sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Recebo a notícia de que a Porto Editora acaba de lançar:

Já li a edição inglesa. É bonzinho, leitura ligeira e recomendável a todos os descontentes com a educação.

Mas a verdade é que está tudo na conferência TED, 2006, que é excepcional. E a mensagem - que é mais visível no livro do que na conferência, embora nunca seja literalmente afirmada - é a de que se alguém quer encontrar o seu Elemento - a sua forma de ser feliz no mundo da realização pessoal e do trabalho - o melhor que tem a fazer é FUGIR DA ESCOLA e já.

Eis alguns sublinhados:

"A educação não precisa de ser reformada. precisa de ser transformada." (...)

"Em primeiro lugar, temos que eliminar a actual hierarquia de disciplinas.(...)
Em segundo, temos que questionar completamente a noção de "disciplina" (...) A ideia de disciplinas separadas que nada têm em comum entre si é uma ofensa ao princípio do dinamismo ["a inteligência é dinâmica"]
Em terceiro, o curriculum deverá ser personalizado." (...)

"Os grandes professores sempre souberam que o verdadeiro papel do professor não é ensinar matérias mas ensinar estudantes, orientar e treinar são os sinais vitais de um sistema educativo vivo."
(Ken Robinson, The Element - How Finding your passion Changes Everything, Viking, 2009, pp. 247-250. )

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

estados de espírito


"A criança mede o tempo de forma diferente; tem um relógio diferente, um calendário diferente. O seu dia é dividido em breves segundos e longos séculos. As crianças e os adultos perturbam-se mutuamente. Seria bom se as pessoas pudessem alternar entre ser grande e ser pequeno - como o verão e o inverno, o dia e a noite. Então as crianças e os adultos compreender-se-iam."
(Janusz Korcjak, When I Am Litlle Again, citado em Lifton, B., J., The King of Children - the Life and Death of Janusz Korczak, AAP, 1997, p.175)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Num texto lamentável publicado na revista do Diário insular do último fim-de-semana (3 de Outubro), Rogério Sousa (RS) profere afirmações inqualificáveis sobre vários aspectos educativos e até sobre si próprio, mas o que aqui quero deixar expresso é a resposta a um repto que RS faz aos leitores para apresentarem alguém "no uso da sua razão" que defenda que saber a tabuada de cor é fundamental para a aprendizagem. O próprio RS nunca soube, 'usa a calculadora e pronto'. E e só faltou acrescentar que se considera um génio.

Como o nosso país esta cheio de gente como RS, aqui fica a opinião de dois matemáticos especializados em questões pedagógicas que defendem que é importante saber a tabuada de cor e que a calculadora não deve substituir o cálculo mental:

"Nas últimas décadas, há um recurso crescente a calculadoras no ensino básico. Os danos que isto provoca são imensos. Conheço alunos do ensino secundário que a usam para calcular 3 vezes 15. (...) Qual é o mal disto? Os cálculos contêm princípios, e os princípios são assimilados apenas com a prática (...) Nenhum auxiliar constitui uma via régia para a matemática, muito menos a calculadora. Não há saltos na matemática. Uma criança que não aprendeu os cálculos básicos não pode avançar na matemática. Um desvio na matemática só pode levar a um lugar - à ignorância da matemática (...)"


(Ron Aharoni, A matemática para pais - Um livro para adultos sobre a matemática das crianças, Gradiva, 2008.)


"Ora esses automatismos, como saber a tabuada de cor, são hoje desvalorizados.
Infelizmente não temos nenhum estudo estatístico que nos permita saber o que se passa hoje nas escolas. Não sabemos em quantas se estuda ainda a tabuada e em quantas isso não acontece. O que sabemos é que as orientações do Ministério da Educação vão, em muitos desses domínios, no sentido completamente errado. O que temos de fazer para melhorar o ensino da matemática, e este documento fala muitas vezes nisso, é privilegiar as questões básicas em cada nível de escolaridade.
Partir do princípio de que, em matemática, se não se compreendem as bases, depois não se consegue evoluir.
Exactamente. O que é preciso estabelecer é que os alunos do 1.º ciclo têm de completá-lo sabendo somar e diminuir, multiplicar e dividir, sabendo trabalhar com fracções. Depois têm de começar a trabalhar na álgebra. O que este documento recomenda é que em cada momento se encerrem etapas e se passe à etapa seguinte. Exactamente o contrário de uma teoria conhecida pelo “ensino em espiral”, em que os conhecimentos básicos eram sempre revisitados porque não estariam consolidados.
O professor Castro Caldas tem um estudo em que mostra que as crianças que decoram a tabuada e aprendem automatismos numa fase precoce desenvolvem fisicamente certas partes do cérebro.
Muitos pensam que têm de fazer musculação para desenvolver os músculos, mas não necessitam de fazer exercícios mentais para desenvolver o cérebro…
Uma das conclusões desse estudo é exactamente que as capacidades do cérebro podem ser desenvolvidas. Pode-se decorar uma coisa sem importância nenhuma – os cem primeiros algarismos do número pi, por exemplo – que isso é bom. A dicotomia que se criou há uns 30 anos que considera um horror decorar a tabuada, ou as estações de comboio, e que o importante é apenas perceber, é uma dicotomia que tem sido muito prejudicial. O que é bom é decorar e compreender, e ambas se reforçam. Mais: às vezes é útil decorar alguns automatismos sem os perceber, só os vindo a entender mais tarde. Não é preciso que a criança saiba o que é a corrente eléctrica para nós lhe ensinarmos que não pode colocar os dedos na tomada. No ensino há muitas coisas assim.


(Nuno Crato, em entrevista ao jornal Público, Abril de 2008.)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem é que pintou as nuvens?

terça-feira, 27 de julho de 2010

Agradecimento

Enfim calquei o recentemente inaugurado Passeio Marítimo dos Biscoitos. Segundo Berto Messias (DI de 24/07/10), a dita freguesia vê assim "consideravelmente reforçada" a sua "vocação para o turismo e lazer".
Para alguém habituado a percorrer diariamente a zona, há agora a vantagem de ver a costa delineada por um magistral tapete vermelho. Mas o que mais me agrada é poder fazer quase todo o caminho em cima dos novos muros.

Quero, pois, agradecer ao Município pela possibilidade de um novo olhar, mais altivo e abrangente, sobre a paisagem dos Biscoitos.

(DO)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"Já se sabe: por uma linha razoável ou uma notícia correcta há léguas de insensatas cacofonias, de embrulhadas verbais e de incoerências." (p.70)


"A verdade é que vivemos a adiar tudo o que é adiável; talvez todos saibamos profundamente que somos imortais e que mais tarde ou mais cedo todo o homem será todas as coisas e saberá tudo." (p. 103)


in Borges, J. L. (2009). Ficções (tr. J. C. Barreiros). Lisboa: Teorema.

sábado, 24 de julho de 2010

João Lobo Antunes

[...]
- "De que é que gosta menos em Portugal?

- É muito mais fácil para mim falar daquilo de que gosto muito do que daquilo de que menos gosto. Vou responder-lhe em inglês: a certain lack of seriousness. E «seriousness» não é «seriedade». A certain lack of seriousness.

- Que palavra escolheria em português para traduzir seriousness?

- Circunspecção, respeito, consideração. Não só pelas pessoas mas também pelas ideias. Veja por exemplo como a educação é tão pouco respeitada enquanto pilar fundamental da construção - até moral - de um povo. A certain lack of seriousness." [...]

(Entrevista de Carlos Vaz Marques a João Lobo Antunes, Levista Ler, Julho/Agosto 2010, nº 93, p.24)

José Saramago

[...]
- Foi hoje anunciado o vencedor do prémio Nobel da Literatura.
- quem é que ganhou?
- Herta Müller
- Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
- Não, até hoje de manhã... Mas o seu próprio nome aparece constantemente como um potencial vencedor...
- Isso é um erro. O meu nome é falado na imprensa, mas não na Suécia. Isso é apenas falatório. [...]
- Conhece o trabalho de José Saramago?
- Não, não conheço."
(Entrevista de João Luz a Philip Roth, Jornal Expresso # 1929, 17 Outubro de 2009, revista Actual)
«»«»«»«»
[...]
"Podemos olhar para parte da obra de Saramago a partir de um ensaio de Sloterdijk sobre a aprendizagem na «cultura pânica», onde se fala do «ensino pela catástrofe» - essa ideia de que «somente o ensino prático do que é mau pode iniciar uma viragem para o que é melhor». A ideia é simples: os ouvidos e os olhos são meios frágeis de aprender, meios rudimentares, dir-se-ía. Só se aprende quando as coisas tremem e as catástrofes podem assim ser vistas como avisos, como algo mais forte que não tem outra forma de ensinar a não ser assustar-nos - e nesta categoria entrariam as calamidades naturais e outras; «quem não quer ouvir tem que sentir», escreve Sloterdijk, que realça nesse ensaio essa «aprendizagem com o pior no último minuto». Trata-se de uma «pedagogia pela catástrofe» em que se acredita que há «conexões imperativas entre a desgraça e o entendimento» e «energias didácticas e transformadoras da opinião que irradiam das tragédias»." [...]
(Gonçalo M. Tavares, revista Ler, Julho/Agosto 2010, nº93, p.49)
«»«»««»
[...]
- Como me disse que há escritores para quem o prémio se torna um farol...
- Ah, isso há. Agora mesmo, o Philip Roth está esperando o Nobel. Esse está claríssimo.
- Isso é claro, para si, também naquilo que ele tem escrito?
- Não é naquilo que ele escreve. É na postura.
- Seria um bom Nobel?
- Eu creio que sim. é um grande narrador. Um enorme narrador. Capaz de tornar fascinante qualquer descrição que faça. De uma situação de um lugar. É realmente muito bom. não me surpreenderia nada que fosse."
[...]
(Entrevista de de Carlos Vaz Marques, em Julho de 2008, a José Saramago, revista Ler, Julho/Agosto 2010, nº93, p.64)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vive alguém no pôr-do-sol?
Porque são os grandes todos professores?

quinta-feira, 8 de julho de 2010



"Mil árvores estão ao Céu subindo,

Com pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Dafne nos cabelos;

Encosta-se no chão, que está caindo

A cidreira co'os pesos amarelos;

Os fermosos limões ali, cheirando,

Estão virgíneas tetas imitando."



Camões, Os Lusíadas, Canto nono, 56, 1572 (ilustrações de lima de Freitas, Edição Círculo de Leitores, 1972).

sábado, 3 de julho de 2010

Estados de espírito


"Ninguém escolheria viver com uma mentalidade de criança ao longo de toda a existência, mesmo podendo gozar de forma extrema com prazeres infantis; nem ninguém escolheria gozar prazeres que implicassem fazer algo de extremamente vergonhoso, mesmo que não houvesse perspectiva de sofrer consequências desagradáveis. Para além disso, fazemos um caso sério de muitas coisas, mesmo que elas não nos tragam nenhum prazer, como é o caso de ver, lembrar, saber ou possuir as excelências. Não faz diferença alguma se há prazeres que acompanham necessariamente algumas daquelas operações, porque nós as escolheríamos para nós, mesmo que elas não nos dessem prazer nenhum."

(Aristóteles, Ética a Nicómaco, 1174a2-8)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Alto lá! Cesarianos.

Há dias, no Diário insular, Carlos Bessa publicou um excelente artigo de opinião onde denuncia a inanidade da última ideia de César e da sua equipa educativa: a criação de plano regional de leitura com obras escritas por autores regionais que receberiam dinheiro público para escreverem livros a incluir naquele plano. A ser verdade, a coisa é muito grave.

A AÇORIANITE - o vírus político e propagandístico de que tudo o que nos Açores se faz é muito bom desde que seja feito para e pelas "nossas gentes" (pode incluir continentais prestáveis e, sobretudo, que gostem muitos das ilhas) - atingiu o ponto de pandemia regional que só uma terapia universal à base de muito Huxley, Kafka e Orwell nos poderá salvar.

Já não bastavam as contradições de um curriculum regional com alterações subjectivas - quer dizer sem nenhuma razão aparente, sem estudo prévios, sem sequer uma bibliografia - da carga horária de algumas disciplinas e com a inclusão no programa da disciplina de Cidadania de uma coisa chamada “empreendedorismo”. Curriculum aprovado contra todos, mas não sem antes pedir parecer a todas as partes interessadas. É esta a pedagogia exemplar dos políticos da cidadania: parecer que se ouve é igual a ouvir.

Já não bastava a publicidade hilariante e enganosa - não fosse brincar com o dinheiro dos outros uma coisa séria - feita a objectos de qualidade duvidosa como, por exemplo, um hotel de cinco estrelas na Praia da Vitória com 50 % pago pelo governo regional - já está de pé! - e anunciado, na RTP Açores, pelo empresário como "um empreendimento" (aonde é que já ouvi este som?) "garantido, agora que a crise já está a passar" (isto em Março de 2010)! Exemplar Cidadania!

Já não bastava a nebulosa Academia da juventude (cinco milhões pagos pela Câmara da Praia da Vitória e um milhão pago pelo governo) que ainda ninguém percebeu para que vai servir. Não deveria ser ao contrário, primeiro saber o que é preciso e depois fazer? Já não bastava ter a televisão regional ao serviço de César e a RDP1 silenciada como parte do jogo de apagar da consciência açoriana a ideia de que existe uma coisa chamada Portugal e da qual nós somos parte. Já não bastava a opinião dos especialistas a indicar que a construção (de estradas, edifícios com nomes pomposos, marginais, portas do mar, et cetera) não implica desenvolvimento efectivo mas sim endividamento efectivo e prolongado de várias gerações. Teria sido útil, por exemplo, perguntar às pessoas do concelho da Praia da Vitória se queriam investir parte do seu futuro e dos seus filhos naquelas construções. Já não bastava sabermos que os Açores são a região mais pobre do país (50 mil pobres e 50 mil vulneráveis à pobreza).

Já não bastava a doutrinação silenciosa da qual emerge a JUVENTUDE CESARIANA apaziguada, obediente e acrítica (o contrário de uma juventude saudável) que, em conjunto com os seniores e sob a presidência de César, vai preenchendo o vazio dos cargos que vão proliferando. Essa juventude tem ideias, não tem é espírito aberto e vê mal ao longe. O que a move é a vontade de apagar o Mundo das cabeças das “nossas gentes” , já que na sua cabeça não há outro mundo que não o seu.

Agora, ao que parece, querem sobrepor ao plano nacional (com obras internacionais) um plano regional de leitura obrigatória (com obras regionais). Claro que tudo será feito à maneira do socialismo educado. Certamente algumas obras “de fora” serão incluídas como opção na nova lista e pedir-se-ão pareceres a todos os leitores da região. Tudo será conforme à lei; esta é a excelência do socialismo: se é legal é moral.

O silêncio impera e o pó acumular-se-á. Leitores é que continuarão a ser muito poucos. E talvez já venha sendo tempo de as pessoas de bom senso se juntarem para dizer, como Carlos Bessa: Alto Lá!
(LFB)

domingo, 27 de junho de 2010

Luxos sociais

"As Elliot Liebow (1993) writes, about services for the homeless, 'To enter the system is to enter a world of uncertainty, where one may be treated with exquisite compassion one day and contempt the next; a world of hurry-up-and-wait, of double-binds and contradictions, where arbitrary and differential treatment, and myriad rules and regulations, triumph over the very purposes of the system itself.'"

in Marris, P. (1996). The Politics of Uncertainty: attachment in private and public life. London: Routledge, p. 131.

terça-feira, 8 de junho de 2010

As cadeiras têm sangue?

Estados de espírito

"Na realidade, cobrir de erva toda a terra do mundo onde actualmente são cultivados cereais para alimentar ruminantes permitiria compensar, em larga medida, as emissões de combustível fóssil. Se, por exemplo, os 16 milhões de acres que agora produzem milho para alimentar vacas, nos EUA, fossem convertidos em pastagens bem geridas, isso bastaria para remover da atmosfera mais de 6 milhões de toneladas de carbono por ano, o equivalente a retirar 4 milhões de carros da estrada. Raramente pensamos no contributo da agricultura para o aquecimento global, mas um terço dos gases que o homem lançou para a atmosfera implicados no efeito de estufa podem ser atribuídos a esta actividade."

(Pollan, M., O Dilema do Omnívoro, (tr.), D. Quixote, 2009, p. 205)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Porque é que o Papa usa saias?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Entrevista de emprego

Numa altura em que, a par da crise e do desemprego, estão na moda os workshops de competências de empregabilidade (a procura activa de emprego ou o networking, por exemplo), há apenas um vídeo que não pode deixar de ser visto: