terça-feira, 2 de outubro de 2012

Katsushika Hokusai (1760-1849)

Poppies 

 Woman Looking at Herself in a Mirror, 1805

The Fields of Sekiya by the Sumida River, 1823-1831

Por sugestão de Degas que afirmou: "Hokusai não é apenas um artista entre outros no Mundo Flutuante. Ele é, em si, uma ilha, um continente, todo um mundo", in Calza, Hokusai, Phaidon, 2003, p.7.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O vazio

E perder uma pessoa que nunca se teve, será como perder uns óculos que não nos pertencem?
E como seria procurar o que nunca foi nosso?
E que vazio deixa o que nunca tivemos.

domingo, 30 de setembro de 2012

o vazio

Perdi os óculos.
Percorro os espaços prováveis, mas nada. Às vezes é quase como se lá estivessem; quase como se eu os visse nos locais de costume e os agarrasse. Ah, cá estão. Mas esse quase não chega para preencher o vazio que se acaba por encontrar. Quando se perdem pessoas acontece algo semelhante, mas o vazio que se encontra, ao procurá-las, é muito mais profundo, acutilante e doloroso.

Silence

LEONARDO da Vinci, Portrait of Cecilia Gallerani (Lady with an Ermine) 1483-90


GHIRLANDAIO, Domenico, Portrait of Giovanna Tornabuoni, 1488


Am I made of thistles and thorns?


 
(BOTTICELLI, Sandro, Primavera (detalhe) c. 1482)

Por sugestão de Sebastian de Grazia, Machiavelli in Hell, Vintage Books, 1994, p.137, onde se pode ler:

"The Ass, where one finds the richest fantasy of physical womanhood, describes the poet's servitude to Circe's damsel. What does she look like? There are so many beautiful women. Who do we know that looks like her? Who expresses her spirit? Ghirlandaio's Giovanna tornabuoni, Botticelli's "Flora", Leonardo's Lady with an Ermine? Most possible Flora: "a woman full of beauty but fresh and leafy showed herself to me with her tresses blonde and ruffed." Niccolò's madonna, his duchess, his woman, is tall and gentle, with thick, curly, golden hair, the one with fine, arched black lashes and a mouth fashioned by Jove. She takes him by the hand, he abandons himself in her arms, she kisses his face ten times or more. Our hero blushes, feels like a new bride in the sheets alongside her husband, until his damsel taunts him with, "Am I made of thistles and thorns?" and pulls his cold hand under the coverlets and runs it over her body. "Blessed be your beauties / Blessed the hour when I put /foot in the forest... " Wrapped in angelic loveliness and pleasure, he tastes the end of all sweetness "full prostate on her sweet breast."
Long might we dally in this bower of Apuleius, Dante, and Petrarch, but it must not detain us. It is not our poet's only conception of woman. He has some crusty views, too. Take the song at the end of act 3 of Clizia:

The one who offends woman
Wrongly or rightly is mad if he believes
through prayers and weeping to find mercy in her.
As she descends in this mortal life,
with her soul she brings along
pride, haughtiness, and of pardon none;
trickery and cruelty accompany her
and give her such help
that each enterprise increases her desire;
and if contempt bitter and ugly
moves her or jealousy, she acts and handles it:
and her strength exceeds mortal strength

(Sebastian de Grazia, Machiavelli in Hell, Vintage Books, 1994, p.137)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Death Camp Treblinka: Survivor Stories - BBC 2012




Contada pelos seus dois últimos sobreviventes, a história do terrível campo de Treblinka e da revolta dos prisioneiros que aí se deu.

Dois 'fotogramas' retirados do documentário e que ilustram um dos poucos 'trabalhos' que não era feito pelos prisioneiros:


--


O livro essencial sobre Treblinka é da escritora Gitta Sereny, Into that Darkness - From Mercy Killing to Mass Murder, Pimlico, 1995 (1ª ed. 1974). 
O livro é construído a partir de 70 horas de entrevistas feitas ao comandante de Treblinka, Franz Stangl, o único comandante de um campo  de extermínio (por oposição a campos mistos - extermínio e trabalho escravo) a ser julgado. Depois de ter sido capturado, em 1968, no Brasil de onde foi extraditado, Stangl foi julgado na Alemanha e condenado a prisão perpétua.

Aqui fica o Epílogo do livro:

"I do not believe that all men are equal, for what we are above all other things is individual and different. But individuality and difference are not only due to the talents we happen to be born with. They depend as much on the extent to which we are allowed to expand in freedom.
There is an as yet ill-defined, little-understood essential core to our being which, given this freedom, comes into its own, almost like birth, and which separates or even liberates us from intrinsic influences, and thereafter determines our moral condut and growth. A moral monster, I believe, is not born, but is produced by interference with this growth. I do not what this core is: mind, spirit, or perhaps a moral force as yet unnamed. But I think that, in the most fundamental sense, the individual personality only exists, is only valid from the moment when it emerges: when, at whatever age (in infancy, if we are lucky), we begin to be in charge of and increasingly responsible for our actions.
Social morality is contingent upon the individual's capacity to make responsible decisions, to make the fundamental choice between right and wrong; this capacity derives from this mysterious core - the very essence of the human person.
This essence, however, cannot come into being or exist in a vacuum. It is deeply vulnerable and profoundly dependet on a climate of life; on freedom in the deepest sense: not license, but freedom to grow: within family, within community within nations, and within human society as a whole. The fact of its existence therefore - the very fact of our existence as valid individuals - is evidence or our interdependence and of our responsability for each other"
Gita Sereny, Into that Darkness - From Mercy Killing to Mass Murder, Pimlico, 1995, p.367.

Gelsomina - Katyna Ranieri em homenagem a Fellini




quinta-feira, 20 de setembro de 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

vijay iyer trio - optimism

uma ária de Merry Widow


Europe was depressed

"E quando os nazis perderam a guerra, os países vencedores organizaram um tribunal internacional e os advogados ponderaram sobre a designação a dar à solução final da questão Judaica e aos vários planos para a exterminação dos Ciganos, Eslavos, etc., e inventaram o termo genocídio. Os historiadores concluíram que, no século vinte, ocorreram cerca de sessenta genocídios, mas nem todos entraram na memória histórica. Os historiadores afirmaram que a memória histórica não era parte da história e que a memória tinha sido transferida da esfera histórica para a esfera psicológica, e isto instituiu um novo modo de memória onde a questão já não era a memória dos acontecimentos mas sim a memória da memória. E a psicologização da memória fez surgir nas pessoas um sentimento de que tinham, de algum modo, uma dívida para com o passado, mas o quê ou a quem não era óbvio. A solução final da questão Judaica foi mais tarde designada de Holocausto ou shoa, porque os judeus afirmaram que não era exactamente genocídio, mas algo que ia além do genocídio, algo que ia além da compreensão humana, e afirmaram que era algo especificamente judeu, e muitas pessoas sentiram que os judeus se estavam a apropriar do genocídio e afirmaram que as vítimas de qualquer genocídio percepcionam a sua experiência como algo que vai além da compreensão humana, e que os judeus estavam a confundir a realidade histórica com a sua representação e logo paradoxalmente ajudaram a garantir a imagem que a maioria das pessoas tem do holocausto ao vê-lo como uma cena dramática retirada de um filme. E alguns rabbis afirmaram que os judeus não tinham morrido nos campos de concentração por acidente ou erro, mas que se tratava da reincarnação das almas que tinham pecado noutras vidas, porque apenas algumas almas permaneceram tementes a Deus e imaculados durante a sua vida na terra. E os historiadores afirmaram que a sociedade Ocidental tinha mudado de uma compreensão tradicional da história como um contínuo de memória para um conceito de memória que é projectado numa descontinuidade histórica. E ainda outros rabbis afirmaram que Deus durante o Holocausto se tinha retirado de cena, mas não era um castigo, como tal, mas sim o retorno da terra ao seu estado original, antes de Deus ter imposto ordem e quando havia trevas sobre a face do abismo. E uma jovem mulher judia sobreviveu à guerra porque na estação do caminho de ferro do campo de concentração de Struthof tocou, no violino, uma ária de Merry Widow. E os historiadores afirmaram que a idade da identidade tinha finalmente chegado ao fim, porque a historiografia tinha entrado na era epistemológica. (32)

Os sexólogos afirmaram que a Barbie foi a primeira ferramenta que serviu para inculcar uma identidade feminina nas meninas, e o seu sucesso provou existência da sexualidade infantil. Depois de se descobrir que as meninas gostariam de ter um filho do seu pai, a sexualidade infantil gerou muita discussão... (46)

E nos anos setenta o número de pessoas com depressão aumentou e no fim do século um em cada cinco europeus estava deprimido. Os sociólogos afirmaram que a neurose e a depressão espelhava a transformação cultural, no século vinte, da sociedade Ocidental. E a neurose espelhava uma sociedade dominada pela disciplina e pela hierarquia e pelos tabus sociais e que era uma expressão patológica do sentido  de culpa. (65)

Depois da guerra, nas cidades os cavalos tornaram-se escassos e o exército e a maioria dos estábulos das cidades fecharam ou foram reconstruídos como jardins de infância porque a arquitectura dos estábulos adequava-se às necessidades dos jardins de infância. (72)

E os médicos americanos recomendavam que as pessoas, para manterem a forma, respirassem ar fresco e praticassem desportos e andassem de bicicleta. A sugestão de andar de bicicleta destinava-se sobretudo aos homens americanos pois a bicicleta era de algum modo inadequada para as mulheres, e os médicos afirmaram que, para uma mulher, uma bicicleta era sobretudo um parceiro sexual e que o esfreganço do celim contra os lábios e o clitóris excitava as mulheres e incitava-as a práticas sexuais perversas. Como forma de prevenção desses comportamentos concebeu-se um celim especial com um furo no meio, mas era bastante desconfortável." (95)

 Patrick Ouředník, Europeana - a Brief History of the Twentieth century, Dalkey Archive Press, 2005. (Tr. dos excertos de LFB)


Um livro que consiste numa visão do século XX lançada no papel como uma catadupa de frases conjuntivas, sem capítulos e sem nenhum tipo de discussão deixa algo a desejar do ponto de vista do rigor e da verdade (nenhuma fonte bibliográfica é apresentada). Mas como exercício literário (talvez seja por isso que o livro está inserido na colecção de literatura oriental europeia) e como apresentação de opiniões e de factos, em 122 páginas, do avassalador século XX não está nada mal. Acrescente-se o humor e a ironia de algumas descrições e tem-se uma visão descontraída desse tempo. E a tradução do checo para o inglês foi premiada!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Dois sonetos


                      VIII
How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
   And, when a thought would unmask our soul's masking,
   Itself goes not unmasked to the unmasking.


                      XVII
My love, and not I, is the egoist.
My love for thee loves itself more than thee;
Ay, more than me, in whom it doth exist,
And makes me live that it may feed on me.
In the country of bridges the bridge is
More real than the shores it doth unsever;
So in our world, all of Relation, this
Is true--that truer is Love than either lover.
This thought therefore comes lightly to Doubt's door--
If we, seeing substance of this world, are not
Mere Intervals, God's Absence and no more,
Hollows in real Consciousness and Thought.
   And if 'tis possible to Thought to bear this fruit,
   Why should it not be possible to Truth?

Fernando Pessoa, 35 Sonnetsaqui.

illiterate in mathematics


 
"(Because of Faraday’s poverty-stricken youth, he was illiterate in mathematics, and as a consequence his notebooks are full not of equations but of hand-drawn diagrams of these lines of force. Ironically, his lack of mathematical training led him to create the beautiful diagrams of lines of force that now can be found in any physics textbook. In science a physical picture is often more important than the mathematics used to describe it.) Historians have speculated on how Faraday was led to his discovery of force fields, one of the most important concepts in all of science. In fact, the sum total of all modern physics is written in the language of Faraday’s fields. In 1831, he made the key breakthrough regarding force fields that changed civilization forever. One day, he was moving a child’s magnet over a coil of wire and he noticed that he was able to generate an electric current in the wire, without ever touching it. This meant that a magnet’s invisible field could push electrons in a wire across empty space, creating a current. Faraday’s “force fields,” which were previously thought to be useless, idle doodlings, were real, material forces that could move objects and generate power. Today the light that you are using to read this page is probably energized by Faraday’s discovery about electromagnetism."

(Michio Kaku, Physics of the Impossible: A Scientific Exploration into the World of Phasers, Force Fields, Teleportation, and Time Travel)


 

 

domingo, 9 de setembro de 2012

Michael Hurley - Sweedeedee



Via Cat Power - The Covers Record

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

The proportions of the human body in the manner of Vitruvius (The Vitruvian Man) c. 1490



"Os estudos posteriores levariam ao seu famoso desenho, O Homem de Vitrúvio, assim chamado a a partir do nome de Vitrúvio, um arquiteto romano do século 1 a.C. que escreveu sobre as proporções do corpo humano e que o desenho de Leonardo pretendia ilustrar. Este desenho insere uma figura humana nua, com as pernas e os braços estendidos, dentro de um círculo e de um quadrado: o quadrado demostra a ideia de Vitrúvio de que a largura dos braços abertos de um homem é igual à sua altura, enquanto o círculo mostra que os braços levantados e as pernas abertas chegam ao limite de um círculo cujo centro é o umbigo do homem. A força e a poesia desta imagem derivam da justaposição da sua humanidade integralmente nua e da abstração das linhas geométricas nas quais ela está inserida. pode ser interpretada como qualquer coisa, desde um emblema da autodescoberta científica da humanidade até à imagem retumbante de um homem indefeso pregado como uma borboleta dentro dos limites do mundo matemático. A cabeça individualizada do homem de Vitrúvio, com as suas madeixas de cabelo abertas ao meio e o seu olhar grave e resoluto, é quase de certeza um autorretrato de Leonardo na meia-idade."

(Paul Strathern, O Artista, O filósofo e o Guerreiro - Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o mundo que eles criaram, Clube do Autor, 2012, p.42)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Jan Havickszoon Steen, The Sacrifice of Iphigenia - 1671/ "a balbúrdia do eu"

Daqui.

Por sugestão de James Wood, A mecânica da Ficção (tr. mui cuidada de Rogério Casanova, Quetzal, 2010) onde se pode ler:

"O filósofo Bernard Williams preocupava-se bastante com a inadequação da filosofia moral. Grande parte dela, na sua opinião, em particular a que provinha de Kant, erradicava a balbúrdia do eu do debate filosófico. A filosofia, considerava, mostrava uma tendência para encarar todos os conflitos como conflitos de opiniões, que podiam ser facilmente resolvidos, e não como conflitos de desejos, que já não se resolvem facilmente. (...)
(...) Williams estava mais interessado no que ele chamava «dilemas trágicos», nos quais alguém é confrontado com duas exigências morais contraditórias, ambas de igual importância. Agamémnon tem de trair as suas tropas ou sacrificar a sua filha; qualquer uma das acções lhe causará vergonha e arrependimento duradouros. Para Williams, a filosofia moral devia prestar atenção ao tecido da vida emocional em vez de definir o eu, em termos kantianos, como tendo princípios estanques, como sendo consistente e universal. Não, disse Williams, as pessoas são inconsistentes; refazem continuamente os seus princípios; e são determinadas por toda uma séria de factores - genéticos, educacionais, sociais, etc.
(...)
Evidentemente, o romance não dá respostas filosóficas (como disse Tchékhov, é suficiente que coloque as questões certas). No entanto, faz aquilo que Williams pretendia que a filosofia moral fizesse - produz a melhor representação possível da complexidade do nosso tecido moral." (192-195)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Artista, O filósofo e o Guerreiro

"
«Não publicarei nem divulgarei tais coisas devido à natureza perversa dos homens.» Antes, Leonardo mostrara-se disposto a divulgar os planos de algumas das mais horripilantes máquinas de guerra, sem pensar aparentemente nas consequências. Mas agora a maneira como encarava o seu trabalho tivera uma alteração significativa. (...) A clareza absoluta de cada visão individual permaneceria, no entanto, o conjunto perdia-se na incoerência. A ciência da percepção - aquela filosofia unificadora da visão que o levara a ver e a investigar tanto - nunca seria alcançada no meio da desordem generalizada do seu trabalho.
Leonardo faria várias tentativas para superar essa desordem. Elaboraria listas e planos para organizar por temas os elementos separados dos seus cadernos de apontamentos, começando depois a dar-lhes uma sequência. Mas algo, «a natureza perversa dos homens», impedi-lo-ia de completar essa tarefa, para poder legar ao mundo. deve ter sido alguma coisa que ele viveu enquanto trabalhava para Bórgia. Durante o massacre em Fossombrone? No meio do caos em Siniogallia? Depois das atrocidades em Sam Quirico? Ou teria sido um acontecimento mais cerebral: talvez a compreensão aniquiladora de alguma coisa? Podemos imaginar Leonardo a desenhar aqueles esboços do retrato de Bórgia com este estendido junto à lareira na sua câmara. Talvez, ao tentar reconciliar a clareza absoluta em que via os traços fisionómicos de Bórgia com a aura mortal de caos, assassínio, incesto e traição que o envolvia, Leonardo tenha compreendido que essa clareza de percepção nunca poderia ser inocente, no final. Por isso, nunca haveria final - retirar-se-ia disso, deixando o horror último sem ser visto, a visão final inacabada, o esquema global incompleto. Em vez da ordem global, o caos global." (316)

Apesar de tão nobres sentimentos, Maquiavel estava fora das boas graças, fora do trabalho e num limbo político. E fez o que à primeira vista poderia parecer uma escolha surpreendente - voltou a escrever poesia. Maquiavel não tinha de facto abandonado a ideia de que alguma dia cumpriria o seu sonho de juventude de alcançar a fama literária. De facto, de muitas maneiras, o seu trabalho proporcionara-lhe numerosas oportunidades para praticar a sua arte e refinar o seu estilo. A clareza e a precisão dos despachos que escrevia durante as suas missões revelavam a sua originalidade, bem como a sua independência de espírito, enquanto as suas cartas mais informais lhe davam margem para a sua vivacidade de espírito e de imaginação (para já não falar de algum exagero). A consciência trocista que tem de si próprio, juntamente com a análise psicológica que faz das figuras que vai conhecendo, a sua visão dos acontecimentos históricos que se desenrolam à sua volta podem não ter sido literatura enquanto tal, mas podiam transformar-se nela, e parece que Maquiavel alimentava essa ideia havia já algum tempo. Tudo isto é inevitavelmente especulativo - mas acontecimentos como a cena do seu primeiro encontro arrepiante  à luz da vela com Bórgia, no palácio de Urbino, terão de certo despertado a sua imaginação poética. (324)

Bórgia morreu, neste obscuro campo de batalha, a 12 de março de 1507, com apenas 31 anos. Quando a notícia da sua morte chegou a Itália, todos os governantes - desde Nápoles a Milão - suspiraram de alívio. Só em Ferrara é que a sua morte foi chorada. Quando Lucrécia teve conhecimento da morte do irmão adorado, conta-se que terá gritado: «Quanto mais eu me viro para Deus, mais ele se afasta de mim.» Manteve a compostura até se retirar finalmente para o seu quarto, onde a ouviram gritar pelo nome de César, uma e outra vez, num agonia sem fim.
Alguns anos antes, o historiador contemporâneo Andrea Bernardi escreveu que, quando Bórgia cavalgava ao encontro dos seus inimigos, tinha gritado: «é melhor morrer em cima da cela do que na cama». Mas foi preciso a empatia de uma irmã para compreender  a verdade que havia por trás destas palavras. Conta-se que Lucrécia teria suspeitado de que, no seu desespero perante o fracasso final de todas as suas ambições, a temeridade de Bórgia terá sido uma forma de suicídio.
Bórgia estava morto, mas o seu nome perduraria como exemplo, de uma maneira que ele nunca podia ter previsto. O responsável por isso seria o seu amigo Maquiavel, que o vira em ação e compreendera como ele foi quase bem-sucedido na sua enorme ambição. Para Maquiavel apenas um homem assim podia salvar a Itália das guerras autodestruidoras, que ameaçavam despedaçá-la no meio do seu grande Renascimento cultural." (365-6)

Paul Strathern, O Artista, O filósofo e o Guerreiro - Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o mundo que eles criaram, Clube do Autor, (tr. AGL), 2012.

Aqui temos um livro que mistura muito bem o rigor da investigação histórica (587 notas, lista com caracterização de personagens, ilustrações e mapas), com o carácter ficcional da narrativa (não há propriamente ficção, o que há é uma imaginário tecido em torno dos prováveis encontros entre os três gigantes) que nos transporta para a Itália de 1500. Como leitura de verão, não poderia haver melhor.
Foi o primeiro livro que li com a leitura perturbada pela ausência legal de letras e outros erros acordados. A experiência não é agradável: "projeto de nada"; "suscetível ato"; "fações"; "exceção", "percetuais". E ainda o absurdo de os nomes dos meses estarem escritos com letra minúscula. Mas porquê?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012


domingo, 19 de agosto de 2012

Albrecht Dürer (1471–1528), Melencolia I, 1514

Por sugestão de Thomas Mann, Doutor Fausto, D. quixote, 1987, p. 268. A respeito da ampulheta.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O K-mito

James Hawes  -  escritor e professor de Literatura alemã e um dos poucos que teve o privilégio de estudar cuidadosamente os manuscritos de Kafka e a sua arca (bookcase) fechada à chave - escreveu um livro para desmistificar o fenómeno Kafka (Quercus, 2008). Para que não haja equívocos, Hawes declara logo nas primeiras linhas do seu livro que Kafka é um monstro da literatura do século XX e que deve ser lido por todos.
Ele não está contra o escritor (quem estará?), mas contra a imagem que o público (nós? Não, eles, os ingleses!) tem de Kafka. Ele parece estar zangado com alguns dos seus colegas académicos - não germanófilos, certamente - que, na eterna busca de fundos para as suas investigações, "têm um grande interesse em apresentar Kafka como um homem e um escritor de um complexidade psicológica/literária insondável" (6).
 O que é facto é que o livro se lê muito bem e, como biografia, é, no mínimo, refrescante. À parte alguma repetição desnecessária dos diferentes aspectos do mito - o que deu para desconfiar que, se calhar, o mito era auto-criado - lê-se sem parar.
Eis uma pequena selecção das variantes do K-mito  (muitos outros aspectos são, é claro, discutidos no livro) seguida da desmistificação apresentada no livro:
i) Terá sido Kafka um desconhecido durante a sua vida (em parte, por ter vergonha de publicar) e ignorado pelos seus contemporâneos?
Não. Kafka, muito por influência do seu amigo Brod, mereceu a atenção do público mesmo antes de ter publicado o que quer que fosse. Kafka beneficiou, no início, de muitas ajudas literárias e aceitou-as todas de bom grado.

ii)  "Kafka ordenou que os seus livros fossem destruídos depois da sua morte"?
Sim. Mas não é bem verdade que Kafka quisesse que, depois da sua morte, os seus escritos fossem destruídos. Ao escrever o que escreveu "estava apenas a dramatizar como sempre fez em todos os aspectos da sua vida: estava a manobrar alguém para que tomasse as grandes decisões, tentando manter a ficção de que ele era um homem sem intenções, um mero brinquedo subjugado aos desejos dos outros" (121).

iii) "Em Praga, Kafka vivia aprisionado, como um judeu que falava alemão, num duplo gueto, uma minoria dentro de uma minoria, e no meio de um absurdo e colapsante Império-opereta".
 Não é verdade. Kafka sentiu-se sempre um alemão e um escritor na tradição da grande literatura alemã. Em 1915, tinha a primeira grande guerra começado, Kafka comprava "war bonds" emitidos pelo Império dos Habsburgos, como forma de ajudar os "alemães" a ganhar a guerra. Então como poderia Kafka sentir-se mal por ser um judeu checo que falava e escrevia em alemão?
Para lá disso, Kafka ajudou a criar e trabalhou num sanatório para pessoas com doenças mentais causadas pela guerra num local chamado Frankenstein! "Isso mostra que até à queda do império dos Habsburgos, Kafka identificava-se completamente com a comunidade de língua Alemã da Boémia (aquilo que se tornaria a Checoslováquia)." (92).
Mais informativo é que a proclamação publica escrita por Kafka para a criação do sanatório começa com a palavra "VOKSGENOSSEN" ("good fellow germans"), palavra que seria, dez anos mais tarde, usada pelos ultranacionalistas alemães (pelos nazis). Isso, segundo o autor, é bem revelador do K-mito que, demasiado focado no Kafka-icon de Praga, esquece ou ignora o Kafka alemão. No entanto, 'voksgenosssen' não é um termo nazi, mas sim um termo cunhado pelos socialistas em 1890.

 iv) Foi Kafka uma pessoa de saúde débil e, depois de ter sido diagnosticado com a tuberculose, não pôde escrever mais?
Não. Apesar de, após quatro anos de doença, ter morrido de tuberculose. Só na fase final ficou mais debilitado. Kafka foi, na maior parte da sua vida, uma pessoa bastante saudável. Tinha uma preocupação peculiar com a sua saúde (vegetariano, não fumador, não bebia café, nem chá, nem tocava em chocolate. Fazia ginástica nu todos os dias e mastigava muito a comida até ela ficar reduzida a "uma espécie de sopa auto-deglutida" (22).

v) "Kafka foi esmagado por um emprego burocrático e desmotivador"?
Não. O Kafka advogado tinha um emprego de seis horas diárias (saía às duas), num companhia de seguros semi - estatal, com um salário acima da média. Emprego esse que não só lhe permitia viver muito bem, como lhe serviu de desculpa para não ir para a guerra: era um trabalhador imprescindível! E era amigo do filho do presidente da empresa.

vi) "Kafka foi incrivelmente honesto com as mulheres da sua vida, talvez demasiado honesto"?
Não. Ele alimentou relações complexas e ambíguas com várias mulheres (sendo o caso mais bizarro o da sua relação com Felice com quem Kafka esteve para casar por várias vezes. O livro dedica dois capítulos às duas principais namoradas de Franz cujos títulos são significativos: "Kafka and Felice: Nothing to do with sex" e "kafka and Milena [que era casada]: all about sex").
Kafka frequentou, como todos os homens da época, bordéis e tinha amizades fugazes com todo o tipo de meninas ("shop girls, factory girls, typist, maids" (31). Um dos melhores exemplos do mito de que nos fala Hawes está presente na apresentação mais comum de uma das fotografias mais conhecidas de Kafka.



 E a foto, agora na totalidade, com a menina Falcon, ignorada por alguns biógrafos mais contidos.
 

A interpretação de Hawes da fotografia de estúdio (uma foto encenada) é reveladora: passando pelo significado dos dentes da menina - Kafka usa, em alguns dos seus contos, "imagens de dentes para indicar um vida impiedosamente interesseira" (82) -, pelo facto de Kafka querer parecer na foto mais pequeno do que era realmente - uma vez que seria muito mais alto do que ela - e pela presença do cão que revelaria o lado masoquista de Kafka: no conto de Sacher-Masoch a personagem permite-se ser tratada como um cão e a relação disto com as palavras finais de Josef K. n'O Processo: «Como um cão!».
Para além, disso, Kafka coleccionava pornografia (desenhos e revistas encontrados na bookcase). Coisa que Hawes não sabia pois "nunca ninguém o tinha discutido, muito menos publicado"(57). E: "o lado porno de kafka não é nenhum segredo. O mistério é que pareça um segredo" (58).
De novo, trata-se de uma querela entre académicos: "o facto parece ser que os estudiosos simplesmente não querem saber do Franz Kafka real: pornografia, prostitutas e tudo" (60). Mas será mesmo pornografia?  Eis dois exemplos:
 
 Vale a pena ler a resposta de Hawes, dada numa das muitas notas que, pelos pormenores que revelam sobre o que se passa nos corredores das academias, constituem outra das delícias do livro: "alguns comentadores alemães acusam-me de ser um britânico reprimido que não sabe a diferença entre erótica e pornografia. Claro que há uma diferença: erótica é aquilo que os pornógrafos chamam pornografia, como um rápido passeio pelo Soho pode facilmente mostrar." (8)

E para finalizar: vii) "Kafka previu, sinistramente, Auschwitz"?
Não. Kafka não poderia ter previsto o holocausto simplesmente porque ninguém - "nem mesmo em 1928, que fará em 1915" (90) - poderia ter previsto tal coisa. E insinuar tal antevisão é "um insulto à memória de milhões que, estando lá, não o «previram» nem mesmo quando ele lhes bateu à porta ..." (91)

Uma pequena, mas interessante, entrevista com o autor pode ser lida aqui.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

domingo, 22 de julho de 2012

sábado, 21 de julho de 2012

Emil Filla (1882-1953), A Reader of Dostoievsky, 1907


Por sugestão de Gustav Janouch, Conversations with Kafka, new directions, p.17, onde se pode ler:

"He sat behind his desk, his head leaning back, legs outstretched, his hands resting on the desk. Filla's picture, A Reader od Dostoievsky, has something of the attitude he assumed. From this point of view, there was a great resemblance between Filla's picture and Kafka's bodily appereance Yet it was purely external. Behind the outward likeness lay a great inner difference."

quinta-feira, 19 de julho de 2012

terça-feira, 10 de julho de 2012

sábado, 7 de julho de 2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

grotesque twist of fate


"the Prague ghetto was preserved under the Nazis in order to provide a record of the communities they had destroyed. By this grotesque twist of fate, Jewish artefacts from Czechoslovakia and beyond were gathered here, and now make up one of the richest collections of Judaica in Europe, and one of the most fascinating sights in Prague."


(The Rough Guide to Prague 2011)

Giuseppe Arcimboldo 1527-1593

 (Spring,  1573)

 

"In 1583 Emperor Rudolf II (1576–1612) switched the imperial court from Vienna to Prague. This was to be the first and last occasion in which Prague would hold centrestage in the Habsburg Empire, and as such is seen as something of a second golden age for the city (the first being under Emperor Charles IV; see p.85). Bad-tempered, paranoid and probably insane, Rudolf had little interest in the affairs of state – instead, he holed up in the Hrad and indulged his own personal passions of alchemy, astrology and art. Thus, Rudolfine Prague played host to an impressive array of international artists, including the idiosyncratic Giuseppe Arcimboldo, whose surrealist portrait heads were composed entirely of objects. The astronomers Johannes Kepler and Tycho Brahe were summoned to Rudolf’s court to chart the planetary movements and assuage Rudolf’s superstitions, and the English alchemists Edward Kelley and John Dee were employed in order to discover the secret of the philosopher’s stone, the mythical substance that would transmute base metal into gold. Accompanied by his pet African lion, Otakar, Rudolf spent less and less time in public, hiding out in the Hrad, where he “loved to paint, weave and dabble in inlaying and watchmaking”, according to modern novelist Angelo Maria Ripellino. With the Turks rapidly approaching the gates of Vienna, Rudolf spent his days amassing exotic curios for his strange and vast Kunst- und Wunderkammer, which contained such items as “two nails from Noah’s Ark…a lump of clay out of which God formed Adam…and large mandrake roots in the shape of little men reclining on soft velvet cushions in small cases resembling doll beds”. He refused to marry, though he sired numerous bastards, since he had been warned in a horoscope that a legitimate heir would rob him of the throne. He was also especially wary of the numerous religious orders which inhabited Prague at the time, having been warned in another horoscope that he would be killed by a monk. In the end, he was relieved of his throne by his younger brother, Matthias, in 1611, and died the following year, the day after the death of his beloved pet lion."

(The Rough Guide to Prague, 2011)

František Drtikol (1883-1961), Vlna, (Wave), 1925


domingo, 1 de julho de 2012










© Jan Saudek, 1986, ‘The Kiss’, Prague

Vermeer, Man and woman drinking wine/c.1660


Por sugestão de uma colagem feita por uma criança em Theresienstadt e exposta na sinagoga Pinkas, no museu Judaico.

Safo


sábado, 30 de junho de 2012

Videoart


Na galeria Rudolfinum.

Por sugestão de uma video instalação de DOUGLAS GORDON sobre o tema do doppelgänger.



Dr. Jekyll and Mr. Hyde (Rouben Mamoulian 1931)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Vltava - de uma margem para a outra

"Por detrás da sua fisionomia de parque tranquilo onde as pessoas se descontraem, alugam um barco ou almoçam no Zofin, a ilha Eslava encerra recordações maravilhosas. Dos anos 1830 a 1880, o pavilhão Zofin (Sofia) foi igualmente um farol da vida cultural e mundana da cidade. Antes da construção do Rudolfinum, os seus bailes e concertos eram os mais apreciados de Praga. Ali actuaram Berlioz, Listz, Tchaikovsky, Wagner, e foi ali que Smetana fez ouvir pela primeira vez o seu vasto fresco sinfónico Má Vlast (A minha Pátria), na segunda estrofe do poema dedicado ao Vltava (Moldau)."
(Guillaume Sorel e Christine Coste, Praga - Percursos, p.95)




sexta-feira, 22 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Vermeer, The Milkmaid - c. 1657–1658


Por sugestão de John Berger, Ways of Seeing (1972):


quinta-feira, 14 de junho de 2012

ser a própria luz

"
Onde estáveis quando lancei os fundamentos da Terra?
 Job 38:4

...
Para o universo, o passado não desaparece. Nós não vemos como o universo era outrora olhando para a luz que nos chega do passado do universo - de lá de fora. A luz das estrelas distantes convence-nos de que existem objectos como as estrelas, e o estudo repetido da luz recebida de muitas estrelas convence-nos de que o universo físico se tornou uma hierarquia constituída por elas.
Olhar lá para fora para o espaço é o mesmo que olhar para trás no tempo. A luz do passado mais remoto do universo chega como radiação de microondas, a CMB [radiação cósmica de fundo], um ténue retrato do universo tal como era 400 000 anos após o Big Bang. É também em parte, o retrato mais ténue daquilo que fomos outrora. A CMB é um mapa do todo e, a partir desse todo, evoluiu o todo do universo do século XXI. Fazer de novo a pergunta - Em que está contido o universo? - deverá provocar respostas curiosas. Nunca poderemos atingir o local em que estávamos há 13 700 milhões de anos. O universo está em expansão e levando as suas origens para cada vez mais longe. Mesmo que pudéssemos viajar à velocidade da luz, o horizonte leva já um avanço de 13 700 milhões de anos. Em qualquer dos casos, para viajarmos à velocidade da luz, teríamos que ser a própria luz: paradoxalmente, pareceria não haver para nós o tempo a passar. Nós não conseguimos ver a radiação que se está a afastar de nós à velocidade da luz. Os objectos mais distantes que estão ainda visíveis são os quasares, a afastarem-se de nós à velocidade de 93% da velocidade da luz. A fronteira do universo é na realidade um horizonte; mas é impossível dizer um horizonte de quê. Se nos fosse possível aproximármo-nos fisicamente do horizonte para vermos o que está para além dele, aquilo que lá estivesse não se pareceria em nada com o universo visível, tal como é presentemente descrito."

(Cristopher Potter, Você está aqui - uma história portátil do universo, casa das Letras, 2009, pp.191-192. Tradução não muito cuidada de uma excelente introdução ao Universo a partir do nada!)