domingo, 13 de fevereiro de 2011

Salazarismo, Educação Cívica e Mendicidade

"Também para as elites salazaristas, a colaboração diminuta (...) da população para com os serviços de repressão da mendicidade e da vadiagem -- uma componente importante da obra de regeneração nacional -- se prendia com a falta de educação cívica do povo português:

'A Revolução Nacional foi feita para um povo sem educação cívica. Vinda do alto, num movimento consciente de fôrça armada, afirmada nas realizações brilhantíssimas da obra governamental, carece de adaptar-se ao corpo social a que diz respeito. (...) A arte de adaptação de uma obra genial em desproporção com o corpo a que se destina é uma arte política.'"
(excerto de entrevista ao Ministro do Interior publicada no Diário de Notícias de 1 de Setembro de 1945)

in Bastos, S.P. (1997). O Estado Novo e os seus vadios: contribuição para o estudo das identidades marginais e da sua repressão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 98.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A informação (não?) conhece limites

Deslumbrante a quantidade de informação que a tecnologia nos permite alojar e manipular. A altíssima velocidade!


"Se cada estrela for um bit de informação, temos uma galáxia de informação por pessoa. Isto equivale a 315 vezes o total de grãos de areia à face da Terra. Ainda assim, representa menos de 1% da informação contida em todas as moléculas de ADN de um único ser humano."

"Entre 1986 e 2007 (...) a capacidade de computação a nível mundial aumentou 58% ao ano, a uma velocidade 10 vezes superior ao crescimento do PIB norte-americano."

"Estes números, apesar de impressionantes, são ínfimos face à ordem de grandeza com que a Natureza manipula informação.(...) Quando comparados com ela, não passamos de simples aprendizes. No entanto, a dimensão do mundo natural permanece constante, ao passo que a capacidade tecnológica de processamento de informação está a aumentar exponencialmente."

(Ler mais aqui; Tr. e adapt. DO)

"Deixem as Bibliotecas em paz. Vocês não compreendem o seu valor."

(ainda, porque não é o voluntariado solução para assegurar o seu funcionamento e o impacto destrutivo da 'lógica de mercado' nas actividades criativas)
(DO)


O artigo é mesmo muito bom. Mais cedo ou mais tarde esse tipo de argumentação - fechar bibliotecas por razões economicistas - vai chegar às bibliotecas portuguesas e açorianas. E se ainda não chegou é porque muitas das bibliotecas terão perdido quase todo o seu poder e a sua vontade de surpreender e de ajudar a despertar as mentes para novas formas de ver o mundo. Ao ler o artigo revi-me no encontro com as prateleiras de livros e com as bibliotecas itinerantes, há muito extintas, da F.C.G.. A actual ministra da cultura, Gabriela Canavilhas, aquando da sua breve passagem pela secretaria da cultura dos Açores, ainda atirou para os jornais (feliz forma de propaganda) a ideia de que ia recriar as bibliotecas itinerantes. Mas isso depressa caiu no esquecimento.
(LFB)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Aharon Appelfeld

"...Ele levantou a sua mão para se despedir. Não tivesse sido esse gesto, e eu duvido que o tivesse morto. Mas esse gesto, mais do qualquer outra coisa que ele tenha dito, recordou-me a camaradagem de Nachtigel para com os seus jovens subordinados no campo, e o cuidado paternal com que ele os banhava. Tratava-os com se fosse um pai e, em pouco tempo, tornava-os tão cruéis quanto ele próprio. Andando, o velho afastava-se. Abri a mala, tirei a pistola e apontei directamente para as suas costas. O primeiro tiro atingiu-o mas ele não colapsou. O segundo tiro atirou-o ao chão e ele caiu de braços estendidos. Embrulhei de novo a pistola e voltei a colocá-la na mala. Rapidamente saí dali para fora."
Appelfeld, Aharon, The Iron Tracks, Schockem Books, 1998 (tr. J.M.G.), p 179.

A história contada neste livro é a de um sobrevivente dos campos de concentração que deambula de comboio pela Áustria do pós-guerra em busca do nazi que assassinou os seus pais, um tal de Nachtigel.
O autor do livro vive em Israel e é ele próprio um sobrevivente dos campos de concentração. A sua escrita, a julgar pelas traduções inglesas (em português que se saiba não há nada traduzido), é escorreita, límpida e de uma simplicidade deslumbrante.

Para além de ter escrito muitos livros de ficção, é também autor de um magnífico livro autobiográfico intitulado A table for One - Under the Light of Jerusalem, escrito originalmente em inglês. Appelfeld conta aqui como muitos dos seus livros foram criados nos cafés entretanto desaparecidos, ou transformados, de Jerusalém.

Sobre os cafés como lugar de escrita:

"O que é que um café tem que o torna um lugar tão especial para uma pessoa se concentrar? Talvez aqui tenha que ser dito que hoje em dia a maioria dos cafés não são cafés, antes grandes espaços atafulhados de pessoas e invadidos por música violenta. Não espere encontrar aí tranquilidade alguma, ou algo misterioso, ou aquela conexão dissimulada com as pessoas que nos rodeiam. Tornaram-se apenas num ponto de encontro, de transacção, um lugar onde impacientemente se espera. Este tipo de cafés não é convidativo, nem foram concebidos para uma pessoa se sentar prolongadamente. Gostaríamos de sair dali o mais depressa possível. Os cafés verdadeiros são convidativos, tentam-nos com café fresco e um bolo acabado de sair do forno; oferecem-nos a oportunidade de passar uma ou duas preciosas horas connosco próprios"
Apellfeld, A table for One, Toby Press, 2007, p. 8.

(LFB)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

"A ideia de detenção num espaço fechado como forma humana de acção punitiva e correctiva parece ter surgido nos séculos treze e catorze - numa altura em que o espaço pictórico e perspectivado estava a surgir no mundo Ocidental. A ideia de encarceramento, como forma de restrição e como meio de classificação, não funciona tão bem no nosso mundo electrónico. O novo sentimento que as pessoas têm sobre a culpa não é algo que possa ser atribuído de forma privada a um indivíduo, mas é, pelo contrário, algo partilhado, de forma misteriosa, por todos. Este sentimento parece estar a surgir no nosso meio. Nas sociedades tribais, quando algo hediondo acontece, dizem-nos que é uma reacção normal que algumas pessoas, em vez de culparem alguém por ter feito algo terrível, digam: "Que horrível que deve ser sentir-se assim". Este sentimento é um aspecto da nova cultura de massas em direcção à qual estamos a caminhar - um mundo de total envolvimento no qual toda a gente está profundamente envolvida com toda a gente e onde ninguém consegue já imaginar de facto o que pode ser a culpa privada."


Marshall Mc Luhan & Quentin fiore, The Medium is the Massage - An Inventory of Effects, (1ª edição 1967), Gingko Pres, 2001, p, 61. (Tr. LFB)

[O livro é uma colagem de imagem (a mão e a grade são a página 60 ) e texto (é toda a página 61) - quase como uma BD - que,
por toda a sua capacidade de invenção e de antecipação de ideias, nos dá que pensar e que vale a pena ver nem que seja porque nos dizem que vendeu mais de uma milhão de cópias em todo o mundo!]

Crise nos anos 30

"A crise tudo explica e tudo justifica. Vende-se caro por causa da crise e vende-se barato por causa da crise. Pede-se esmola por via da crise e nega-se esmola por via da crise. Aumentam as rendas das casas devido à crise. Por causa da crise não se come, por via da crise não se bebe."
(Crónica do Diário de Notícias de Janeiro de 1933)

"Há uma palavra que se ajusta maravilhosamente à situação da quase totalidade das populações: Miséria. Só a boa índole, a mansidão e, diga-se a verdade, a profunda religião desta gente, torna possível que grandes proprietários, milionários, que gastam centenas de contos em automóveis e extravagâncias paguem 3$50 ou 4$00 por dia a um chefe de família. É absolutamente revoltante. E chegam a ter o desplante de se queixarem à polícia ou ao administrador do concelho quando um desgraçado rouba das suas imensas propriedades um molho de lenha!(...) Seguramente que três quartas partes da população vivem como ou pior que bichos. Trabalham de sol a sol (quando conseguem trabalhar) e vivem miseravelmente."
(Relatório do Governador Civil de Castelo Branco referente ao mês de Abril de 1935)


in Bastos, S.P. (1997). O Estado Novo e os seus vadios: contribuição para o estudo das identidades marginais e da sua repressão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp.71-2.

Quotidiano

ao microscópio.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ah, criatividade e tecnologia pela Liberdade!

Perante as enormes dificuldades de acesso à Internet impostas pelo governo egípcio, eis uma solução criativa -- as vozes revoltosas continuarão a ecoar pelo mundo.
(DO)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011


Há alturas em que é difícil resistir à visão de que certos assuntos [políticos] estão fora do alcance e compreensão das pessoas comuns. Todavia, temos visto precisamente pessoas comuns a desmantelarem, corajosamente, regimes aparentemente intocáveis.

Tansey, S. (2004). Politics: the basics (3rd ed.). London: Routledge, pp.1-2. (tr. e adapt. DO)

Obama e política das drogas


Estaremos perante o início do fim do paradigma proibicionista/repressivo?
(DO)

Corpo quente, Mente quente, Mundo quente

De acordo com este artigo, quando temos mais calor (por estarmos ao sol ou num quarto sobreaquecido) acreditamos mais no aquecimento global.
(DO)

A arte de bem adiantar, por Mariano Gago

Acabo de ouvir Mariano Gago, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, dizer que não há atrasos na atribuição das bolsas de estudo e que o processo está mais adiantado que no ano passado. Pela primeira vez, todos os estudantes começaram a receber bolsa desde o início do ano lectivo.
Meia verdade.
De acordo com o artigo 14º do actual regulamento de atribuição de bolsas, "o valor da bolsa de estudo anual deve ser comunicado ao estudante num prazo máximo de 60 dias úteis após o início do ano lectivo". Durante o período de espera, o estudante deverá receber bolsa de igual valor à atribuída no ano anterior.
Ora, aos estudantes da Universidade do Porto não foi comunicado até à data qualquer resultado. O ano lectivo teve início a 13 de Setembro de 2010. Entretanto, a todos (dos mais aos menos carenciados) foi atribuído provisoriamente um adiantamento de bolsa no valor de 98, 70 euros/mês (o valor da bolsa mínima, cujo total anual cobre exactamente as propinas).
Imagine-se a situação do bolseiro verdadeiramente carenciado, que sempre recebeu o valor máximo (não sei precisar, mas corresponderá a mais do triplo do valor acima referido). Como terá sobrevivido durante 5 meses a receber o mínimo, sem data prevista para a publicação dos resultados e sabendo que a fórmula de cálculo mudou, pelo que haverá cortes (consequência da crise/"políticas de austeridade")?

Os Serviços de Acção Social da Universidade do Porto, no seguimento do trabalho reconhecidamente competente e aplaudido pelos estudantes, apresentam, ainda, na sua página o regulamento anteriormente em vigor (Março de 2007).

Que quererá isto dizer acerca do adiantamento do processo?
E o que pensar da insultuosa "meia verdade" do Ministro?

(DO)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vida e/ou Morte

"Dissociada da vida, a morte transforma-se em fantasma, em monstro ou em algo pior. Vista como força espiritual autónoma, a morte é extremamente devassa, podendo o seu magnetismo malévolo conduzir à mais abominável alienação do espírito humano."

Mann, T. (2009). A Montanha Mágica. (tr. G.L. Encarnação). Lisboa: Dom Quixote, pp. 229-30.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A zona cinzenta

"A ascensão dos privilegiados, não só nos Lager mas em todas as convivências humanas, é um fenómeno angustiante mas infalível: é só nas utopias que eles estão ausentes. É dever do homem justo fazer guerra a todos os privilégios não merecidos, mas não se pode esquecer que esta é uma guerra sem fim. Onde existir um poder exercido por poucos, ou por um só, contra os muitos, o privilégio nasce e prolifera, mesmo até contra a vontade do próprio poder; mas é normal que o poder, pelo contrário, o tolere e encoraje. Limitemo-nos ao Lager, que contudo (mesmo na sua versão soviética) pode bem servir de «laboratório»: a classe híbrida dos prisioneiros-funcionários constitui a sua ossatura, e ao mesmo tempo o delineamento mais inquietante. É uma zona cinzenta, de contornos mal definidos, que ao mesmo tempo separa e associa os dois campos dos senhores e dos servos. Possui uma estrutura incrivelmente complicada, e aloja dentro de si o suficiente para confundir a nossa necessidade de julgar."

Levi, Primo, Os que Sucumbem e os que se salvam, Teorema, 2008, p.39.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Uma Ambulância, Por Favor

112.
Tenho aqui uma senhora deitada na rua com dores muito fortes na zona do estômago. Queria uma ambulância, por favor!

Que idade tem? Como se chama? Poderia falar com ela?
Tem entre 30 e 40 anos, chama-se D.M., está consciente mas não está em condições de falar ao telefone.

A dor é recente ou já tem história?
Tem tido dores, mas hoje está muito pior, completamente prostrada. Não consegue levantar-se e chora.

Não desligue. Vou transferir a chamada.

[As mesmas perguntas e ainda:]
Onde se encontra?
Bairro do Aleixo*, junto à torre 1, Rua de Arnaldo Leite.

Não desligue, vou transferir a chamada.
[Repetem-se as perguntas.]

Por favor! Ela está muito mal, a dor é lacerante, precisa mesmo de ir ao hospital!

Onde se encontra?
Bairro do Aleixo. junto à torre 1, Rua de Arnaldo Leite.

(SILÊNCIO...)

Estou? Ainda está aí?

Sim... Mas olhe que vai ter de pagar 30 euros...
Mas estamos a falar de uma sem-abrigo! Diga-me lá, que alternativa há?!

Não sei, só se falar com a polícia ou ligar para o 112.

[Fim de chamada. Cerca de 10 minutos.]

(*Aleixo, tido como um dos bairro mais problemáticos e perigosos do Porto, comummente catalogado como "hipermercado da droga" e/ou "zona de exclusão" ).

(D.O.)


sábado, 8 de janeiro de 2011

Área de Projecto

O conselho de ministros, reunido a 6 de Janeiro de 2011, aprovou a extinção da disciplina de Área de Projecto do 12º ano. A extinção acontece do mesmo modo que o seu surgimento. Sem nenhum razão, sem nenhum estudo justificativo. Surgiu do nada e ao nada volta. Foi uma vantagem para os alunos que a frequentaram? Serviu-lhes de alguma coisa? Foi perca de tempo para os professores que se empenharam em dar-lhe algum sentido? Há alguma conclusão a retirar dos seus seis anos de existência? Silêncio absoluto. A educação em Portugal é como um laboratório experimental sem qualquer método ou orientação científica. Hoje faz-se esta experiência, amanhã muda-se para outra, seguindo alguma obscura moda ou crise, e depois de amanhã logo se verá. A próxima experiência já está em curso, pela mão do mesmo conselho de ministros. A criação da disciplina de Formação cívica a partir do 10º Ano.

- Como disse? Mais uma? Mas não estão já os horários do secundário sobrecarregados? Como é que vai ser? Será que vão retirar alguma das disciplinas? E formação cívica porquê? Que estudo, ou que génio das ciências da educação (estará a cair em desuso, esta fraca espécie de pleonasmo?) indica que, por exemplo, em vez de se criar disciplinas artísticas nas escolas (dança!), se tenha que criar uma disciplina que vai leccionar a 'cidadania a sexualidade e saúde'. Como disse?



(LFB)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Categorização e seus perigos

"Devíamos, com mais frequência, interrogar-nos sobre o nosso gosto pelas categorizações: simplificam a realidade e, se nos contentarmos com elas, ocultarão mecanismos de fundo que colocam certos grupos sociais em situação de vulnerabilidade. Além disso, arriscam-se a ocultar o que há de comum em indivíduos que repartimos em categorias muito diferentes, arriscando-se igualmente a apagar no interior de cada categoria as trajectórias pessoais no que têm de irredutível e único. Por último, ocultam ainda o trabalho simbólico que está sempre presente no acto de categorizar. A categorização não é simplesmente um processo cognitivo de arrumação do real heterogéneo. Envolve em simultâneo um trabalho simbólico que diz respeito à definição de topologias, hierarquias e dominações no interior do sistema social, jogo em que os actores estão permanentemente envolvidos e que os cientistas sociais reificam quando categorizam sem problematizar. "


Fernandes, L. & Pinto, M. (2008). Juventude urbana pobre e cidade predatória: o guna como figura de ameaça. Cunha, M. (org.) Aquém e além da prisão: cruzamentos e perspectivas. 90 Graus Editora, p. 218. (sublinhados de DO)

AIN'T NO GRAVE (Can Hold My Body Down)













Praia da Vitória, Dezembro de 2010. (Foto por DO, via telemóvel)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

sábado, 25 de dezembro de 2010

NATAL



"A árvore-de-Natal é a mais espalhada de todas as instituições festivas e, para as crianças, a mais encantadora. O seu charme pitoresco e alegre fez com que rapidamente se espalhasse por toda a Europa sem ter raízes na tradição nacional, pois, como a maioria das pessoas sabe, é uma criação Alemã, e mesmo na Alemanha só no século dezanove atingiu a imensa popularidade que presentemente goza. (...)" (262-4)

"Muitas das crenças relacionadas com a Véspera de Natal (Christmas Eve) aparecem misturadas com formas de paganismo.
Há a ideia de que à meia-noite da Véspera de Natal os animais têm o poder de falar. Esta superstição existe em várias partes da Europa, e ninguém pode, inpunemente, ouvir as bestas falar. A ideia deu azo a alguns curiosos e tristes contos. Aqui fica um da Grã- Bretanha:
« Era uma vez uma mulher que deixava esfomeados o seu cão e o seu gato. À meia-noite da Véspera de Natal, ela ouviu o cão dizer ao gato: 'está na altura de perdermos a nossa dona; ela é uma avarenta das boas. Esta noite assaltantes virão para lhe levar todo o dinheiro e se ela chorar eles partirão a sua cabeça'. 'E será bem feito' - replicou o gato. A mulher aterrorizada levantou-se com a intenção de fugir para uma casa vizinha, enquanto saía de casa os assaltantes abriram a porta e quando ela gritou por ajuda eles partiram a sua cabeça.»" (233)

Miles, Clement A., Christmas Customs and Traditions, Dover Pub., 1976 (tr. LFB).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"
A verdadeira democracia é um compartimento
que está ocupado
- e o homem terá de esperar.
A vingança poderá ser exercida como um qualquer direito
de cidadania, desde que dentro dos prazos
estabelecidos. (...)"

Tavares, Gonçalo, M., Uma viagem à Índia, Caminho, 2010, p.79

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Todas as pessoas vão morrer?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Para que um indivíduo se disponha a realizar uma tarefa de peso, para lá dos limites do absolutamente necessário, sem que a sua época forneça uma resposta satisfatória à questão da finalidade, é fundamental viver em solidão e independência morais -- o que comporta algo de heróico e raramente sucede (...)."

Mann, T. (2009). A Montanha Mágica. (tr. G.L. Encarnação). Lisboa: Dom Quixote, p. 45.

domingo, 7 de novembro de 2010

Que dívida?

É triste, toda a gente o sabe, mas existe. E já que é assim, vendamo-lhes a dívida pública.
(DO)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A justificação da Eutanásia


"Eutanásia é simplesmente implementar uma decisão no sentido de terminar a vida de um indivíduo antes de isso ser necessário – uma decisão para terminar uma vida quando ela podia continuar.
Eutanásia voluntária ocorre quando essa decisão coincide com os desejos do próprio indivíduo e ele aprova essa decisão e todos os aspectos da sua implementação.
Eutanásia involuntária ocorre quando tal decisão é implementada contra os desejos expressos do indivíduo.
Eutanásia não-voluntária ocorre sempre que tal decisão é feita sem o consentimento do indivíduo seja qual for a razão para a ausência desse consentimento. (…)
A eutanásia involuntária será sempre errada. A eutanásia não-voluntária, por outro lado, será errada a não ser que pareça certo que o indivíduo em causa prefira morrer em vez de continuar a viver sob as presentes circunstâncias e seja impossível saber se o indivíduo em causa partilha esta visão. Estes são casos raros e extremos. Há duas circunstâncias nas quais poderá ser razoável decidir que um indivíduo preferiria a morte às actuais circunstâncias de vida. Uma é a de bebés severamente deficientes que enfrentam uma vida curta e dolorosa e cuja deficiência é irremediável (por ex. casos de espinha bífida aguda). A outra circunstância poderá ser a de alguém que está a ser torturado mortalmente e nós não a podemos salvar – tudo o que podemos fazer é pôr termo ao seu sofrimento.
Por outro lado, a eutanásia voluntária, tal como o suicídio, nunca será moralmente errada, ainda que, como qualquer outra escolha humana, possa resultar de um mau aconselhamento. Quando alguém deixou genuinamente de valorizar a vida e prefere a morte a continuar a existir então a decisão de pôr termo à sua vida não pode ser considerada moralmente errada, nem as pessoas que a ajudem a realizar essa acção deverão ser objecto de condenação moral. (…)
Sempre que o problema da eutanásia é debatido, ou sempre que surge como tema da ética em geral ou da ética médica em particular, a questão é sempre a de saber se a eutanásia voluntária é ou não justificável e se, por isso, deveria ou não ser permitida. Este é um problema pequeno e relativamente simples quando comparado com os problemas que o uso generalizado e desastroso da eutanásia não-voluntária coloca a muitas sociedades. O seu uso continuado e irrestrito poucas vezes é revisto ou criticado e, em muitas das suas aplicações, é perfeitamente legal. Por isso o problema moral respeitante à eutanásia que é urgente discutir não é o da eutanásia voluntária, que diz respeito a um pequeno número de pessoas e é claramente algo que a sociedade deveria permitir. O problema é o massivo número de casos de eutanásia não-voluntária que a sociedade já permite e pratica e que, de forma igualmente clara, deveria ilegalizar ou, nos poucos casos moralmente aceitáveis, regulamentar e supervisionar.
Há dois tipos de casos que requerem uma urgente reflexão. O primeiro diz respeito a um conjunto de práticas que se inserem na prestação de cuidados de saúde, onde se tomam decisões para encurtar vidas que poderiam continuar ou ser prolongadas, e onde os indivíduos em causa não são informados ou consultados. Regra geral estes casos não são referidos (ou talvez nem sequer pensados) como casos de eutanásia; os seres humanos têm o hábito de designar as suas acções sob a descrição mais agradável possível. Contudo, se esses casos forem examinados, eles todos partilham das características centrais da eutanásia. Três exemplos devem ser suficientes.
Já discutimos a prática comum do ‘tratamento selectivo’ onde bebés severamente deficientes não são alimentados nem as suas infecções são tratadas para que eles não sobrevivam. Isto pode, ou não, ser moralmente justificado – só as circunstâncias particulares de cada caso o dirão – mas não deixa de ser eutanásia.
A prática, nos hospitais, de recusar a reanimação a uma grande variedade de doentes que sofreram paragem cardíaca, ou outra qualquer crise, é conhecida e reconhecida como generalizada.
Nos casos em que os pacientes não são consultados sobre se quereriam ser ou não reanimados em caso de sofrerem uma crise, e não são reanimados quando seria possível fazê-lo ou pelo menos tentá-lo, então a sua morte é uma consequência dessa negação e faz parte do programa de eutanásia do hospital. De novo, tal programa pode ou não estar justificado; o que é perturbador é que não se reconheça a sua existência e que essas decisões sejam muito pouco escrutinadas.
Nos tratamentos dados a doentes terminais, em particular àqueles que sofrem de cancro ou de outras doenças extremamente dolorosas, pode chegar-se a um ponto em que a administração de drogas analgésicas apressa a morte. O sucesso no controlo da dor já só pode ser atingido à custa do encurtamento da vida. Nos casos em que o doente não é avisado de que o tratamento da dor apressará a sua morte estamos, também, perante casos de eutanásia não-voluntária. (…)"

(Tradução e adaptação de LFB a partir de Harris, J., The Value of life – An Introduction to Medical Ethics, Routledge, 1992, pp.7-9, 88-85)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Recebo a notícia de que a Porto Editora acaba de lançar:

Já li a edição inglesa. É bonzinho, leitura ligeira e recomendável a todos os descontentes com a educação.

Mas a verdade é que está tudo na conferência TED, 2006, que é excepcional. E a mensagem - que é mais visível no livro do que na conferência, embora nunca seja literalmente afirmada - é a de que se alguém quer encontrar o seu Elemento - a sua forma de ser feliz no mundo da realização pessoal e do trabalho - o melhor que tem a fazer é FUGIR DA ESCOLA e já.

Eis alguns sublinhados:

"A educação não precisa de ser reformada. precisa de ser transformada." (...)

"Em primeiro lugar, temos que eliminar a actual hierarquia de disciplinas.(...)
Em segundo, temos que questionar completamente a noção de "disciplina" (...) A ideia de disciplinas separadas que nada têm em comum entre si é uma ofensa ao princípio do dinamismo ["a inteligência é dinâmica"]
Em terceiro, o curriculum deverá ser personalizado." (...)

"Os grandes professores sempre souberam que o verdadeiro papel do professor não é ensinar matérias mas ensinar estudantes, orientar e treinar são os sinais vitais de um sistema educativo vivo."
(Ken Robinson, The Element - How Finding your passion Changes Everything, Viking, 2009, pp. 247-250. )

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

estados de espírito


"A criança mede o tempo de forma diferente; tem um relógio diferente, um calendário diferente. O seu dia é dividido em breves segundos e longos séculos. As crianças e os adultos perturbam-se mutuamente. Seria bom se as pessoas pudessem alternar entre ser grande e ser pequeno - como o verão e o inverno, o dia e a noite. Então as crianças e os adultos compreender-se-iam."
(Janusz Korcjak, When I Am Litlle Again, citado em Lifton, B., J., The King of Children - the Life and Death of Janusz Korczak, AAP, 1997, p.175)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Num texto lamentável publicado na revista do Diário insular do último fim-de-semana (3 de Outubro), Rogério Sousa (RS) profere afirmações inqualificáveis sobre vários aspectos educativos e até sobre si próprio, mas o que aqui quero deixar expresso é a resposta a um repto que RS faz aos leitores para apresentarem alguém "no uso da sua razão" que defenda que saber a tabuada de cor é fundamental para a aprendizagem. O próprio RS nunca soube, 'usa a calculadora e pronto'. E e só faltou acrescentar que se considera um génio.

Como o nosso país esta cheio de gente como RS, aqui fica a opinião de dois matemáticos especializados em questões pedagógicas que defendem que é importante saber a tabuada de cor e que a calculadora não deve substituir o cálculo mental:

"Nas últimas décadas, há um recurso crescente a calculadoras no ensino básico. Os danos que isto provoca são imensos. Conheço alunos do ensino secundário que a usam para calcular 3 vezes 15. (...) Qual é o mal disto? Os cálculos contêm princípios, e os princípios são assimilados apenas com a prática (...) Nenhum auxiliar constitui uma via régia para a matemática, muito menos a calculadora. Não há saltos na matemática. Uma criança que não aprendeu os cálculos básicos não pode avançar na matemática. Um desvio na matemática só pode levar a um lugar - à ignorância da matemática (...)"


(Ron Aharoni, A matemática para pais - Um livro para adultos sobre a matemática das crianças, Gradiva, 2008.)


"Ora esses automatismos, como saber a tabuada de cor, são hoje desvalorizados.
Infelizmente não temos nenhum estudo estatístico que nos permita saber o que se passa hoje nas escolas. Não sabemos em quantas se estuda ainda a tabuada e em quantas isso não acontece. O que sabemos é que as orientações do Ministério da Educação vão, em muitos desses domínios, no sentido completamente errado. O que temos de fazer para melhorar o ensino da matemática, e este documento fala muitas vezes nisso, é privilegiar as questões básicas em cada nível de escolaridade.
Partir do princípio de que, em matemática, se não se compreendem as bases, depois não se consegue evoluir.
Exactamente. O que é preciso estabelecer é que os alunos do 1.º ciclo têm de completá-lo sabendo somar e diminuir, multiplicar e dividir, sabendo trabalhar com fracções. Depois têm de começar a trabalhar na álgebra. O que este documento recomenda é que em cada momento se encerrem etapas e se passe à etapa seguinte. Exactamente o contrário de uma teoria conhecida pelo “ensino em espiral”, em que os conhecimentos básicos eram sempre revisitados porque não estariam consolidados.
O professor Castro Caldas tem um estudo em que mostra que as crianças que decoram a tabuada e aprendem automatismos numa fase precoce desenvolvem fisicamente certas partes do cérebro.
Muitos pensam que têm de fazer musculação para desenvolver os músculos, mas não necessitam de fazer exercícios mentais para desenvolver o cérebro…
Uma das conclusões desse estudo é exactamente que as capacidades do cérebro podem ser desenvolvidas. Pode-se decorar uma coisa sem importância nenhuma – os cem primeiros algarismos do número pi, por exemplo – que isso é bom. A dicotomia que se criou há uns 30 anos que considera um horror decorar a tabuada, ou as estações de comboio, e que o importante é apenas perceber, é uma dicotomia que tem sido muito prejudicial. O que é bom é decorar e compreender, e ambas se reforçam. Mais: às vezes é útil decorar alguns automatismos sem os perceber, só os vindo a entender mais tarde. Não é preciso que a criança saiba o que é a corrente eléctrica para nós lhe ensinarmos que não pode colocar os dedos na tomada. No ensino há muitas coisas assim.


(Nuno Crato, em entrevista ao jornal Público, Abril de 2008.)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem é que pintou as nuvens?

terça-feira, 27 de julho de 2010

Agradecimento

Enfim calquei o recentemente inaugurado Passeio Marítimo dos Biscoitos. Segundo Berto Messias (DI de 24/07/10), a dita freguesia vê assim "consideravelmente reforçada" a sua "vocação para o turismo e lazer".
Para alguém habituado a percorrer diariamente a zona, há agora a vantagem de ver a costa delineada por um magistral tapete vermelho. Mas o que mais me agrada é poder fazer quase todo o caminho em cima dos novos muros.

Quero, pois, agradecer ao Município pela possibilidade de um novo olhar, mais altivo e abrangente, sobre a paisagem dos Biscoitos.

(DO)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"Já se sabe: por uma linha razoável ou uma notícia correcta há léguas de insensatas cacofonias, de embrulhadas verbais e de incoerências." (p.70)


"A verdade é que vivemos a adiar tudo o que é adiável; talvez todos saibamos profundamente que somos imortais e que mais tarde ou mais cedo todo o homem será todas as coisas e saberá tudo." (p. 103)


in Borges, J. L. (2009). Ficções (tr. J. C. Barreiros). Lisboa: Teorema.

sábado, 24 de julho de 2010

João Lobo Antunes

[...]
- "De que é que gosta menos em Portugal?

- É muito mais fácil para mim falar daquilo de que gosto muito do que daquilo de que menos gosto. Vou responder-lhe em inglês: a certain lack of seriousness. E «seriousness» não é «seriedade». A certain lack of seriousness.

- Que palavra escolheria em português para traduzir seriousness?

- Circunspecção, respeito, consideração. Não só pelas pessoas mas também pelas ideias. Veja por exemplo como a educação é tão pouco respeitada enquanto pilar fundamental da construção - até moral - de um povo. A certain lack of seriousness." [...]

(Entrevista de Carlos Vaz Marques a João Lobo Antunes, Levista Ler, Julho/Agosto 2010, nº 93, p.24)

José Saramago

[...]
- Foi hoje anunciado o vencedor do prémio Nobel da Literatura.
- quem é que ganhou?
- Herta Müller
- Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
- Não, até hoje de manhã... Mas o seu próprio nome aparece constantemente como um potencial vencedor...
- Isso é um erro. O meu nome é falado na imprensa, mas não na Suécia. Isso é apenas falatório. [...]
- Conhece o trabalho de José Saramago?
- Não, não conheço."
(Entrevista de João Luz a Philip Roth, Jornal Expresso # 1929, 17 Outubro de 2009, revista Actual)
«»«»«»«»
[...]
"Podemos olhar para parte da obra de Saramago a partir de um ensaio de Sloterdijk sobre a aprendizagem na «cultura pânica», onde se fala do «ensino pela catástrofe» - essa ideia de que «somente o ensino prático do que é mau pode iniciar uma viragem para o que é melhor». A ideia é simples: os ouvidos e os olhos são meios frágeis de aprender, meios rudimentares, dir-se-ía. Só se aprende quando as coisas tremem e as catástrofes podem assim ser vistas como avisos, como algo mais forte que não tem outra forma de ensinar a não ser assustar-nos - e nesta categoria entrariam as calamidades naturais e outras; «quem não quer ouvir tem que sentir», escreve Sloterdijk, que realça nesse ensaio essa «aprendizagem com o pior no último minuto». Trata-se de uma «pedagogia pela catástrofe» em que se acredita que há «conexões imperativas entre a desgraça e o entendimento» e «energias didácticas e transformadoras da opinião que irradiam das tragédias»." [...]
(Gonçalo M. Tavares, revista Ler, Julho/Agosto 2010, nº93, p.49)
«»«»««»
[...]
- Como me disse que há escritores para quem o prémio se torna um farol...
- Ah, isso há. Agora mesmo, o Philip Roth está esperando o Nobel. Esse está claríssimo.
- Isso é claro, para si, também naquilo que ele tem escrito?
- Não é naquilo que ele escreve. É na postura.
- Seria um bom Nobel?
- Eu creio que sim. é um grande narrador. Um enorme narrador. Capaz de tornar fascinante qualquer descrição que faça. De uma situação de um lugar. É realmente muito bom. não me surpreenderia nada que fosse."
[...]
(Entrevista de de Carlos Vaz Marques, em Julho de 2008, a José Saramago, revista Ler, Julho/Agosto 2010, nº93, p.64)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vive alguém no pôr-do-sol?
Porque são os grandes todos professores?

quinta-feira, 8 de julho de 2010



"Mil árvores estão ao Céu subindo,

Com pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Dafne nos cabelos;

Encosta-se no chão, que está caindo

A cidreira co'os pesos amarelos;

Os fermosos limões ali, cheirando,

Estão virgíneas tetas imitando."



Camões, Os Lusíadas, Canto nono, 56, 1572 (ilustrações de lima de Freitas, Edição Círculo de Leitores, 1972).

sábado, 3 de julho de 2010

Estados de espírito


"Ninguém escolheria viver com uma mentalidade de criança ao longo de toda a existência, mesmo podendo gozar de forma extrema com prazeres infantis; nem ninguém escolheria gozar prazeres que implicassem fazer algo de extremamente vergonhoso, mesmo que não houvesse perspectiva de sofrer consequências desagradáveis. Para além disso, fazemos um caso sério de muitas coisas, mesmo que elas não nos tragam nenhum prazer, como é o caso de ver, lembrar, saber ou possuir as excelências. Não faz diferença alguma se há prazeres que acompanham necessariamente algumas daquelas operações, porque nós as escolheríamos para nós, mesmo que elas não nos dessem prazer nenhum."

(Aristóteles, Ética a Nicómaco, 1174a2-8)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Alto lá! Cesarianos.

Há dias, no Diário insular, Carlos Bessa publicou um excelente artigo de opinião onde denuncia a inanidade da última ideia de César e da sua equipa educativa: a criação de plano regional de leitura com obras escritas por autores regionais que receberiam dinheiro público para escreverem livros a incluir naquele plano. A ser verdade, a coisa é muito grave.

A AÇORIANITE - o vírus político e propagandístico de que tudo o que nos Açores se faz é muito bom desde que seja feito para e pelas "nossas gentes" (pode incluir continentais prestáveis e, sobretudo, que gostem muitos das ilhas) - atingiu o ponto de pandemia regional que só uma terapia universal à base de muito Huxley, Kafka e Orwell nos poderá salvar.

Já não bastavam as contradições de um curriculum regional com alterações subjectivas - quer dizer sem nenhuma razão aparente, sem estudo prévios, sem sequer uma bibliografia - da carga horária de algumas disciplinas e com a inclusão no programa da disciplina de Cidadania de uma coisa chamada “empreendedorismo”. Curriculum aprovado contra todos, mas não sem antes pedir parecer a todas as partes interessadas. É esta a pedagogia exemplar dos políticos da cidadania: parecer que se ouve é igual a ouvir.

Já não bastava a publicidade hilariante e enganosa - não fosse brincar com o dinheiro dos outros uma coisa séria - feita a objectos de qualidade duvidosa como, por exemplo, um hotel de cinco estrelas na Praia da Vitória com 50 % pago pelo governo regional - já está de pé! - e anunciado, na RTP Açores, pelo empresário como "um empreendimento" (aonde é que já ouvi este som?) "garantido, agora que a crise já está a passar" (isto em Março de 2010)! Exemplar Cidadania!

Já não bastava a nebulosa Academia da juventude (cinco milhões pagos pela Câmara da Praia da Vitória e um milhão pago pelo governo) que ainda ninguém percebeu para que vai servir. Não deveria ser ao contrário, primeiro saber o que é preciso e depois fazer? Já não bastava ter a televisão regional ao serviço de César e a RDP1 silenciada como parte do jogo de apagar da consciência açoriana a ideia de que existe uma coisa chamada Portugal e da qual nós somos parte. Já não bastava a opinião dos especialistas a indicar que a construção (de estradas, edifícios com nomes pomposos, marginais, portas do mar, et cetera) não implica desenvolvimento efectivo mas sim endividamento efectivo e prolongado de várias gerações. Teria sido útil, por exemplo, perguntar às pessoas do concelho da Praia da Vitória se queriam investir parte do seu futuro e dos seus filhos naquelas construções. Já não bastava sabermos que os Açores são a região mais pobre do país (50 mil pobres e 50 mil vulneráveis à pobreza).

Já não bastava a doutrinação silenciosa da qual emerge a JUVENTUDE CESARIANA apaziguada, obediente e acrítica (o contrário de uma juventude saudável) que, em conjunto com os seniores e sob a presidência de César, vai preenchendo o vazio dos cargos que vão proliferando. Essa juventude tem ideias, não tem é espírito aberto e vê mal ao longe. O que a move é a vontade de apagar o Mundo das cabeças das “nossas gentes” , já que na sua cabeça não há outro mundo que não o seu.

Agora, ao que parece, querem sobrepor ao plano nacional (com obras internacionais) um plano regional de leitura obrigatória (com obras regionais). Claro que tudo será feito à maneira do socialismo educado. Certamente algumas obras “de fora” serão incluídas como opção na nova lista e pedir-se-ão pareceres a todos os leitores da região. Tudo será conforme à lei; esta é a excelência do socialismo: se é legal é moral.

O silêncio impera e o pó acumular-se-á. Leitores é que continuarão a ser muito poucos. E talvez já venha sendo tempo de as pessoas de bom senso se juntarem para dizer, como Carlos Bessa: Alto Lá!
(LFB)

domingo, 27 de junho de 2010

Luxos sociais

"As Elliot Liebow (1993) writes, about services for the homeless, 'To enter the system is to enter a world of uncertainty, where one may be treated with exquisite compassion one day and contempt the next; a world of hurry-up-and-wait, of double-binds and contradictions, where arbitrary and differential treatment, and myriad rules and regulations, triumph over the very purposes of the system itself.'"

in Marris, P. (1996). The Politics of Uncertainty: attachment in private and public life. London: Routledge, p. 131.

terça-feira, 8 de junho de 2010

As cadeiras têm sangue?

Estados de espírito

"Na realidade, cobrir de erva toda a terra do mundo onde actualmente são cultivados cereais para alimentar ruminantes permitiria compensar, em larga medida, as emissões de combustível fóssil. Se, por exemplo, os 16 milhões de acres que agora produzem milho para alimentar vacas, nos EUA, fossem convertidos em pastagens bem geridas, isso bastaria para remover da atmosfera mais de 6 milhões de toneladas de carbono por ano, o equivalente a retirar 4 milhões de carros da estrada. Raramente pensamos no contributo da agricultura para o aquecimento global, mas um terço dos gases que o homem lançou para a atmosfera implicados no efeito de estufa podem ser atribuídos a esta actividade."

(Pollan, M., O Dilema do Omnívoro, (tr.), D. Quixote, 2009, p. 205)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Porque é que o Papa usa saias?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Entrevista de emprego

Numa altura em que, a par da crise e do desemprego, estão na moda os workshops de competências de empregabilidade (a procura activa de emprego ou o networking, por exemplo), há apenas um vídeo que não pode deixar de ser visto:

quarta-feira, 19 de maio de 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

Viktor E. Frankl

Certamente o mais optimista dos sobreviventes dos campos nazis. Neurologista, psicólogo, filósofo etc., criador da logoterapia ("a terceira escola vienense da psicoterapia" segundo a contracapa da sua autobiografia - Recollections), autor do famoso livro Man´s Search for Meaning (a 1ª edição alemã é de 1946, existe tradução portuguesa mas sem o capítulo sobre a logoterapia - Um Psicólogo no campo de Concentração Vega, 2005), aqui num pequeno filme de 1972, uma raridade sugerida pela TED.


domingo, 16 de maio de 2010

Estados de espírito

"Demais, quando os homens desejam o que é bom para aquelas pessoas que amam, por causa delas próprias, fazem-no não a partir de um sentimento mas de acordo com uma disposição. Ao amarem um amigo estão a amar o seu próprio bem. Pois quando um homem bom se torna amigo de outro, ele torna-se um bem para o seu amigo. Então cada um ama o seu próprio bem e restitui aquilo que recebe desejando o bem do outro e dando-lhe prazer. É por isso que se diz que a amizade é igualdade, sobretudo aquela que existe entre homens de bem."
(Aristóteles, Ética a Nicómaco, 1157b32-1158a2)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

Treinos num cubo de ar gigante

Sobre a questão da aceitação, ou não, da base aérea das Lajes como campo de treino para aviões de guerra americanos e para esclarecer o aproveitamento político que alguns têm feito da questão, dando a entender que se trata de uma imposição (mais uma!) dos americanos, vale a pena ler a entrevista à revista do DI (25 Abril 2010) do embaixador dos EUA em Lisboa , David Ballard, e reter a seguinte passagem que é bem esclarecedora sobre quem está na origem do problema e sobre quem terá alguma coisa a dizer:

"Quanto à área de treino - que foi uma proposta portuguesa que os Estados Unidos aceitaram, estamos a cooperar com a Força Aérea portuguesa e com o Ministério da Defesa para encontrar a melhor maneira de concretizar esse projecto." (destaque meu)

(LFB)
Existem coelhos marinhos?

domingo, 25 de abril de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

Estados de espírito


"Quanto mais dissimulados, mais injustos são os homens."

(Aristóteles, Ética a Nicómaco, livro VII 1149b 13)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fotossíntese & Direitos


Os cientistas, para além de iluminados, são seres fotossintéticos.
Portugal é um país soalheiro.
Logo, os direitos dessa gente estão naturalmente assegurados.


http://www.publico.pt/Política/parlamento-rejeita-actualizacao-extraordinaria-das-bolsas-de-investigacao_1431389


(D.O.)

domingo, 21 de março de 2010

Excerto de entrevista a Alexandre Quintanilha

"
Alimentos transgénicos são outro tema do dia...


Todos os alimentos são transgénicos. Não há praticamente nada do que nós comemos hoje em dia que não tenha sido manipulado das formas mais ao acaso. Os vegetais ou carne que nós consumimos foram "melhorados". Não há praticamente animais que não sejam transgénicos. Um purista diria: "Não! Não! Transgénico aplica-se a uma coisa muito específica, a pôr lá um gene". Seria um absurdo dizer que não há risco na produção de plantas ou animais "melhorados" ou transgénicos. Não há nada que não tenha risco. Ele existe mesmo quando se atravessa uma rua para ir tomar um café. A questão é saber quais os riscos que estamos dispostos a aceitar e se há a possibilidade de alguns escolherem esses riscos ou não. Nós não devemos impedir que a informação chegue às pessoas e que elas decidam depois e que tomem os riscos que quiserem. Os riscos devem ser diminuídos mas há quem diga que a grande reacção dos europeus face aos transgénicos se deve ao facto de eles se terem atrasado em relação aos americanos que estão a proteger os seus mercados interiores até desenvolverem os seus próprios transgénicos. É claro que a crítica que os transgénicos foram feitos para darem mais dinheiro às grandes firmas também é verdade. Não se preocuparam em melhorar a qualidade nutricional dos alimentos. Fizeram-se coisas gravíssimas como plantas com genes suicidas que impediam os agricultores de usar as suas sementes e os obrigava a comprar sementes à mesma firma. Isso foi escandaloso. Allgumas empresas funcionam de forma não muito correcta.

Quer dar exemplos?

Não nos esqueçamos de que muito do melhoramento foi feito através da radioactividade, as plantas eram postas ao pé de fontes radioactivas para o número de cromossomas duplicar. Em muitos casos a manipulação genética foi feita à brutamontes. Mas também se fizeram críticas do género "agora metem-se genes dos peixes nas plantas, que coisa horrível" como se os genes tivessem rótulos. O gene é um grupo de moléculas e muitos deles são iguais nos homens, nos peixes, nas plantas. A grande descoberta do genoma foi essa: somos muito parecidos. (...)
"

Alexandre Quintanilha, excerto de entrevista retirado de Massada, Jorge, (org.) Vale a Pena ser Cientista? Campo das letras, 2002, pp.42-43.

terça-feira, 16 de março de 2010

domingo, 14 de março de 2010

Estados de espírito

"... é dificil em algumas circunstâncias decidir que opção se deve tomar e qual a que se deve preterir, tal como difícil é decidir o que tem de se suportar em vista do quê. Mas mais difícil ainda é mantermo-nos fiéis às decisões tomadas. Pois, na verdade, acontece o mais das vezes que o que se pode esperar é duvidoso e o que se é obrigado a fazer é vergonhoso."

(Aristóteles, Ética a Nicómaco, (tr. A.C.C.), Quetzal, 2009, p.66-1110a29-35)

domingo, 7 de março de 2010

O JOGO DA CONSPIRAÇÃO

Um amigo meu, depois de ler a entrevista a Wolfgang Wodarg, presidente da Comissão de Saúde do Conselho da Europa, que denuncia a conspiração da gripe A, diz-me não ter caído na conspiração do Iraque, mas agora vacinou-se, e questiona se a partir de agora só haverá lucro com conspirações?
O que se segue é a minha resposta.
O Iraque foi uma conspiração da mesma maneira que a vacina contra a gripe A o é.
Eis algumas regras comuns às teorias da conspiração:
1) nunca estamos na posse de toda a informação relevante nem sabemos bem onde encontrá-la;
2) temos pessoas intelectualmente credíveis do lado da conspiração e do lado da desinformação (há um outro lado quem é o da realidade e tem sempre a ver com vidas e mortes mas que também podem resultar de outras conspirações: no caso da gripe os milhões de mortos da gripe de 1918 e o medo de que qualquer coisa de análogo se repita e nos apanhe; no caso do Iraque, as centenas de milhares de pessoas gaseadas e os milhões de oprimidos e o medo de que qualquer coisa análoga se repita e nos apanhe);
3) a ciência, a política e a ética misturadas e abusadas ao ponto de perderem qualquer credibilidade;
4) a lógica infinita das conspirações: o denunciador da conspiração - no caso o entrevistado - pode ser ele próprio um conspirador e assim sucessivamente;
5) o jeito que as conspirações dão a qualquer um dos lados - os maus tornam-se bons (o vírus e o regime totalitário de Saddam); e os bons tornam-se maus (o combate ao vírus e o combate aos totalitarismos);
6) o inimigo é sempre invisível e ligado à ganância e ao aproveitamento das desgraças dos outros (as companhias farmacêuticas e os interesses ligados com o petróleo e com as guerras);
7) a democracia e a liberdade tornam-se uma ilusão (a OMS e a América tornam-se uma conspiração risível);
8) a implicação assustadora de que todas as nossas referências têm um carácter ilusório e enganador;
9) a Evidência (conspirativa?) de que somos levados pela corrente da verdade contra a falsidade.

Outras conspirações em construção sob a mesma lógica (sugere-se, como jogo, que tome uma posição, siga as regras apresentadas e retire as suas conclusões):
- o aquecimento global afinal é uma conspiração pseudo-científica (um caso curioso de cientistas contra cientistas);
- a crise económica mundial e nacional afinal é uma conspiração (a direita contra a esquerda, por exemplo);
- a fome no mundo afinal é uma conspiração (a desgraça dos outros contra os engraçados);
- a falta de qualidade dos alimentos processados é uma conspiração; (os grandes produtores de alimentos contra os grandes produtores de alimentos)
- eu próprio sou uma conspiração (eu contra mim).

(LFB)

Especialistas Apressados

É impressionante a prontidão com que certos "especialistas" acodem à televisão quando esta se vê aflita para descascar a batata quente que tem em mãos! Um belo exemplo foi o comentário do "psicólogo forense" Carlos Poiares* no Telejornal de hoje (RTP1), onde traçou o perfil psicológico do "violador de Telheiras". Qualquer coisa como: "é um indivíduo anti-social, provavelmente com desvios psicopáticos". O mais grave nem sequer é a banalidade do comentário (imagino a cara de pasmo do espectador: "não é que o violador é anti-social?!"), mas antes o descrédito a que vota a psicologia. Então não é que agora se elaboram perfis psicológicos sem que se cumpra o mais elementar passo desse processo, a avaliação psicológica do sujeito?

*Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e Doutorado em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tema de tese: Análise psicocriminal das drogas: o discurso do legislador.

(DO)

sábado, 6 de março de 2010

"A diversidade dos campos que a prática nos força a distinguir não impede o reconhecimento das suas sobreposições. A diversidade de métodos não compromete em nada o rigor científico. Pelo contrário, é a sua garantia: os problemas não são criados para os métodos mas sim os métodos para os problemas.
A procura da verdade não seria capaz de chegar, em todos os domínios, à mesma espécie de rigor e de exactidão."


Lagache, D. (1978). A Unidade da Psicologia. São Paulo: Edições 70. p. 21.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"
Secretária: Senhor Doutor, está um homem invisível na sala de espera.
Doutor: diga-lhe que eu não o posso ver.


Pode ter achado que esta anedota não contribuiu nada para explicar a distinção kantiana entre fenómeno e númeno, mas isso é porque há algo na tradução do alemão que se perdeu. Aqui vai a anedota tal e qual como nós a ouvimos num café na Universidade de Konigsberg:


Secretária: Herr Doctor está um ding an sich [coisa-em-si/númeno] na sala de espera.
Urologista: Outro ding an sich! Se eu vejo mais algum hoje, passo-me. Quem é?
Secretária: Como é que eu posso saber?
Urologista: Descreva-o.
Secretária: deve estar a brincar!
"

Cathcart T., & Klein, D., Plato and Platibus walk into a Bar - understanding Philosophy through jokes, Penguin,2007, p.64.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Foer, S., J., Eating Animals



(Clique no título para aceder ao site promocional do livro)

Especialmente para aqueles que não querem perceber a ligação entre uma alimentação carnívora, o sofrimentos dos animais e as questões ambientais aqui vai, em jeito de bom ano novo, uma citação de um excelente livro acabadinho de sair:

"Os omnívoros contribuem sete vezes mais para o volume dos gases com efeito de estufa do que os vegetarianos.
"As NU resumem, do seguinte modo, os efeitos da industria de carnes: a criação de animais para alimentação (quer seja em fábricas de carne ou nas tradicionais quintas) «é uma das principais causas dos problemas ambientais mais preocupantes, e isto em qualquer escala, quer local quer global... Quando se trata de lidar com problemas como a degradação do solo, as alterações climáticas e a poluição do ar, a falta de água e a sua poluição, a perca de biodiversidade [a agricultura animal] deveria ser uma preocupação política. A contribuição da criação de gado para os problemas ambientais é gigantesca». Por outras palavras, se nos preocupamos com o ambiente, e se aceitamos os resultados científicos apresentados por fontes credenciadas, então devemos reflectir sobre a alimentação carnívora.
Dito de forma muito simples: alguém que come regularmente produtos vindos da industria de criação de animais não pode intitular-se ambientalista sem, com isso, divorciar a palavra do seu significado."

(FOER, Jonathan Safran, Eating Animals, Little, Brown and company, 2009, pp.58-59. tr. LFB)