sexta-feira, 10 de junho de 2011

Jorge Semprun (1923-2011)

"Por vezes, a confiança que eu sentia por ter passado pela morte desaparecia, deixando, contudo, um efeito diabólico. Essa passagem tornava-se então a única realidade concebível, a única experiência verdadeira. Desde então tudo tinha sido apenas um sonho, quando muito uma aventura fútil, mesmo quando agradável. Apesar das minhas acções diárias e da sua eficácia, apesar da evidência dos meus sentidos, que me permitiam orientar-me num labirinto de perspectivas -  numa multiplicidade de pessoas e de coisas - a impressão precisa e esmagadora de viver apenas num sonho acabava sempre por surgir. De ser eu próprio um sonho. Antes de morrer em Buchenwald, antes de ser levado pelo fumo sobre o Ettersberg, tinha sonhado com essa vida futura, com essa incarnação enganadora. (16)

Apesar do fumo mefítico e do odor pestilento que se agarrava constantemente ao edifício, as latrinas do Pequeno Campo eram um lugar de convívio, uma espécie de refúgio onde se podiam encontrar compatriotas e amigos do bairro ou da clandestinidade; era um local para trocar notícias, uns poucos fragmentos de tabaco, memórias, risos e um pouco de esperança - em resumo, alguma vida. No pequeno Campo, as revoltantes latrinas eram um lugar de liberdade: os SS e os Kapos evitavam, naturalmente, o edifício e o seu fedor nauseabundo, tornando-o assim no único local de Buchenwald onde a pessoa se sentia o mais livre possível da tirania inerente ao funcionamento do mundo concentracionário." (p. 39)
(tr. do inglês, LFB)
[Uma entrevista a Semprun, realizada em 2005 por Carlos Vaz Marques (TSF), pode ser ouvida aqui)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os animais à assembleia da república


Eu diria que a minha deliberação vai no sentido de votar no Partidos dos animais!

Para além de eu ser um defensor da causa ética animal, observar o que "acontece" (como se disse na Quadratura) na campanha só pode mesmo fazer transbordar a vontade política, deslocando o meu voto não sei bem donde para um movimento que vê bem mais longe do apenas aquilo que está, aqui e agora, à sua volta.
Só para referir um acontecimento: o regresso da discussão do aborto é do mais estapafúrdio que se pode ouvir. O que estávamos mesmo a precisar era de um novo referendo sobre o tema.
Mas esta gente que pretende governar este país não enxerga nada à sua frente, ou quê?
Eu no PS não voto. Depois de tanta mentira e da responsabilidade perante o desastre a que o país chegou é preciso muito descaramento para se armarem em vítimas. E quanto ao voto útil no PSD, é preciso merecê-lo meus caros. Dos outros nem falo...
Votando no PAN, sempre posso imaginar o bom que era ver os animais no parlamento. Galerias cheias de burros, galinhas, vacas, porcos e toiros a apupar os humanos espantados.
Vivam, pois, os animais, sobretudo os irracionais.




(LFB)

terça-feira, 24 de maio de 2011

O mal contemporâneo

"Se há algo de novo no mal contemporâneo, não é simplesmente uma questão de quantidade relativa, nem de relativa crueldade. As câmaras de gás foram inventadas para poupar as vítimas a formas dolorosas de morte - e para poupar os assassinos a uma visão que poderia perturbar  as suas consciências. Para muitos, é essa mistura perversa de industrialização com uma pretensa humanidade que torna os campos da morte horripilantes. As discussões sobre que tipos de morte são piores levam a formas macabras de competição. Um momento de reflexão sobre a história da tortura deixa claro que, antes e depois de Auschwitz, os seres humanos mostraram possuir competências para a crueldade que as palavras não conseguem captar. Só o facto de estarmos habituados à morte de Jesus como um ícone pode eclipsar a atrocidade da sua crucifixão. Se isto não fosse tão familiar, podia facilmente servir como paradigma do sofrimento inocente a que o cristianismo primitivo assistiu. Forçar um prisioneiro condenado a arrastar o instrumento que a seguir será usado para o torturar até à morte, pelo meio de uma multidão escarnecedora, é um refinamento de crueldade que nos devia cortar a respiração. Devia ser suficiente para deter à nascença o impulso da comparação entre sofrimentos. O que faz de Auschwitz um problema para o pensamento sobre o mal não deve ser uma questão de grau, porque a este nível não há escalas.
(...) Isolar um factor na rede das atrocidades que constituíram os campos da morte é provavelmente enganador. Em vez de perguntarmos porque produziu este acontecimento em particular uma sensação única de devastação, que anuncia o fim violento de uma era, devíamos olhar mais cautelosamente para as fontes conceptuais que foram destruídas."
(Neiman, Susan, O mal no pensamento moderno, Gradiva, pp.286-287)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

sábado, 23 de abril de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

Lente galáctica






















                                               
'All we need is here on Earth/ about every other day.'
(Smog, in "Running the Loping", 2005)
(imagem daqui

sábado, 16 de abril de 2011

Estados de espírito



"Se um extraterrestre alcançasse a Terra e quisesse saber qual a coisa que melhor define os humanos, diria que é isso: queremos sempre mais, seja do que for."

Michael Cunningham, entrevista de SFC, revista Ler, abril 2011, nº 101, p.50

quinta-feira, 14 de abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A qualidade das leis

Em alguns casos, e não serão poucos, é penoso citar uma determinada lei. E a forma como se citam as leis diz certamente muito sobre a qualidade do respectivo processo legislativo e, por consequência, sobre os próprios legisladores. Advindos de diferentes assembleias legislativas, aqui ficam dois exemplos:

Ex. 1:
"Currículos aprovados pelo Decreto-Lei n.º74/2004, de 26 de Março rectificado pela Declaração de Rectificação n.º 44/2004, de 25 de Maio alterado pelo Decreto -Lei n.º 24/2006, de 6 de Fevereiro, rectificado pela Declaração de rectificação n.º 23/2006, de 7 de Abril e alterado pelo Decreto-Lei n.º 272/2007 de 26 de Julho"

Ex. 2:
"Artigo x do Estatuto da Carreira Docente, aprovado pelo Decreto Legislativo Regional nº 21/2007/A, de 30 de Abril, alterado e republicado pelo Decreto Legislativo Regional nº4/2009/A, de 20 de Abril, alterado e republicado pelo Decreto Legislativo Regional nº11/2009/A, de 21 de Julho..."   
(LFB)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Deus, por que tem que existir toda esta crueldade?

Este diário é certamente uma das descrições mais pungentes feitas por uma testemunha e vítima dos horrores perpetrados pelos nazis no gueto de Varsóvia. A autora era uma adolescente quando o escreveu, o que lhe permitia ter já uma percepção afinada  da realidade. A mãe de Mary Berg era americana de nascimento o que, apesar de não ter impedido que passassem  pelas misérias que os outros judeus passaram no gueto, acabou por as salvar. 
A citação que se segue é retirada de um dos últimos capítulos, quando elas já se encontram em França, na estância de Vittel, transformada em campo de refugiados, e dá bem conta de alguns dos dilemas morais que assolavam a mente dos sobreviventes.  

"Nós, que fomos resgatados do gueto, temos vergonha de olhar uns para os outros. Tínhamos nós o direito de nos salvarmos? Por que é tudo tão bonito nesta parte do mundo? Aqui tudo cheira a sol e a flores, e lá - lá só há sangue, o sangue do meu próprio povo. Deus, por que tem que existir toda esta crueldade? Estou envergonhada. Aqui estou eu, respirando ar fresco, e lá o meu povo está sufocando em gás e perecendo em chamas, queimado vivo. Porquê?

Berg, Mary, The Diary of Mary Berg - Growing up in the Warsaw Ghetto, Oneworld, 2009, p. 222, tr. do excerto LFB)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Cérebro e leitura

De acordo com vários estudos imagiológicos, não há diferenças de activação cerebral durante a leitura entre pessoas cegas (que lêem Braille) e leitores normais. Estes resultados desafiam a visão tradicional do cérebro como um conjunto de regiões, cada qual especializada no processamento de apenas um tipo de informação sensorial.
Segundo Amir Ameli*,  "o cérebro não é uma máquina sensorial, apesar de assim nos parecer com frequência; é sim um processador de tarefas; cada área desempenha uma determinada função, independentemente da modalidade sensorial do input."
Contrariamente a outras tarefas cerebrais, a leitura é um invenção recente (com cerca de 5400 anos) e o Braille tem menos de 200 anos. "Do ponto de vista da evolução, não decorreu tempo suficiente para que se tenha desenvolvido um módulo cerebral dedicado à leitura", explicou ainda.
(Ler mais aqui.)

* investigador principal; Hebrew University of Jerusalem. 
(tr. DO)
 

quarta-feira, 30 de março de 2011

o canto primevo

Honoris Lula

 












Sempre se gabou de não gostar de livros: ler "dá sono". 
Recebeu hoje o doutoramento honoris causa pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. 
Não há, felizmente, notícia de que tenha adormecido ao ler o seu discurso.
(DO)

Xadrez na Escola



Uma forma barata e divertida de estimular as capacidades de concentração, antecipação e pensamento crítico das crianças com benefícios vários, nomeadamente, no que toca à matemática e à leitura.
Ao que parece, o xadrez faz parte do currículo escolar de cerca de 30 países.

"Por vezes esquecemos que as crianças do segundo e terceiro anos de escolaridade gostam muito de desafios e de pensar que são inteligentes." (Wendi Fischer, directora do programa First Move, implementado em 27 Estados norte-americanos).
(DO)

terça-feira, 29 de março de 2011

Quando precisar de dar uma lição de psicologia social - grupos sociais, atitudes, comportamentos, dissonância cognitiva, estereótipos, discriminação, preconceitos, primeiras impressões, expectativas, estatutos e papéis, atracção, agressão, cooperação, conflitos e sua resolução e etc- sem ter que ser a 'encher chouriços' veja este filme. O  recorte aqui ao lado é o momento em que tudo se decide, mas isto só se descobre vendo o filme segunda vez.

Um excerto, para aguçar o apetite, já lá para o meio do filme:

Que conceito científico poderia melhorar o nosso funcionamento cognitivo?

Uma pergunta de Steven Pinker.
Até ao momento,  164 respostas publicadas aqui.

[original: What scientific concept would improve everybody's cognitive toolkit?]

segunda-feira, 28 de março de 2011

George Steiner

Já há 60 ou 70 anos que os jovens não lêem. Lembre-se de que os jovens já não lêem livros, lêem sms, livros de BD, resumos no Kindle: O Hamlet em 25 palavras, o Lear em 50 palavras. Os jovens estão impacientes, estão zangados, muito zangados com uma civilização, uma sociedade, que não lhes está a dar a esperança socioeconómica de que necessitam. (…) Para ler seriamente é preciso silêncio. Não ponha música, tire a rádio e a televisão do quarto. Tem de saber viver, e conviver, com o silêncio. (Cada vez menos jovens querem viver com o silêncio. Na realidade, têm-lhe medo. O silêncio tornou-se, de resto, muito caro. (…) Vivemos num inferno de ruído constante.) Tem de estar preparado para - e não riam de mim - saber passagens de cor. Não é por acaso que «coração» em latim é «cor». Ninguém nos pode tirar nunca o que sabemos de cor. (…) A partir do momento em que sabemos um poema de cor, algumas poucas linhas, ele começa a viver dentro de nós. Em terceiro lugar, precisa de ter alguma privacidade. (…) Actualmente, a privacidade é o inimigo nº1 de todo o jovem. Não só se confessa tudo a toda a gente, como é imperativo que o façamos imediatamente. Ninguém guarda a experiência, qualquer que ela seja, só para si. Então, três condições: silêncio, aprender de cor e privacidade. De outra forma é impossível viver uma grande obra."

Entrevista de Beata Cieszynska e José Eduardo Franco a George Steiner,revista Ler, número 100, Março 2011, p. 31

domingo, 20 de março de 2011

Tempo, consciência e (ânsia de) conhecimento

"Era possível que houvesse excepções, era possível que alguns pacientes ocupassem as horas de repouso com determinada leitura séria e intelectual, com o estudo de certa matéria útil e meritória, pelo menos com o objectivo de não perderem a ligação com a vida da planície ou de concederem um pouco de valor e de profundidade ao tempo, de modo a que este não se tornasse apenas tempo e nada mais.
(...)

A consciência de si era, portanto, uma mera função da matéria transformada em vida e, a um nível mais elevado, esta função voltava-se contra o seu próprio portador, tornando-se o desejo de conhecer e de explicar o fenómeno que a produzia, um desejo de vida, ao mesmo tempo auspicioso e desesperado, de se conhecer a si mesma, um mexer e remexer da natureza em si própria, anseio inglório em última análise, já que a natureza não pode reduzir-se a conhecimento e a vida não pode, por mais que se queira, perscrutar-se a si mesma."

Mann, T. (2009). A Montanha Mágica. (tr. G.L. Encarnação). Lisboa: Dom Quixote, pp. 310; 311.

sábado, 19 de março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cabragerme

Biscoitos, 14/03/11. Via telemóvel.
(DO)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Violência

Relato de um utilizador de drogas: "Outro dia fui eu quem foi parar à esquadra! Não me viram todo inchado? Levei um enfardamento. Eu estava no bairro S. a vender umas peças, mas já só tinha um pacote para mim. Tinha no bolso 47.5 euros (...). Um dos polícias veio ter comigo e disse-me 'Ei, tu aí, seu monte de esterco! Andas a vender? Espera aí que eu já te vou foder!' Empurraram-me contra a parede, ao lado do café e obrigaram-me a tirar a roupa toda. Até as cuecas tive de baixar. Não encontraram nada. Eu tinha metido o pacote debaixo da língua. Eles ficaram furiosos, deram-me um soco no estômago e foram ter com outros" (diário de campo, 3. 2. 09).

Relato de um técnico de equipa de rua: "Levavam-nos para os calabouços e davam-lhes cada coça! Quando os utentes tomavam banho lá no centro de apoio eu vi cada coisa! Eles ficavam com o corpo todo marcado. Muitas vezes vi alguns que nem conseguiam andar, punham-nos lá de pé e com o bastão pisavam-lhes as unhas dos pés todas! (...) Ah! Nós presenciamos muitas vezes violência policial. Eles evitavam bater quando estávamos ao pé deles, mas mal nós saíamos, era um vê-se-te-avias! Por isso, muitas vezes ficávamos ao pé deles quando vinha a polícia. E muitos vinham ter connosco!"

A violência policial não deve, contudo, ser isolada (...). [A violência] apresenta-se de várias formas e é exercida sobre vários actores: de utilizadores de drogas contra a polícia, da polícia contra eles, de grupos de jovens contra toxicodependentes, de moradores contra vizinhos... Os junkies que são presença diária na cena drug de rua aparecem como alvo preferencial: são agredidos pelas crianças, pelos dealers, pelos polícias. Configuram-se como perfeitos bodes expiatórios: enfraquecidos, sem voz e sem ninguém que os defenda. "Uma vez os putos pediram-me um cigarro; como não tinha atiraram-me pela ribanceira abaixo. Fodi as costas todas." (Consumidor, registos da equipa de rua, 24.0.06) (...).

Fernandes, L. & Neves, T. (2010). "Controlo da marginalidade, violência estrutural e vitimações colectivas". in Machado, C. (org.). Novas Formas de vitimação criminal. Braga: Psiquilíbrios Edições, pp. ??

terça-feira, 15 de março de 2011