de um próximo; em seguida, aceita-se a ideia; mais tarde, resignamo-nos, e entrega-se nas mãos dos especialistas. Num certo sentido, tornamo-nos assassinos e poucos poderão evitar este destino, salvo, talvez, os solitários, as pessoas sós. Mas também eles tiveram, talvez, um pai ou uma mãe que lhes falavam do fundo do seu balde do lixo. Tenho ainda que anotar que as situações que dão origem a tais práticas e, decorrentes destas práticas, a tais ideias, se devem ao modo de vida moderno. A morte - mais precisamente, o morrer - é um problema já antigo, mas era, digamos, um problema natural. As situações modernas rimam sempre um pouco com Auschwitz; Auschwitz resulta sempre um pouco das situações modernas."
(pp. 94-95)
sábado, 14 de março de 2015
sexta-feira, 13 de março de 2015
terça-feira, 10 de março de 2015
segunda-feira, 9 de março de 2015
Luiz Pacheco
"A televisão está a matar a literatura?A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos! Eu, até há dois anos e meio, não
tinha televisão, nem telefone, nem frigorífico. Agora, é tipo novo-rico, deixo as coisas aí a estragaram-se. Eu não tinha televisão e caiu-me em casa, estava eu de cama, dia e noite. Via muito. E nunca tinha visto cenas de quartos, nem essas gajas brasileiras que cá vêm, aquilo era tudo para mim novidade, caras novas, bons actores, boas encenações: espanto! Fiquei um bocado obcecado. Estava a vigiar, agora muito menos, o Herman José, que foi, para mim, um belíssimo professor. Até porque a televisão, como é uma imagem deturpada, mas imagem, da sociedade actual, levou-me onde eu não podia ir sem ela. Com a televisão entrou-me o século xx pelo quarto dentro.E apanhou-o deitado...E apanhou-me deitado, é uma posição boa, não é? [risos]. Agora vejo uma telenovela, espanto, vejo uma, vejo duas, vejo três, vejo sempre o mesmo gajo que aparece em todas e que é um tipo chato, um actor de merda. Nos filmes querem-me impressionar com aquelas músicas de treta. E depois com as boquinhas de peido da Catarina Furtado, são palhaços! E as gargalhadas dão-me cabo da cabeça. Riem-se de nada, então naqueles filmes que têm gargalhadas por detrás, supõem que rimos por eco. Isto é que dá cabo da literatura? Nunca.Mensagens para as novas gerações?Puta que os pariu.(132-133)
O Pacheco dizia-se um libertino, mas segundo consta quando lhe fizeram a si o que fazia aos outros ficou todo chateado.
Não sei ao que se refere.
Quando apanhou a sua primeira mulher com a Natália Correia...
Não apanhei. Se a apanhasse não sei o que é que faria.
Então o que é que se passou?
A Natália é que era uma maluca, uma degenerada. Não arranjava amantes de borla, era só velhos com massa. A maluca teve lá em casa a minha companheira e o miudito. eu estava no Limoeiro a cumprir pena. Já sabia como é que a maluca era, por isso, sempre que era visitado pela minha, perguntava: «Então, como vai aquilo lá por casa da Natália?» Aquilo eram conversas de prisão com uma grade à frente: «vai bem, mas houve uma coisa que eu não percebi...» «Alto lá!», pensei. E perguntei-lhe logo: «O que foi?»; «Olha, fomos para a casa de banho as duas, dois homens já é mais complicado - ela despiu-se toda e começou a esfregar a rata no espelho.» Essa é de um gajo morrer a rir. A minha era uma camponesa, sabia lá o que era aquilo de esfregar a rata no espelho. Agora aquela demonstração de sexo, de esfregar a rata na rata do espelho... Quando saí, tive de esclarecer o assunto com a Natália.
Mas é libertino...
Não se pode ser. Não. Sou é um velhadas muita louco.
(144-145)
E esta solidão em que vive alimenta-lhe alguma nostalgia?
Não. Também não adiantava. Eu nunca aguentaria uma situação idêntica à do Saramago, por exemplo. A Pilar controla tudo, de manhã à noite. O homem não pode ter aventuras nem com homens nem com mulheres. Nada. Está ali com o mirone sempre a pau. O que é que há-de fazer? Faz bolhetins do gabinete do senhor escritor José Saramago. Tanto dá que tenha sido escrito por ele, pela mulher-a-dias, pela Pilar, pela Desidéria. Ele no fim assina e pronto. Vai aqui, vai ali, recebe prémio, não recebe prémio. Ele é um computador. Mesmo que tivesse vivido ao longo destes anos uma aventura qualquer não pode escrevê-la. Está impedido.
Percebo o que quer dizer. Pergunto-lhe então no que é que aplica a sua liberdade.Agora uso-a para mijar.(159)
Como é que se tem dado aqui neste lar?Há uns tempos andei com a ideia de fazer uns trabalhos sobre lares. A má fama dos lares é justificada... e não sabes tu da metade do que se passa aqui... há uns casos humanos dramáticos, por exemplo, a senhora do quarto aqui ao lado... à noite têm de lhe mudar a fralda... passa horas a berrar «senhora empregada, senhora empregada.» Ninguém aparece... eu ainda lá fui uma vez... aqui não há campainha de alarme, não há telefone. Também, o que é que isso interessa, no lar de Palmela havia telefone, mas tocava-se e não estava lá ninguém... Esse lar de Palmela era o lar n.º I, o melhor do país segundo a Deco. Era um modelo. O projecto do lar deve ter sido gamado do estrangeiro. Era um lar invulgar, com todas as condições. Mas o ambiente era muito desumano, era uma espécie de aldeia turística. (...) Era um lar no meio de uma serrra, com o ar puríssimo de Palmela, uma construção nova, em arco, sem vizinhança, sem casas à volta... Era muito bonito... Fui para lá logo quando aquilo começou... no início, a fase da promoção, serviam um bacalhau altíssimo, as torradas pareciam as das pastelarias da Baixa, dois andares de torradas, molhadas em manteiga, o café com leite vinha com dois pacotes de açucar... depois, um dia, começou a aparecer um só pacote...vieram as economias... as torradas passaram a ter só um andar com uma lambidela de margarina... Agora este aqui, do Príncipe Real, já se aproxima mais da generalidade. Por exemplo, as giletes que eles dão algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia... Isto é um armazém de pré-cadáveres, é uma parada de monstros. Há um gajo que não tem uma perna, anda de cadeira de rodas empurrado por um velhinho de 88 anos, há outro que é cego, tem glaucoma, mais a namorada, que é horrorosa, mas como ele não vê também não faz mal... outro tem alzheimer, o senhor Américo, entra aqui, de boné e pijama, dá uma volta pelo quarto, às vezes vai à casa de banho, sai, não repara em ninguém, não diz nada... há outro que é o senhor Virgílio, anda pelos corredores a rir e a assobiar, são dois fantasmas... há um que anda aqui a passear de um lado para o outro, diz «ai, ai, ai», depois vai bater na outra que está sempre sentada na cama, vai lá mexer... não tem mão nela... com estes gajos não se pode estar a discutir, é comprimido, água para o bucho, não vai um vão dois, fica a dormir dois dias seguidos. Isto agora aqui são os últimos dias do condenado. Aqui a lei é morrer devagar. Está uma a morrer ali, ou já morreu, não sei, estou eu a morrer aqui, está outra a morrer ali... A ver quem morre primeiro... «Já foi», é o que dizem quando alguém morre. Agora já sei o que vão dizer quando eu morrer."
(194)
A propósito, no outro dia na televisão disseste que te estavas nas tintas para os jovens de hoje.
Disse «puta que os pariu».
É blague. Falas dos teus filhos, de uma neta muito bonita, para que é que dizes essas coisas?
A primeira vez que disse isso foi para a revista Ler. O gajo massacrou-me horas com a entrevista, eu já estava cansado, às tantas fiz-lhe um manguito, mas ele, no corredor, ainda me veio com essa do futuro. Puta que os pariu.
(272)
Entrevistas a Luiz Pacheco, O Crocodilo que Voa, Tinta da China Edições, 2015
domingo, 8 de março de 2015
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
domingo, 8 de fevereiro de 2015
A singularidade extraordinária de Buchenwald
"Porém, quando se fala da Europa, para mim é absolutamente necessário regressar aoscampos. Embora tenha decidido, por uma questão de higiene pessoal, nunca mais aludir deliberadamente a esse passado, sou obrigado a fazê-lo indirectamente aqui. Buchenwald é um campo onde o símbolo, a incarnação do projecto europeu nos seus primórdios, é evidente e se inscreve na própria realidade geográfica dfo campo. A chaminé so crematório domina o campo tal como se apresenta heje, e foi ela que se tornou lugar de memória. Mas, no fim da colina que desce para a planície da Turíngia, há uma floresta muito recente, que os velhos deportados sabem muito bem que não existia na época. Foi plantada pelas autoridades da República Democrática Alemã. Porquê? Para esconder as valas comuns do campo estalinista.
Porque a singularidade extraordinária de Buchenwald reside no facto de, dois meses depois da partida dos últimos deportados, resistentes jugoslavos, portanto em Setembro de 1945, o campo ter reaberto para se transformar num campo da polícia soviética, na zona da ocupação russa na Alemanha. Transformou-se no Speziallager Nr. 2, o «campo especial nº2». O campo só esteve vazio de prisioneiros durante um breve intervalo de poucas semanas. É evidente que esse símbolo possui uma força extraordinária. É por esse motivo que a Alemanha tem um papel essencial a desempenhar, além da «expiação» dos crimes nazis: porque é o único país da Europa onde se sucederam directamente os dois totalitarismos, pelo menos numa parte dessa Alemanha reunificada. É por esse motivo que a motivação europeia é particularmente sensível na Alemanha em geral, e em Buchenwald em particular."
Jorge Semprún, A Linguagem é a Minha Pátria - Entrevistas com Franck Appréderis, Bizâncio, (tr. )
2013, p. 113-114
Vermeer, A Vista de Delf (1660-61) e Rubens, As três Graças (1639)
Por sugestão de Jorge Semprún, A Linguagem é a Minha Pátria - Entrevistas com Franck Appréderis, Bizâncio, (tr. ) 2013, p. 68, onde se pode ler:
"Com efeito, creio que poderia contar a minha vida, ou escrever as minhas memórias (cada período diferente, cada episódio, cada camada de mil-folhas), em torno de um certo número de museus. Poderia, por exemplo, contar o fim da infância e a minha adolescência em torno do museu de Haia, o Mauritshuis, porque o visitava muito nesse período, e dele conservo a recordação de A Vista de Delf de Vermeer. Poderia também contar toda a minha vida política clandestina em torno do museu de Praga, a Galeria Nacional, bem como de certos museus da URSS, como o Ermitage de São Petersburgo, Petrogrado ou Leninegrado, ou a Galeria Tretiakov de Moscovo.
Mas há sobretudo esse museu que me acompanha de uma ponta à outra da minha existência: o Prado. Em primeiro lugar, porque passei a minha infância a duzentos metros daqui, numa rua vizinha, e, todos os domingos, o meu pai levava alguns dos seus filhos - não todos, mas três ou quatro dos mais velhos - ao Prado. Tratava-se, porém, de uma visita selectiva: não tínhamos o direito, por exemplo, de ir ver os nus femininos. Portanto, foi muito mais tarde que vi a pintura de Rubens. Vínhamos para a pintura histórica, a pintura religiosa, a pintura de Goya - mas não para os nus a transbordarem de carne de Rubens, que eram censurados!"
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