terça-feira, 16 de agosto de 2011



"Psychological factors also come into play when the music is set in front of a
crowd. Looking at a painting in a gallery is fundamentally different from listening
to a new work in a concert hall. Picture yourself in a room with, say, Kandinsky’s
Impression III (Concert), painted in 1911. Kandinsky and Schoenberg knew
each other, and shared common aims; Impression III was inspired by one of
Schoenberg’s concerts. If visual abstraction and musical dissonance were
precisely equivalent, Impression III and the third of the Five Pieces for
Orchestra would present the same degree of difficulty. But the Kandinsky is a
different experience for the uninitiated. If at first you have trouble understanding
it, you can walk on and return to it later, or step back to give it another glance,
or lean in for a close look (is that a piano in the foreground?). At a performance,
listeners experience a new work collectively, at the same rate and
approximately from the same distance. They cannot stop to consider the
implications of a half-lovely chord or concealed waltz rhythm. They are a crowd,
and crowds tend to align themselves as one mind."

(Alex Ross, The Rest is Noise, Harper Perennial, 2009, p. 61. )

"Guerra contra a droga": efeitos colaterais


"(...) uma série de trabalhos de investigação evidenciava o facto de serem as respostas repressivas instigadas pela política proibicionista a estarem na base dos aspectos mais preocupantes das drogas em meio urbano. Destacaremos as principais: a prática do consumo injectado como modo de rentabilização dum produto excessivamente caro para o utilizador; a organização de mercados de rua que se instalariam nas zonas mais fragilizadas das cidades contribuindo para o agravamento das suas dificuldades estruturais; a ilegalidade dos mercados como favorecedora do envolvimento no negócio de delinquentes de carreira, reforçando assim a sua posição na hierarquia do crime; a condenação do utilizador regular a uma série de juízos negativos que, em muitos casos, terminam em forte estigmatização social; a associação do consumo ao pequeno delito urbano e do abastecimento ao crime organizado; os problemas causados à gestão do sistema penitenciário pela chegada à prisão duma grande quantidade de dependentes de drogas duras; a violência policial contra certos grupos marginalizados com o pretexto da repressão ao tráfico… Em suma, o proibicionismo seria responsável por uma série de efeitos colaterais ao objectivo de erradicação das drogas – como é, aliás, típico de toda e qualquer guerra. Dito doutro modo, uma parte importante dos riscos e danos que as políticas de saúde baseadas na Redução de Riscos procuram minorar são decorrentes, não da natureza química das drogas, não da natureza psicológica dos seus utilizadores – mas do próprio modelo proibicionista."

Fernandes, L. (2009). "O que a droga faz à norma". Revista Toxicodependências. Vol. 15, nº1, p. 12

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

domingo, 14 de agosto de 2011

The red gaze, A. Schoenberg



Por sugestão do Livro de Alex Ross, The Rest is Noise, Harper Perennial, 2009, p.54.
Mais informações sobre o autor do livro aqui
Qual foi a primeira coisa a existir?

sábado, 13 de agosto de 2011

The Cinematic Orchestra - Time And Space

O senso comum e a "droga"

"Em síntese, as várias investigações sobre as representações sociais e sobre as imagens mediáticas da “droga”, do “drogado”, do “toxicodpendente”, mostram o carácter simplista, redutor e ambíguo dos elementos com que se compõem essas figuras. O pensamento coisista uniformiza (“a droga” em vez de drogas várias, sejam legais ou ilegais; o “drogado”, o “toxicodependente” em vez das várias relações com as várias substâncias), toma a parte pelo todo (o "toxicodependente”, o “traficante”, como os actores das drogas, não reservando espaço para outros actores e relações), não discerne diferenças, igualando todos numa espécie de consequência universal da tirania da dependência química. Para agravar este quadro, os anos 90 seriam também os do crescimento epidémico do VIH-Sida, de que o utilizador de drogas por via intra-venosa se tornou um dos principais atingidos e difusores. "

Fernandes, L. (2011). "Do estereótipo à visão fenomenológica: análises sobre o 'agarrado' ". Revista Toxicodependências. Vol. 17, nº1, p. 22. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Privatização da água

"Wissen e Matthias Naumann examinaram no seu estudo de caso os problemas associados à privatização da distribuição da água nos municípios do leste alemão, onde a diminuição da população colocou desafios técnicos e financeiros à então gestão pública da mesma.  Segundo os autores, embora as empresas privadas ligadas à água continuem a ser alvo de controlo público, as suas decisões (...) têm vindo a moldar-se cada vez mais por questões técnicas e de lucro, minando a democracia local e o tratamento da água como bem público."  

Aguirre Jr., A., Eick, V. & Reese, E. (2006). "Intoduction: Neoliberal Globalization, Urban Privatization, and Resistance". Social Justice, Vol. 33, nº3, p. 3. (tradução DO) 

sábado, 30 de julho de 2011

Sustentabilidade das IPSS: algumas recomendações

Numa das entrevistas mais enroladas que alguma vez ouvi, o Secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social, Marco António Costa, fala sobre as dificuldades de financiamento das IPSS, bem como da necessidade de avaliar o risco dos investimentos estatais nessas instituições. É que precisamos de uma resposta social mais sustentável.
Como garantir a sustentabilidade deste sector numa época de sacrifício colectivo? Deixo às IPSS algumas recomendações (na linguagem da época):
- tentar recapitalizar-se de forma a resistir aos testes de stress;
- entrar no PSI-20 (e posteriormente vender acções a IPSS estrangeiras);
- investir em utentes de valor acrescentado;
- investir em utentes tecnológicos ou renováveis (velhos e deficientes não recomendados).

(DO)

Blood In The Mobile



O documentário passou hoje na Sic-Notícias.
Trabalho escravo no Congo para extrair minerais posteriormente utilizados nos nossos telemóveis.
O dinheiro fica nas mãos dos guerrilheiros que controlam as minas e as populações.
Quem são, afinal, os responsáveis? O que tem sido feito para por cobro a esta situação monstruosa? Até quando durará?
(página oficial aqui)
(DO)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Estado, economia, democracia e desigualdades

"A empresa, sozinha, não conseguirá, evidentemente, assegurar a preponderância do individualismo responsável sobre as tendências para a independência absoluta do eu. Como poderia consegui-lo, quando se conhecem os efeitos devastadores das políticas ultra-liberais na sociedade em geral: o fosso entre ricos e pobres aumenta [veja-se o caso dos Estados Unidos], os sistemas de protecção social recuam, há toda uma parte da população que se marginaliza, os sistemas educativos degradam-se, a criminalidade aumenta, a focalização nos lucros imediatos intensifica-se, a economia especulativa leva a melhor sobre a industria. As medidas de desregulamentação, a desobrigação do Estado, o culto do 'laisser-faire' aceleram a promoção de um individualismo desenfreado, justificam, em nome da 'mão invisível', a redução das medidas sociais, o enriquecimento vergonhoso, a maximização do interesse individual, a especulação de horizontes ilimitados, o 'cada um por si', não apenas entre os privilegiados, mas também entre os mais desfavorecidos. (...) Como imaginar o reforço do individualismo responsável, quando a glorificação do mercado conduz à exclusão de estratos inteiros da população, quando os desempregados são considerados 'preguiçosos' e os dispositivos sociais desperdícios públicos? Se a legitimidade do Estado-providência se esfumou, a realidade social do liberalismo é luminosa mas pouco sedutora. O Estado não tem, é certo, vocação para ser produtor de bens materiais e não pode continuar a ser considerado como o único suporte dos progressos económicos e sociais; nenhuma economia dinâmica, hoje em dia, é concebível fora da lógica do mercado. Isso não justifica a demissão ou a perda de ambição do poder público. Da mesma forma que a concorrência económica não pode funcionar sem quadro político e jurídico, uma sociedade democrática não pode permitir, sem se negar a si própria, o crescimento indefinido das desigualdades em matéria de nível de vida, de saúde, de educação, de urbanismo. A sagração do mercado não apela à reabilitação do Estado produtor, mas à necessidade do Estado regulador e antecipador."

Lipovetsky, G. (2010). O Crepúsculo do Dever. A ética indolor dos novos tempos democráticos
 (Tr. F. Gaspar & C. Gaspar)Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 219.
(sublinhados meus)
(D.O.)

terça-feira, 19 de julho de 2011

Remarks by Elie Wiesel (2011 National Tribute Dinner)

O ambiente e o colapso da civilização

"Nas últimas décadas do século vinte houve uma desilusão crescente com algumas das consequências do desenvolvimento moderno e um grande interesse na ideia de conservação e protecção do ambiente. Emergiram grupos que fazem campanhas sobre uma variedade de assuntos e temas ambientais foram introduzidos nas políticas doméstica e internacional. Agumas mudanças foram alcançadas num número significativo de áreas importantes: eliminação nas cidades da poluição causada pelo fumo, reduções na poluição industrial, acordos internacionais sobre chuvas ácidas e produção de CFC. Contudo, quando confrontado com a ideologia dominante do crescimento económico, da inovação tecnológica e do consumo de massas, o impacto dessas ideias é reduzido. Muitas das medidas adoptadas nos finais do século vinte são pouco mais do que cosmética quando confrontadas com as forças motrizes do crescimento populacional, da necessidade de aumentar a produção de comida, da cada vez maior necessidade de aumentar a produção industrial e com o aumento crescente do consumo de energia. De facto, foi possível interpretar muitas dessas medidas - conservação da vida selvagem em áreas delimitadas, poluição licenciada até certos níveis, cláusulas permissivas para a baleação científica, apoios limitados à agricultura orgânica mantendo, simultaneamente, os subsídios massivos à agricultura convencional e o impulso para o 'consumismo verde' -como sendo nada mais do que formas de escorar (shoring up) o sistema existente em vez de constituirem os primeiros passos para  uma abordagem mais ambientalmente benigna."

(CLive Ponting,  A New Green History of the World - the Environment and the Collapse of Great Civilizations, Penguin books, revised ed. 2007, p.413. tr. LFB)

terça-feira, 12 de julho de 2011

"Esqueçam tudo"

" A obrigação foi substituída pela sedução, o bem-estar tornou-se Deus e a publicidade o seu profeta.
(...)

'Há uma vergonha de se ser feliz face a certas misérias' –  escrevia La Bruyère; a publicidade, essa, apela: 'Esqueçam tudo'. "

Lipovetsky, G. (2010). O Crepúsculo do Dever. A ética indolor dos novos tempos democráticos
 (Tr. F. Gaspar & C. Gaspar). Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp.62, 63.


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Inside Job (2010)



Para quem não viu no cinema.
Lamentavelmente, as legendas nem sempre são de fiar.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Machine Gun




Por sugestão do filme Serious Man dos irmãos Cohen.

Estados de espírito

" - Valha-me Deus! Que esquisito que isto está hoje! E ainda ontem as coisas se passaram como de costume. Será que me transformei durante a noite? Deixa-me cá ver: seria eu a mesma pessoa quando me levantei esta manhã? Quase me quer parecer que me recordo de me sentir um pouco diferente. Mas senão sou a mesma, a pergunta lógica é: "Quem diabo sou eu?" Ah, esse é o grande enigma!

E começou a pensar em todas as crianças que conhecia que tinham a mesma idade que ela, para ver se a teriam trocado por alguma delas."

(Carrol, L., As Aventuras de Alice no Pais das Maravilhas, (tr. MVG) Edição Expresso, 2010, p.29)

terça-feira, 28 de junho de 2011

"Diminuir subvenções estatais e garantir resposta à emergência social"

IPSS que diversifiquem fontes de financiamento serão privilegiadas | Económico.

Tradução: o Estado quer livrar-se da solidariedade social. Como? Cortando no financiamento às Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS) que não dêem lucro, transferindo simultaneamente (e ainda mais), as suas responsabilidades na área para as referidas instituições.
Perguntas: é razoável esperar que todos os tipos de IPSS dêem lucro? Que "diversifiquem o seu financiamento" numa altura de crise? Que de forma encapuçada o Estado se vá demitindo de apoiar os mais vulneráveis? Que se esperem respostas de qualidade a problemas sociais (com tendência a agravar-se, dado o aumento do desemprego) com financiamentos minguantes?

Tenho, ainda, um grande problema com a 'obsessão da inovação'. Que devamos estar abertos a novos modos de intervir? Claro. A novas populações vulneráveis? Também. Mas e o trabalho de continuidade, coerente e com resultados positivos? Não será isso o que mais interessa quando se trabalha com e para pessoas? Porque é então desprezado em detrimento de uma 'ditadura do novo'? O que é ou deve ser exactamente esse 'novo' no trabalho com os sem-abrigo, para dar um exemplo?
Propõe-se "criação de valor social". Não é já isso que fazem as IPSS - tantas vezes com orçamentos apertados e com sacrifício pessoal de quem lá trabalha -, quando melhoram a vida de pessoas que, não fosse a sua existência, dificilmente teriam acesso, por exemplo, a cuidados básicos de saúde?
Posso estar a escrever asneira, claro. Se estiver, então peço que me expliquem o que deve valorizar a sociedade.
(DO)