Mais uma vez, as dicotomias não servem a realidade.
(DO)
O holocausto coloca, de forma nítida, sérias questões à credibilidade da religião e do humanismo. A teologia judaica ultra-ortodoxa justifica o holocausto como um acto de Deus, como um castigo por causa dos pecados cometidos pelo povo Judeu contra o seu Deus. FIica por explicar que as crianças tenham sido punidas pelos pecados dos seus pais – uma contradição nos ensinamentos do judaísmo – e que milhões de judeus devotos tenham sofrido pelas transgressões dos outros. Esta perspectiva, ainda que popular entre os ortodoxos radicais, é rejeitada pela maioria dos investigadores.
Neste artigo, Connor e colaboradores* apresentam sucintamente a sua investigação sobre a forma como o nosso cérebro lida com informação visual." 'Politicamente, tudo o que não se vê, não é.'
A afirmação é de Salazar, e podia aplicar-se à intencionalidade do modelo carcerário desenvolvido a partir dos anos 30 pelo Estado Novo para 'internar' o 'chulo' o homossexual, o vadio, a prostituta, a criança em 'risco moral', o louco ou doente mental, o mendigo, alguns dos tipos sociais mitificados pelo regime na figura socialmente inútil e ameaçadoramente subversiva do 'vadio' ou 'indigente'. Estes não têm de corresponder à realidade, são antes uma amálgama das marginalidades e condutas consideradas desviantes pela moral do regime, na verdade, na sua maioria, aquilo a que hoje chamaríamos, fenómenos de exclusão social.
Quem fosse considerado como integrante destas categorias e personalidades desadequadas à ordem social, arriscava a prisão por longos períodos, frequentemente indeterminados, com o fim professado de 'reeducação' através da disciplina e do trabalho, naturalmente um fim sem sucesso, como reconhecido pelos próprios responsáveis destas instituições face às elevadas taxas de 'reincidência'."
Vitorino, S. (2007). "Actos contra a natureza": a repressão social, cultural e policial da homossexualidade no Estado Novo. Disponível aqui.

(Ler mais aqui.)"O limite moral dos nazis
(…) Havia também uma versão altamente distorcida da filosofia moral de Kant. Eichmann, durante o interrogatório, afirmou acreditar no “cumprimento do dever”: “ é, de facto, a minha norma. Tomei o imperativo kantiano como a minha norma, e fi-lo há muito tempo atrás. Orientei a minha vida por aquele imperativo, e continuei a fazê-lo nos sermões que dava aos meus filhos quando percebia que eles se estavam a desencaminhar.”…
Kant, que acreditava que as pessoas devem ser tratadas como fins em si mesmas e não como meios, teria ficado chocado com este kantiano. Todavia, há um lado da filosofia moral kantiana ao qual os nazis podiam reclamar uma certa adesão: refiro-me à ênfase colocada na obediência incondicional às regras. De acordo com Kant, as regras morais seriam geradas de forma puramente racional, de uma forma que é independente do seu impacto nas pessoas. E devem ser obedecidas por puro dever, em vez de por simpatia com as pessoas. Agir motivado por um sentimento de simpatia é, para Kant, agir por inclinação em vez de por dever, e por isso agir assim não tem valor moral. Os Nazis produziram uma variante sinistra desta moral austera e fechada sobre si.”
os seus jovens subordinados no campo, e o cuidado paternal com que ele os banhava. Tratava-os com se fosse um pai e, em pouco tempo, tornava-os tão cruéis quanto ele próprio. Andando, o velho afastava-se. Abri a mala, tirei a pistola e apontei directamente para as suas costas. O primeiro tiro atingiu-o mas ele não colapsou. O segundo tiro atirou-o ao chão e ele caiu de braços estendidos. Embrulhei de novo a pistola e voltei a colocá-la na mala. Rapidamente saí dali para fora."
autobiográfico intitulado A table for One - Under the Light of Jerusalem, escrito originalmente em inglês. Appelfeld conta aqui como muitos dos seus livros foram criados nos cafés entretanto desaparecidos, ou transformados, de Jerusalém.
"A ideia de detenção num espaço fechado como forma humana de acção punitiva e correctiva parece ter surgido nos séculos treze e catorze - numa altura em que o espaço pictórico e perspectivado estava a surgir no mundo Ocidental. A ideia de encarceramento, como forma de restrição e como meio de classificação, não funciona tão bem no nosso mundo electrónico. O novo sentimento que as pessoas têm sobre a culpa não é algo que possa ser atribuído de forma privada a um indivíduo, mas é, pelo contrário, algo partilhado, de forma misteriosa, por todos. Este sentimento parece estar a surgir no nosso meio. Nas sociedades tribais, quando algo hediondo acontece, dizem-nos que é uma reacção normal que algumas pessoas, em vez de culparem alguém por ter feito algo terrível, digam: "Que horrível que deve ser sentir-se assim". Este sentimento é um aspecto da nova cultura de massas em direcção à qual estamos a caminhar - um mundo de total envolvimento no qual toda a gente está profundamente envolvida com toda a gente e onde ninguém consegue já imaginar de facto o que pode ser a culpa privada."
"A ascensão dos privilegiados, não só nos Lager mas em todas as convivências humanas, é um fenómeno angustiante mas infalível: é só nas utopias que eles estão ausentes. É dever do homem justo fazer guerra a todos os privilégios não merecidos, mas não se pode esquecer que esta é uma guerra sem fim. Onde existir um poder exercido por poucos, ou por um só, contra os muitos, o privilégio nasce e prolifera, mesmo até contra a vontade do próprio poder; mas é normal que o poder, pelo contrário, o tolere e encoraje. Limitemo-nos ao Lager, que contudo (mesmo na sua versão soviética) pode bem servir de «laboratório»: a classe híbrida dos prisioneiros-funcionários constitui a sua ossatura, e ao mesmo tempo o delineamento mais inquietante. É uma zona cinzenta, de contornos mal definidos, que ao mesmo tempo separa e associa os dois campos dos senhores e dos servos. Possui uma estrutura incrivelmente complicada, e aloja dentro de si o suficiente para confundir a nossa necessidade de julgar."
- Como disse? Mais uma? Mas não estão já os horários do secundário sobrecarregados? Como é que vai ser? Será que vão retirar alguma das disciplinas? E formação cívica porquê? Que estudo, ou que génio das ciências da educação (estará a cair em desuso, esta fraca espécie de pleonasmo?) indica que, por exemplo, em vez de se criar disciplinas artísticas nas escolas (dança!), se tenha que criar uma disciplina que vai leccionar a 'cidadania a sexualidade e saúde'. Como disse?