domingo, 13 de novembro de 2011

O veredicto, Sidney Lumet (1982)

Está tudo no filme. A vida toda...


 Os ricos, os pobres, as ilusões, as mentiras.


A justiça. A lei. As preces. Os símbolos. 


A mulher. O amor e a traição.


O filme está a terminar. O que é que ela quer?


A sugestão do filme vem do devaneios.
 (LFB)
Porque não podemos ir de pijamas para a escola?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A confusão do acordo ortográfico

Quanto a essa confusão e à adopção, ou não, das novas regras de bem escrever (ortografia) cumpre-me, em forma de clarificação da consciência, registar o seguinte: continuarei - pelo menos até 2015, prazo estabelecido pela lei - a escrever como se escrevia bem antes da nova maneira de escrever bem. E é sempre verdade que com o tempo tudo passa; com tempo a todas as mudanças nos adaptamos, até às mais absurdas.
É muito estranho ler - o que mostra que o acordo não é apenas sobre como escrever, mas também, inevitavelmente, sobre como ler - frases como "notável seleção"; "o projeto de relançar" (a primeira leitura que faço é sempre projêto e só depois, ah, projecto com o "e" aberto); "aspeto cultural"; "maldito inseto", etc.
Mais estranho ainda é o facto de haver várias listas de palavras:
i) a lista das palavras que se pode escolher como escrever - pode-se escrever, por exemplo, "acupuntura" ou "acupunctura" "caráter" ou "carácter";
ii) a lista das palavras que não mudam - por exemplo "adepto"; "dúctil",
iii) a lista das palavras que mudam em Portugal mas não no Brasil - "aceção" em Portugal, "acepção" no Brasil;
iv) A lista de palavras que mudam em Portugal e que o Brasil admite: "cético" em Portugal; "céptico" admite-se no Brasil,
v) entretenha-se o leitor fazendo cruzamentos com outros países de língua portuguesa.

Notas:
1) a Fonte das listas é o artigo hipercrítico de Fernando Venâncio, "acordo ortográfico - visita guiada ao reino da falácia", revista Ler, nº105, Setembro de 2011, pp.36-40 e 88-89.
2) Aqui n'O Germe continuarei a escrever como sempre escrevi. As citações serão transcritas tal e qual como o autor as escreveu. Na escola, pelo menos até 2015, escreverei como sempre e aos alunos será dada toda a tolerância que a lei permite.
3) O NÃO que a seguir se lê vem da Iniciativa legislativa de cidadãos (ILC): aqui
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!







(LFB)


Dulce Maria Cardoso

"(...) Só damos valor ao que não temos?
Ou isso ou uma coisa mais grave que é procurar fontes de infelicidade. Talvez tenhamos alguma vocação para isso. Se estivermos muito bem com o presente, não há mais nada a acrescentar. Na verdade, o bem-estar - e depois podemos falar da felicidade e de outros conceitos - é quase o antipensamento, e também quase a antivida. Tinha uma ideia mitificada da metrópole porque havia de tudo e era tudo melhor na metrópole. Coisas absurdas. Nós tínhamos as férias da escola de acordo com as da metrópole. Portanto, lá no tempo da cacimbo - com o tempo mais fresco - estávamos em casa, e no tempo quente estávamos nas aulas. Era tudo muito absurdo. Havia pessoas com alcatifa em casa, com lareira. Continuavam a fazer feijoadas, as pessoas ficavam todas encarnadas. Imitávamos a metrópole mas também tínhamos a sensação de que éramos portugueses de segunda.
(...)
Os retornados eram pessoas com mais espírito de iniciativa?
Não era tanto a iniciativa, pelos casos que depois fui conhecendo. Era mais o desespero, a fome. A fome desinquieta e desassossega muito.
A fome é uma força motriz?
Exatamente. Mais do que qualquer outra ideia. Depois temos a mania de romantizar. «Ah, a aventura.» Não é nada disso. São mesmo filhos para alimentar. Quando viemos para cá, é claro que a vida correu bem às pessoas que lá pertenciam aos serviços do Estado. Mas essa realidade não a conheço bem porque foram as pessoas que não ficaram nos hotéis. Para os retornados que conheço, de que posso falar e que foram os mais injustiçados, não foi assim. Os bem-sucedidos seriam bem-sucedidos em qualquer parte do mundo porque eram pessoas muito fortes e capazes. A maior parte não foi muito bem-sucedida, só que dos fracos não reza a história.
(...)
Vê-se mais como testemunha ou como interveniente, enquanto escritora?
Testemunha. Não gosto muito de ser protagonista.
Quando usei a expressão «interveniente» era no sentido de ser alguém que com essa proposta de reflexão pretende mexer de alguma forma no que a rodeia.
Não no sentido de o mudar. Quer dizer, vai-se mudando sempre. Cada ato nosso muda qualquer coisa. Acho, basicamente, que a história da civilização é a história da luta entre o bem e o mal. É a coisa maior que nos distingue. E depois temos este problema grave: o bem é antipensamento. Ou seja, não é dramático, não se consegue fazer o raio de uma ficção só com o bem porque é altamente monótono. Portanto, o mal aparece-nos com a sedução toda e aquilo é fantástico. Toda a nossa organização social são milénios a tentar proteger-nos do mal. O «não matarás», «não roubarás» e essas coisas todas são apenas uma maneira de vivermos em conjunto protegidos do mal que sabemos que há em nós. É aquela velha frase de S. Paulo: «Perdoa-me por não fazer o bem que quero mas o mal que não quero.» Por isso, é interessante pensar que se retirássemos o mal do mundo não tínhamos nada. Não tínhamos arte, romances, não tínhamos civilização sequer, como a concebemos.
Isso justifica um elogio do mal, quanto mais não seja pela necessidade cultural que temos dele.
Sim, não podemos prescindir dele. Eu, uma otimista, acho que haverá um dia em que poderemos prescindir dele, das suas formas mais puras pelo menos.
(...)
Há aqui uma homenagem e há também isto: o império, que teve cinco séculos, ruiu. Foi assustador ver o bicho em movimento. Aquela velha máxima que diz que nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, e que gostamos tanto de aplicar à matéria, nas coisas afetivas e sociais não funciona. Perdem-se coisas e ganham-se coisas.
(...)
Correu mal porque era já tarde demais, e depois porque não houve vontade política para que corresse melhor.
Não houve vontade política por parte dos protagonistas políticos da altura?
Exatamente. E quando digo isto nem falo dos colonos brancos. Estou a falar dos que ficaram. Deixámos um país já em guerra entre os movimentos de libertação. Nós, Estado português, favorecemos uma parte. Demos a independência a um. Que ainda lá está. Aquilo foi tão bem dado que nunca mais saiu de lá. Ao menos deixámos uma coisa duradoura. Agora, consigo perceber o racismo que havia lá e muitos negam. Mas só me interessa pensar nestas coisas fazendo uma ponte com o presente. É relativamente fácil prendermo-nos àquilo que já não podemos mudar e criticar, culpar, quando neste momento estão a acontecer coisas muito semelhantes, embora não da mesma magnitude. Embora se possa dizer que a morte de um homem é tão trágica como a morte de cem milhões. Pode dizer-se que isto é uma versão lírica. Estamos viciados numa questão de escala. Neste momento Portugal passa por uma situação muito semelhante.
Está a falar de impor sacrifícios a um grupo social em nome de uma mudança histórica qualquer?
Sim. Em nome de um objectivo. Não pode ser. Cada um de nós vale a mesma coisa. Nós não somos peças de uma engrenagem em que uns vão para carne picada para salvar os outros. Não se pode dizer que há democracia enquanto existir sequer esse conceito ou essa possibilidade. Vamos ter um cartão de pobre, não é?
É o tipo de assistencialismo que lhe faz recordar o assistencialismo do IARN?
Sim. Era terrível. Havia retornados que preferiam ter fome a apresentarem-se com o cartão.
Isso é muito sensível, no seu romance, sobretudo na questão das roupas.
Sim. Havia aquela coisa de que os pobres não têm de ter gosto, não têm de parecer bem, precisam é de estar tapados. A pessoa em situação de pobreza fica sem necessidade alguma: de poder escolher o que come, de poder vestir-se. Continuamos a fazer o mesmo.
(...)
Voltou a Angola?
Não. E não penso voltar.
É uma recusa?
É, por várias razões. Já pareço aqueles políticos que têm sempre várias razões. Por um lado, acho perigoso mexer numa série de memórias.
Perigoso para a sua saúde pessoal?
Sim. Não sei como reagiria. Em termos pessoais não me interessam picos de emoção. Canalizo tudo para o que escrevo e depois gosto de uma coisa mais apaziguada. Mas é também porque o regime de Angola não é um regime aconselhável. Custa-me - para dizer o mínimo - perceber que Angola se tornou uma oportunidade de dinheiro e que toda a gente esteja contente porque vem para cá dinheiro angolano. Aquele dinheiro é criminoso. Temos de ter consciência disso. Não é uma sorte eles estarem a investir em Portugal, é uma vergonha. Isto tem de ser dito. Só pobres sem qualquer dignidade - como nos tornámos - podem achar isto bem. O Presidente de Angola está sempre nas listas dos homens mais corruptos do mundo. E nós fazemos negócios com ele e dizemos que é uma sorte? Mas em que raio de povo nos tornámos? Nós não somos isto. Os portugueses não são isto, o que é outra coisa.
(...)"

Entrevista de Carlos Vaz Marques a Dulce Maria Cardoso, revista Ler, número 106, Outubro 2011, pp. 29-32.

RUY BELO (1933-1978)

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM CRIANÇAS

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy  Belo, Homem de Palavra(s) (1970).

sábado, 29 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Novilíngua (2)

Secretário de Estado da Solidariedade Social ao Público:
"Por esse motivo, acrescentou, 'a sociedade portuguesa, através destas instituições, dos voluntários profissionais do sector e dos portugueses com a sua generosidade, são os parceiros' com que o Estado conta para que 'em conjunto' possam 'ultrapassar os obstáculos sociais que existem pela frente'.'" 


[Artigo 3º] A qualidade de voluntário não pode, de qualquer forma, decorrer de relação de trabalho subordinado ou autónomo (...).
[Artigo 6º] O princípio da complementaridade pressupõe que o voluntário não deve substituir os recursos humanos considerados necessários à prossecução das actividades das organizações promotoras, estatutariamente definidas. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011


Termos & Condições

                           (DO)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Prioridades

I.

II.
"Cerca de 43 milhões de pessoas estão em risco de carência alimentar na Europa e não têm meios para pagar uma refeição completa e 79 milhões vivem abaixo do limiar de pobreza, indicam dados do Programa Europeu de Apoio Alimentar. As instituições em Portugal temem os efeitos dos cortes que o programa vai sofrer. (...) Os alimentos distribuídos pela Segurança Social às instituições vêm deste programa europeu que, em 2012, terá um orçamento para Portugal de 4,5 milhões de euros, menos 15,5 milhões que em 2011." (daqui)

III.
"(...) atribuição do prémio de 100 mil euros por jogador se Portugal ganhar 'a essa potência do futebol que é a Bósnia Herzegovina (...)'." (daqui)


De acordo com os melhores especialistas, o Sol não deixará de nascer amanhã.
(DO)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Os filósofos e o nazismo (4)

"Ainda que não seja mencionado, Johann Gottlieb Fichte era, de facto, o pensador mais próximo de Hitler e do nacional-socialismo, tanto em termos de tom, como em termos de espírito e de brio. Ao contrário de Schopenhauer, homem dado à interioridade e herdeiro da tradição livresca, ou do débil e prostrado Nietzsche, Fichte era impertinente e desafiador. Em 1808, e numa Berlim ocupada pelas tropas francesas, Fichte apelou à sublevação dos Alemães contra a opressão estrangeira nos seus memoráveis Discursos à Nação Alemã. Na véspera da batalha decisiva contra Napoleão, em Leipzig, Fichte apareceu a liderar os seus alunos, armado e pronto a lutar. Consta que era um orador hipnótico, capaz de deixar as audiências "presas" às suas palavras. "À acção! À acção! À acção!", terá ele apelado um dia- "Que é por isso que estamos aqui."
Tal como Fichte, Hitler apelava ao "derrube da elite política" através da sublevação popular. Fichte falava em termos de uma Volkskrieg, ou guerra do povo. E, tal como Fichte, Hitler ambicionava a unificação da dividida nação germânica. Ao pôr em causa o diálogo político próprio da democracia parlamentar e ao apelar ao diálogo directo com o povo germânico, Hitler assumia uma posição próxima da retórica fichtiana e evocava os Discursos à Nação Alemã.
Mais pródigo de consequências, Fichte foi um dos obreiros da ideia da excepcionalidade alemã. Defendia que os Alemães eram únicos entre os povos da Europa. O seu idioma não tinha origem no latim mas sim numa distinta língua teutónica. E os Alemães não só falavam de uma forma distinta dos demais europeus, como pensavam, acreditavam e agiam de modo também distinto. Fichte defendia que só uma língua alemã purificada, não corrompida nem pelo francês nem por quaisquer outros estrangeirismos, poderia dar expressão pela a um pensamento germânico puro. Todos os esforços desenvolvidos pelas diferentes organizações nazis para expurgarem a língua alemã dos elementos que lhe eram estranhos assentavam neste preceito fichtiano, que Hitler consubstanciava sempre que se punha a divagar em torno da palavra Führer. "O título de Führer é de entre todos o mais belo, porque emerge directamente do nosso próprio idioma", chegou a afirmar, fazendo notar com satisfação que apenas a nação alemã se podia expressar em termos de "meu Führer."
Fichte era também decididamente um anti-semita. ele acreditava que os judeus seriam um "Estado dentro do Estado" e, como tal, tinha-os como uma ameaça permanente à unificação alemã. Propunha que a Europa se livrasse dessa ameaça através de um Estado judeu na Palestina. Ou, em alternativa: "Cortando-lhes as cabeças numa noite e colocando-lhes sobre os ombros outras novas, que não deveriam conter uma única ideia judaica."

(Ryback, Timothy, A Biblioteca privada de Hitler - Os livros que moldaram a sua vida, (tr. I.L.S.) Civilização editora, 2011, pp.133-134)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Hoje de manhã, na rádio, uma desconhecida deputada pelos Açores à Assembleia da República afirmava que todos os açorianos anseiam pela continuidade do modelo actual de programação da RTP Açores.
Eu, sendo açoriano, venho afirmar que não só não anseio pelo continuidade da RTPA como me parece que nenhum governo deveria ter qualquer poder sobre as televisões; o que equivale a dizer que a televisão deveria ser privatizada. Não é isso que está para acontecer, mas sim a redução para quatro horas de programação realizada nos Açores, o que é mais do que suficiente.
O grande problema para os políticos açorianos não é, como agora apregoam, o governo "lá de fora" estar a pôr em causa o valor imprescindível da RTPA para a prestação do serviço público dos meios de comunicação. Se assim fosse, seria natural vê-los também procurar saber qual o nível de audiências da RTPA. E assim esclarecer as pessoas sobre o valor real desse dito serviço público. Mas ninguém quer saber do nível de audiências da RTPA, e isso talvez se deva ao facto de  ninguém ver a RTPA - a não ser a população mais isolada, mais pobre e mais envelhecida e, por isso, mais facilmente influenciável que, desejando saber qual o tempo que irá fazer amanhã, acaba por ver as últimas inaugurações e as últimas ideias brilhantes dos cesarianos sempre com umas cores a dançar em pano de fundo.
O grande problema é que um dos mais eficazes instrumentos de controlo político deixará de estar disponível para os governantes exercerem a sua manipulação. Sobre isto basta ver o tratamento indigno que foi dado, por parte dos governantes açorianos e por parte dos jornais locais, aos representantes da Entidade reguladora para a comunicação Social quando, ainda há bem pouco tempo, cá estiveram a dizer que havia intromissões políticas no tratamento dos noticiários televisivos.
Até hoje a RTPA tem servido para veicular as mensagens do partido no governo e para mascarar os problemas da sociedade. Veja-se como ex-funcionários da RTPA foram parar a assessores do governo. Tem servido para - com a desculpa do serviço público e do valor cultura açoriana para os próprios açorianos - passar muito dinheiro para o bolso de poucos, alguns deles reformados da própria RTPA. Agora que o dinheiro está a acabar, uns dirão que já não querem mais, que é tempo de dar lugar aos mais novos. Outros, clamarão pelas virtudes da TV pública. Por mim, podem reduzir já a emissão que ninguém dará por isso.

(LFB)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Amal Murkus - La Ahada Yalam





No-one knows
whose turn it will be tomorrow.
The skies above the refugee camp are grey.
Dreams hastily scrawled on the walls.

Beneath the slogans'
the children from the city
play their game.
Death.

No-one knows, no-one knows.

The heroes of today are announced
dead
on the evening news.
Ordinary people make the headlines
for a few seconds,
only to vanish
without a trace
in the current
of another day's events.

No-one knows, no-one knows.

But I know that tomorrow's victims
will bring a new dawn
closer.
No-one knows.


(Nizar Zreik; tr. para inglês de Robert Wyatt)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

sábado, 1 de outubro de 2011

The Dead Sea Digital Project

Os pergaminhos do mar morto (the dead sea scrolls) - em exposição permanente no Museu de Israel - constituem um dos mais importantes achados arqueológicos do monoteísmo. Cinco desses pergaminhos podem agora - graças a uma cooperação entre o Google e o Projecto de digitalização dos Pergaminhos - ser objecto de estudo aprofundado sem ser preciso sair de casa. Clique e explore: The Digital Dead Sea Scrolls





quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Algumas considerações sobre a luta contra os transgénicos

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Não cabe apresentar aqui uma argumentação completa sobre a questão de saber se é correcto, ou não, o uso de sementes transgénicas na agricultura dita convencional1. Como ponto prévio gostava só de vincar que qualquer discussão séria sobre essa questão deverá ter em conta os pontos de vista dos vários intervenientes: o ponto de vista da biotecnologia e da sua ligação com as grandes empresas – da investigação sobre novas sementes ao estudo de implementação de novas culturas e à venda de sementes; o ponto de vista do agricultor que quer produzir muito, bom e rápido; o ponto de vista do consumidor que quer comprar alimentos bons, baratos e que ofereçam garantias de qualidade; e, por fim, o ponto de vista do bem comum, ou do Estado, que é o regulador e o garante da protecção de todas as partes envolvidas. As considerações que a seguir apresento dirigem-se sobretudo àqueles que, como eu, discutem a questão do ponto de vista do consumidor. A minha posição tende a ser moderada. Nem conservadora ao ponto de desejar proibir todos os transgénicos. Nem liberal ao ponto de querer permitir todo o tipo de cultivo sem qualquer tipo de controlo.
A grande razão contra o uso dessas sementes parece derivar do medo de vir a contrair doenças ou de vir a morrer por causa dos alimentos transgénicos. O raciocínio é indutivo (a sua conclusão não é necessariamente verdadeira) e pode ser apresentado do seguinte modo: já vimos, no passado, pessoas morrerem por causa da negligência da indústria alimentar (veja-se o caso da doença das vacas loucas). Temos, pois, receio de que erros semelhantes venham a acontecer no futuro e, por isso, queremos uma agricultura livre de transgénicos. Defende-se assim uma postura preventiva. Mas o raciocínio é pouco sólido. Pouco se descobriu sobre o hipotético mal que os alimentos resultantes de sementes transgénicas poderá causar à saúde humana; desconfia-se que poderão causar alergias. Contudo, sabe-se muito mais acerca do carácter nocivo dos alimentos processados e da carne produzida em regime industrial. Mas nem por isso muitas das pessoas que são contra a introdução de transgénicos querem ou podem (não esquecer que o estilo de vida das nossas sociedades é também factor a ponderar nesta discussão) abdicar de uma alimentação processada, apesar de ela ser, a longo prazo, altamente prejudicial2.
Muitos dos argumentos usados pelos consumidores que lutam contra os transgénicos baseiam-se em premissas egoístas do género: ‘sou contra porque isso me vai fazer mal à saúde’. O único argumento que não contém uma certa dose de egoísmo é o argumento da biodiversidade: isto é, que a introdução de uma agricultura transgénica diminuirá a variedade biológica. Aqui a ideia é que devemos deixar a natureza fazer o seu trabalho e que não se deve interferir de maneira nenhuma no processo de selecção natural. Há aqui uma certa visão de que a vida é intocável e de que o homem, ao violar os segredos da natureza, está a colocar em risco toda a vida na Terra.
Mas mesmo que isso seja verdade é preciso não demonizar excessivamente a engenharia genética, nem santificar em demasia a vida natural. Não podemos esquecer que muitas dos benefícios que a medicina actual oferece (e muitas das promessas que apresenta em relação ao futuro da humanidade) – por exemplo na produção de vacinas e de insulina transgénicas – resultam de progressos consideráveis na engenharia genética. Por outro lado, é preciso cuidado ao pressupor a santificação da vida (a vida natural deveria ser intocável), pois isso aproximaria a argumentação daqueles que, pela mesma razão, acabam defendendo, por exemplo, a imoralidade do aborto ou a proibição de investigação com células estaminais.
A luta importante a travar não é contra a engenharia genética porque essa por si só não é boa nem má, e ninguém poderá defender seriamente um mundo sem ciência e sem os benefícios que ele nos oferece diariamente. A luta a travar é contra uma agricultura convencional sem escrúpulos e contra a produção industrial de carne (nos Açores os animais são alimentados com rações produzidas a partir de milho transgénico e ninguém parece muito preocupado com isso) onde a saúde dos animais e das pessoas constitui um atropelo ao lucro rápido. Sabe-se que esse tipo de produção de alimentos é altamente poluidora e destrutiva do meio ambiente porque usa e abusa de adubos químicos, herbicidas e pesticidas cuja conjunção e consumo contínuo é altamente prejudicial para a saúde. E de nada valeria ter uma agricultura sem transgénicos mas convencional no sentido apresentado. Só defendendo uma agricultura orgânica contra uma agricultura destruidora do planeta podemos ser ambientalistas sem desprezar o valor que a biotecnologia nos dá.

[1] Para uma discussão ética detalhada ver o artigo de Ana Firmino, (2007) “A Saga dos OGM´s: uma reflexão polémica”, disponível on line. 
[2] Veja-se, sobre a ligação entre um ambiente poluído e as doenças mortais, o livro esclarecedor de Sandra Steingraber, Living Downstream – An Ecologist’s Personal investigation of Cancer and the Environment, Da Capo Press, 20102.
Texto publicado no jornal da Gê Questa - Associação de defesa do ambiente, Verão de 2011. Edição on line aqui.]

LFB

terça-feira, 27 de setembro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

Entrevista a Rafael Marques, autor de Diamantes de Sangue



Este homem, jornalista de investigação, é de outra safra.
O medo e o silêncio não fazem nada por ninguém.
"É um risco maior manter o silêncio."
"Portugal tornou-se uma lavandaria para o produto de saque em Angola."
[uma réstia de] Esperança.
Uma infinita vénia é pouco.
O livro aqui.

(DO)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"O mundo do homem feliz é diferente do mundo do homem infeliz. 
Bem assim quando se morre o mundo não se transforma, mas cessa."

Wittgenstein, Tratactus Logico-Philosophicus
Epígrafe do livro de Jean Améry, Atentar contra si - Discurso sobre a morte voluntária.



domingo, 18 de setembro de 2011

Estados de espírito


"O mundo da vida contém no seu interior, tal como é, suficientes maravilhas e mistérios; maravilhas e mistérios que agem sobre a nossa sensibilidade e a nossa inteligência por modos tão inexplicáveis que quase poderiam justificar uma concepção da vida como condição mágica. Não; possuo suficiente decisão na minha consciência do maravilhoso para não me deixar seduzir pelo sobrenatural, que não passa (seja como for) de um produto manufacturado, resultado de espíritos insensíveis à complexidade das nossas relações tanto com os mortos como com os vivos, em toda a sua multiplicidade inumerável; uma profanação das nossas recordações mais delicadas; um insulto à nossa dignidade.
Por grande que seja a minha modéstia natural, nunca me inferiorizei a ponto de buscar para a imaginação qualquer espécie de apoio nessas invenções mentirosas, presentes em todas as épocas e que, só por si, já bastam para encher de uma amargura incomparável todos os que têm algum amor à espécie humana."


(Joseph Conrad, "nota do autor" in, A Linha de Sombra, (tr. MTS e MSP), Público, pp. 5-6); citado em Martin Amis, The Second Plane - September 11: 2001-2007, Vintage Books, pp. 92-93)

sábado, 17 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (4)

"No serão de um Outono próximo do fim, um estudante de Paris sentou-se na minha cozinha, em Berlim, e perguntou, a propósito de nada, onde é que estava quando ouvi as notícias. Este estudante podia ter vindo de Boston, de Santiago ou de Zagreb. Onde quer que estivéssemos, quem quer que sejamos, foi um momento que não esquecemos e que devemos recordar repetidamente - tivemos de ver o World Trade Center cair, uma e outra vez, na televisão, até nos sentirmos suficientemente enjoados para termos a certeza de que era real. Isto é a globalização. Será também Lisboa? [ a autora refere-se ao terramoto de 1755]
O paralelismo é inegável. A surpresa e a rapidez dos ataques parecem-se com uma catástrofe natural. Não houve aviso. Também não havia mensagem. A ausência de ambos criou o tipo de medo que nos fez saber que não tínhamos, até essa altura, compreendido o significado do terrorismo internacional. Como os terramotos, os terroristas atacam ao acaso:  quem vive e quem não vive depende de acasos que não podem ser merecidos ou previstos. Pensadores como Voltaire encolerizaram-se contra Deus por falhar na protecção das regras morais elementares que os seres humanos tentam seguir. As crianças não deviam ser súbita e brutalmente torturadas; coisas tão importantes como a diferença entre a vida e a morte não deviam depender de algo tão trivial como a sorte. O desastre natural é cego quanto a distinções morais que mesmo a justiça mais brutal define. O terrorismo desafia-as deliberadamente. Ao sublinhar a contingência, o 11 de Setembro sublinhou a nossa infinita fragilidade. Mesmo em Nova Iorque há muitas pessoas que não conheciam ninguém que estivesse no World Trade Center à hora dos ataques, mas toda a gente parece conhecer alguém que estivesse a curar uma ressaca ou a levar uma criança ao jardim de infância. Quando uma falta ao trabalho se torna uma maneira de salvar a vida, o nosso sentimento de impotência torna-se opressivo. Os terroristas escolheram alvos para o aumentar. Wall Street e o Pentágono são, ao mesmo tempo, um símbolo e a realidade da força ocidental, e não é claro o que foi mais assustador: o colapso das manifestamente notáveis Torres Gémeas ou o assalto aos impenetráveis centros do poderia militar. Nem a visibilidade nem a invisibilidade serviram de protecção. Ao ver ambos serem despedaçados tão depressa, ninguém podia sentir-se em segurança. Pessoas normais em todo o lado ecoavam as palavras de Hannah Arendt: o impossível tornou-se realidade.
(...) Ainda não podemos dizer até que ponto o mundo se modificará. Enfrentamos novas formas de perigo. Mas sugiro que não são novas formas de mal. As dificuldades em fazer frente ao terrorismo não são dificuldades conceptuais. Aqueles que levaram a cabo o assassínio de massa a 11 de Setembro encarnaram uma forma de mal tão antiquada que o seu ressurgimento faz parte do nosso choque. É antiquado, mas não por ter sido concretizado por defensores de ideologias fundamentalistas indiferentes a escrúpulos modernos. Ver o poder da crença num deus que recompensa com uma caricatura detestável de paraíso aqueles que destroem os seus inimigos apenas pode deixar-nos gratos ao cepticismo, mas o conteúdo da crença dos terroristas não é o aspecto principal da questão. A decisão de alguns nazis de morrerem em vez de se renderem nos últimos dias da guerra aproximou-se de fantasias primitivas arrepiantes, ainda que eu tenha defendido que o Terceiro Reich corporizou o mal contemporâneo. O 11 de Setembro constituiu um exemplo de mal antiquado na sua estrutura. O mal banal emerge da estrutura da vida normal que o 11 de Setembro dilacerou.
O mais importante é que foi terrivelmente intencional. A premeditação envolvida foi sólida. (...) O mais claro uso da racionalidade instrumental foi correspondido pela mais clara ostentação de raciocínio moral. A natureza não olha a distinções entre qualquer tipo de culpa ou qualquer género de inocência; os terroristas desprezaram-nos activamente. Mesmo que tivesse sido feita uma exigência para uma negociação, não havia a mais pequena desculpa para a destruição de vidas comuns. Os objectivos dos terroristas foram, pelo contrário, produzir o que  moralidade tenta impedir: a morte e o medo. (...) A maldade e a premeditação, componentes clássicas da intenção malévola, raramente estiveram tão bem combinadas. Os terroristas contornaram modelos complexos como o de Mefistófeles e devolveram-nos a Sade. Alguns hão-de contrapor, sem dúvida, que eles acreditavam na justeza da sua causa. Mas a ausência de algo como um ultimato torna infrutífera qualquer tentativa de mostrar a razão de ser do terrorismo - mesmo para aqueles que gostam de defender contradições. Destruir, ao acaso, pessoas de uma cultura que se acha inaceitável não conta como causa admissível.
Mais tarde o ataque pareceu de mau agoiro. A lenta e inexorável destruição dos dois Budas gigantes no Afeganistão provocou calafrios na espinha de um mundo há muito acostumado a ver crianças a morrer à fome diante das câmaras. A explosão ordenada pelos talibãs no que afinal eram apenas estátuas e pedras prendeu, inexplicavelmente, a atenção global durante dias. Tratar-se-ia de um prenúncio da implosão das torres alguns meses depois? Heine escreveu que quem tivesse a inclinação para queimar livros não hesitaria em queimar pessoas. A sentença foi escrita muito antes da rejubilante juventude nazi ter empilhado livros banidos em grandes fogueiras públicas, e essa presciência chegou a parecer sinistra. (...)
O mal não é apenas o oposto do bem, mas o seu inimigo. O verdadeiro mal procura destruir até as distinções morais. Uma maneira de o fazer é transformar as vítimas cúmplices. Os sonderkommandos, que faziam o trabalho que permitia às câmaras de gás funcionar, foram implicados nelas, apesar de qualquer oportunidade para resistir se ter dissipado no momento em que souberam o que estavam a fazer. O pior horror do 11 de Setembro foi aqueles que comandavam os aviões que embateram no World Trade Center não só terem atirado vidas comuns para a morte, mas terem feito que essas pessoas se tornassem parte das explosões que mataram milhares de outras. Foi pelo menos esta leitura de uma cheia de passageiros a bordo do quarto avião, que se dirigia para um alvo incerto em Washington. Ao contrário dos passageiros dos outros voos, tiveram conhecimento das razões por que haviam de agir. Sem isso, estariam tão desamparados como aqueles que eram confrontados com o inimaginável quando as portas das carruagens de gado se abriam. Antes de aquilo ter acontecido, quem suporia que era possível exterminar seres humanos como insectos, ou transformados em bomba vivas?
Aqueles aviões desfeitos em pedaços deixam-nos pouca esperança de um dia chegarmos a saber tudo o que aconteceu, mas o que já sabemos é suficiente. Informadas por telemóvel de que outros aviões desviados tinham sido conduzidos contra as torres, algumas pessoas decidiram lutar. Não conseguiram vencer os terroristas, mas foram capazes de assegurar que o avião se despenhava em campo aberto. Morreram como morrem os heróis. De maneira diferente do indivíduo hipotético do exemplo de Kant, que prefere morrer a prestar um falso testemunho, a recusa deles em tornarem-se instrumentos do mal tornou-se mais do que um gesto. Nunca saberemos que tipo de destruição evitaram, mas sabemos que evitaram alguma. Provaram não só que os seres humanos têm liberdade, mas também que podemos usar essa liberdade para influenciar um mundo que receamos não controlar.
Isto não é uma teodiceia. Nem sequer é um consolo - embora seja toda a esperança que temos."

(Neiman, Susan, O mal no pensamento moderno, Gradiva, pp.313-320)


sábado, 10 de setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Primo Levi sobre a coexistência da piedade e da brutalidade

“A piedade e a brutalidade podem coexistir, no mesmo indivíduo e no mesmo momento, contra toda a lógica; e, de resto, a própria piedade escapa à lógica. Não existe proporcionalidade entre a piedade que sentimos e a extensão da dor pela qual é suscitada a piedade; uma única Anna Frank desperta mais comoção que as miríades que sofreram como ela, mas cuja imagem ficou na sombra. É necessário talvez que assim seja; se devêssemos e pudéssemos passar pelos sofrimentos de todos, não poderíamos viver. Talvez só aos santos seja concedido o dom da piedade para com os muitos; aos monatos, aos da Equipa Especial e a todos nós, só resta, no melhor dos casos, a instável piedade dirigida ao individual, ao Mitmensch, ao co-homem; ao ser humano de carne e sangue que está à nossa frente, ao alcance dos nossos sentidos providencialmente míopes.” 

(Levi, Primo, Os que Sucumbem e os que se Salvam, (Tr. J.C.B) Teorema, 2008, p. 54.)

Szpliman descreve a saída de Korczak do gueto de Varsóvia

“Num dos primeiros dias de Agosto – enquanto fazia uma pausa do trabalho e fui dar uma volta pela rua Gesia - vi Janusz Korczak com os seus órfãos a sair do gueto. Haviam ordenado, para aquela manhã, a evacuação do orfanato que dirigia. Era suposto as crianças terem sido levadas sozinhas. Ele teve a oportunidade de se salvar e foi com dificuldade que convenceu os alemães a levá-lo também. Tinha passado muitos anos da sua vida com as crianças e agora, nessa última viagem, não poderia deixá-las sozinhas. Queria facilitar-lhes as coisas. Disse aos órfãos que iam num passeio ao campo e que, por isso, deveriam estar alegres. Finalmente poderiam trocar os sufocantes muros da cidade por prados de flores, riachos onde poderiam banhar-se e bosques repletos de bagas e cogumelos. Disse-lhes que vestissem as suas melhores roupas e assim saíram para o pátio, dois a dois, aprimorados e felizes. 

(…) Quando as encontrei na rua Gesia, as crianças sorriam e cantavam em coro acompanhadas por um pequeno violinista que tocava para elas e Korczak trazia ao colo duas das crianças mais pequenas, que estavam radiantes enquanto ele lhes contava uma história divertida. Estou certo de que, mesmo na câmara de gás, enquanto o Ziklon B sufocava a garganta das crianças, espalhando nos seus corações o terror em vez da esperança, o Velho Doutor terá, num derradeiro esforço, sussurrado: ‘Está tudo bem meninos, vai ficar tudo bem.’ Assim, ele poderia, pelo menos, poupá-las do medo de passar da vida para a morte.” 

Szpliman, W., The pianist, Phoenix, 2000, p.96 (tr. de LFB)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Janusz Korczak e os direitos das crianças

Janusz Korczak defendeu a necessidade de uma declaração dos direitos das crianças muito antes de esse documento ser concebido pela Convenção de Genebra (1924) ou pela Assembleia Geral das Nações Unidas (1959). A declaração que ele imaginou – não como um fundamento para a boa vontade mas como uma exigência para a acção – ficou, aquando da sua morte, incompleta. Recolhi das suas principais obras – Como Amar Uma Criança e O Direito Da Criança Ao Respeito – a seguinte lista com os direitos que Korczak considerava essenciais:
 
A criança tem o direito a ser amada.
A criança tem o direito a ser respeitada.
A criança tem o direito a viver em condições óptimas onde possa crescer e desenvolver-se.
A criança tem o direito a viver no presente.
A criança tem o direito a ser ela própria.
A criança tem o direito a cometer erros. 
A criança tem o direito a ser levada a sério.
A criança tem o direito a ser apreciada por aquilo que é.
A criança tem o direito a desejar, a afirmar e a perguntar.
A criança tem direito a ter segredos.
A criança tem o direito a que respeitem as suas coisas.
A criança tem o direito a resistir a uma educação que entra em conflito com as suas crenças.
A criança tem direito a protestar por uma injustiça.
A criança tem direito a um tribunal de crianças onde possa julgar e ser julgado pelos seus pares.
A criança tem o direito a ser defendida perante o sistema de justiça juvenil.
A criança tem direito ao respeito pela sua dor.
A criança tem direito a comungar com Deus.
A criança tem direito a morrer prematuramente.
(“O amor profundo de uma mãe pela seu filho tem de incluir o direito a uma morte prematura, terminar o seu ciclo de vida em apenas uma ou duas primaveras… Nem todo o rebento pode transformar-se numa árvore”).
(Lifton, Betty Jean, The King Of Children – The Life And Death Of Janusz Korczak, AAP, 2005, pp.361-362. Tradução adaptada de LFB.)

10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (3)

"Os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova Iorque a 11 de Setembro de 2011 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Destruíram o mito dominante do Ocidente.
As sociedades ocidentais regem-se pela crença de que a modernidade é uma condição única, idêntica em todo o lado e sempre benigna. À medida que as sociedades se tornam mais modernas, mais parecidas se tornam. Ao mesmo tempo tornam-se melhores. Ser moderno significa realizar os nossos valores - os valores do iluminismo, como gostamos de os pensar.
Não há cliché mais surpreendente do que aquele que descreve a Al-Qaeda como uma regressão aos tempos medievais. Ela é um produto secundário da globalização. Como os cartéis mundiais da droga e as empresas virtuais que se desenvolveram na década de 90, evoluiu num tempo em que a desordem económica criava vastas aglomerações de riqueza em países onde os impostos eram menos pesados e o crime organizado se tornara global. O seu aspecto mais evidente - projectar uma forma clandestina de violência organizada a nível mundial - era impossível no passado. Do mesmo modo, a convicção de que é possível acelerar a criação de um mundo novo através de actos espectaculares de destruição não se encontra em parte nenhuma na época medieval. Os precursores mais próximos da Al-Qaeda são os revolucionários anarquistas dos finais o século XIX da Europa.
Quem pensa que o terror revolucionário não é uma invenção moderna está a esquecer a história recente. A União Soviética foi uma tentativa de dar corpo ao ideal do iluminismo de um mundo sem poder e sem conflitos. Em nome desse ideal matou e escravizou dezenas de milhões de seres humanos. A Alemanha nazi cometeu o pior acto de genocídio de todos os tempos. Fê-lo com o objectivo de produzir um novo tipo de ser humano. Nenhuma época anterior acalentou projectos semelhantes. As câmaras de gás e os gulags são modernos.

Há muitas maneiras de ser moderno, algumas delas monstruosas. Contudo, a convicção de que há uma única maneiras de o ser, e que é sempre uma coisa boa, tem raízes profundas. A partir do século XVIII chegou a acreditar-se que o crescimento do conhecimento científico e a emancipação da humanidade caminhavam  a par e passo. (...) O conhecimento científico geraria uma moralidade universal em que o objectivo da sociedade seria produzir tanto quanto possível. Com o uso da tecnologia, a humanidade estenderia o seu poder aos recursos da Terra e venceria as piores formas de escassez natural. A pobreza e a guerra poderiam ser abolidas. Através do poder que lhe era dado pela ciência, a humanidade seria capaz de criar um novo mundo.

Houve sempre divergências acerca da natureza desse novo mundo. Para Marx e Lenine ele seria uma anarquia igualitária sem classes, para Fukuyama e os neoliberais, um mercado livre universal. estas visões de um futuro alicerçado na ciência são muito diferentes; mas isso não enfraqueceu de modo nenhum a força da fé que elas expressam.

Através da sua profunda influência sobre Marx, as ideias positivistas inspiraram a desastrosa experiência soviética no planeamento da economia central. Quando o sistema soviético se desmoronou, as mesmas ideias reemergiram no culto do mercado livre. Chegou-se mesmo a acreditar que só o «capitalismo democrático» ao estilo americano seria verdadeiramente moderno, e que estaria destinado a propagar-se a todo o mundo. Quando tal se verificasse surgiria uma civilização universal, e a história deixaria de existir.

Esta poderá parecer uma crença fantástica, e de facto é. O mais fantástico é que se continua a acreditar largamente nela. é ela que modela os programas dos partidos políticos de maior relevo em todo o mundo. É ela que orienta as políticas de organizações como o Fundo Monetário Internacional. É ela que estimula a «guerra contra o terrorismo», em que a Al-Qaeda é vista como uma relíquia do passado.

Esta visão está simplesmente errada. Tal como o comunismo e o nazismo, o Islão é moderno. Apesar de alegar que é antiocidente, é tão modelado pela ideologia ocidental como pelas tradições islâmicas. à semelhança dos marxistas e dos neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como um prelúdio para um novo mundo. Todos eles estão convencidos de que podem refazer a condição humana. Se acaso existe um mito exclusivamente moderno, é este.

No novo mundo, tal como a Al-Qaeda o imagina, o poder e o conflito desapareceram. Esta é uma invenção da imaginação revolucionária, e não a receita para uma sociedade moderna viável; mas neste aspecto o novo mundo imaginado pela Al-Qaeda em nada difere das fantasias planeadas por Marx e Bakunin, por Lenine e Mao, e pelos evangelistas do neoliberalismo, que tão recentemente anunciaram o fim da história. E tal como aconteceu com esses movimentos ocidentais modernos, a Al-Qaeda encalhará nas imutáveis necessidades humanas.

O mito moderno é que a ciência permite à humanidade ser senhora do seu destino; mas a «humanidade» é ela própria um mito, um resíduo empoeirado da fé religiosa. A verdade é que existem apenas humanos, fazendo uso do conhecimento crescente que lhes é dado pela ciência para prosseguirem os seus objectivos conflituosos."
(Gray, John, Al-Qaeda e o Significado de Ser Moderno, (tr. M.P.) Relógio d'Água, 2004, pp. 15-18)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (2)

"A bordo de um paquete que largara de Alexandria, Egipto, rumo a Nova Iorque, num camarote de primeira classe, Sayyid Qutb, um escritor e pedagogo franzino, de meia-idade, vivia uma crise de fé. ‹‹Quando estiver nos Estados Unidos, deverei limitar-me a comer e a dormir, como os outros bolsistas? Ou será que devo procurar ser especial?» eram questões que punha a si próprio. «Devo permanecer fiel às minhas crenças islâmicas e resistir às muitas tentações pecaminosas, ou devo ceder às inúmeras tentações que me rodeiam?» Estava-se em Novembro e 1948. O vulto do Novo Mundo, triunfante, rico e livre, erguia-se ameaçador no horizonte. Deixava para trás de si o Egipto desfeito em farrapos e lágrimas. O viajante nunca estivera ausente do seu país natal. A saída também não fora iniciativa sua.
Sayyid era um solteirão de ar severo, de cabelos e olhos escuros, franzino e baixo, com uma testa alta e inclinada para trás e um bigode espetado e farfalhudo, um tanto mais estreito que o seu nariz. Os olhos denunciavam uma natureza autoritária e facilmente propensa à arrogância. (...)
Sob muitos aspectos, era um ocidental - na forma de vestir, no gosto pela música clássica e pelos filmes de Hollywood. Tinha lido traduções das obras de Darwin e de Einstein, de Byron e de Shelley; mergulhara na literatura francesa - Victor Hugo, em especial. Contudo, e ainda antes de partir nesta viagem, manifestava já alguma preocupação relativamente ao assédio da civilização ocidental a todos os níveis. Apesar da sua erudição, via o Ocidente como uma entidade cultural única. As diferenças entre capitalismo e marxismo, cristianismo e judaísmo, fascismo e democracia eram insignificantes perante a única grande fronteira que existia no pensamento de Qutb: o islão e o Oriente, de um lado, e o Ocidente cristão do outro.
No entanto, os EUA apareciam isolados das aventuras colonialistas que pautaram as relações da Europa com o mundo Árabe. (...) Qutb (cujo nome se pronuncia kâ-teb), à semelhança de muitos árabes, sentiu-se chocado e traído com o apoio dado pelo Governo dos EUA, no pós-guerra, à causa sionista. No momento em que Qutb zarpava do porto de Alexandria, o Egipto, em conjunto com os exércitos de cinco outros países árabes, encontrava-se na fase final da derrota na guerra que levou à criação de Israel como Estado judaico no seio do mundo árabe. Os árabes ficaram estupefactos não apenas com a determinação e a perícia dos soldados israelitas, mas também com a incompetência das suas próprias tropas e com as decisões desastrosas dos seus líderes. A vergonha que se seguiu a essa experiência iria moldar o universo intelectual árabe de uma forma mais profunda do que qualquer outro acontecimento na história contemporânea. « Sinto ódio e desprezo por esses ocidentais!», escreveu Qutb na sequência do apoio dado pelo presidente Harry Truman à transferência de 100 000 refugiados judeus para a Palestina. «Por todos eles, sem excepção: ingleses, franceses, holandeses e, por fim, os americanos, em quem tantos confiaram.» 
(pp.19 -21)

Quando MCKillop chegou ao Ground Zero, ficou chocado com a montanha imensa de escombros que ainda ardia. As equipas de salvamento escavavam dia e noite, esperando encontrar sobreviventes, mas aquele cenário retirara qualquer esperança a MCKillop. (...)
De certa forma, os mortos do Trade Center formavam uma espécie de parlamento universal, representando 62 países e quase todos os grupos étnicos e religiões do mundo - um corrector de bolsa ex-hippie, o capelão católico homossexual do quartel dos bombeiros da cidade de Nova Iorque, um jogador de hóquei japonês, um chefe de cozinha equatoriano, uma coleccionadora de bonecas Barbie, um calígrafo vegetariano, um contabilista palestiniano... A diversidade de formas em que esta pessoas assumiram a sua ligação à vida dava testemunho da exortação do Corão, que sustenta que tirar uma única vida destrói um universo. A Al-Qaeda dirigira os seus ataques aos Estados Unidos da América, mas acabou por atingir toda a humanidade.
 (pp. 366-367)

 (Wright, Lawrence, A Torre do Desassossego - O percurso da Al-Qaeda até ao 11 de Setembro, tr.E.V.C., Casa das Letras, 2007)

"Guerra contra a droga": a que preço?

domingo, 4 de setembro de 2011

10 anos passados sobre o 11 de Setembro - textos essenciais (1)

"No verão de 2006 voltei a viver no Reino Unido após dois anos e meio na América do Sul. Mantenho que não me tornei mais fascista nesse ínterim - aos pés de um Galtieri, digamos, ou ajoelhado perante um Pinochet. Mas em política é surpreendentemente fácil movermo-nos de um lado para o outro enquanto permanecemos no mesmo sítio; e o terreno médio, descobri eu, não está onde costumava estar. A extensão dessa mudança tornou-se-me dramaticamente nítida num direto televisivo, quando apareci no "Tempo de Perguntas" (o programa interativo de debate da BBC) e me inquiriram acerca do nosso progresso naquilo a que agora chamam a Longa Guerra.
A resposta que dei foi, pensava eu, quase fastidiosamente centrista. Eu disse que o Ocidente deveria ter ocupado os últimos cinco anos a construir um modelo democrático e pluralista no Afeganistão, enquanto se ía meramente limitando a conter o Iraque. No Afeganistão já vimos, não o "genocídio" avidamente previsto por Noam Chomsky e outros, mas a "genogénese" (para usar o termo de Paul Berman) - um florescente censo. Desde 2001, a população aumentou em 25 por cento. (...)
Nesse ponto comecei a olhar para um rosto e para outro na assistência, e o que eu vi eram os esgares e as caretas, não da discórdia, mas da incredulidade. Tomou então a palavra uma rapariga. Numa quase-lacrimosa voz de apaixonada presunção, dizendo que tinham sido os americanos quem armara os islamitas no Afeganistão, e que por conseguinte os Estados Unidos, para responderem ao 11 de Setembro, "deviam bombardear-se a eles próprios!" Tive tempo para imaginar os F-16 a uivarem sobre Chicago, e o USS Abraham Lincoln a lançar projécteis do tamanho de Volkswagens para o centro de Miami - em destemida expiação pelo World Trade Center, pelo Pentágono, pelo voo 93 da United, o voo 11 da United e o voo 77 da American. Mas depois os meus pensamentos foram dispersos pelo som de um unânime aplauso.
Estamos solenemente acostumados, hoje em dia, à fetichização do "equilíbrio", à regra básica da "equivalência moral", em todos os conflitos entre o Ocidente e o Oriente, à incapacidade a 100 por cento e a 360 graus para ajuizarmos sobre qualquer etnia que não seja a nossa (exceto no caso de Israel). E contudo os que batiam palmas no "Tempo de Perguntas" tinham ido além da velha fórmula da piedosa paralisia. Isto não era equivalência, isto era abjeção hemisférica. Em consequência, dada a escolha entre George Bush e Osama bin Laden, o relativista liberal, ao que parece, é obrigado a apoiar o saudita, tornando-se assim conciliador de uma doutrina armada com os seguintes lemas: é racista, misógina, homofóbica, totalitária, inquisitória, imperialista e genocida.

Recolhendo o que podemos das obras de pensadores como Sayyid Qutb (...) e a partir de diversas declarações, fatwas, ultimatos, ameaças de morte e notas de suicídio, podemos comparar o islão radical aos movimentos políticos tanatoides que conhecemos melhor, nomeadamente o bolchevismo e o nazismo (de cada um dos quais o islamismo é devedor). Das muitas afinidades que emergem, poderemos enumerar, para começar, algumas características secundárias. A exaltação de um líder divino; a exigência, não somente de submissão à causa, mas de inteira transformação em nome dela; um romantismo autoindulgente; um ódio à sociedade liberal, ao individualismo e à copiosa inércia (ou Konformismus); uma obsessão pelo sacrifício e o martírio; uma mórbida rebeldia adolescente combinada com um amor pueril pela destruição; o "agonismo", ou aceitação da permanente e insaciável rivalidade; o uso e a invocação do muito novo e do muito velho; uma mania da purificação; e um feroz antissemitismo.
Mas estas são incidentais. O tanatismo deriva a sua verdadeira energia, a sua febre e a sua magia, de algo muito mais radical. E aproximamo-nos aqui de uma patologia que no final poderá não ser assimilável pelo espírito dos não-crentes. Refiro-me à rejeição da razão - à rejeição do sequitur, da causa e efeito, do dois mais dois. Extraordinariamente, nas suas obras escritas e na sua conversa de mesa, Hitler e Estaline (e Lenine) raramente permitem que o substantivo abstrato "razão" passe sem que lhe atribuam um adjetivo depreciativo: razão inútil, razão frouxa, razão cobarde. Quando aqueles sanguinários saloios, os talibãs, entoam a sua palavra de ordem, "Lancem a razão aos cães", eles estão procedendo ao mesmo tipo de jogada faustiana: esmagai a razão, matai a razão, e toda e qualquer coisa parece possível - o restaurado califado, por exemplo, presidindo a um império planetário expurgado de todos os infiéis. Transcender a razão é evidentemente transcender os confins da lei moral, é entrar no mundo ilimitável da insanidade e da morte.
(...) 11 de Setembro significa 11 de Setembro de 2001 - o dia em que as torres vieram abaixo. Foi também o dia em que algo nos foi revelado. Já sabemos agora o que era isso? Muita da nossa análise terá sido porventura inteiramente inapropriada, pois continuamos a tentar construir o islamismo nos termos do raciocinativo. Que aspeto tem ele quando o construímos nos termos das emoções? Estados emocionais familiares (dor, ódio, fúria, vergonha, desonra e, acima de tudo, humilhação), mas em intensidades nada familares - intensidade que a democracia secular, e as regras da lei e da sociedade civil, tenderão sempre a neutralizar. (...)
O islamismo tem andado connosco durante a parte de leão de um século. A irmandade Muçulmana foi fundada em 1928, e no espaço de uma década ramificou-se naquilo que dentro em pouco viria a ser o Paquistão. Mas o evento emocionalmente constitutivo, somos forçados a deduzir, foi o estabelecimento da Pátria Judaica. Na guerra que foi travada para concretizar isso, Israel, ocupando 0,6 por cento de territórios árabes e com uma população proporcional, derrotou os exércitos do Egito, da Síria e da Transjordânia, juntamente com as forças suplementares do Líbano, da Arábia Saudita e do Iraque.
Nos restantes 99,4 por cento dos territórios árabes, esse evento é conhecido como al-nakba: a catástrofe. E tal epíteto dificilmente exagera o caso. A "ímpia" União Soviética, após um revés comparável, poderia ter caído num perturbável autoescrutínio; mas que significa isso para os povos que acreditam sinceramente que uma divindade omnipotente está minuciosamente atenta aos seus desejos e desertos? Tendo suportado vários séculos de prosperidade, poder e alcance global, e eventual império por parte dos cristãos, as nações islâmicas foram vencidas por uma província que tem o tamanho de Nova Jérsia.(...)
O 11 de Setembro implicou uma quebra moral, em todo o planeta; também desprendeu o terreno entre a realidade e o delírio. Por isso, quando falamos dele, chamemo-lo pelo nome que lhe é próprio; façamos por não sugerir que a nossa experiência desse evento, desse desenvolvimento, foi absorvida sem fricções e arquivada. Não o foi. O 11 de Setembro continua, prossegue com todo o seu mistério, a sua instabilidade e o seu terrível dinamismo."

(Amis, Martin, O Segundo Avião, Quetzal, 2011, texto retirado do excerto publicado em exclusivo na revista Ler, nº 105, Setembro de 2011, pp. 43-45.)

Nina Simone - Don't Let Me Be Misunderstood

sábado, 3 de setembro de 2011

Contradições ambientalistas

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Quando reflectimos sobre o pensamento ecológico - quer seja nas políticas ou nas acções ambientalistas - encontramos contradições de diversa ordem. Gostamos de alguns animais e comemos outros, essa é a contradição mais óbvia. Mas há outras: somos  todos ambientalistas/ecologistas mas não fazemos nada, ou fazemos muito pouco, para alterar a criação intensiva de animais (no mundo civilizado são 450 biliões de animais todos os anos, alimentados com rações geneticamente modificadas e com antibióticos à mistura, com mobilidade restrita e criados em ambientes doentios). Somos contra os transgénicos mas alimentamos os nossos animais com rações transgénicas (da próxima vez que comprar rações feitas nos Açores verifique o rótulo). Gostamos de gatos, mas quando são mortos nas estradas nada fazemos - nas estradas açorianas não há um único sinal de informação sobre o perigo de atropelamento de animais, domésticos ou não, que atravessam as estradas. Como ecologistas, defendemos os touros, mas comemos as vacas. Temos campanhas públicas anuais de protecção do cagarro, mas permitimos pacificamente a morte de ouriços-cacheiros nas estradas. Alguém sabe qual desses animais é o mais desprotegido e ameaçado? O ouriço não parece estar em extinção, mas está muito mais presente na nossa vida, enquanto animal morto, do que o cagarro. Olhemos um pouco para o caso do ouriço-cacheiro[1]. Apesar de, na Grã-Bretanha, estar entre os animais de jardim preferidos, a sua população está a cair abruptamente. Decresceu para metade nos últimos 15 anos e, a continuar assim, em 2030 não haverá ouriços-cacheiros ingleses. Apenas 1 em cada 100 chega aos cinco anos, e 15000 são esmagados todos os anos nas estradas britânicas. Mesmo os bem-intencionados podem contribuir para a morte dos ouriços se, quando encontram um no seu pátio, lhes dá pão e leite o que lhes pode provocar uma diarreia mortal. A melhor forma de ajudar um ouriço é soltá-lo na horta: um só ouriço consegue comer até 250 lesmas numa noite! O seu nome – cacheiro – sugere aquele que dissimula ou engana, mas que animal terá capacidade para enganar um automóvel? Não deveria este animal ser - pelo menos com tanto empenho quanto o cagarro - também defendido através de campanhas públicas?
Um exemplo mais geral. É a ciência quem deve dizer aos políticos o estado do ambiente. A nível mundial essa é uma tarefa do PIAC - painel intergovernamental para as alterações climáticas que, em 2007, conjuntamente com Al Gore, ganhou o Nobel da paz. Mas o que se viu no caso climategate - onde dados que falsificavam as conclusões e previsões catastrofistas do painel foram ignorados e afastados - foi a política a dizer à ciência como é que o ambiente deve estar. Isto não significa que o planeta esteja, ao contrário do que afirmam os cientistas (os mais e os menos éticos), bem. O planeta está mal e existem factos inegáveis. O número de espécies em vias de extinção ou já desaparecidas é assustador. Os tigres, por exemplo, estão em vias de extinção. E é custoso imaginar um mundo sem tigres. O problema é que alguns cientistas também estão mal e descredibilizam a ciência ao ponto de lançarem a dúvida sobre se a ecologia não será também uma farsa. Como mostrou o caso climategate, a ecologia tem sido aproveitada politicamente, o que significa uma prevalência da fantasia/aparência sobre a real motivação para mudar o mundo. Um das razões para explicar isso pode ser porque “há cada vez mais e mais cientistas a quererem ser políticos”[2].
Um terceiro e último caso, talvez o mais flagrante, é o da alimentação. Existem muitas razões para uma pessoa mudar os seus hábitos alimentares (éticas, religiosas, estéticas). Vejamos uma razão que tem sido pouco explorada que é a ecológica ou ambiental. Todos sabemos dos problemas ambientais do nosso planeta. Mas qual o contributo da alimentação carnívora para esses problemas? Que sentido é que faz ser ecológico e não ser vegetariano? Quando se questiona as pessoas sobre qual a causa do aquecimento global, todos referem a poluição, mas poucos falam na produção de carne[3]. Mas a verdade é que 18 % da poluição total é causada pelos efeitos da criação intensiva de animais (metano e tudo o resto: impacto na água e na biodiversidade; proliferação de vírus...) De todos os cereais produzidos, 40 a 50% são comidos por animais, 75 % no caso da soja. São precisos 7 quilos de grão (milho e soja) para fazer um quilo de carne. E para isso são precisos campos e para ter campos é preciso desflorestar. É por isso que a floresta da Amazónia está a desaparecer. Num ano uma vaca produz tantos gases com efeito de estufa quanto um carro que viaje 70.000 km – mais de uma volta e meia ao planeta terra. Para produzir carne são precisas 10 vezes mais terra do que para produzir vegetais. À medida que as populações aumentam, aumenta também o consumo de carne. Por consequência, aumentam também as emissões de gases com efeito de estufa. Um europeu come, em média, durante a sua vida, 1800 animais. Calcule-se o efeito, se todas as pessoas no mundo fizessem o mesmo. As florestas estão a desaparecer; a biodiversidade, a água, tudo isto é posto em causa pela produção animal. Um vegetariano num jipe produz menos emissões de carbono do que um carnívoro num carro híbrido (mais um sinal do politicamente correcto, mas ecologicamente ineficaz). Se tudo isso é verdade, porque não se fala mais da relação entre o aquecimento global do planeta e a produção intensiva de animais? Por que não é a criação intensiva de animais mencionada uma única vez no filme “uma verdade inconveniente” de Al Gore? Talvez porque ele é também um produtor de carne e estaria, de forma silenciosa, a proteger a poderosa indústria de produção de carne norte-americana. Outro interessante envolvimento entre política e ecologia.
Mas não precisam os seres humanos de comer carne e de beber leite? A resposta inequívoca é não[4]. A ideia de que precisamos de comer carne e leite todos os dias é gerada, em grande parte, pela propaganda. Reduzir o consumo de produtos animais não nos fará grande mal, pelo contrário, poderá até reduzir algumas doenças mortais. Quando é que vamos começar a fazer as contas aqui nos Açores, onde a produção de carne (aves, porcos e vacas) em ambientes fechados começa a ser significativa? E por que não há alimentação vegetariana nas eco-escolas? A resposta está em parte na desinformação. Comemos o que nos dão, sem nos preocuparmos muito com os efeitos desastrosos da alimentação. O pensamento ecológico dominante parece mais uma questão de ser politicamente correcto, de marcar a diferença seguindo a moda ecologista, do que a afirmação de uma real preocupação com o planeta em geral e com os animais em particular. Se queremos manifestar alguma coerência entre as nossas crenças ecológicas e as nossas atitudes então deveremos comer menos carne. Individualmente deveremos fazer um esforço para, pelo menos em algumas refeições semanais, encontrar uma alternativa vegetariana. Em termos colectivos, as instituições públicas têm uma grande responsabilidade e uma forma de se mostrarem empenhadas em apresentar soluções seria, por exemplo, instituir um dia por semana de comida vegetariana nas escolas, nos lares de idosos, nos hospitais, etc. Por último, uma boa dose de pensamento céptico e crítico talvez nos possa impedir de embarcar em euforias ecológicas não fundamentadas.


[1] As informações sobre o ouriço foram retiradas de Lloyd e Mitchinson, O Livro da Ignorância sobre o Mundo Animal, Casa das Letras, 2010, pp.145-146.
[2] Der Spiegel, edição online, acedida em 14 Abril 2010.
[3] Muitas das informações a seguir apresentadas foram retiradas do filme “MEAT THE TRUTH - Uma Verdade Mais Que Inconveniente.
[4] Sobre a mudança para uma dieta vegetariana vale a pena ler o livro de Jonathan Safran Foer, Comer Animais, Bertrand, 2011.
 [Texto publicado no jornal da Gê Questa - Associação de defesa do ambiente, primavera de 2011. Edição on line aqui.] 
LFB