quarta-feira, 30 de março de 2011

Xadrez na Escola



Uma forma barata e divertida de estimular as capacidades de concentração, antecipação e pensamento crítico das crianças com benefícios vários, nomeadamente, no que toca à matemática e à leitura.
Ao que parece, o xadrez faz parte do currículo escolar de cerca de 30 países.

"Por vezes esquecemos que as crianças do segundo e terceiro anos de escolaridade gostam muito de desafios e de pensar que são inteligentes." (Wendi Fischer, directora do programa First Move, implementado em 27 Estados norte-americanos).
(DO)

terça-feira, 29 de março de 2011

Quando precisar de dar uma lição de psicologia social - grupos sociais, atitudes, comportamentos, dissonância cognitiva, estereótipos, discriminação, preconceitos, primeiras impressões, expectativas, estatutos e papéis, atracção, agressão, cooperação, conflitos e sua resolução e etc- sem ter que ser a 'encher chouriços' veja este filme. O  recorte aqui ao lado é o momento em que tudo se decide, mas isto só se descobre vendo o filme segunda vez.

Um excerto, para aguçar o apetite, já lá para o meio do filme:

Que conceito científico poderia melhorar o nosso funcionamento cognitivo?

Uma pergunta de Steven Pinker.
Até ao momento,  164 respostas publicadas aqui.

[original: What scientific concept would improve everybody's cognitive toolkit?]

segunda-feira, 28 de março de 2011

George Steiner

Já há 60 ou 70 anos que os jovens não lêem. Lembre-se de que os jovens já não lêem livros, lêem sms, livros de BD, resumos no Kindle: O Hamlet em 25 palavras, o Lear em 50 palavras. Os jovens estão impacientes, estão zangados, muito zangados com uma civilização, uma sociedade, que não lhes está a dar a esperança socioeconómica de que necessitam. (…) Para ler seriamente é preciso silêncio. Não ponha música, tire a rádio e a televisão do quarto. Tem de saber viver, e conviver, com o silêncio. (Cada vez menos jovens querem viver com o silêncio. Na realidade, têm-lhe medo. O silêncio tornou-se, de resto, muito caro. (…) Vivemos num inferno de ruído constante.) Tem de estar preparado para - e não riam de mim - saber passagens de cor. Não é por acaso que «coração» em latim é «cor». Ninguém nos pode tirar nunca o que sabemos de cor. (…) A partir do momento em que sabemos um poema de cor, algumas poucas linhas, ele começa a viver dentro de nós. Em terceiro lugar, precisa de ter alguma privacidade. (…) Actualmente, a privacidade é o inimigo nº1 de todo o jovem. Não só se confessa tudo a toda a gente, como é imperativo que o façamos imediatamente. Ninguém guarda a experiência, qualquer que ela seja, só para si. Então, três condições: silêncio, aprender de cor e privacidade. De outra forma é impossível viver uma grande obra."

Entrevista de Beata Cieszynska e José Eduardo Franco a George Steiner,revista Ler, número 100, Março 2011, p. 31

domingo, 20 de março de 2011

Tempo, consciência e (ânsia de) conhecimento

"Era possível que houvesse excepções, era possível que alguns pacientes ocupassem as horas de repouso com determinada leitura séria e intelectual, com o estudo de certa matéria útil e meritória, pelo menos com o objectivo de não perderem a ligação com a vida da planície ou de concederem um pouco de valor e de profundidade ao tempo, de modo a que este não se tornasse apenas tempo e nada mais.
(...)

A consciência de si era, portanto, uma mera função da matéria transformada em vida e, a um nível mais elevado, esta função voltava-se contra o seu próprio portador, tornando-se o desejo de conhecer e de explicar o fenómeno que a produzia, um desejo de vida, ao mesmo tempo auspicioso e desesperado, de se conhecer a si mesma, um mexer e remexer da natureza em si própria, anseio inglório em última análise, já que a natureza não pode reduzir-se a conhecimento e a vida não pode, por mais que se queira, perscrutar-se a si mesma."

Mann, T. (2009). A Montanha Mágica. (tr. G.L. Encarnação). Lisboa: Dom Quixote, pp. 310; 311.

sábado, 19 de março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cabragerme

Biscoitos, 14/03/11. Via telemóvel.
(DO)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Violência

Relato de um utilizador de drogas: "Outro dia fui eu quem foi parar à esquadra! Não me viram todo inchado? Levei um enfardamento. Eu estava no bairro S. a vender umas peças, mas já só tinha um pacote para mim. Tinha no bolso 47.5 euros (...). Um dos polícias veio ter comigo e disse-me 'Ei, tu aí, seu monte de esterco! Andas a vender? Espera aí que eu já te vou foder!' Empurraram-me contra a parede, ao lado do café e obrigaram-me a tirar a roupa toda. Até as cuecas tive de baixar. Não encontraram nada. Eu tinha metido o pacote debaixo da língua. Eles ficaram furiosos, deram-me um soco no estômago e foram ter com outros" (diário de campo, 3. 2. 09).

Relato de um técnico de equipa de rua: "Levavam-nos para os calabouços e davam-lhes cada coça! Quando os utentes tomavam banho lá no centro de apoio eu vi cada coisa! Eles ficavam com o corpo todo marcado. Muitas vezes vi alguns que nem conseguiam andar, punham-nos lá de pé e com o bastão pisavam-lhes as unhas dos pés todas! (...) Ah! Nós presenciamos muitas vezes violência policial. Eles evitavam bater quando estávamos ao pé deles, mas mal nós saíamos, era um vê-se-te-avias! Por isso, muitas vezes ficávamos ao pé deles quando vinha a polícia. E muitos vinham ter connosco!"

A violência policial não deve, contudo, ser isolada (...). [A violência] apresenta-se de várias formas e é exercida sobre vários actores: de utilizadores de drogas contra a polícia, da polícia contra eles, de grupos de jovens contra toxicodependentes, de moradores contra vizinhos... Os junkies que são presença diária na cena drug de rua aparecem como alvo preferencial: são agredidos pelas crianças, pelos dealers, pelos polícias. Configuram-se como perfeitos bodes expiatórios: enfraquecidos, sem voz e sem ninguém que os defenda. "Uma vez os putos pediram-me um cigarro; como não tinha atiraram-me pela ribanceira abaixo. Fodi as costas todas." (Consumidor, registos da equipa de rua, 24.0.06) (...).

Fernandes, L. & Neves, T. (2010). "Controlo da marginalidade, violência estrutural e vitimações colectivas". in Machado, C. (org.). Novas Formas de vitimação criminal. Braga: Psiquilíbrios Edições, pp. ??

terça-feira, 15 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Como encaixar o belo e o catastrófico no mesmo dia? É possível à arte permanecer sublime?
(DO)

sexta-feira, 11 de março de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

Jóhann Jóhannsson - Processing Unit


(agradecimento devido ao de rerum natura)

Plâncton Irlandês


"[Na imagem], a forma de vida mais abundante do planeta - o plâncton - origina remoinhos azuis-claros ao largo da costa irlandesa (Atlântico Norte). Este é um fenómeno primaveril típico. Também conhecido como 'erva do mar', o plâncton é constituido por plantas marinhas microscópicas e é a base da cadeia alimentar dos oceanos: dele depende, directa ou indirectamente, a sobrevivência de toda a vida marinha. Desempenha um papel fulcral na absorção do dióxido de carbono atmosférico via fotossíntese (à semelhança dos seus congéneres terrestres), contribuindo, ainda, para que as águas mais frias e densas (após absorção de CO2) se dirijam para o fundo do mar." (daqui)
(tr. DO)

terça-feira, 8 de março de 2011

No dia internacional da mulher,

a notícia de uma nova técnica microscópica que permite analisar as células em acção, sem que a incidência prolongada da luz altere as suas propriedades.
Este novo instrumento recorre ao tipo de luz utilizada na leitura de códigos de barras nos supermercados e fá-la incidir lateralmente na amostra em estudo. (nos microscópios tradicionais incide perpendiculamente)
Betzig, um dos investigadores envolvidos: "um dos principais objectivos dos biólogos é perceber o que rege os processos moleculares intracelulares. Se se pretende compreender as regras de um jogo, é melhor ver um filme com pessoas a jogar do que olhar para as fotos do jogo."

Aqui fica o movimento dos cromossomas em preparação para a divisão celular (mitose):
Ler mais aqui.
(DO)

segunda-feira, 7 de março de 2011

"Luta é alegria." Como?

Satirizar é como espetar uma agulha num tecido podre.
Bem feita, a sátira desfaz parte do tecido, atraindo para ele vontade de análise.
Mal feita, é como espetar a agulha no dedo -- o sangue escorre e o tecido persiste, podre e intacto.

(DO)

O Nariz


"O coitado do Kovaliov por pouco não enlouqueceu. Não sabia o que pensar de acontecimento tão estranho. Realmente, como era possível a um nariz que ainda ontem fazia parte dele e não andava a pé nem de coche vestir uniforme?"

Gógol, N. (2002). O Nariz. (tr. Guerra, N. & Guerra, F.). Lisboa: Assírio e Alvim, p. 37.
(originalmente publicado em 1836)

Imagem retirada daqui.

domingo, 6 de março de 2011

sábado, 5 de março de 2011

Triste Germe



A ameba (Dictyostelium discoideum) tenta, em vão, ingerir um fungo mutante (Sacharomyces cerevisiae) demasiado longo.
(Ler mais aqui)
(DO)

"Activismo digital"



Neste curto vídeo, o interlocutor incentiva a sua audiência a manipular as classificações de filmes e livros em sítios de grande alcance como a Amazon e o Rotten Tomatoes . Objectivo: impedir o livre fluxo de 'ideias liberais' e inflacionar as 'conservadoras'.

"Literalmente, 80% dos livros com uma estrela não são lidos. (...) Assim se controla o diálogo online."

A propósito do uso destas estratégias pelo Tea Party, frequentemente assentes na instigação do medo (de perder direitos), o documentário da msnbc: Rise of the new right.


(DO)

Governo Sombra

Todas as sextas, via TSF, cerca de meia hora de política com humor.











Vale a pena ouvir.

sexta-feira, 4 de março de 2011

"
Perceber não é uma actividade para lentos,
é urgente.
Nascemos: e quase nos afogamos; e perceber é tentar
nadar até à margem seca.
Não existe margem seca, dirá o senhor Shankra,
mas que sabemos nós?
Somos humanos: estamos encostados a hábitos
que nos fazem sentir imortais. Enganamo-nos, portanto.
Estamos vivos, levantamos a cabeça: cortam-nos a cabeça.
Eis tudo.
"



Tavares, Gonçalo, M., Uma viagem à Índia, Caminho, 2010, p.355.

quarta-feira, 2 de março de 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

“Teodiceia – Onde estava Deus? Onde estava o homem?

O holocausto coloca, de forma nítida, sérias questões à credibilidade da religião e do humanismo. A teologia judaica ultra-ortodoxa justifica o holocausto como um acto de Deus, como um castigo por causa dos pecados cometidos pelo povo Judeu contra o seu Deus. FIica por explicar que as crianças tenham sido punidas pelos pecados dos seus pais – uma contradição nos ensinamentos do judaísmo – e que milhões de judeus devotos tenham sofrido pelas transgressões dos outros. Esta perspectiva, ainda que popular entre os ortodoxos radicais, é rejeitada pela maioria dos investigadores.
Outros (Rabbi Joseph D. Soloveichik) defendem que, na medida que em a intervenção de Deus na história não pode ser de forma alguma compreendida ou explicada em termos humanos, a questão não é o que Deus fez, ou não, ou porque o fez, mas sim saber se o homem obedece aos mandamentos divinos. Auschwitz é, deste ponto de vista, o resultado da traição do homem perante Deus.
Outro ponto de vista judeu (Rabi Eliezer Berkowitz) vê a contradição entre o livre-arbítrio e a constante presença de Deus como uma possível explicação para a retirada de Deus da sua própria criação (o “Esconder a Face”). Elie Wiesel sente-se dividido perante a impossibilidade da presença de Deus e a sua ausência de Auschwitz. Emil Fackenheim, numa série de análises penetrantes, aceita a presença de Deus na história, mas limita-a de acordo com a vontade divina. O surgimento de Israel no mundo do pós-holocausto é um sinal de esperança no retorno à presença de Deus, e a ordem resultante de Auschwitz é a preservarção do povo judeu. Richard Rubenstein vê o holocausto como uma ferramenta usada pelas forças do mal da sociedade para eliminar populações supérfluas num mundo frio e desprovido da presença Divina. Alexander Donat retira conclusões ateístas: Um Deus que permite - pela sua presença ou pela sua ausência - o assassinato de milhões de crianças inocentes é um Satanás e, por conseguinte, não pode existir.
A credibilidade do Cristianismo, na esteira do Holocausto, tem sido questionada, entre outros, por Franklin H. Littell e A. Roy Eckardt. Como pode o assassinato do povo escolhido (Messiah’s people), no meio da Cristandade e por apóstatas baptizados, ser justificado? Os mártires da Luta da Igreja contra o nazismo e os Justos Entre as Nações são apenas uma nota de rodapé ao Holocausto que, para alguns teólogos Cristãos é a principal crise teológica da presente geração. Do lado católico, John Pawlikowski, Rosemary Ruether entre outros, lutam com o problema da responsabilidade Cristã pelo Holocausto.
Littell, Eckardt, Pawlikowski e eu, temos sugerido a implementação um “sistema de alarme antecipado” que sirva para detectar, na democracia Ocidental, tendências anti-democráticas; sinais de racismo, de intolerância, de preconceito, sinais esses que conduzem ao genocídio. O Holocausto tornar-se-ia assim um sinal tremendo de aviso; um tema a invocar quando se quer evitar ser ou um perpetrador ou uma vítima. Tornou-se, entretanto, dolorosamente evidente que, de facto, não é necessário nenhum sinal de aviso prévio, uma vez que em todos os genocídios recentes, ou em acontecimentos similares, o aviso tem sido dado, bastante tempo antes de as tragédias acontecerem, pelos observadores, pelos mass media, pelos militares e pelos políticos. O que parece ser necessário não são avisos prévios - que têm existido - mas acção preventiva atempada e realizada por uma comunidade internacional ciente das suas responsabilidades.”

(Bauer, Yehuda, A History of the Holocaust (revised edition), Watts, 2001, pp.366-367. Tradução LFB)
Bauer é um dos maiores investigadores do tema e um bom retrato da sua longa vida pode ser lido aqui.

LOVE

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Churnalismo ou notícia?

Como 'costurar' notícias a partir de comunicados de imprensa.

.JPEG mental: como o cérebro comprime informação visual

Neste artigo, Connor e colaboradores* apresentam sucintamente a sua investigação sobre a forma como o nosso cérebro lida com informação visual.

Aqui fica uma tradução (quase) integral:

"A maioria das pessoas conhece a ideia de compressão de imagens por computador. As extensões como '.jpeg' ou .'png' significam que milhões de valores de pixeis foram comprimidos para um formato mais eficiente (...), sem perda aparente de qualidade de imagem. Se assim não fosse, o ficheiro ocuparia demasiado espaço e a sua circulação nas redes informáticas seria inviável.
O cérebro enfrenta um problema similar. As células da retina sensíveis à luz [cones e bastonetes] captam imagens na ordem do megapixel. Ora, o cérebro não tem capacidade de transmissão ou de memória para lidar com imagens dessa magnitude ao longo da vida. Assim, deverá seleccionar apenas a informação necessária à compreensão do mundo visual.
(...)
Os investigadores descobriram que as células da área V4, pertencentes ao córtice visual primário e implicadas numa fase intermédia do processamento de objectos, (...) são selectivamente activadas por contornos fortemente curvilíneos ou angulares e respondem muito menos a linhas direitas ou ligeiramente curvadas.
(...) curvas muito acentuadas são relativamente raras na natureza comparativamente às linhas direitas ou ligeiramente curvadas. Responder às características raras e não às comuns é automaticamente económico.
(...)
A psicologia experimental tem demonstrado que conseguimos reconhecer objectos cujas linhas direitas foram apagados. Todavia, eliminar ângulos e outras regiões muito curvadas dificulta o reconhecimento. (...)
São mecanismos cerebrais como o sistema de codificação descrito por Connor e col. que nos ajudam a explicar porque somos génios em termos visuais.
Os computadores podem ser melhores do que nós na matemática e no xadrez, mas não conseguem igualar a nossa capacidade de discriminar, reconhecer, compreender, memorizar e manipular os objectos que compõem o mundo. Esta capacidade humana fulcral assenta, em parte, na síntese da informação visual, preparando-a para tratamentos posteriores. Para já, o formato .brain parece ser o melhor algoritmo de compressão do mercado."


* investigadores do Zanvyl Jrieger Mind/Brain Institute, Johns Hopkins University
(imagem retirada daqui)
(DO)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

auto-retrato, Thomas Gainsborough



Por sugestão de Ernst Gombrich, "aspectos psicológicos das artes visuais", in, Estados de Espírito - diálogos com investigadores de Psicologia (dir. de J. Miller), Presença, 1989, p.230

Dan Buettner: como viver até aos 100 anos?

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Estado Novo e desvio

" 'Politicamente, tudo o que não se vê, não é.'

A afirmação é de Salazar, e podia aplicar-se à intencionalidade do modelo carcerário desenvolvido a partir dos anos 30 pelo Estado Novo para 'internar' o 'chulo' o homossexual, o vadio, a prostituta, a criança em 'risco moral', o louco ou doente mental, o mendigo, alguns dos tipos sociais mitificados pelo regime na figura socialmente inútil e ameaçadoramente subversiva do 'vadio' ou 'indigente'. Estes não têm de corresponder à realidade, são antes uma amálgama das marginalidades e condutas consideradas desviantes pela moral do regime, na verdade, na sua maioria, aquilo a que hoje chamaríamos, fenómenos de exclusão social.

Quem fosse considerado como integrante destas categorias e personalidades desadequadas à ordem social, arriscava a prisão por longos períodos, frequentemente indeterminados, com o fim professado de 'reeducação' através da disciplina e do trabalho, naturalmente um fim sem sucesso, como reconhecido pelos próprios responsáveis destas instituições face às elevadas taxas de 'reincidência'."

Vitorino, S. (2007). "Actos contra a natureza": a repressão social, cultural e policial da homossexualidade no Estado Novo. Disponível aqui.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Glenn Gould


"DEPOIS DE O SANGUE, DE PEDRO COSTA


ANA PAULA INÁCIO


era uma vez, como de todas as vezes,
os segredos
de encontro ao coração das árvores
lisos e de papel,
era uma vez,
o cancro algures
no corpo cansado
mais três crianças
uma de mãe, outra de pai
e o filho irremediavelmente perdido.
Este pai, este filho
e o corpo de tudo o resto.
plas mãos um fio de sangue.
começa-se.
Faça de mim o que quiser."

77

Glenn Gould

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Linguagem

Eu sei "x". Mas como sei se tu sabes que eu sei "x"? Segue-se a reposta de Steven Pinker a este e a outros imbróglios.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Novilíngua

"Oportunidades de Emprego Nacionais
**
Designação do Posto: Médicos do Mundo procura voluntários
**
País: Portugal "

No dia de São Valentim,

chega-nos a imagem de um anel, não de diamantes, mas de buracos negros, a cerca de 430 milhões de anos luz da Terra.

(Ler mais aqui.)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Os filósofos e o nazismo (3)

"O limite moral dos nazis

(…) Havia também uma versão altamente distorcida da filosofia moral de Kant. Eichmann, durante o interrogatório, afirmou acreditar no “cumprimento do dever”: “ é, de facto, a minha norma. Tomei o imperativo kantiano como a minha norma, e fi-lo há muito tempo atrás. Orientei a minha vida por aquele imperativo, e continuei a fazê-lo nos sermões que dava aos meus filhos quando percebia que eles se estavam a desencaminhar.”…
Kant, que acreditava que as pessoas devem ser tratadas como fins em si mesmas e não como meios, teria ficado chocado com este kantiano. Todavia, há um lado da filosofia moral kantiana ao qual os nazis podiam reclamar uma certa adesão: refiro-me à ênfase colocada na obediência incondicional às regras. De acordo com Kant, as regras morais seriam geradas de forma puramente racional, de uma forma que é independente do seu impacto nas pessoas. E devem ser obedecidas por puro dever, em vez de por simpatia com as pessoas. Agir motivado por um sentimento de simpatia é, para Kant, agir por inclinação em vez de por dever, e por isso agir assim não tem valor moral. Os Nazis produziram uma variante sinistra desta moral austera e fechada sobre si.”
(Glover, J., Humanity - A moral history of the twentieth century, Yale U. P. 2001, p.357, tr. LFB)

Salazarismo, Educação Cívica e Mendicidade

"Também para as elites salazaristas, a colaboração diminuta (...) da população para com os serviços de repressão da mendicidade e da vadiagem -- uma componente importante da obra de regeneração nacional -- se prendia com a falta de educação cívica do povo português:

'A Revolução Nacional foi feita para um povo sem educação cívica. Vinda do alto, num movimento consciente de fôrça armada, afirmada nas realizações brilhantíssimas da obra governamental, carece de adaptar-se ao corpo social a que diz respeito. (...) A arte de adaptação de uma obra genial em desproporção com o corpo a que se destina é uma arte política.'"
(excerto de entrevista ao Ministro do Interior publicada no Diário de Notícias de 1 de Setembro de 1945)

in Bastos, S.P. (1997). O Estado Novo e os seus vadios: contribuição para o estudo das identidades marginais e da sua repressão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 98.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A informação (não?) conhece limites

Deslumbrante a quantidade de informação que a tecnologia nos permite alojar e manipular. A altíssima velocidade!


"Se cada estrela for um bit de informação, temos uma galáxia de informação por pessoa. Isto equivale a 315 vezes o total de grãos de areia à face da Terra. Ainda assim, representa menos de 1% da informação contida em todas as moléculas de ADN de um único ser humano."

"Entre 1986 e 2007 (...) a capacidade de computação a nível mundial aumentou 58% ao ano, a uma velocidade 10 vezes superior ao crescimento do PIB norte-americano."

"Estes números, apesar de impressionantes, são ínfimos face à ordem de grandeza com que a Natureza manipula informação.(...) Quando comparados com ela, não passamos de simples aprendizes. No entanto, a dimensão do mundo natural permanece constante, ao passo que a capacidade tecnológica de processamento de informação está a aumentar exponencialmente."

(Ler mais aqui; Tr. e adapt. DO)

"Deixem as Bibliotecas em paz. Vocês não compreendem o seu valor."

(ainda, porque não é o voluntariado solução para assegurar o seu funcionamento e o impacto destrutivo da 'lógica de mercado' nas actividades criativas)
(DO)


O artigo é mesmo muito bom. Mais cedo ou mais tarde esse tipo de argumentação - fechar bibliotecas por razões economicistas - vai chegar às bibliotecas portuguesas e açorianas. E se ainda não chegou é porque muitas das bibliotecas terão perdido quase todo o seu poder e a sua vontade de surpreender e de ajudar a despertar as mentes para novas formas de ver o mundo. Ao ler o artigo revi-me no encontro com as prateleiras de livros e com as bibliotecas itinerantes, há muito extintas, da F.C.G.. A actual ministra da cultura, Gabriela Canavilhas, aquando da sua breve passagem pela secretaria da cultura dos Açores, ainda atirou para os jornais (feliz forma de propaganda) a ideia de que ia recriar as bibliotecas itinerantes. Mas isso depressa caiu no esquecimento.
(LFB)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Aharon Appelfeld

"...Ele levantou a sua mão para se despedir. Não tivesse sido esse gesto, e eu duvido que o tivesse morto. Mas esse gesto, mais do qualquer outra coisa que ele tenha dito, recordou-me a camaradagem de Nachtigel para com os seus jovens subordinados no campo, e o cuidado paternal com que ele os banhava. Tratava-os com se fosse um pai e, em pouco tempo, tornava-os tão cruéis quanto ele próprio. Andando, o velho afastava-se. Abri a mala, tirei a pistola e apontei directamente para as suas costas. O primeiro tiro atingiu-o mas ele não colapsou. O segundo tiro atirou-o ao chão e ele caiu de braços estendidos. Embrulhei de novo a pistola e voltei a colocá-la na mala. Rapidamente saí dali para fora."
Appelfeld, Aharon, The Iron Tracks, Schockem Books, 1998 (tr. J.M.G.), p 179.

A história contada neste livro é a de um sobrevivente dos campos de concentração que deambula de comboio pela Áustria do pós-guerra em busca do nazi que assassinou os seus pais, um tal de Nachtigel.
O autor do livro vive em Israel e é ele próprio um sobrevivente dos campos de concentração. A sua escrita, a julgar pelas traduções inglesas (em português que se saiba não há nada traduzido), é escorreita, límpida e de uma simplicidade deslumbrante.

Para além de ter escrito muitos livros de ficção, é também autor de um magnífico livro autobiográfico intitulado A table for One - Under the Light of Jerusalem, escrito originalmente em inglês. Appelfeld conta aqui como muitos dos seus livros foram criados nos cafés entretanto desaparecidos, ou transformados, de Jerusalém.

Sobre os cafés como lugar de escrita:

"O que é que um café tem que o torna um lugar tão especial para uma pessoa se concentrar? Talvez aqui tenha que ser dito que hoje em dia a maioria dos cafés não são cafés, antes grandes espaços atafulhados de pessoas e invadidos por música violenta. Não espere encontrar aí tranquilidade alguma, ou algo misterioso, ou aquela conexão dissimulada com as pessoas que nos rodeiam. Tornaram-se apenas num ponto de encontro, de transacção, um lugar onde impacientemente se espera. Este tipo de cafés não é convidativo, nem foram concebidos para uma pessoa se sentar prolongadamente. Gostaríamos de sair dali o mais depressa possível. Os cafés verdadeiros são convidativos, tentam-nos com café fresco e um bolo acabado de sair do forno; oferecem-nos a oportunidade de passar uma ou duas preciosas horas connosco próprios"
Apellfeld, A table for One, Toby Press, 2007, p. 8.

(LFB)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

"A ideia de detenção num espaço fechado como forma humana de acção punitiva e correctiva parece ter surgido nos séculos treze e catorze - numa altura em que o espaço pictórico e perspectivado estava a surgir no mundo Ocidental. A ideia de encarceramento, como forma de restrição e como meio de classificação, não funciona tão bem no nosso mundo electrónico. O novo sentimento que as pessoas têm sobre a culpa não é algo que possa ser atribuído de forma privada a um indivíduo, mas é, pelo contrário, algo partilhado, de forma misteriosa, por todos. Este sentimento parece estar a surgir no nosso meio. Nas sociedades tribais, quando algo hediondo acontece, dizem-nos que é uma reacção normal que algumas pessoas, em vez de culparem alguém por ter feito algo terrível, digam: "Que horrível que deve ser sentir-se assim". Este sentimento é um aspecto da nova cultura de massas em direcção à qual estamos a caminhar - um mundo de total envolvimento no qual toda a gente está profundamente envolvida com toda a gente e onde ninguém consegue já imaginar de facto o que pode ser a culpa privada."


Marshall Mc Luhan & Quentin fiore, The Medium is the Massage - An Inventory of Effects, (1ª edição 1967), Gingko Pres, 2001, p, 61. (Tr. LFB)

[O livro é uma colagem de imagem (a mão e a grade são a página 60 ) e texto (é toda a página 61) - quase como uma BD - que,
por toda a sua capacidade de invenção e de antecipação de ideias, nos dá que pensar e que vale a pena ver nem que seja porque nos dizem que vendeu mais de uma milhão de cópias em todo o mundo!]

Crise nos anos 30

"A crise tudo explica e tudo justifica. Vende-se caro por causa da crise e vende-se barato por causa da crise. Pede-se esmola por via da crise e nega-se esmola por via da crise. Aumentam as rendas das casas devido à crise. Por causa da crise não se come, por via da crise não se bebe."
(Crónica do Diário de Notícias de Janeiro de 1933)

"Há uma palavra que se ajusta maravilhosamente à situação da quase totalidade das populações: Miséria. Só a boa índole, a mansidão e, diga-se a verdade, a profunda religião desta gente, torna possível que grandes proprietários, milionários, que gastam centenas de contos em automóveis e extravagâncias paguem 3$50 ou 4$00 por dia a um chefe de família. É absolutamente revoltante. E chegam a ter o desplante de se queixarem à polícia ou ao administrador do concelho quando um desgraçado rouba das suas imensas propriedades um molho de lenha!(...) Seguramente que três quartas partes da população vivem como ou pior que bichos. Trabalham de sol a sol (quando conseguem trabalhar) e vivem miseravelmente."
(Relatório do Governador Civil de Castelo Branco referente ao mês de Abril de 1935)


in Bastos, S.P. (1997). O Estado Novo e os seus vadios: contribuição para o estudo das identidades marginais e da sua repressão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp.71-2.

Quotidiano

ao microscópio.